Mostrando postagens com marcador mulher. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mulher. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A Dança do Ventre vs O Mercado

No final do ano passado o mundo da dança do ventre foi novamente sacudido por conta de um vídeo da Esmeralda, onde ela diz com todas as letrinhas que para você trabalhar no mercado de dança do ventre não pode ser/estar gorda. Veja o vídeo aqui.

O Facebook virou quase praça de guerra por causa disso, com diversas pessoas concordando e discordando da nossa pedra preciosa. Pois nossa querida Esmeralda resolveu realmente cutucar onça com vara curta.

Vejamos, Esmeralda foi muito assertiva com a sua colocação, e com relação ao atual Mercado de dança do ventre, ela, infelizmente, está certa. Sejamos realistas, de todas as profissionais famosas (veja bem, além de profissional, aqui estamos falando de FAMA, porque é isso que o mercado define, certo?) quantas são gordinhas? E isso não tem absolutamente nada a ver com a qualidade das nossas maravilhosas profissionais fora do padrão. Todas já estamos cansadas de saber e de ver como a qualidade de uma bailarina de dança do ventre não tem nada a ver com o formato do corpo. Inclusive, nós professoras gostamos de falar sobre como a nossa dança é democrática, não é?

Antes de julgar o Mercado da dança, vamos entender uma coisa: estamos falando de Mercado, não de Arte. (o pessoal do Sala de Dança tratou desse assunto lindamente aqui). E além disso, estamos falando de um Mercado inserido num mundo mais amplo, numa cultura mais ampla. Para entender o mercado da dança do ventre, é preciso entender que ele nada mais é que um espelho de um mercado maior. E nesse mercado maior, o que se espera que seja uma mulher?

Vamos fazer a lista do que se espera que as mulheres sejam no nosso mundo atual: magras, gostosas, lindas, cheirosas, em forma, arrumadas, elegantes, sensuais (mas não muito, hein?), delicadas, amorosas, passivas... ufa! A lista não termina nunca, e é impossível de seguir à risca. Quer ter uma ideia do que se espera que seja uma mulher perfeita? Passe numa banca de jornal e olhe as capas das revistas. Sério, faça esse exercício e veja como o nosso mercado de dança é igualzinho: cheio de brancas, magras, de cabelão.

pequena amostra de capas de revistas nacionais, mas se você procurar no mundo inteiro vai ser muito parecido
E aí, percebemos que o problema não é da dança do ventre, nem do mercado específico da nossa amada dança. O problema é crônico e sistêmico na nossa sociedade. Tanto no Brasil quanto no exterior.

E chegamos ao ponto mais interessante desse assunto: como mudar isso? Porque não adianta fingir que o elefante não está na sala, que ele não vai sumir por pura mágica. As bailarinas de sucesso não vão passar a ser um exemplo de diversidade porque isso é o sonho de ninguém. (infelizmente, seria lindo se as coisas fossem simples assim)

Que tal começarmos a mudança em nós mesmas??? Primeira coisa e a mais importante de todas: parem de criticar as outras por causa da aparência. Quem nunca foi num show/festival e ouviu alguém fazendo comentários maldosos sobre o peso da bailarina em cena?

"Ela até que dança bem, pena que é gordinha/velha/magra demais/rótulo da vez."
(ai gente, desculpa, mas isso dói na alma, e olha que preconceito disfarçado de elogio é a coisa mais comum do mundo)

"Nossa, admiro a coragem dela de dançar mesmo assim em público."
(se ganhasse um real toda vez que eu ouvi essa frase eu estaria rica)

Gente, acorda, é aí que a coisa começa! Não julguem as outras pela sua aparência, seu peso, seu cabelo, sua cor de pele. Não é construtivo para ninguém. E isso é válido fora do meio da dança também, ok? (sabe aquela coisa de apontar os outros na rua? é falta de educação, tá? mesmo que seja em voz baixa)

Segunda coisa: PRESTIGIEM as bailarinas que vocês gostam independentemente de quão dentro ou fora do padrão elas sejam: gordinhas, baixinhas, negras (brasileiro é mestre em dizer que não é racista, mas, falando sério, quantas bailarinas negras aparecem como destaque por aí?), de cabelos alternativos, tatuadas, da terceira idade, do sexo masculino... porque a ARTE não tem fronteiras. Para mudar o mercado, precisamos de mais gente querendo ver coisas DIFERENTES!

Terceira coisa: para aquelas que organizam shows/festivais, por favor, escolham as participantes dos seus eventos pelo seu mérito, não pela "beleza" que vão trazer para o seu banner, ou porque você está trocando favor com alguém. Vamos fazer mais eventos alternativos? Para mudar o mercado, precisamos provar que o que não está sendo mostrado no mercado também faz sucesso, nem para isso a gente crie o nosso próprio mercado :-)

Então vamos à prova cabal de que a dança é para todxs???? (desmentindo a parte da fala da Esmeralda sobre a necessidade de um tipo de corpo para a dança aparecer?)

Começando com uma grande mestra do Rio de Janeiro: Samra Sanches!!!



Passando pela hours-concours Natalia Trigo, também do Rio:



Não podemos esquecer a campeã do Mercado Persa, Joelma Brasil:



A maga dos quadris Dunia La Luna, de São Paulo:



Temos a fabulosa Najla El Hazine, professora de São Paulo, que me faz quase chorar quando a vejo dançar:



Temos também a Tahya Brasileye:



A fofíssima Mayara Rajal, do Rio:



Também do Rio, a estudiosa Lu Ain-Zaila:



E mais uma do Rio, arrasando ao vivo com músicos egípcios, Eliza Fari:



As terras cariocas estão cheias de talento... Smirna prova que maturidade é importante!



Entre as estrangeiras, temos a diva Caroline Labrie:



Então, gente, vamos deixar os nossos preconceitos em 2013 e começar 2014 com novas ideias e concepções?

PS: Em tempo, quem quiser argumentar que no Egito é diferente, pense nos padrões de beleza que eles valorizam, e para ouvir uma boa descrição de onde veio esse padrão (abrangendo inclusive a questão do racismo que muito brasileiro gosta de fingir que não existe aqui), veja esse podcast aqui.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia da Mulher

E chegamos a mais um dia da mulher...

Fui reler o meu post do ano passado nesse dia, e fiquei muito triste ao descobrir que ele ainda é muito válido hoje, um ano depois. Se ele fosse verdadeiro apenas com relação à sociedade e à comunidade da dança do ventre (porque sei que essas coisas não mudam em um ano), eu já estaria satisfeita. Mas, acho que não consegui introduzir aqui no Ventre da Dança tudo o que eu queria naquele último dia 8 de março.

Espero ter mudado pelo menos um pouco o tom dos meus textos, e fico satisfeita que o assunto não tenha morrido, especialmente por conta das traduções que fiz desde então do Kisses from Kairo que tratavam do assunto mulher e violência, que é uma das razões de existir do dia de hoje (a outra consiste na concessão de direitos iguais aos do homem). Mas eu teria ficado mais feliz se eu tivesse conseguido escrever mais sobre o tema, o que eu sei que consegui fazer no meu outro blog (sobre livros).

Então, eu queria aproveitar esse dia para trazer para vocês um filme/livro que eu adoro trabalhar com as minhas alunas: Os Monólogos da Vagina.

Quem estuda comigo há muitos anos já deve ter visto o filme pelo menos duas vezes em aula, e eu não me canso de utilizá-lo e reutilizá-lo, porque as histórias são tão ricas e variadas, que a cada vez que se assiste temos uma nova percepção sobre algum assunto. Esqueçam a peça que foi apresentada há alguns (muitos) anos no Brasil, porque aquilo era apenas uma sombra do texto original, e focava na parte cômica e deixava completamente de lado a discussão séria (não por isso menos engraçada). Talvez a versão que está atualmente em cartaz seja melhor, mas eu ainda não vi. Levando em consideração que o texto ainda é a mesma adaptação do Miguel Falabella (que nada entende do que é ser mulher, por mais que ele tente) eu não levo muita fé.

Para quem curte livros, existe a versão em português da peça escrita pela americana Eve Ensler (o nome dela é perfeito!), que é interessante, mas também deixa a desejar com relação ao filme, e que no momento só se encontra em sebos, ou em pdf aqui.

Mas o filme feito em 2002 com a Eve é tudo de bom, gente! O único defeito dele é que é difícil de encontrar (ainda tem na Americanas.com e no Shoptime)! Mas isso também se entende, afinal Vagina é um assunto que tanto se tenta esconder que até o iTunes andou censurando quando essa palavra foi escolhida como título de um livro da Naomi Wolf (que também trata desse problema crônico de não se falar sobre os genitais femininos). Mas o YouTube existe e lá temos o filme com legendas em português!!!! (coloquei lá no final do post, veja depois de ler tudo, por favor)

Aí eu pergunto a grande questão: por que temos medo da vagina? Por que detestamos tanto assim o seu nome que precisamos arranjar apelidos, e pior, por que esses apelidos são sempre infantis? Por que achamos que ela é tão feia e suja que precisamos depila-la 100%, colocar perfume, e deixa-la mais "bonita" com cirurgias plásticas? O que tudo isso diz de nós? Tanto mulheres quanto homens também.

O que tem de gente (em sua maioria mulheres) pensando sobre essas questões não está no gibi! E confesso que tudo o que já li, vi e ouvi sobre o assunto me assusta. E me deixa muito triste! Fico à beira da depressão quando vejo que vivemos numa sociedade em que apesar de todos nós só existirmos por causa de uma vagina, as pessoas prefiram ignorar a sua existência, ou tratá-la como algo que precisa ser dominado.

E o que isso tem a ver com dança do ventre? TUDO! Porque a dança do ventre nos desperta para o nosso corpo feminino, para as nossas zonas erógenas e para a nossa sexualidade, quer a gente queira admitir ou não. E ela vive cercada de discussões que tratam justamente sobre isso: a dança é considerada vulgar demais? A roupa da Dina é um absurdo? A bailarina está gorda demais para dançar em público? Ou velha demais? O que fazer quando estamos tratando de uma dança cheia de movimentos pélvicos e de quadril numa sociedade em que a mulher só pode se encaixar em duas categorias: santa ou puta? E, claro, tem toda a problemática da mulher no Oriente Médio, que já tratamos diversas vezes no blog (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Enfim, eu queria dedicar esse dia 8 de março à reflexão: até quando vamos precisar de um dia para nos marcar como uma minoria que precisa lutar para garantir seus direitos e ser ouvida? Até quando os corpos femininos estarão sujeitos à ditadura? (da moda, da beleza, do comportamento dito aceitável a uma mulher "direita", e tantas outras restrições) E até quando vamos aceitar ser tratadas como inferiores?


Esse post é dedicado a todas as mulheres que nos fazem pensar! 


Gostou do assunto? Links sugeridos:
Blogueiras Feministas
Biscate Social Club
Mulher Alternativa
Avec Beauvoir
Cem homens

Sugestões de leitura sobre o dia de hoje:
Dia da Mulher não é nada disso
Dia de Princesa
Sugestões de Livros Feministas da Lola
Dia Internacional da Mulher
No dia da mulher desejo uma sociedade menos idiota



terça-feira, 5 de março de 2013

Livro (e filme) do mês: Persépolis


Esse mês vamos falar de quadrinhos! Para quem tem preconceito segue uma dica: reveja a sua opinião, porque temos muitas Graphic Novels interessantíssimas com a temática árabe ou oriental para descobrir!

E vamos conhecer hoje o trabalho de uma iraniana atualmente radicada na França: Marjane Satrapi! De origem persa e muçulmana, Marjane nos conta nessa auto-biografia como foi viver ainda pequena a revolução do Irã (que também pode ser vista no Oscar desse ano, com o filme "Argo") e todas as mudanças sociais que se seguiram. Mais tarde Marjane vai viver sozinha na Europa, e quando volta ao Irã ela sente todos os contrastes entre o Oriente e o Ocidente, falando de um tema muito caro a todos aqueles que vivem no exterior: a sensação de não pertencer mais a lugar nenhum. De quebra, o livro ainda mostra o lado iraniano da guerra Irã-Iraque.

Ilustrado pela própria autora, Persépolis é de uma delicadeza e de profundidade incríveis, apesar dos desenhos serem simples, o traço da autora é muito expressivo, e a história que ela tem para contar é simplesmente cativante! E nos ajuda a entender muito melhor esse país que é retratado de forma tão deturpada na mídia.

Para melhorar ainda mais, Persépolis virou filme! No caso uma animação que estreou em 2007, levou o Prêmio do Juri no Festival de Cannes e de quebra concorreu ao Oscar naquele ano de animação. E realmente o filme merecia!

Por sorte o YouTube existe, e portanto segue aqui o vídeo disponível com legendas em português:

Vale a pena tanto assistir quanto ler o livro! Não se limite a apenas uma forma :-)

E boa leitura!!!

Quem quiser ver minha outra resenha sobre essa Graphic Novel pode ler aqui.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Kisses from Kairo - A Política do Assédio

imagem da graphic novel "Habibi" de Craig Thompson



Segunda-feira, 11  de junho de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   


Estava escrito assim nas manchetes dessa semana: “Mulheres egípcias são assediadas sexualmente em manifestação contra assédios”. Bom, isso não é irônico?

Na sexta, algumas centenas de mulheres organizaram um protesto contra assédios para denunciar o assédio sexual que é onipresente no Egito. Homens que as apoiavam fizeram um círculo protetor ao redor delas, apenas para serem subjugados por uma multidão de homens jovens e violentos que assediaram sexualmente algumas das mulheres participantes.

E isso, senhoras e senhores, é o que acontece quando as mulheres resolvem se defender no Egito.

Espera, talvez nós não devamos ser tão rápidos em condená-los. Vamos ver pelo lado positivo. Algumas mulheres e alguns homens estão começando a reconhecer que o assédio sexual é um GRANDE problema e estão se dispondo a fazer alguma coisa a respeito. É triste que tenha demorado muitos casos de estupros coletivos durante a revolução para que acordassem, mas pelo menos eles acordaram. Antes tarde do que nunca. :/

Mas vamos encarar o problema. O ódio às mulheres está profundamente enraizado na sociedade egípcia. Assim como em diversos lugares, mas especialmente no mundo árabe. E a terrível combinação de extremismo religioso, cultura e testosterona é a culpada.

Antes que me acusem de propagar estereótipos negativos, por favor notem que eu já antecipei tal acusação, e sendo bem sincera, não dou a mínima. Eu tenho uma formação superior numa universidade de elite e tenho total noção de que o que estou dizendo não é politicamente correto nem sensível às diferenças culturais. Isso porque estou mais interessada em dizer a verdade do que em ser “sensível” com relação a pessoas que são insensíveis às mulheres. Isso, além do fato de que eu vivo aqui, o que me dá o direito de dizer as coisas como elas são. Eu não poderia dizer essas coisas quando estava em Harvard a mais 8 mil quilômetros de distância. Eu não tinha experiência “in loco” para corroborar minhas afirmações. Mais importante, a máfia dos culturalmente sensíveis teria me enforcado pela minha completa ausência de jogo de cintura.

Por alguma razão, nós ocidentais “liberalizados” ficamos extremamente desconfortáveis quando alguém sugere que a misoginia é um dos principais pilares da cultura do Oriente Médio. Mas isso não significa que isso não seja verdade. De que outra forma você explicaria o que aconteceu na última sexta? De que outra forma você explicaria todos os casos de estupro coletivo que acontecem toda vez que se faz um grande protesto na Praça Tahrir? A que podemos atribuir a alta taxa de violência doméstica? De circuncisão feminina? E dos assassinatos por honra que acontecem de tempos em tempos?

Vou te dizer como o egípcio médio explica os acontecimentos dessa última sexta-feira. De acordo com eles, alguns remanescentes do regime Mubarak pagaram “criminosos” para estuprar as mulheres numa tentativa de manchar a imagem da revolução. Não só nessa sexta, mas em todas as sextas em que isso aconteceu. Beleza. Vamos supor apenas para argumentar que essa teoria é verdadeira. Ainda assim não é desculpa. Esses supostos “criminosos” não são estrangeiros. Eles são egípcios como quaisquer outros. E não me importa o quanto eles precisam de dinheiro. Existem milhares de pobres que não fariam esse tipo de coisa mesmo que se oferecesse o mundo a eles. Além disso, quem quer que seja capaz de cometer tais atrocidades por dinheiro é bem capaz de cometê-las sem ser por dinheiro. O problema não é a pobreza. É a misoginia.

A outra explicação mais popular para o que aconteceu é a falta de segurança no Egito. Oi? Desde quando falta de segurança virou desculpa para assediar mulheres? Seres humanos decentes não precisam de uma força policial no cangote para não estuprar mulheres.

Tudo isso estranhamente me lembra do que aconteceu após o furacão Katrina e do tsunami que atingiu o Japão alguns anos atrás. Como o furacão Katrina mostrou, desastres naturais criam por um tempo um ambiente com condições perfeitas para a ilegalidade. E como o tsunami japonês demonstrou, a ilegalidade não precisa acontecer. Realmente o mundo caiu em louvores aos japoneses por manterem o mais alto nível moral durante um período em que eles tinham todas as desculpas para não fazê-lo. Isso prova que a ilegalidade não é um resultado inevitável de um policiamento reduzido, mas uma escolha que as pessoas fazem.

Similarmente, os violentos crimes misóginos que as mulheres têm sofrido após a revolução não são um resultado inevitável das forças de segurança do regime terem sido reduzidas. Eles são resultado de más escolhas que indivíduos masculinos fazem. E de tal forma, eles deveriam ser processados dentro da lei.

Exceto que não existe uma lei criminalizando o assédio sexual no Egito. Liberais tem tentado criar uma já faz algum tempo, mas sem sucesso. Eles são minoria perto daqueles que acreditam que uma mulher recebe o que ela merece. Se ela é assediada é porque ela se veste e/ou se comporta de forma inapropriada. Se ela é estuprada, ela deveria ter feito algo para evitar isso também. O assédio é considerado algo que é culpa da mulher. Os homens estão completamente isentos de culpa.

As únicas leis considerando as mulheres sendo discutidas no momento são as que vão diminuir a idade mínima para mulheres casarem, de 18 para 14 anos, e as que darão direito aos maridos de fazerem sexo com os cadáveres das suas esposas, até 6 horas após a morte delas. Seguindo esse caminho, eu não acho que o Egito vá criar nenhuma lei contra assédios tão cedo.

Pensando sobre a situação das mulheres egípcias, me peguei pensando sobre as mulheres no meu país. Como elas chegaram onde estão hoje? Como foi o seu movimento pelos direitos das mulheres? Que tipos de direitos elas lutaram para ter? Elas enfrentaram o mesmo tipo de respostas violentas que as atuais egípcias?

Eu não sou especialista em direitos femininos de nenhuma parte do mundo, mas a impressão que tive das minhas aulas de história na escola foi que as americanas lutaram pelo direito de votar, de trabalhar fora de casa, e (ainda) pelo direito ao aborto. Basicamente as mulheres queriam o direito de existir intelectualmente tais como seus colegas do sexo masculino. Compare com as questões atuais das mulheres do Oriente Médio. Claro, as mulheres do Oriente Médio podem votar, e algumas trabalham fora de casa. Diabos, elas tinham até mesmo o direito de se divorciar (em circunstâncias limitadas) e à herança antes mesmo das mulheres ocidentais poderem. Mas para que serve tudo isso se elas não têm o direito básico à segurança em suas próprias ruas e suas próprias casas? De que serve tudo isso se os homens podem abusar delas verbalmente, emocionalmente, fisicamente e sexualmente sem o menor medo de serem condenados, muito menos de serem presos?

Por favor não me entendam mal. Não estou condenando toda uma cultura ou região. Eu sei que existem homens muito esclarecidos no Oriente Médio que estão trabalhando junto com as mulheres para criar um futuro melhor. E que existem mulheres liberalizadas no Egito. Mas eles ainda são uma pequena minoria. Eu também sei que crimes contra a mulher acontecem no mundo inteiro, inclusive no Ocidente.

... Ainda assim parece ser um verdadeiro problema no mundo árabe. Talvez porque ainda não tenha nenhum estigma associado a isso. Nos EUA, por exemplo, se um homem assedia uma mulher existe uma grande chance de ele ser preso. Mais importante, ele será desprezado por quase todos que o conhecem, incluindo, possivelmente, os seus pais e filhos do sexo masculino. O fato de que homens que assediam mulheres sofrerem consequências legais e sociais severas no ocidente resultou na redução da violência contra a mulher ao longo dos anos – violência doméstica, pelo menos.

Por outro lado, homens no Oriente Médio não sofrem as mesmas consequências por seus crimes misóginos. Eles não ficam mal vistos pela sociedade, e eles certamente não vão para a cadeia. E quanto às vítimas mulheres, não existem serviços de apoio disponíveis. Não existem abrigos para mulheres espancadas. Não existe ninguém oferecendo a elas ajuda psicológica. Na melhor das ocasiões, elas são tratadas como se nada tivesse acontecido. Na pior, elas são culpadas por provocar o ódio ou o desejo sexual nos homens, dependendo do tipo de ataque que elas sofreram.

O que me leva ao meu próximo tópico. O maior problema não é necessariamente os homens que se envolvem em violência contra a mulher. São os homens que ficam em volta, que arrumam desculpas ou deixam de condenar o comportamento dos outros é que são o real problema. Precisa haver homens o suficiente, não apenas mulheres, dispostos a adotar uma postura contra a violência misógina... dispostos a ensinar aos seus filhos a não se envolverem nisso, e às suas filhas a não tolerar isso. Não haverá progresso até isso acontecer.

Entretanto, mais homens não serão esclarecidos até mais mulheres fazerem um esforço coletivo em denunciar publicamente a misoginia. Por mais triste que eu esteja por todas as mulheres vítimas das sextas na Tahrir, temo que seja necessário suportar muito mais para que elas comecem a ter algum impacto na consciência masculina. Não vai ser fácil, e provavelmente teremos ainda mais violência. Mas esse é o preço do progresso.

Esse progresso, entretanto, vai demandar maior participação e freqüência. Para que esses protestos tenham algum impacto, eles precisam incluir uma parcela maior da população feminina. Algumas centenas de mulheres das classes de elite fazendo uma demonstração de vez em quando não terá o efeito desejado. Os egípcios não levam à sério minorias, especialmente se é considerada “radical”. Mas se as mulheres de todas as classes começassem a demandar por segurança nas ruas e nas suas casas, o Egito seria forçado a ouvi-las.

Eu não sou de forma nenhuma otimista demais. Sei que existem muitos obstáculos para a mobilização das mulheres. O primeiro e maior deles é a violência. Uma mulher que sai da cozinha para protestar pelos seus direitos provavelmente sofrerá de alguma violência quando voltar para a cozinha. Existe uma boa probabilidade de que os seus “homens”, sejam o marido, pai, ou irmãos, irão puni-la pelo seu “comportamento impróprio”.

O segundo obstáculo para a mobilização feminina é a conscientização. Eu posso estar errada, mas eu tenho a forte suspeita de que a maioria das mulheres não têm noção de que as coisas poderiam ser melhores. Eu nem tenho certeza de que elas reconhecem os abusos como sendo abusos. Os abusos são tão rotineiros na vida de tantas mulheres que elas não necessariamente os vêem como algo errado. O que torna as coisas ainda piores é que para muitas mulheres não existe nenhuma base de comparação. A maioria das suas vizinhas e parentas leva uma vida similar. Elas não têm acesso ao estilo de vida das classes mais altas, a não ser que elas trabalhem como faxineiras para os egípcios ricos e liberalizados.

O que nos leva à questão... Podem as mulheres serem reprimidas se elas não percebem?

Se uma árvore cai numa floresta e não tem ninguém em volta, ela ainda faz algum som?

O terceiro obstáculo, a maioria das mulheres não possui educação suficiente para que possa pedir por algo melhor. De acordo com o Conselho a Favor da Mulher no Egito, 50% das mulheres egípcias são analfabetas. Eu não preciso explicar que isso é um empecilho para a mobilização das mulheres.

Essas são as razões pelas quais as mulheres não têm sido suficientemente ativas na criminalização das diversas manifestações da misoginia, e porque a sociedade ainda acha que isso é normal...

... o que é mesmo. Eu não sei quais são as razões biológicas ou psicológicas para isso, mas estou definitivamente convencida de que a misoginia é natural para os homens. Assim como o preconceito, ganância, ambição, e pênis não circuncidados (:D). Mas isso não significa que essas coisas são boas. “Natural” e “bom” não são a necessariamente a mesma coisa. Nós herdamos esse mundo do seu criador em seu estado bruto, mas o criador também nos deu um cérebro para torná-lo melhor. Nós fazemos melhorias físicas, com coisas como a tecnologia... e cesáreas. Nós podemos fazer isso mentalmente pelo condicionamento social.

Os homens precisam ser condicionados a abandonar o seu estado natural de misoginia. E as mulheres é que devem fazer isso. Claro que elas vão precisar do apoio dos homens nesse caminho, mas o maior impulso precisa vir das mulheres. O objetivo é que as mulheres cheguem num ponto em que elas percebam que elas têm escolha. Porque são escolhas que fazem das pessoas seres humanos. Elas nos forçam a nos utilizar da razão, que é o que nos diferencia dos animais.

Até isso acontecer, não podemos utilizar honestamente a palavra “revolução” para descrever o que aconteceu no Egito. Não houve revolução. Revolução significa mudança, mas tudo continua exatamente igual ao que era antes da queda de Mubarak. As pessoas ainda tem a cabeça muito limitada. As mulheres ainda são oprimidas. Os pobres continuam pobres e os ricos continuam ricos. E nada disso vai mudar até que o Egito reconheça a dignidade de suas mulheres. Legalmente, socialmente e politicamente.

Você pode dar uma olhada no último post da Luna sobre esse assunto aqui: A Feminista Frustrada

~~~~~~~~~~~~~

Esse texto é de autoria exclusiva da Luna do Cairo e o Ventre da Dança não concorda com todas as colocações aqui expostas, especialmente no que tange que a misoginia é "natural" do homem. Acreditamos que a misoginia é uma construção social, e que, portanto, os homens são ensinados que é assim que as coisas são, e eles agem de acordo com esse aprendizado.

Para mais matérias sobre o assunto você pode ver aqui: 



domingo, 16 de setembro de 2012

Livro do mês: A Prostituta Sagrada




O livro desse mês será voltado para o estudo do feminino e não tanto da cultura árabe ou egípcia. A Prostituta Sagrada é um livro cujo título pode assustar muita gente, mas sua leitura é muito recomendada para quem se interessa por estudos do feminino, psicologia e sexualidade. Em outras palavras, tem tudo a ver com a dança do ventre e com aspectos que as pessoas às vezes gostam de evitar, mas que fazem parte sim do nosso dia a dia (ou não?? rsrsrs).

Capa da edição em português do livro
Apesar de ser um livro que trata especialmente da visão da sexualidade ligada aos antigos ritos da grande deusa, ele foi publicado por uma editora especializada em livros cristãos... o mundo tem coisas realmente curiosas, não é mesmo?

Há muito tempo que eu havia ouvido falar desse livro e confesso que demorei alguns anos para tirá-lo da estante. E graças a deus escolhi fazer isso durante uma das minhas férias, porque não é um livro fácil de ler. Apesar dele ser mesmo tudo aquilo que me tinham dito, talvez até mais, não é um livro para ler no metrô, porque não é legal parar no meio dos capítulos, justamente por conta da densidade da leitura. Em outras palavras, é um livro para ser estudado e compreendido em profundidade. Não para ser lido num final de semana às pressas.

Indico para todas as bailarinas que têm paciência para livros de psicologia e gostam do assunto do feminino, e acho, sinceramente, que tanto homens quanto mulheres deveriam ser introduzidos ao conceito da prostituta sagrada, pois pode ser a chave para entender melhor como podemos encontrar o papel do sexo e da sexualidade saudáveis. É preciso que a gente reveja os nossos conceitos, sabe? A excesso de moralidade com relação ao corpo e ao sexo, especialmente da mulher, são problemas muito graves, que levam a todo tipo de violência. Inclusive no nosso mundo da dança do ventre, que é muito influenciado pelo aspecto da sexualidade e como ela é encarada pelas pessoas.

Dessa forma, o livro faz repensar um bocado o papel da mulher e como ela é vista pela sociedade masculinizada e misógina que temos hoje, que causa tanta violência tanto no Brasil como no mundo árabe e no resto do mundo também.  Vale a pena uma leitura sem preconceitos com o título do livro, ok?

Fica a dica :-)

Quem já leu o livro, por favor, deixe o seu comentário!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Kisses from Kairo - Alarme Falso



Segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha  


Atenção: se você tem alguma aversão a produtos ou problemas femininos, ou é uma pessoa sensível, pare por aqui.

Eu realmente não tinha a intenção de que o meu primeiro post do ano fosse sobre a minha menstruação, mas bom, é melhor do que um post sentimental sobre resoluções para o Ano Novo. Os anos começam e terminam e eu nunca faço resoluções. Elas não servem para nada e ninguém as cumpre mesmo. Além disso, não há nada de especial no dia 1° de janeiro. Até onde eu sei, o dia 29 de julho é tão bom quanto o dia 1° de janeiro para fazer resoluções. Porque não existe uma coisa chamada tempo. Não aqui no Egito de qualquer forma.

Voltando à minha menstruação. Não há nada mais próximo do significado de tempo do que a minha menstruação no meu mundinho. Ela é sempre pontual e dolorosa, e eu sempre posso contar que ela vai aparecer (e isso é mais do que posso dizer sobre a maioria das pessoas, eu inclusive). E de forma muito conveniente, ela veio me aterrorizar no dia 1° de janeiro, bem à meia noite, para ser exata. Não podia haver uma maneira melhor de começar o ano, não é? :) ~

A razão por eu estar escrevendo sobre a minha menstruação é que eu acabei passeando por 4 hospitais por causa dela. Em um dos meus muitos momentos avoados, eu coloquei um tampão sem me lembrar se eu havia tirado o anterior. E sendo a medrosa que eu sou, entrei em pânico. Se um tampão for deixado lá dentro ele pode causar Síndrome do Choque Tóxico (SCT), que pode ser fatal. Isso sem mencionar que eu tenho unhas extremamente longas, e eu não iria cortá-las para tirar um tampão.

A 1 hora da manhã, com todas as clínicas privadas fechadas, eu não tinha outra opção a não ser ir a um hospital. Então eu fui ao mais próximo a minha casa. Mas eu saí de lá muito antes do que eu pretendia. A recepcionista me disse que por ser estrangeira que teria que pagar o dobro do que uma egípcia pagaria para ser atendida. Pelo amor de deus, eu sou uma residente que paga impostos e que gera mais retorno nessa economia do que a maioria dos egípcios, e o hospital quer dar uma de Khan el-Khalili comigo?

Determinada a ser examinada, eu fui a um hospital com fama internacional chamado Mustashfa Al-Salam Al-Dawli. Entrei na sala de emergência e pedi para ver um ginecologista. Havia 2 na equipe médica, mas primeiro eu teria que explicar o problema para a enfermeira. E eu fiz exatamente isso, dizendo a ela que eu tinha um tampão “perdido lá dentro” e precisava que ele fosse removido.

“Você tem o que?” ela perguntou. “Um tampão”, eu respondi. “Você sabe, um Tampax?”. A enfermeira não tinha a menor idéia do eu estava falando, então eu expliquei a ela o que é um tampão. Ela ainda assim não entendeu, então eu tirei um da minha bolsa e abri, pensando que se ela visse, ela entenderia.

Nada. “Tá bom, você poderia chamar o médico?” eu perguntei. Claro que um ginecologista saberia do que eu estava falando. A enfermeira ligou para o médico e tentou explicar a minha situação, mas sem sucesso. Ela não tinha a menor idéia do que é um tampão. Eu tentei explicar novamente, mas só para ouvir ela me dizer que não havia nada que ela pudesse fazer para me ajudar. “Tudo bem, enfermeira, e que tal o outro médico?”. Ela ligou pra ele, nós conversamos, e eu fui embora. Ele também não tinha a menor idéia do que é um tampão, e eu achei que não valia à pena pagar para ver o que ia acontecer.

Danada da vida, e ficando cada vez mais apavorada, eu fui para o Qasr El-Aini, que supostamente é um hospital francês. Certamente os franceses sabem alguma coisa sobre tampões.

Nada. A única coisa francesa naquele hospital era a sua história. Eu fiz o mesmo discurso para o ginecologista residente de lá e peguei o tampão aberto na minha bolsa para mostrar, só para dar de cara com o olhar confuso dele e ouvir “me desculpe, eu não sei o que é isso então não posso te ajudar”.

Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhh! Eu não me importo de que cultura você é... como você pode se auto-intitular um ginecologista e não saber o que é um tampão?!? E o que eu tenho que fazer para que alguém coloque a mão lá dentro para tirar alguma coisa? Ir a um mecânico? Dizer a eles que tem um pote de ouro no final do arco-íris? Meu deus! Você poderia imaginar que como a maioria dos ginecologistas egípcios é homem seria mais fácil ser examinada.

Depois disso, fui andando até um hospital público ali perto. Já eram 3 horas da manhã, e eu estava cansada, com frio, irritada e em pânico. Para piorar ainda mais as coisas, eu ouvi uma mulher gritando “assassinato” de dentro do hospital enquanto eu ainda estava numa boa distância. “Ó céus, isso é um hospital ou uma sala de tortura?” pensei comigo mesma.

Relutante, entrei no hospital e pedi para ver o ginecologista. Um homem jovem veio me cumprimentar e perguntou qual era o problema. “Doutor”, eu disse em árabe, “você sabe o que é um tampão?” “Sim”, ele respondeu. “Tem certeza? Eu devo mostrar a você?” “Não precisa”, ele respondeu. “O que aconteceu?”, e eu contei ao médico que eu estava no meu beríodo menstrual, e que achava que eu tinha perdido acidentalmente um tampão lá dentro, e que eu precisava que ele fosse removido antes que causasse uma infecção bacteriana potencialmente fatal.

E então o médico disse as palavras mágicas: “Síndrumi du chuqui túxicu” :P

“Thank you!” eu soltei em inglês. “Você realmente sabe do que estou falando! Eu estive em 3 hospitais e ninguém sabe o que é um tampão, quanto mais SCT!”. O médico riu. “Heeya di masr.”  Esse é o Egito. :) Então ele tirou a minha pressão e me disse para sentar e esperar enquanto ele terminava as coisas com a paciente que gritava.

Fiquei sentada numa salinha de recepção por pelo menos meia hora, ansiosa para ser atendida. Nesse meio tempo, a paciente dele escapuliu da sala de atendimento e parou na minha frente. Ela estava gemendo, e havia manchas de sangue por toda a sua galabiyya de veludo bege. Eu, por minha vez, estava começando a pensar duas vezes sobre deixar esse médico encostar em mim. E estava prestes a ir embora...

... só que fiquei distraída com a visão de uma pobre mulher que tentava tirar nada menos do que 12 brincos das orelhas. Aparentemente, ela estava se preparando para fazer uma tomografia computadorizada, mas estava tendo dificuldade em retirar todas aquelas tarraxas de 24 quilates. Elas deviam estar bem presas, porque a cada puxada ou torcida que ela dava, mais lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Nesse ponto, quase toda a equipe médica já havia tentando ajudá-la. Um enfermeiro baixinho e sem quase nenhum dente da frente, se aproximou das orelhas da mulher com um par de pinças médicas bem compridas e desatarraxou a força os brincos, um de cada vez. Que... m... é essa?! Eu não podia acreditar no que estava vendo. Se eu não tivesse ficado enjoada com o pus que saía das orelhas inflamadas dela, eu provavelmente teria me oferecido para ajudar. Mas ao invés disso, fiquei de joelhos catando os brincos e tarraxas que iam caindo.

Minha caça aos brincos foi interrompida pelo médico, que agora estava pronto para me atender. Ele me levou para uma área cercada por cortinas com duas mesas de exame. Ele, então, me deu um lençol para me enrolar da cintura para baixo e depois saiu para que eu me despisse. Mas eu não conseguia arranjar forças para tirar as calças. Para começar, o lençol estava coberto com manchas de todo tipo de material biológico imaginável... vermelho, amarelo, marrom, verde. As mesas de exame estavam nuas, sem aqueles barulhentos papéis que os médicos colocam nas mesas por razões higiênicas nos EUA. E havia diversos lenços de papel sujos de sangue pelo chão. Oi? Por que não havia uma lixeira de material biológico hospitalar aqui?!?

(Falando de lixeiras de material biológico hospitalar, eu me lembrei da vez em que eu acompanhei uma amiga minha ao hospital para fazer uma lipoaspiração nas coxas. Quando o procedimento acabou, o médico nos mandou para casa com um saco plástico preto com o que ele tinha retirado de gordura das coxas dela! Imagine só! Carregar a sua própria gordura por aí num saco plástico! Ele provavelmente não tinha nenhum lugar para jogar aquilo fora. E o saco estava pesado também. :D )

Se assim é que são os hospitais egípcios, que tipo de inferno devem ser os presídios?

Então lá estava eu, paralisada de nojo. Eu não sabia o que fazer. Ir embora? Reclamar? Vomitar? Então eu me lembrei de um bom conselho que eu recebi quando eu estava na Síria e queria sair do meu apartamento porque eu não estava me dando muito bem com o banheiro turco: “Não seja uma americana mimada”. Sem dúvida.

Inferno. Se eu consegui lidar com os banheiros turcos tendo uma intoxicação alimentar violenta, eu poderia sobreviver a um exame ginecológico nesse hospital. Além disso, eu queria tirar aquele tampão. Então eu pedi um lençol limpo e decidi encarar. Só que a enfermeira tirou um lençol igualmente sujo de uma mesa de exame próxima e me entregou. Não... não é isso o que eu quis dizer com limpo! :P

Rapidamente eu entendi que isso era o melhor que eu iria conseguir. Então eu tirei a parte de baixo das roupas, enrolei de qualquer jeito aquele pano nojento em torno de mim, e chamei o médico. Graças a deus, eu não precisei pedir que ele usasse luvas de látex. Então o médico me fez uma série de perguntas, uma das quais foi “você é virgem?”. Bom, o último ginecologista que me examinou parecia achar que sim. Conta?

E então, o médico levantou as mãos, preparado, e me disse no seu inglês bem egípcio “A-agura eu vou exblorar a sua vagina.

>*D

Ai. Meu. Deus. Eu não consegui me controlar. Eu comecei a rir na cara do pobre homem! Ele vai exblorar minha vagina! Ótima escolha de palavras. :) O médico ficou vermelho, e eu me desculpei de todas as formas possíveis, mas eu não conseguia conter o riso. Mas, assim que eu consegui me recompor, o médico começou a “exblorar”. E eu comecei a gritar, assim como a paciente anterior. Aqueles foram facilmente os 10 segundos mais dolorosos que eu experimentei em muito tempo. E foi tudo a toa. Porque afinal de contas, eu não tinha perdido um tampão lá dentro. Eu havia esquecido que eu tinha tirado. Hamdullah. (N.T.: palavra em árabe que quer dizer graças a Allah)

E como o hospital era estatal, eu não precisei gastar nem um centavo com esse alarme falso – nem mesmo sendo estrangeira. E eu estava agradecida por isso, e agradecida por ter conhecido um ginecologista experiente. Não sei se eu jamais irei naquele lugar novamente, mas quem sabe? Talvez o médico atenda em casa. :D

---------------------------------------

Para ler um post do Ventre da Dança só sobre tipos de absorventes e suas vantagens e desvantagens clique aqui :-)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Kisses from Kairo - A Feminista Frustrada



Domingo, 2 de outubro de 2011

A Feminista Frustrada
Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha

Eu sou uma feminista frustrada. Eu sempre fui feminista, de um jeito ou de outro, mas a parte “frustrada” é bem recente. Isso tem muito a ver com o lugar onde vivo e com o que eu faço. Por sorte ainda não atingi o ponto de não voltar mais atrás. Eu ainda depilo minhas pernas e axilas e uso maquiagem :-) E eu ainda sou hétero (seja lá o que isso realmente significa). Mesmo assim odeio os homens. Bom, a maior parte deles. Não é que eu odeie os indivíduos que por acaso são homens. Eu só odeio a “macheza” deles – o seu “machismo” – ou o que quer que faça com que eles subjuguem as mulheres.

Correndo o risco de dizer o óbvio, eu vivo numa sociedade ultra-patriarcal. Isso significa que os homens têm a última palavra em quase todos os aspectos da vida aqui. Eles são os líderes, os que fazem as leis, os que as mantêm e os que as quebram. Na verdade, é assim na maior parte do mundo, mas é um pouco mais exagerado em lugares como o Egito do que nos EUA ou na Europa Ocidental. Isso não quer dizer que o Egito está no mesmo nível que a Arábia Saudita, Irã ou Afeganistão. Mesmo assim a misoginia tem o seu lugar cativo aqui. E ela toma diversas formas: mutilação genital feminina (extremamente comum); violência doméstica (muito comum); assédio sexual (sem comentários); crimes de honra (bem mais raros, mas acontecem de vez em quando); leis que regem o divórcio, adultério e outros status sociais (que evidentemente favorecem os homens); e a sempre presente escola de pensamento do “lugar da mulher é em casa” que tanto os homens E as mulheres seguem. Novamente, todas essas coisas existem em outros países, mesmo no Ocidente – é só que elas acontecem muito mais frequentemente e com muito menos estigma nesse pedacinho do mundo.

(Muitos justificam esse fenômeno dizendo que isso é feito para “proteger” e “dar poder” às mulheres. As pessoas que usam esses argumentos são chamadas de apologistas. Eles são mestres em fazer o pior dos males parecer benigno.)

A misoginia também aparece nas duas categorias nas quais a misoginia mais comum divide as mulheres. Elas são “santas” ou “putas”. Funciona assim. Usa o véu. Santa. Não usa véu. Puta. Só tem amigos do mesmo sexo. Santa. Tem amigos de diversos gêneros. Puta. É uma mãe que só fica em casa. Santa. É bailarina. Puta. Não fez sexo antes do casamento. Santa. Fez sexo antes, durante e depois do casamento. Puta. Não se casou antes dos 30. Senhora velha com problemas sérios. Entendeu? Bom. :-) Então. Em qual categoria eu me encaixo? Vou te dar uma dica. Não é “santa”. :)

Você provavelmente deve estar pensando no que isso tem a ver com dança do ventre. A resposta é tudo. A dança do ventre supostamente é para ser uma dança de mulheres. Feita por mulheres para mulheres. Essa foi uma das coisas que mais me atraíram nessa dança. Mas aqui no Egito, são os homens que controlam e ganham dinheiro com a dança. Eles são os agentes, e os gerentes de hotéis e de talentos. Eles são os músicos e a maior parte dos consumidores.

A parte econômica da dança do ventre parece ser um pouco diferente no resto do mundo. Nos EUA, Europa, Rússia e Ásia, são as próprias bailarinas que estão no comando de todos os aspectos da dança. Elas não fazem apenas as performances.  Elas organizam os eventos, são agentes, e em muitos casos, são a maioria dos consumidores. São mulheres ajudando outras mulheres, e elas lucram com a sua dedicação a essa arte.

Por favor, não me entendam mal. Eu não tenho nada contra os homens cooperarem com as mulheres para ajudá-las a serem bem sucedidas. Entretanto, a palavra-chave aqui é “cooperar”. Infelizmente, a cooperação às vezes dá lugar à exploração – tanto financeira quanto de outras formas. Para nós, bailarinas que insistimos em trabalhar aqui, esse problema vem com o lugar. Não acontece sempre, e existem vários homens de respeito no ramo, mas estamos fadadas a encontrar esse problema em algum ponto ou outro das nossas carreiras. Nesse ponto, é uma questão de qual tipo de exploração nós decidimos tolerar. E isso é uma coisa individual. Pessoalmente, eu prefiro ser roubada a ser passada a mão, seduzida a ir para a cama com alguém, ou mesmo ficar ouvindo algum pervertido falar sobre assuntos inapropriados. Então eu escolho as pessoas com quem eu lido de acordo com isso.

Mesmo assim, eu frequentemente me pego desejando que mais mulheres pegassem as rédeas do lado comercial da dança do ventre. Algo me diz que se elas fizessem isso, as coisas seriam melhores. Só outra mulher pode entender realmente o valor dos nossos shimmies. Só outra mulher pode apreciar de verdade a coragem que é necessária para subir no palco “seminua” e se balançar, especialmente numa sociedade que faz cara feia para isso. Só outra mulher pode apreciar de verdade todo o dinheiro, tempo e energia que consumimos para aprender e se apresentar nessa dança.

Para aqueles sociólogos que sugeririam que não existe algo como uma “arte feminina” porque não existe gênero, eu sugeriria que eles olhassem os fatos. Está muito bem estabelecido que os movimentos da dança do ventre são derivados dos movimentos naturais que as MULHERES fazem quando as MULHERES estão GRÁVIDAS. As ondulações abdominais, os shimmies, os shimmies de abdômen, os impulsos pélvicos etc. E da última vez que chequei homens não ficam grávidos. Alguém gostaria de provar que estou errada? ;-)

Outra evidência de que essa é uma dança de mulheres é que não há papel específico para o homem na dança do ventre. Diferentemente do balé, da salsa, e das milhares de danças folclóricas que existem ao redor do mundo, não existem “movimentos masculinos” na dança do ventre. Então, quando homens fazem dança do ventre, eles incorporam uma persona feminina. Eles se transformam em mulheres (nem que seja pela duração do show). E não há necessariamente nada de errado nisso. Só estou dizendo.

E o mais interessante é que um relativamente famoso professor de dança do ventre egípcio uma vez me disse que não há como um homem realmente dançar dança do ventre. Segundo ele, um homem pode apenas “imitar” a dança porque ele não tem um útero, que é a fonte de inspiração artística da mulher. (Eu pessoalmente “vejo” a dança na minha cabeça quando escuto a música, não sinto no meu útero, mas isso é só eu :D). O que quer que você pense sobre a relação entre inspiração artística e o útero, eu acho que o que ele queria dizer é que a dança do ventre é essencialmente feminina. Só as mulheres podem entendê-la direito, porque isso requer aquela essência feminina que os homens não têm (a maioria deles pelo menos). Se é ou não o útero a fonte dessa essência aí é outra discussão.

Dadas todas as evidências de que a dança do ventre é uma dança de mulheres, me parece muito esquisito que sejam os homens a controlar todos os seus aspectos. Mas esse é um mundo de homens no final das contas, e quase tudo é controlado por eles (até mesmo a esmagadora maioria dos ginecologistas egípcios são homens!).

Um dos resultados dessa indústria da dança do ventre ser controlada por homens é que as mulheres acabam por brigar entre si (e não estou falando daquelas briguinhas que acontecem na nossa comunidade de dança do ventre dos EUA). Estou falando de uma chamar a polícia para denunciar a outra, de destruir e roubar as roupas da outra, de espalhar boatos para destruir a carreira da outra, e fazer coisas (e “pegar” pessoas :O ) que elas não deveriam fazer para evitar que outra bailarina “roube” o seu trabalho.

Por mais feminista que eu seja, é difícil não ser arrastada por essa onda de ódio feminino em algum momento. Eu percebi isso quando outro dia me peguei me referindo a outra bailarina como uma “sharmoota”. Isso significa “prostituta” em árabe egípcio. Eu me horrorizei quando ouvi essa palavra saindo tão facilmente da minha boca. Não porque ela não seja de fato uma prostituta, mas porque a palavra é tão carregada de culpa. Ainda mais em árabe do que em inglês (N.T.: ou português). E no fundo, essa sharmoota pode não merecer a condenação que a palavra implica. Ela, assim como milhares de outras mulheres, é analfabeta e destituída de talento. Portanto ela não tem outro meio de sobreviver que não seja usando do seu corpo das mais variadas formas. Isso faz dela uma vítima e uma sobrevivente, não uma sharmoota.

Eu não vou continuar falando sobre as diversas revoluções que precisam acontecer nessa parte do mundo, mas tudo o que vou dizer é que só a realidade que eu observo todo o dia no meu ramo de trabalho é uma razão mais que suficiente para que eu me transforme numa “feminazi”. Infelizmente, eu não vejo que as coisas vão mudar tão cedo. Parece que ficarei frustrada por um bom tempo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ma liberté de danser - Cap. 7 - Liberdade


Por Lalitha

AVISO IMPORTANTE:

Então, gente, antes de entrarmos no material relativo ao quinto capítulo do livro da Dina, quero ressaltar que apenas as partes em itálico e entre aspas são trechos traduzidos do livro (as traduções são minhas e às vezes contem alguma adaptação para facilitar o entendimento do trecho fora do texto completo), e deixo claro que não traduzi o livro inteiro, apenas algumas passagens que julguei importantes ou bonitas. Todo o resto do material é uma compilação de informações contidas no livro e de pesquisa própria minha feita na internet ou na minha biblioteca particular.

O material aqui exposto está todo dividido por capítulo (um capítulo por post, sempre) e cada capítulo está dividido em tópicos para tornar a apresentação mais dinâmica. Adotei essa divisão por pura comodidade e para tornar o material mais didático, o livro não está dividido dessa forma.


7 - Liberdade

          Rita

Mulheres usando o Niqab

Apesar de tudo, Dina acredita na liberdade. Quando sua irmã Rita decidiu passar a usar o niqab e isso veio a público, foi um choque para a imprensa. Ninguém podia entender como uma bailarina poderia ter uma irmã que usasse o niqab. Não fazia sentido.

Mas Dina respeita a decisão da sua irmã, que foi tomada depois de refletir muito. Rita passou a usar o niqab pouco depois de acompanhar o sofrimento da Dina durante a doença seguida da morte de Sameh.

"Claro, é verdade que não posso dizer que essa decisão me deixou feliz. Não consigo entender porque uma mulher pode decidir colocar um véu entre ela e a sociedade. Uma do lado da outra, ela com o seu véu negro e eu com minhas roupas curtas e coloridas, invocamos a imagem do yin e do yang, aquelas que são opostas em tudo.
Se a minha liberdade é de dançar, a da minha irmã é de usar o niqab. Ela diria o mesmo de mim."

          A liberdade da mulher

Dina acredita que a vida é muito curta para não ser livre. Mas, infelizmente, no Egito não se sabe mais o que significa a palavra liberdade.

"Porque, aqui, quando se diz "liberdade", alguns entendem "lassidão", "libertinagem", como se se tratasse de agir como uma mulher da vida. Eles não entenderam nada. A liberdade, certamente não é o direito de fazer qualquer coisa, pelo contrário, é a responsabilidade. Ser livre é o que nos permite escolher e assumir nossas escolhas, quer elas sejam boas ou ruins, sem jamais culpar os outros. Se eu não sou livre, como posso ser fiel às minhas promessas?"

Mas hoje no Egito ninguém é livre. Os jornais são censurados, as pessoas não dizem o que pensam abertamente. E as coisas não mudaram muito com relação a isso mesmo depois da Revolução. Para se ter uma idéia, até mesmo quando tentaram reeditar “As Mil e Uma Noites”, um clássico da literatura árabe (com passagens pré-islâmicas, é verdade), houve confusão e isso tem sido muito comum com escritores tanto no Egito quanto em outros países árabes. O nobel egípcio de literatura, Naguib Mahfouz, por exemplo, sofreu um atentado nos anos 90. (vejam um post que fiz sobre uma das obras dele aqui)

"Eu creio na liberdade do homem, e creio na liberdade da mulher. Mas não me sinto feminista por isso. Todo o mundo tem direito ao respeito."

Dina conta que, antigamente, o lugar da mulher na sociedade egípcia era mais claro e respeitado. As mulheres não usavam véu e eram bem vistas mesmo assim. Mas com os problemas econômicos, a pauperização da população, e a explosão demográfica ocorrida nas últimas décadas, os egípcios foram ficando cada vez menos educados, e, portanto, mais manipuláveis pelos extremistas e radicais islâmicos.

Com isso, o preconceito só aumenta. E é por ser diferente que Dina é atacada.



Aguardem o próximo capítulo! 

Capítulos anteriores:





terça-feira, 22 de maio de 2012

Ma liberté de danser - Cap. 6 - Sameh


Por Lalitha

AVISO IMPORTANTE:

Então, gente, antes de entrarmos no material relativo ao quinto capítulo do livro da Dina, quero ressaltar que apenas as partes em itálico e entre aspas são trechos traduzidos do livro (as traduções são minhas e às vezes contem alguma adaptação para facilitar o entendimento do trecho fora do texto completo), e deixo claro que não traduzi o livro inteiro, apenas algumas passagens que julguei importantes ou bonitas. Todo o resto do material é uma compilação de informações contidas no livro e de pesquisa própria minha feita na internet ou na minha biblioteca particular.

O material aqui exposto está todo dividido por capítulo (um capítulo por post, sempre) e cada capítulo está dividido em tópicos para tornar a apresentação mais dinâmica. Adotei essa divisão por pura comodidade e para tornar o material mais didático, o livro não está dividido dessa forma.

6. Sameh

          Como eles se conheceram




Sameh era um diretor de cinema e de clipes musicais, que estudou nos EUA. Eles se conheceram 1997, durante a filmagem de um clipe com o ator Ahmed el-Sakka. Sameh queria que a Dina dançasse enquanto uma prece fosse aparecendo na sua pele, o que ela se recusou a fazer, apesar de achar a ideia bonita, porque os egípcios não estavam prontos para isso. Coisa que só alguém que estudou fora do Egito poderia pensar...

Na época ela tinha acabado de terminar um relacionamento e estava recentemente divorciada, por isso não estava a procura de ninguém e portanto também estava "distraída"... Disseram que ela estava cega, que Sameh estava claramente apaixonado por ela, mas dina não queria saber de namorar e não percebia o que as pessoas viam na atitude do diretor.

Mas Sameh não desistiu e a pediu em casamento, com direito a pedir a mão dela aos seus pais e tudo mais. E Dina realmente gostava dele, e ,apesar de não o conhecer direito, acabou aceitando. 


"Ele me prometeu a terra e a lua juntos, ele me falou de amor, de filhos, de vestido branco, pureza e inocência, eu era uma princesa adormecida a ser acordada pelo beijo de um príncipe. Ele me falou de um sonho que eu jamais pensei que pudesse ser realidade. Eu sou bailarina. Não se promete amor para uma raqa'sa."



          O casamento

O casamento deles foi uma grande festa, que todos os grandes artistas foram prestigiar. Até Arm Diab cantou na festa, junto com outros cantores famosos. Mesmo Fifi Abdou, que era concorrente da Dina nessa época, estava lá festejando e desejando tudo de bom aos noivos. E por sorte, existe no YouTube um trecho filmado dessa festa, com a Dina toda de branco... linda!



 

          Gravidez

2 meses depois do casamento Dina estava gravida. Nessa época o casal vive bem em sua rotina: Sameh gosta de silêncio e solidão para trabalhar e Dina gosta de música, mas eles se dão muito bem. Ele a estimula na sua carreira e a ajuda a manter a rotina, vigiando a sua alimentação e o seu sono.

Essa é a única foto que encontrei da Dina grávida, e ela está dançando num show! O comentário do site original sobre o assunto é que ela estava muito feliz com a gravidez.


Aos 5 meses de gravidez, em 1999, Dina cai durante um ensaio de uma peça de teatro e, com medo do que possa ter acontecido com o bebê, vai para os EUA fazer exames complementares para saber se está tudo bem.


          Uma doença

Está tudo bem com ela, mas quando ela vai dar a notícia para a família, ela ouve falar pelos seus familiares que Sameh não está bem. Ela sabia que ele tinha tido uma doença e passado por uma operação há muitos anos, mas ele nunca explicou tudo pra ela. Dina fica preocupada e convence Sameh a se juntar a ela em Los Angeles para ser avaliado também.


"Eu escuto palavras bárbaras "astrocitoma anaplásico", "tumor no cérebro", "quimioterapia","pouca chance de sucesso", "tentar de tudo", "inoperável", "prognóstico ruim", "estado desesperado".
Dentro da sala, tão fria, o homem de uniforme branco tem nas mãos Sameh, um Sameh resumido em números e folhas de plástico pretas com manchas brancas. E ele me diz que ele vai morrer."


Enquanto eles estão nos EUA avaliando as possibilidades de tratamento para Sameh, Dina chega aos 9 meses de gravidez. E enquanto ela sente uma vida se formando dentro de si, vê outra se esvaindo ao seu lado.


          Ali


"Em 30 de dezembro de 1999, meu ventre se contrai. Acompanhada de Sameh, eu corro para o hospital de Santa Monica. A parteira me coloca na sala de parto, Sameh está atrás da sua câmera, ele filma o parto. As contrações são fortes, mas não dolorosas. Eu olho para o espelho no teto, regulo a minha respiração. Cinco minutos mais tarde, sai a cabeça de Ali. Uma cabecinha pequenininha coberta de cabelos negros e uma boquinha parecida com a minha.
- Você deu à luz em tempo recorde!
A parteira está boquiaberta. Enquanto ela me dá conselhos para o pós-parto, ela me diz que raramente ela vê uma mulher que traz uma criança ao mundo com tanta facilidade.
Eu digo pra ela qual é o meu trabalho. Ela arregala os olhos. A dança do ventre é uma das melhores preparações para o parto. Ela usa todos os músculos, relaxa a bacia e dá tonicidade aos músculos. Foi o coreógrafo Hassan Khalil que disse "A dança do ventre é o movimento do ponto mais sagrado da mulher, o útero, lá onde tudo começa. O segredo da dança do ventre não está na dança, está na mulher""



          Estado terminal

Enquanto isso, a saúde de Sameh se deteriora dia após dia. Mesmo assim ele consegue fazer o seu primeiro longa metragem, Korsi fil Kolob, que recebeu alguma aclamação da crítica especializada. Nem ele nem Dina desistem, ele tenta todo e qualquer tratamento experimental. O tumor chega a diminuir, mas logo em seguida volta a crescer.

Um dos médicos diz pra Dina que ele acha que eles deviam voltar ao Egito, que os tratamentos não estão ajudando, estão apenas fazendo Sameh sofrer. Era melhor voltar para casa e tentar deixá-lo confortável.

Então, eles voltam ao Cairo, mas a família de Sameh não quer saber de desistir e logo em seguida eles estão cheios de médicos marcados. Chegam até mesmo a fazer uma nova cirurgia, mas o tumor continua crescendo.

Sameh, numa última tentativa, resolve tentar a medicina chinesa e viaja para Pequim, voltando menos de uma semana depois arrasado. O prognóstico dos acupunturistas é de menos de um mês de vida.

Alguns dias depois Sameh é internado, e dois meses depois morre.


"Sameh me confiou o seu filho. Enquanto Ali estiver comigo, Sameh também estará. E por toda a minha vida guardarei um lugar no meu coração para os seus olhos amendoados e seu sorriso doce, para esse homem cheio de talento morto em sua juventude."



Aguardem o próximo capítulo! 

Capítulos anteriores: