segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Histórias da Dança: Tahia Carioca




Tahia Carioca foi um dos grandes ícones da Era de Ouro da Dança do Ventre, que podemos dizer que aconteceu entre 1930 e 1959, aproximadamente. Você pode encontrar vídeos dessa bailarina espetacular em praticamente qualquer coletânea de vídeos dessa época, e todos eles valem a pena ser estudados, pois Tahia foi uma das bailarinas que ficaram conhecidas por elevar o nível técnico da dança oriental no Egito. Tanto que foi chamada pela revista New York Times como uma pioneira da dança oriental moderna, isto é, como ela é dançada hoje.

Tahia nasceu em Ismalia, no Egito, em 1919 como Badaweya Mohamed Kareem Al Nirani. Por conta de problemas de convivência com sua família, ela fugiu para o Cairo, onde foi morar com uma antiga vizinha, Souad Mahasen, que era dona de uma casa noturna.

Quando chegou ao Cairo, Tahia começou a estudar dança na Escola de Dança Ivanova, e apesar de pedir uma oportunidade para trabalhar na casa noturna de Souad, a sua vizinha queria impedir que a menina recém chegada de sua cidade natal, e por quem ela tinha muito carinho, entrasse nesse estilo de vida, que desde sempre foi considerado de baixíssima reputação. Alguns relatos indicam que Souad acabou cedendo aos pedidos de Tahia, enquanto outros indicam que apesar de suas reticências, o rumor da beleza de menina chegou aos ouvidos de Badia Al Masabni, que ofereceu um lugar para ela dançar na sua famosa Sala.

Independentemente de como ela chegou à Sala de Badia, quando Tahia começou a trabalhar lá em 1933 o seu nome artístico ainda era Tahia Mohamed, porém, foi justamente nessa época que uma dança se tornou famosa por conta de um filme do Fred Astaire e Ginger Rogers. Essa dança tinha como nome Carioca, pois era baseada no trabalho da luso-brasileira Carmen Miranda, e,claro, que Tahia começou a dança-la, obtendo um grande sucesso, e foi assim ela ganhou um novo nome artístico: Tahia Carioca.  Mais tarde ela incorporaria passos de danças latinas em suas performances.

Tahia Carioca versão Carmen Miranda!

A partir daí o seu sucesso foi galopante. Tahia começou a trabalhar na indústria do cinema em 1935, e participou de mais de 120 filmes, sem contar peças de teatro e programas de televisão, incluindo diversas novelas. Ela era tão famosa que muitas vezes era chamada de a Marilyn Monroe do Egito (título esse que também era atribuído a sua contemporânea Samia Gamal). É importante lembrar que Tahia não só dançava brilhantemente, mas também cantava e atuava.

O primeiro filme em que ela aparece como atriz é de 1946 e se chama "Laabet el sitt"("O Fantoche da Dama") e um dos pontos altos de sua carreira foi o filme "ShababImra" ("A Juventude de uma mulher"), que foi exibido em Cannes em 1956. Ela chegou a ser chamada para participar de filmes em Hollywood, mas havia a exigência que ela fizesse aulas de ballet, pois seus braços foram considerados pouco elaborados, o que ela teria se recusado a fazer pois ela era uma bailarina profissional e não precisava de ajuda para dançar. Sendo rejeitados por Tahia, os produtores de Hollywood fizeram contato com a sua então rival, Samia Gamal, que aceitou a fez história.


