terça-feira, 9 de junho de 2015

Histórias da Dança: Badia Masabni

Desde o início do ano eu tenho andado meio sumida, mas isso apenas significa que andei estudando muito, repensando um monte de coisas... e que apesar de não ter escrito, muitas ideias têm passado pela minha cabeça, mesmo que elas ainda não tenham se transformado em posts.

Então, resolvi que para voltar aos poucos, tirando as teias de aranha do blog, era melhor começar com algo bem tranquilo, em termos de não conter nada que cause grande alvoroço na comunidade dançante, mas que, claro, seja algo inédito em português :-)

Nesses últimos meses resolvi me aprofundar na história documentada da dança do ventre, e nesse processo acabei topando com a lendária Badia Masabni. Descobri algumas fontes bem interessantes, que tratam bem detalhadamente sobre a vida dela, fiz um grande apanhado de tudo o que encontrei que tivesse um fonte minimamente confiável, e hoje trago para vocês a primeira parte da minha pesquisa.

Espero que gostem e fiquem de olho! Isso é apenas o começo...

Beijos!

Lalitha

Badia Masabni

Badia Al Masabni

De acordo com a sua autobiografia, Badia nasceu em Damasco (atual Síria) em 1894. Aos sete anos de idade, ela foi estuprada pelo dono de um café, que passou apenas quatro semanas na cadeia pelo crime, enquanto a vida de Badia mudou para sempre. Para evitar a sequente fofoca e a vergonha pelo o que aconteceu com uma das suas filhas, os pais de Badia levaram a família para a Argentina. Foi lá que Badia descobriu sua paixão pela música, dança e teatro.

Durante a sua adolescência, quando Badia entrou numa idade propícia para se casar, a família retornou à Síria. Porém, o seu passado não havia sido esquecido, e encontrar um marido se tornou uma tarefa muito difícil. Quando Badia finalmente se tornou noiva, os vizinhos contaram à família do noivo sobre o estupro, e o noivado foi interrompido.

Percebendo que lá ela não teria chance de prosperar, Badia decide fugir para Beirute, no Líbano. No trem, ela conhece uma mulher simpática que se oferece para ajuda-la, e quando elas chegam a Beirute, Badia descobre que a mesma “mulher simpática” era dona de um bordel. Sem ajuda da família, e sem ter uma profissão, Badia pensa numa solução para ganhar dinheiro que não envolva se prostituir, e assim ela se dedica às duas paixões da sua vida: canto e dança. Quando a sua mãe chega a Beirute para leva-la de volta para casa, Badia a convence a acompanha-la ao Cairo. Ela tinha 17 anos.

Já nessa época o Cairo era conhecido por ser um grande centro cultural, e Badia encontrou trabalho interpretando pequenos papéis na companhia teatral George Abiad. Ela mentia para sua mãe, dizendo que tinha conseguido um emprego noturno como costureira. Quando chegou o verão, época em que a companhia suspendia as apresentações no Cairo para fazer turnês pelo interior, Badia foi convidada a ir junto, dessa vez interpretando um papel importante. Então, sua mãe descobriu a verdade sobre o seu emprego e a forçou a pegar um trem de volta para casa. Quando o trem estava saindo para Alexandria, onde elas tomariam um navio para Beirute, Badia saltou do trem já em movimento e fugiu correndo. Ela conseguiu alcançar a companhia de teatro um dia antes deles partirem.

Em 1914, aos 20 anos, Badia estava atuando em Beirute, no famoso teatro da francesa Madame Jeanette, que empregava apenas artistas europeus, que se apresentavam para a elite libanesa. Mas Badia conseguiu convencer Madame a deixa-la atuar e cantar em árabe. Então, em setembro de 1914, Badia estreou acompanhada de duas mulheres austríacas, que tocavam alaúde e kanoun. Ela escolheu apresentar uma canção folclórica síria, dançando, cantando e tocando snujs, tudo ao mesmo tempo. Foi um grande sucesso, e ela ganhou uma apresentação fixa no teatro.

Badia continuou trabalhando pelo Líbano e pela Síria. E houve um episódio em Damasco, quando ela foi atacada por um dos seus irmãos, que quase a matou, tentando limpar a honra da família. Nessa época ela começou a trabalhar com a companhia do egípcio Nagib El Righany. Em 1921, ela retorna ao Cairo junto com ele, como a estrela da companhia. Todas as noites, Badia apresentava uma dança diferente, uma música nova e um figurino novo, o que mantinha o público muito intrigado e os fazia retornar.

Badia e Nagib se envolveram romanticamente e terminaram por se casar, mas o casamento foi conturbado e não durou muito tempo, apesar do relacionamento dos dois durar a vida inteira. Em 1926, Badia terminou de forma definitiva o casamento e abriu a sua própria casa de espetáculos, chamada Sala Badia Masabni, na Rua Emad El Din. (sala em árabe significa “hall de entrada”, podendo ser traduzido, nesse caso, de diversas formas, uma delas é Casino, que até é usado em árabe para descrever essas casas noturnas, mas é importante lembrar que esses Casinos não envolviam jogos de azar, eram casas noturnas com diversos tipos de espetáculos)

No início ela era praticamente a única artista se apresentando, mas conforme o seu sucesso cresceu, também aumentou a variedade das apresentações, que passou a incluir diversos músicos, peças de teatro, e depois dança oriental. Como outras casas da época, Badia começou contratando bailarinas de outras nacionalidades, como a turca Afranza Hanem.

Em 1928, Badia abriu uma casa noturna de veraneio, dessa vez em Alexandria, em El Selsela, chamada Sala Badia. Ela incluía um café, um jardim e uma vista espetacular do mar. Afranza Hanem também se apresentou lá. Essa casa funcionou apenas durante o verão de 28.

É importante ressaltar que até meados dos anos 20, a maioria das bailarinas se apresentava apenas em eventos, em casas particulares (casamentos, noivados etc), pequenos cafés ou em festivais ao ar livre. Dessa forma, ao levar bailarinas para a sua Sala, Badia precisou então contratar diversos artistas e coreógrafos para ajudar na adaptação da dança para o palco. Entre eles estavam Isaac Dixon, Robbie Robinson e Khristo Kladax, este último pode ser encontrado no Youtube dançando junto com Ketty e Nadia Gamal, em números de dança moderna. Foi nessa época também que surgiu o figurino mais associado com a dança do ventre, com o cinturão e o bustiê.

Em 1930, Badia voltou sua atenção para o desenvolvimento da sua Sala na rua Emad El Din. Nesse ano ela aumentou ainda mais a quantidade de músicos e bailarinas, entre essas últimas estavam Bouthania, Nadira, Khayriya e a libanesa Beba Ezzel Din, que se tornaria uma figura importante em sua vida.

Nesse ano também, Badia abriu uma nova casa noturna de veraneio, dessa vez em Gizé. Após diversas obras de melhorias, a casa reabriu em 1931, com um cinema chamado Cinema Badia, um teatro chamado Teatro Badia e uma casa noturna, com o nome Cabaret Badia. O complexo era chamado de Casino Badia.

Durante essa época, diversos artistas começaram a trabalhar com Badia, incluindo Tahia Carioca, que entrou para a grade de shows em 1933, quando a sua antiga “patroa” Souad Mahasen se aposentou. (o que é discutível, outras fontes indicam que Souad não queria que Tahia, que era da sua cidade natal entrasse para esse meio de reputação discutível, mas que a beleza de Tahia acabou por chegar nos ouvidos de Badia, e aí... o resto é história)

Um raro vídeo da Badia dançando com algumas bailarinas do seu Casino, entre as meninas do coro está Tahia Carioca!


Enquanto isso, Badia continuou investindo na sua carreira como atriz, fazendo diversas turnês teatrais. Durante essas turnês ela entregava a administração da Sala Badia no Cairo para o seu sobrinho Antoine, que era casado com a sua filha adotiva Juliet. Porém, o casamento entre os dois era de conveniência e eles não se davam bem, o que traria muitos problemas para Badia no futuro.

Em 1935 Badia tenta um movimento radical, ela anuncia que vai se aposentar dos casinos e do teatro e trabalhar apenas no cinema. O seu primeiro filme, Malikatel Massareh (Rainhas do Teatro), é lançado em 36, mas é um fracasso de bilheteria. Isso porque no mesmo ano foi lançado um grande filme com Um Kulthum. Logo em seguida, por motivos financeiros, Badia desiste de se aposentar e volta a trabalhar nos casinos e produzindo peças de teatro.

Porém, quando ela retorna, descobre que o seu sobrinho Antoine havia vendido a Sala Badia para a sua amante, a bailarina libanesa Beba Ezzel Din (eu disse que ela se tornaria importante!). Beba já havia despedido grande parte dos artistas da casa, incluindo Tahia. Na noite de estreia da casa com nova administração, Beba colocou diversos seguranças para impedir a entrada da antiga proprietária.

Além disso, Beba manteve o nome da casa, lucrando com o nome de Badia.

Em 1937, sem uma casa noturna, Badia alugou o teatro Brentania e produziu diversas peças para recuperar suas finanças. E, além disso, aproveitou o verão desse ano com sua casa noturna de veraneio em Gizé.

No final de 1938, ela abriu uma nova casa noturna na rua Emad El Din, ao lado da antiga Sala Badia, agora Sala Beba, e lhe deu o nome de Casino e Cabaret Badia. Tahia Carioca foi recontratada e dançou na noite de abertura. Apesar das casas noturnas serem uma do lado da outra, a casa de Badia recebia uma clientela de alta classe, da elite do Cairo, enquanto a casa de Beba recebia clientes mais populares, que muitas vezes ficavam embriagados e arranjavam confusão.

Em 39, Badia se concentrou nas suas casas noturnas e criou uma trupe de bailarinas, incluindo Tahia Carioca, que ela mesma ensaiava e ensinava.

Porém, no mesmo ano começou a segunda guerra mundial, que teve um impacto negativo no ambiente da rua Emal El Din, que passou a estar sempre cheia de soldados bêbados.

No ano seguinte, Badia conseguiu um empréstimo e comprou uma nova casa noturna, maior e mais bem localizada, na Royal Opera Square, com o primeiro palco em forma de arena para casas desse estilo. E essa casa noturna é que ficou conhecida como Casino Opera. Foi nesse Casino que surgiram as primeiras grandes estrelas da dança do ventre e do cinema egípcio. Além de Tahia Carioca, começaram no seu palco Samia Gamal, Nadia Gamal (que depois iria para o Líbano), Ketty, Hoda Shamsadine, Hagar Hamdy e Naima Akef (apesar de algumas fontes indicarem que ela na verdade começou na casa de Beba). Grandes músicos e cantores também começaram sua carreira lá, como Farid El Atrache, Ibrahim Hammouda e Mohamad Abdel Wahab.

Em 1950, após 10 anos de grande sucesso no casino mais famoso do Cairo, Badia decidiu vender a casa. Alguns fatores importantes a levaram a essa decisão.

Após o final da segunda guerra, Badia colocou novamente o seu sobrinho Antoine, a quem havia perdoado, na administração do Casino, além de convida-lo a viver na sua casa. O Casino também havia sido transferido para o nome dele, para facilitar o processo de herança caso algo acontecesse com ela. Ela decide então viajar pela Europa, em busca de novos talentos para o Casino.

Quando ela retorna de viagem, descobre que Antoine havia desaparecido, deixando a casa dela totalmente vazia e o Casino sem ninguém para administrar. Para piorar, quando ela finalmente encontra Antoine, ele está com uma nova amante, a atriz Soraya Helmi, com quem ele havia gasto uma enorme quantia de dinheiro, contraindo uma grande dívida. Em troca da devolução do Casino Opera, ele pede que ela pague todas as suas dívidas, o que Badia acaba aceitando.

Nessa mesma época, Beba Ezz El Din pede desculpas a Badia pelo o que havia feito no passado, e após as duas fazerem as pazes e acabarem por brigar novamente por conta do comportamento de Beba no Casino, Beba começa a espalhar o rumor de que Badia quer vender a casa.

A cereja do bolo foi a morte do seu antigo marido, Nagib El Righany, em meados de 1949.

Após a morte dele, Badia viaja ao Líbano e se apaixona por um jovem rapaz, cujo sonho era abrir uma livraria, mas que precisava da ajuda financeira dela para isso. Ela decide então voltar ao Cairo e realmente vender o Casino.

Badia então contata o seu advogado, solicitando que realize a venda, e aceita uma das primeiras propostas que surgem, sem saber que era de Beba. Quando ela descobre, Badia decide manter a venda, mas inclui uma cláusula que obriga Beba a manter o nome Casino Opera após a compra. Beba mantém a propriedade do Casino apenas até 1951, quando morre num acidente de carro.

Mas Badia ainda tem uma estrada tortuosa pela frente, o seu advogado não a avisou que de acordo com a nova legislação do Egito, qualquer venda desse tipo deveria ser informada ao Fisco dois meses antes do anúncio da venda, senão o negócio seria considerado como evasão de impostos, sendo sujeito a uma multa a ser estipulada arbitrariamente pelo Fisco. Ela seria obrigada a pagar essa multa ou ir para a cadeia.

Badia é pega de surpresa ao ser avisada de uma multa a ser paga com um valor superior à venda que havia feito. Ela então consulta um novo advogado, que além de confirmar que ela tinha mesmo essa multa a pagar, sugere que ela venda rapidamente todas as suas posses no país, senão seus bens seriam confiscados, o que ela faz rapidamente. Ela decide então que a melhor solução seria fugir do país, de forma que ela pega todas as suas jóias e dinheiro e vai para o aeroporto, onde ela é presa.

Após pagar uma fiança, ela vai novamente ao aeroporto, onde ela paga uma quantia generosa para um estrangeiro que a leva num jato particular para o Líbano.

A primeira coisa que ela faz ao chegar lá é solicitar novamente por sua cidadania libanesa, o que lhe é dado em setembro de 1950. Ela acaba por não se casar com o jovem que queria uma livraria, mas sim com outro rapaz, 22 anos mais novo, mas o relacionamento dura apenas 2 meses.

Depois, Badia acaba comprando uma fazenda no interior, onde ela também mantém uma espécie de cafeteria, e lá passa o restante dos seus dias.




Tahia Carioca visita Badia em sua fazenda no Líbano

Badia mostra sua fazenda para Tahia Carioca

Tahia e Badia na lanchonete da fazenda
 
 Para dar um gostinho, um pedacinho de uma entrevista de quase uma hora que ela deu para uma emissora de televisão árabe, onde ela aparece cantando e tocando snujs:

 





7 comentários:

  1. Laura, seu texto e seu blog são tesouros!
    Obrigada por compartilhar.
    Abração!
    Rebeca

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    1. Oi, Rebeca! Às vzs te "leio" na Sala de Dança Podcast ;-)

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  2. Ontem li o livro de uma escritora portuguesa (esqueci seu nome, olha que pecado) que fala sobre Sofrimento sob o viés budista. Nada pesado, bem light, gostosinho de ler. Lá há a história de um homem que separou-se da esposa e estava sofrendo muito e tals, então foi à Índia. Lá, viu o sofrimento exposto sob todas as formas, nas ruas, em todos os lugares e rostos; para lascar tudo conheceu um homem que foi conhecer a Índia com a esposa e um casal de amigos...em dado momento a esposa ficou sozinha no carro, que foi "atropelado" por um caminhão. Resultado óbvio: perdeu a esposa, o casal voltou para a América, mas ele decidiu continuar a viagem que planejara com a amada. O homem que APENAS descasou-se se sentiu até envergonhado da própria dor e voltou para sua vida e procurou salvar ao menos a amizade com a "ex".
    Quando ia lendo a história de Badia lembrei de Edith Piaf, que também viveu uma saga e fiquei pensando em mim. Estou vivendo um momento delicado - que antes deste post eu chamaria de trágico #nãoMais.
    Obrigadão pela partilha, amora!

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  3. Laura, adorei seu post, parabéns pela pesquisa extensa! Já o linkei num texto meu. Só para reforçar (essa história do estupro dela me marcou) e como isso pode acabar com a vida de mulheres:

    http://www.geledes.org.br/por-que-ainda-nao-podemos-vivenciar-plenamente-a-autonomia-sobre-os-nossos-corpos/?utm_source=Atualiza%C3%A7%C3%A3o+Di%C3%A1ria+Geled%C3%A9s&utm_medium=email&utm_campaign=03a26997c1-RSS-NEWS-Portal-Geledes&utm_term=0_b0800116ad-03a26997c1-354133801

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    1. Nossa Hanna!Que texto forte o seu! Adorei. O problema é realmente grave, e precisamos de pessoas que o tratem com essa seriedade e sem tabus. Enquanto houver tabu estaremos escondendo a poeira debaixo do tapete e não haverá mudanças reais. Obrigada por compartilhar conosco! Beijos!

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  4. Nossa... Seu blogue é uma riqueza,vou indicar,muito capricho e carinho!!Parabéns!

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  5. Copiei mais coloquei os créditos a ti na minha apostila. Bem detalhado.

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