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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Histórias da Dança: Tahia Carioca




Tahia Carioca foi um dos grandes ícones da Era de Ouro da Dança do Ventre, que podemos dizer que aconteceu entre 1930 e 1959, aproximadamente. Você pode encontrar vídeos dessa bailarina espetacular em praticamente qualquer coletânea de vídeos dessa época, e todos eles valem a pena ser estudados, pois Tahia foi uma das bailarinas que ficaram conhecidas por elevar o nível técnico da dança oriental no Egito. Tanto que foi chamada pela revista New York Times como uma pioneira da dança oriental moderna, isto é, como ela é dançada hoje.

Tahia nasceu em Ismalia, no Egito, em 1919 como Badaweya Mohamed Kareem Al Nirani. Por conta de problemas de convivência com sua família, ela fugiu para o Cairo, onde foi morar com uma antiga vizinha, Souad Mahasen, que era dona de uma casa noturna.

Quando chegou ao Cairo, Tahia começou a estudar dança na Escola de Dança Ivanova, e apesar de pedir uma oportunidade para trabalhar na casa noturna de Souad, a sua vizinha queria impedir que a menina recém chegada de sua cidade natal, e por quem ela tinha muito carinho, entrasse nesse estilo de vida, que desde sempre foi considerado de baixíssima reputação. Alguns relatos indicam que Souad acabou cedendo aos pedidos de Tahia, enquanto outros indicam que apesar de suas reticências, o rumor da beleza de menina chegou aos ouvidos de Badia Al Masabni, que ofereceu um lugar para ela dançar na sua famosa Sala.

Independentemente de como ela chegou à Sala de Badia, quando Tahia começou a trabalhar lá em 1933 o seu nome artístico ainda era Tahia Mohamed, porém, foi justamente nessa época que uma dança se tornou famosa por conta de um filme do Fred Astaire e Ginger Rogers. Essa dança tinha como nome Carioca, pois era baseada no trabalho da luso-brasileira Carmen Miranda, e,claro, que Tahia começou a dança-la, obtendo um grande sucesso, e foi assim ela ganhou um novo nome artístico: Tahia Carioca.  Mais tarde ela incorporaria passos de danças latinas em suas performances.

Tahia Carioca versão Carmen Miranda!

A partir daí o seu sucesso foi galopante. Tahia começou a trabalhar na indústria do cinema em 1935, e participou de mais de 120 filmes, sem contar peças de teatro e programas de televisão, incluindo diversas novelas. Ela era tão famosa que muitas vezes era chamada de a Marilyn Monroe do Egito (título esse que também era atribuído a sua contemporânea Samia Gamal). É importante lembrar que Tahia não só dançava brilhantemente, mas também cantava e atuava.

O primeiro filme em que ela aparece como atriz é de 1946 e se chama "Laabet el sitt"("O Fantoche da Dama") e um dos pontos altos de sua carreira foi o filme "ShababImra" ("A Juventude de uma mulher"), que foi exibido em Cannes em 1956. Ela chegou a ser chamada para participar de filmes em Hollywood, mas havia a exigência que ela fizesse aulas de ballet, pois seus braços foram considerados pouco elaborados, o que ela teria se recusado a fazer pois ela era uma bailarina profissional e não precisava de ajuda para dançar. Sendo rejeitados por Tahia, os produtores de Hollywood fizeram contato com a sua então rival, Samia Gamal, que aceitou a fez história.


Existem algumas lendas em torno de Tahia Carioca. Por exemplo, dizem que em 1936 ela dançou no casamento do Rei Farouk, do Egito (que na época era uma monarquia), onde dividiu o palco nada menos do que Um Kulthum, que era uma das suas fãs. Tanto que dizem que Um Kulthum afirmou que Tahia cantava com o seu corpo (olha aí a leitura musical!). Também existem relatos de que nesse mesmo evento ela teria dado um tapa no Rei, por ele ter colocado uma pedra de gelo dentro da sua roupa enquanto ela dançava. De uma forma geral, a relação de Tahia com o Rei Farouk era complicada, encontram-se relatos de que ela adorava a Rainha Farida, esposa de Farouk, e só aturava o Rei por conta dela, e que depois que os dois se divorciaram ela nunca mais teria aceitado nenhum convite dele para dançar, incluindo um convite para dançar na sua segunda festa de casamento. Quando o rei faleceu, sua segunda esposa disse a Tahia que ela sabia o quanto ela não gostava dela, ao qual Tahia teria respondido que sim, não gostava, porque ela havia trazido má sorte ao Egito ao se casar com o Rei.