Existem algumas lendas em torno de Tahia Carioca. Por exemplo, dizem que em 1936 ela dançou no casamento do Rei Farouk, do Egito (que na época era uma monarquia), onde dividiu o palco nada menos do que Um Kulthum, que era uma das suas fãs. Tanto que dizem que Um Kulthum afirmou que Tahia cantava com o seu corpo (olha aí a leitura musical!). Também existem relatos de que nesse mesmo evento ela teria dado um tapa no Rei, por ele ter colocado uma pedra de gelo dentro da sua roupa enquanto ela dançava. De uma forma geral, a relação de Tahia com o Rei Farouk era complicada, encontram-se relatos de que ela adorava a Rainha Farida, esposa de Farouk, e só aturava o Rei por conta dela, e que depois que os dois se divorciaram ela nunca mais teria aceitado nenhum convite dele para dançar, incluindo um convite para dançar na sua segunda festa de casamento. Quando o rei faleceu, sua segunda esposa disse a Tahia que ela sabia o quanto ela não gostava dela, ao qual Tahia teria respondido que sim, não gostava, porque ela havia trazido má sorte ao Egito ao se casar com o Rei.

Na esfera pessoal, Tahia acabou por seguir os passos do seu pai, que se casou nada menos do que 7 vezes, casando-se ela mesma 14 vezes (!!!!!) com diversos atores e homens de negócios, incluindo um americano que mais tarde também foi casado com Samia Gamal. Apesar de tantos casamentos, Tahia nunca conseguiu engravidar, o que era algo que a entristecia, mas em compensação ela dava atenção especial aos seus sobrinhos, além de ter uma filha adotiva, Atiyat Allah.

Fora das telas e do palco, Tahia também mantinha uma vida política ativa. Até a revolução de 52, ela era leal ao Rei Farouk e à Monarquia, tanto que em 1953 chegou a ser presa pelo Nasser (que viria a ser o segundo presidente do Egito em 1956 e que foi um dos líderes da revolução de 52), que a manteve na prisão por 110 dias, isso por ela ter expressado em público o seu desejo de ver a volta do regime anterior.

A partir de então, Tahia se manteve politicamente ativa na luta pelos direitos dos egípcios, chegando até mesmo a entrar em greve em 1987, por conta de uma nova legislação que diminuía os direitos trabalhistas, inclusive dos atores.

Tahia era famosa entre os egípcios por conseguir ser sedutora sem ser vulgar, e esse tipo de citação pode ser encontrada em diversas fontes. Até Edward Said (famoso historiador palestino conhecido por sua obra "Orientalismo") é mencionado por ter dito certa vez que ela era capaz de ser sedutora sem se esforçar, sem ser vulgar, que ela era capaz de dominar as autoridades sem perder a compostura, além da forma franca e direta que era capaz de contar suas experiências fracassadas com os homens (também, com 14 casamentos, haja história!).



De certa forma, pode-se dizer que Tahia incorporava diversos traços que os egípcios gostam de ver e com as quais eles se identificam. Ela tinha uma personalidade muito forte, não se deixando dobrar com facilidade, mas sem deixar de ser simpática e encantadora.


Como exemplo disso, existe uma citação dela que diz "Quando eu dançava, ninguém falava, e nenhum garçom servia nada. Eu simplesmente não permitia. Certa vez um homem estava falando durante o meu show em Beirute, e eu bati nele com minha bengala até ele se calar! Hoje em dia as casas noturnas são muito barulhentas, e as bailarinas vulgares demais. Eu não aprovo."


Apesar do relacionamento conturbado com seus familiares e com os fãs egípcios por ela ser bailarina, Tahia foi uma das artistas mais amadas do Egito. Ela se aposentou da dança 1963, continuando na carreira de atriz. Quando ficou mais velha, fez a peregrinação a Meca e passou a usar véu, o que a deu ainda mais credibilidade no Egito. Os egípcios adoram histórias de bailarinas que se tornam mais religiosas e param de dançar.


Após passar seus últimos 13 anos de vida dedicando-se ao Islã, ela faleceu em 1999, aos 80 anos, por conta de um ataque cardíaco, e o seu funeral foi um grande acontecimento público, com a procissão sendo liderada pelo ministro da cultura da época, Farouk Hosni.

E como não poderia deixar de colocar aqui, Tahia Carioca para o nosso deleite!

 

Fontes:
  
Hossam Ramzy

Gilded Serpent

Shira  


Body Raks Bellydance

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