Na esfera pessoal, Tahia acabou por seguir os passos do seu pai, que se casou nada menos do que 7 vezes, casando-se ela mesma 14 vezes (!!!!!) com diversos atores e homens de negócios, incluindo um americano que mais tarde também foi casado com Samia Gamal. Apesar de tantos casamentos, Tahia nunca conseguiu engravidar, o que era algo que a entristecia, mas em compensação ela dava atenção especial aos seus sobrinhos, além de ter uma filha adotiva, Atiyat Allah.

Fora das telas e do palco, Tahia também mantinha uma vida política ativa. Até a revolução de 52, ela era leal ao Rei Farouk e à Monarquia, tanto que em 1953 chegou a ser presa pelo Nasser (que viria a ser o segundo presidente do Egito em 1956 e que foi um dos líderes da revolução de 52), que a manteve na prisão por 110 dias, isso por ela ter expressado em público o seu desejo de ver a volta do regime anterior.

A partir de então, Tahia se manteve politicamente ativa na luta pelos direitos dos egípcios, chegando até mesmo a entrar em greve em 1987, por conta de uma nova legislação que diminuía os direitos trabalhistas, inclusive dos atores.

Tahia era famosa entre os egípcios por conseguir ser sedutora sem ser vulgar, e esse tipo de citação pode ser encontrada em diversas fontes. Até Edward Said (famoso historiador palestino conhecido por sua obra "Orientalismo") é mencionado por ter dito certa vez que ela era capaz de ser sedutora sem se esforçar, sem ser vulgar, que ela era capaz de dominar as autoridades sem perder a compostura, além da forma franca e direta que era capaz de contar suas experiências fracassadas com os homens (também, com 14 casamentos, haja história!).



De certa forma, pode-se dizer que Tahia incorporava diversos traços que os egípcios gostam de ver e com as quais eles se identificam. Ela tinha uma personalidade muito forte, não se deixando dobrar com facilidade, mas sem deixar de ser simpática e encantadora.


Como exemplo disso, existe uma citação dela que diz "Quando eu dançava, ninguém falava, e nenhum garçom servia nada. Eu simplesmente não permitia. Certa vez um homem estava falando durante o meu show em Beirute, e eu bati nele com minha bengala até ele se calar! Hoje em dia as casas noturnas são muito barulhentas, e as bailarinas vulgares demais. Eu não aprovo."


Apesar do relacionamento conturbado com seus familiares e com os fãs egípcios por ela ser bailarina, Tahia foi uma das artistas mais amadas do Egito. Ela se aposentou da dança 1963, continuando na carreira de atriz. Quando ficou mais velha, fez a peregrinação a Meca e passou a usar véu, o que a deu ainda mais credibilidade no Egito. Os egípcios adoram histórias de bailarinas que se tornam mais religiosas e param de dançar.


Após passar seus últimos 13 anos de vida dedicando-se ao Islã, ela faleceu em 1999, aos 80 anos, por conta de um ataque cardíaco, e o seu funeral foi um grande acontecimento público, com a procissão sendo liderada pelo ministro da cultura da época, Farouk Hosni.

E como não poderia deixar de colocar aqui, Tahia Carioca para o nosso deleite!

 

Fontes:
  
Hossam Ramzy

Gilded Serpent

Shira  


Body Raks Bellydance

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Estilos e Leitura musical: dançando solos de derbake - Asmahan

Uma dúvida frequente das bailarinas de dança do ventre é como fazer na hora de dançar um solo de derbake ao vivo?

O grande mestre Hossam Ramzy explica que bons solos de derbake são feitos em partes de 4, isto é, cada pedaço do solo se repete 4 vezes, dessa forma, há tempo hábil para a bailarina aperfeiçoar a leitura de cada parte durante as suas repetições, além de dar uma cadência deliciosa na música. Essa forma de ver a leitura parte do princípio que o músico cria e a bailarina transforma o som em movimento (leia tudo sobre o que o mestre fala sobre leitura musical sobre esse ponto de vista no site dele, vale a pena).

Mas e se for ao contrário?

Observando diversos vídeos de bailarinas orientais, podemos encontrar vezes em que a bailarina dança e o músico é que segue, ele é que transforma os movimentos dela em sons.

Há algum tempo atrás me deparei com esse vídeo da bailarina egípcia Asmahan, e toda vez que o assisto eu preciso me segurar para não gargalhar alto. Nesse vídeo, Asmahan está dançando no Marrocos, com um derbakista que não está acostumado com esse tipo de "ponto de vista", e a bronca e as brincadeiras que ela faz por conta da falta de percepção do rapaz são simplesmente imperdíveis.

Vejamos!


A brincadeira começa quando ela começa a tentar mandar na orquestra em mais ou menos 1:45, ela quer um solo dos violinistas e começa a ler lindamente o que o violinista mais sênior está tocando. Daí o vídeo tem um corte em 2:15 para um solo de acordeon (que na verdade é o teclado, mas e daí?), que ela também lê lindamente com movimentos sinuosos. Em 2:35 tem outro corte no vídeo, para o solo de guitarra seguido por um solo do outro teclado. O vídeo infelizmente é muito cortado, pois tem outro corte em 3:18 para o solo da percussão, e aí quando a orquestra volta ela tenta pedir um certo tipo de som logo antes de mais um corte (daí não sabemos se os músicos entenderam! hahahaha) em 3:40. A parte divertida mesmo começa em 3:58. O solo de derbake! Você começa a ver que ela tenta pedir um certo tipo de som ao mover o shimmie para as laterais, mas o derbakista não está nem aí. Aí Asmahan começa a brincar com o público, que ele não está entendendo nada. Depois de mais um corte em 4:48 parece que a coisa deu uma melhorada, mas aí em 5:15 ela meio que perde a paciência, ele não percebeu que ela mudou o movimento e não fez as batidas com sonoridade adequada para o que ela quer, daí ela ignora o que ele está tocando e vai na direção dele olhando fixo e repetindo o movimento sem parar. Ele, coitado, parece não estar entendendo que aquilo é uma chamada  de atenção e mesmo olhando pra ela continua viajando na música da cabeça dele. Em 5:31 ela resolve sacanear mais um pouco e vira para o público, ela não gosta do que está ouvindo. Aí ela pega a cabeça do pobre coitado e aponta pra ela, mostra mais uma vez o movimento, e ainda nada. Até ela pedir pra ele simplesmente parar de tocar, em 5:50, e olhar pra ela. Aí ela mostra o movimento e ele toca, não está certo, ele tenta de novo, não, na terceira tentativa, olha a cara dela, aha! É isso! Aí ela começa a brincar na velocidade, e ele começa a acompanhar, mas logo dá mole (em 6:03), mas se recupera! Aí o público responde, claro! E Asmahan nem pensa duas vezes, vai para a beira do palco, manda o derbakista ficar quieto (em 6:30) e pede palmas para o shimmie dela. O derbakista não se segura e começa a acompanhar, claro, daí ela acrescenta marcações fortes de cabeça e braços e PEDE para o derbakista acompanhar, ele nada, claro. Então, a orquestra retoma em 6:59, e como a música é conhecida, Asmahan consegue trabalhar em cima. Em 7:50 o cantor sobe no palco e ela vai brincar com ele, querendo ver o que ele consegue fazer com o quadril, como ela rouba o microfone dele, ele quase perde a entrada dele da música e precisa pegar correndo o microfone em 8:00! Eu mencionei que esse vídeo é hilário? Pois bem. Ela ainda tenta controlar as coisas, mas, gente, tá difícil!

Vocês conhecem mais algum vídeo engraçado desse jeito com músicos que não estão entendendo as deixas? Se sim, compartilhe nos comentários!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Estilos e leitura musical - Lissa Faker (revisto)

Ano novo que começa, é o momento para alimentar a nossa alma e nos encher de ideias para o ano que está começando!

Esse post deve ser curtinho, mas tem material para estudar por um bom tempo! Venho mostrar a vocês dois vídeos de duas bailarinas maravilhosas dançando a mesma música para que possamos estudar dois estilos diferentes fazendo uma belíssima leitura musical!

A música é Lissa Faker, da maior cantora árabe de todos os tempos, a egípcia Oum Kalthoum, de quem pretendo falar ainda esse ano no blog. Vale a pena reparar nas diferenças de arranjo entre as duas versões.

A primeira bailarina é a "diva-mór" Fifi Abdo, que eu tive o privilégio de ver ao vivo em Porto Alegre. Fifi não é conhecida por ser uma bailarina de muitos passos e variações, pelo contrário, mas a sua genialidade está na forma como ela consegue fazer o mesmo passo parecer sempre novo, espontâneo, na sua incrível presença e carisma. E, claro, no seu quadril bizarramente soltinho. A sua versão de Lissa Faker é um solo de alaúde, instrumento que combina demais com o seu tipo de movimento de quadril mais característico. Vale notar também o público cantando a letra no fundo no final!



Em termos de leitura musical da Fifi, repare que durante a primeira parte (até 2:38) a melodia se repete algumas vezes, e se você prestar atenção você vai ver que ela repete o que ela faz nas repetições. Repare que ela alonga os movimentos no momento em que a melodia dá uma "arrastada", às vezes ignorando o som vibratório do alaúde (fazendo movimentos sinuosos), às vezes acompanhando a vibração com shimmie. Em especial, a última frase dessa primeira parte aparece novamente no final do vídeo, e ela repete os movimentos, linda. Pessoalmente acho lindas as pausas que ela faz em 4:20 e 4:47.

A segunda bailarina é Lucy, outra diva dos anos 90 do Egito, que anda meio sumida ultimamente. Sua versão de Lissa Faker também tem um taksim, mas de qanoun, o que também pede shimmies, mas de outra qualidade, menorzinhos, como ela mostra tão lindamente na sua dança. Mas sua versão da música também tem momentos orquestrados e um curto taksim de flauta, e a sua leitura musical é absolutamente perfeita. É um vídeo para se rever e rever e rever muitas vezes.



 Lucy começa lendo o solo do qanoun com um shimmie bem pequininho, perfeito para o instrumento, depois cresce o movimento na entrada do violino, fazendo mudanças de direção. Quando começa a orquestra, ela cresce junto, marcando com os "alongamentos" da melodia, dando ênfase em 0:49, e continua lendo a melodia com o quadril até o início do acordeon em 0:59. Aí ela faz apenas básicos egípcios, numa leitura bem baladi do instrumento, voltando a leitura da melodia quando volta a orquestra em 1:08. Repare que ela volta com leves deslocamentos, marcando a diferença de tamanho entre os solos e a orquestra, e que no final, em 1:27, ela desloca a leitura pelo corpo, terminando na mão, fechando a frase. Perfeito. Até porque a música segue com o qanoun, que ela lê marcando suas pausas, e quando a orquestra responde em 1:35 ela faz giros, terminando no exato momento em que retorna o qanoun, outra resposta da orquestra ocorre em 1:46, e ela lê perfeitamente a melodia até novo retorno do qanoun em 1:53. Em 2:04 ela repete o que houve em 1:35. Depois durante o solo do qanoun, o violino aparece e ela responde também. Deusa. O fechamento em 2:30 é particularmente bonito. Quando a orquestra retorna ela volta a leitura com leve deslocamento, pegando a melodia todinha. Em 3:02 vem o taksim de flauta, e ela capricha, muda posicionamento e coloca tudo em movimentos de braços, mudando de direção quando o violino surge. A orquestra retorna em 3:10, e a diva pega tudo, finalizando em 3:21. Retorna o qanoun e ela parece que lê ainda mais a melodia do solo, fazendo um deslocamento com a resposta da orquestra em 3:35, e voltando ao qanoun em 3:40. A orquestra volta em 3:54, e ela marca com mudanças de direção, e o qanoun marca de novo presença em 4:01. Em 4:13 a orquestra responde de novo, e ela pega toda a melodia. Fico emocionada quando vejo essas coisas. E aí o qanoun volta, com pequenas marcações da orquestra, que ela pega com variações do quadril ou dos braços. Em 5:00 vem um taksim do qanoun, e ela pega tudo, a danada, o público a anima em 5:21 (yalla!) e a música retoma com o qanoun e a orquestra no fundo, indo para o final da apresentação, e ela termina igual a Fifi!

Aliás, esses dois vídeos, com essas duas versões da mesma música, são maravilhosos para ilustrar a diferença entre esses dois instrumentos musicais e suas leituras. Nada como aprender com grandes mestras!

Para quem quiser, segue também a versão "completa e original" da música! Mas prepare-se, são 46 minutos de divação! Repare que a parte que Lucy e Fifi dançam é apenas o início da música, que aqui não é um taksim, tem uma entrada com a orquestra e só depois Oum Kalthoum começa a cantar.


E que 2016 seja assim, com muito shimmie, muita dança, muito lililili e muita inspiração!

Nota de revisão: Primeiramente eu descrevi a versão que a Fifi dança como um taksim, mas como foi bem apontado pela Rebeca Bayeh, taksim não é só um solo, envolve também improviso. Dentro da versão da Fifi tem taksim, assim como na versão da Lucy, mas a peça em si não é um taksim :-) Aproveitei a revisão para fazer descrições mais detalhadas dos vídeos.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Histórias da Dança: Badia Masabni

Desde o início do ano eu tenho andado meio sumida, mas isso apenas significa que andei estudando muito, repensando um monte de coisas... e que apesar de não ter escrito, muitas ideias têm passado pela minha cabeça, mesmo que elas ainda não tenham se transformado em posts.

Então, resolvi que para voltar aos poucos, tirando as teias de aranha do blog, era melhor começar com algo bem tranquilo, em termos de não conter nada que cause grande alvoroço na comunidade dançante, mas que, claro, seja algo inédito em português :-)

Nesses últimos meses resolvi me aprofundar na história documentada da dança do ventre, e nesse processo acabei topando com a lendária Badia Masabni. Descobri algumas fontes bem interessantes, que tratam bem detalhadamente sobre a vida dela, fiz um grande apanhado de tudo o que encontrei que tivesse um fonte minimamente confiável, e hoje trago para vocês a primeira parte da minha pesquisa.

Espero que gostem e fiquem de olho! Isso é apenas o começo...

Beijos!

Lalitha

Badia Masabni

Badia Al Masabni

De acordo com a sua autobiografia, Badia nasceu em Damasco (atual Síria) em 1894. Aos sete anos de idade, ela foi estuprada pelo dono de um café, que passou apenas quatro semanas na cadeia pelo crime, enquanto a vida de Badia mudou para sempre. Para evitar a sequente fofoca e a vergonha pelo o que aconteceu com uma das suas filhas, os pais de Badia levaram a família para a Argentina. Foi lá que Badia descobriu sua paixão pela música, dança e teatro.

Durante a sua adolescência, quando Badia entrou numa idade propícia para se casar, a família retornou à Síria. Porém, o seu passado não havia sido esquecido, e encontrar um marido se tornou uma tarefa muito difícil. Quando Badia finalmente se tornou noiva, os vizinhos contaram à família do noivo sobre o estupro, e o noivado foi interrompido.

Percebendo que lá ela não teria chance de prosperar, Badia decide fugir para Beirute, no Líbano. No trem, ela conhece uma mulher simpática que se oferece para ajuda-la, e quando elas chegam a Beirute, Badia descobre que a mesma “mulher simpática” era dona de um bordel. Sem ajuda da família, e sem ter uma profissão, Badia pensa numa solução para ganhar dinheiro que não envolva se prostituir, e assim ela se dedica às duas paixões da sua vida: canto e dança. Quando a sua mãe chega a Beirute para leva-la de volta para casa, Badia a convence a acompanha-la ao Cairo. Ela tinha 17 anos.

Já nessa época o Cairo era conhecido por ser um grande centro cultural, e Badia encontrou trabalho interpretando pequenos papéis na companhia teatral George Abiad. Ela mentia para sua mãe, dizendo que tinha conseguido um emprego noturno como costureira. Quando chegou o verão, época em que a companhia suspendia as apresentações no Cairo para fazer turnês pelo interior, Badia foi convidada a ir junto, dessa vez interpretando um papel importante. Então, sua mãe descobriu a verdade sobre o seu emprego e a forçou a pegar um trem de volta para casa. Quando o trem estava saindo para Alexandria, onde elas tomariam um navio para Beirute, Badia saltou do trem já em movimento e fugiu correndo. Ela conseguiu alcançar a companhia de teatro um dia antes deles partirem.

Em 1914, aos 20 anos, Badia estava atuando em Beirute, no famoso teatro da francesa Madame Jeanette, que empregava apenas artistas europeus, que se apresentavam para a elite libanesa. Mas Badia conseguiu convencer Madame a deixa-la atuar e cantar em árabe. Então, em setembro de 1914, Badia estreou acompanhada de duas mulheres austríacas, que tocavam alaúde e kanoun. Ela escolheu apresentar uma canção folclórica síria, dançando, cantando e tocando snujs, tudo ao mesmo tempo. Foi um grande sucesso, e ela ganhou uma apresentação fixa no teatro.

Badia continuou trabalhando pelo Líbano e pela Síria. E houve um episódio em Damasco, quando ela foi atacada por um dos seus irmãos, que quase a matou, tentando limpar a honra da família. Nessa época ela começou a trabalhar com a companhia do egípcio Nagib El Righany. Em 1921, ela retorna ao Cairo junto com ele, como a estrela da companhia. Todas as noites, Badia apresentava uma dança diferente, uma música nova e um figurino novo, o que mantinha o público muito intrigado e os fazia retornar.

Badia e Nagib se envolveram romanticamente e terminaram por se casar, mas o casamento foi conturbado e não durou muito tempo, apesar do relacionamento dos dois durar a vida inteira. Em 1926, Badia terminou de forma definitiva o casamento e abriu a sua própria casa de espetáculos, chamada Sala Badia Masabni, na Rua Emad El Din. (sala em árabe significa “hall de entrada”, podendo ser traduzido, nesse caso, de diversas formas, uma delas é Casino, que até é usado em árabe para descrever essas casas noturnas, mas é importante lembrar que esses Casinos não envolviam jogos de azar, eram casas noturnas com diversos tipos de espetáculos)

No início ela era praticamente a única artista se apresentando, mas conforme o seu sucesso cresceu, também aumentou a variedade das apresentações, que passou a incluir diversos músicos, peças de teatro, e depois dança oriental. Como outras casas da época, Badia começou contratando bailarinas de outras nacionalidades, como a turca Afranza Hanem.

Em 1928, Badia abriu uma casa noturna de veraneio, dessa vez em Alexandria, em El Selsela, chamada Sala Badia. Ela incluía um café, um jardim e uma vista espetacular do mar. Afranza Hanem também se apresentou lá. Essa casa funcionou apenas durante o verão de 28.

É importante ressaltar que até meados dos anos 20, a maioria das bailarinas se apresentava apenas em eventos, em casas particulares (casamentos, noivados etc), pequenos cafés ou em festivais ao ar livre. Dessa forma, ao levar bailarinas para a sua Sala, Badia precisou então contratar diversos artistas e coreógrafos para ajudar na adaptação da dança para o palco. Entre eles estavam Isaac Dixon, Robbie Robinson e Khristo Kladax, este último pode ser encontrado no Youtube dançando junto com Ketty e Nadia Gamal, em números de dança moderna. Foi nessa época também que surgiu o figurino mais associado com a dança do ventre, com o cinturão e o bustiê.

Em 1930, Badia voltou sua atenção para o desenvolvimento da sua Sala na rua Emad El Din. Nesse ano ela aumentou ainda mais a quantidade de músicos e bailarinas, entre essas últimas estavam Bouthania, Nadira, Khayriya e a libanesa Beba Ezzel Din, que se tornaria uma figura importante em sua vida.

Nesse ano também, Badia abriu uma nova casa noturna de veraneio, dessa vez em Gizé. Após diversas obras de melhorias, a casa reabriu em 1931, com um cinema chamado Cinema Badia, um teatro chamado Teatro Badia e uma casa noturna, com o nome Cabaret Badia. O complexo era chamado de Casino Badia.

Durante essa época, diversos artistas começaram a trabalhar com Badia, incluindo Tahia Carioca, que entrou para a grade de shows em 1933, quando a sua antiga “patroa” Souad Mahasen se aposentou. (o que é discutível, outras fontes indicam que Souad não queria que Tahia, que era da sua cidade natal entrasse para esse meio de reputação discutível, mas que a beleza de Tahia acabou por chegar nos ouvidos de Badia, e aí... o resto é história)

Um raro vídeo da Badia dançando com algumas bailarinas do seu Casino, entre as meninas do coro está Tahia Carioca!


Enquanto isso, Badia continuou investindo na sua carreira como atriz, fazendo diversas turnês teatrais. Durante essas turnês ela entregava a administração da Sala Badia no Cairo para o seu sobrinho Antoine, que era casado com a sua filha adotiva Juliet. Porém, o casamento entre os dois era de conveniência e eles não se davam bem, o que traria muitos problemas para Badia no futuro.

Em 1935 Badia tenta um movimento radical, ela anuncia que vai se aposentar dos casinos e do teatro e trabalhar apenas no cinema. O seu primeiro filme, Malikatel Massareh (Rainhas do Teatro), é lançado em 36, mas é um fracasso de bilheteria. Isso porque no mesmo ano foi lançado um grande filme com Um Kulthum. Logo em seguida, por motivos financeiros, Badia desiste de se aposentar e volta a trabalhar nos casinos e produzindo peças de teatro.

Porém, quando ela retorna, descobre que o seu sobrinho Antoine havia vendido a Sala Badia para a sua amante, a bailarina libanesa Beba Ezzel Din (eu disse que ela se tornaria importante!). Beba já havia despedido grande parte dos artistas da casa, incluindo Tahia. Na noite de estreia da casa com nova administração, Beba colocou diversos seguranças para impedir a entrada da antiga proprietária.

Além disso, Beba manteve o nome da casa, lucrando com o nome de Badia.

Em 1937, sem uma casa noturna, Badia alugou o teatro Brentania e produziu diversas peças para recuperar suas finanças. E, além disso, aproveitou o verão desse ano com sua casa noturna de veraneio em Gizé.

No final de 1938, ela abriu uma nova casa noturna na rua Emad El Din, ao lado da antiga Sala Badia, agora Sala Beba, e lhe deu o nome de Casino e Cabaret Badia. Tahia Carioca foi recontratada e dançou na noite de abertura. Apesar das casas noturnas serem uma do lado da outra, a casa de Badia recebia uma clientela de alta classe, da elite do Cairo, enquanto a casa de Beba recebia clientes mais populares, que muitas vezes ficavam embriagados e arranjavam confusão.

Em 39, Badia se concentrou nas suas casas noturnas e criou uma trupe de bailarinas, incluindo Tahia Carioca, que ela mesma ensaiava e ensinava.

Porém, no mesmo ano começou a segunda guerra mundial, que teve um impacto negativo no ambiente da rua Emal El Din, que passou a estar sempre cheia de soldados bêbados.

No ano seguinte, Badia conseguiu um empréstimo e comprou uma nova casa noturna, maior e mais bem localizada, na Royal Opera Square, com o primeiro palco em forma de arena para casas desse estilo. E essa casa noturna é que ficou conhecida como Casino Opera. Foi nesse Casino que surgiram as primeiras grandes estrelas da dança do ventre e do cinema egípcio. Além de Tahia Carioca, começaram no seu palco Samia Gamal, Nadia Gamal (que depois iria para o Líbano), Ketty, Hoda Shamsadine, Hagar Hamdy e Naima Akef (apesar de algumas fontes indicarem que ela na verdade começou na casa de Beba). Grandes músicos e cantores também começaram sua carreira lá, como Farid El Atrache, Ibrahim Hammouda e Mohamad Abdel Wahab.

Em 1950, após 10 anos de grande sucesso no casino mais famoso do Cairo, Badia decidiu vender a casa. Alguns fatores importantes a levaram a essa decisão.

Após o final da segunda guerra, Badia colocou novamente o seu sobrinho Antoine, a quem havia perdoado, na administração do Casino, além de convida-lo a viver na sua casa. O Casino também havia sido transferido para o nome dele, para facilitar o processo de herança caso algo acontecesse com ela. Ela decide então viajar pela Europa, em busca de novos talentos para o Casino.

Quando ela retorna de viagem, descobre que Antoine havia desaparecido, deixando a casa dela totalmente vazia e o Casino sem ninguém para administrar. Para piorar, quando ela finalmente encontra Antoine, ele está com uma nova amante, a atriz Soraya Helmi, com quem ele havia gasto uma enorme quantia de dinheiro, contraindo uma grande dívida. Em troca da devolução do Casino Opera, ele pede que ela pague todas as suas dívidas, o que Badia acaba aceitando.

Nessa mesma época, Beba Ezz El Din pede desculpas a Badia pelo o que havia feito no passado, e após as duas fazerem as pazes e acabarem por brigar novamente por conta do comportamento de Beba no Casino, Beba começa a espalhar o rumor de que Badia quer vender a casa.

A cereja do bolo foi a morte do seu antigo marido, Nagib El Righany, em meados de 1949.

Após a morte dele, Badia viaja ao Líbano e se apaixona por um jovem rapaz, cujo sonho era abrir uma livraria, mas que precisava da ajuda financeira dela para isso. Ela decide então voltar ao Cairo e realmente vender o Casino.

Badia então contata o seu advogado, solicitando que realize a venda, e aceita uma das primeiras propostas que surgem, sem saber que era de Beba. Quando ela descobre, Badia decide manter a venda, mas inclui uma cláusula que obriga Beba a manter o nome Casino Opera após a compra. Beba mantém a propriedade do Casino apenas até 1951, quando morre num acidente de carro.

Mas Badia ainda tem uma estrada tortuosa pela frente, o seu advogado não a avisou que de acordo com a nova legislação do Egito, qualquer venda desse tipo deveria ser informada ao Fisco dois meses antes do anúncio da venda, senão o negócio seria considerado como evasão de impostos, sendo sujeito a uma multa a ser estipulada arbitrariamente pelo Fisco. Ela seria obrigada a pagar essa multa ou ir para a cadeia.

Badia é pega de surpresa ao ser avisada de uma multa a ser paga com um valor superior à venda que havia feito. Ela então consulta um novo advogado, que além de confirmar que ela tinha mesmo essa multa a pagar, sugere que ela venda rapidamente todas as suas posses no país, senão seus bens seriam confiscados, o que ela faz rapidamente. Ela decide então que a melhor solução seria fugir do país, de forma que ela pega todas as suas jóias e dinheiro e vai para o aeroporto, onde ela é presa.

Após pagar uma fiança, ela vai novamente ao aeroporto, onde ela paga uma quantia generosa para um estrangeiro que a leva num jato particular para o Líbano.

A primeira coisa que ela faz ao chegar lá é solicitar novamente por sua cidadania libanesa, o que lhe é dado em setembro de 1950. Ela acaba por não se casar com o jovem que queria uma livraria, mas sim com outro rapaz, 22 anos mais novo, mas o relacionamento dura apenas 2 meses.

Depois, Badia acaba comprando uma fazenda no interior, onde ela também mantém uma espécie de cafeteria, e lá passa o restante dos seus dias.




Tahia Carioca visita Badia em sua fazenda no Líbano

Badia mostra sua fazenda para Tahia Carioca

Tahia e Badia na lanchonete da fazenda
 
 Para dar um gostinho, um pedacinho de uma entrevista de quase uma hora que ela deu para uma emissora de televisão árabe, onde ela aparece cantando e tocando snujs: