Esse é um livro que deveria ser editado em todos os países onde se
estuda dança do ventre, e que talvez eu devesse ter lido há muitos anos
atrás, mas sabe como é a vida... nunca dá tempo de ler tudo que a gente
gostaria e/ou deveria.
É uma coletânea de ensaios de diversos autores, começando pelo estudioso
Christian Poché, francês, óbvio, que tem diversas obras muitíssimo
interessantes sobre musicalidade, em especial a música árabe. Não
consigo entender porque ele nunca foi traduzido para o inglês, é
simplesmente uma perda para todos aqueles que não falam francês.
No ensaio de Christian (olha a intimidade), chamado "La danse arabe:
quelques repères" (A dança árabe: algumas referências), ele trata da
utilização de diversos termos pelos árabes para denotar ou não a dança
ao longo da história. Porque, quem estuda dança do ventre deve ter
percebido, existe uma total inexistência de estudos realizados por
árabes acerca da dança árabe. Só se começa a ter algum tipo de registro
de origem árabe, de estudos ou de forma puramente jornalística, a partir
do século XX. E quando eu digo registro, não é alto do tipo, "na região
Blá existe a dança Blé que se faz assim e assado", não, é algo ainda
mais complicado, é a ausência da palavra em árabe que denomina o ato de
dançar. De todos os textos do livro, esse é o mais pesado e complicado,
mas é realmente essencial para se entender algumas dificuldades
acadêmicas e também o posicionamento de diversos árabes com relação à
dança.
No ensaio seguinte, da organizadora do livro, Djamila Henni-Chebra, cujo
título é "Égypte: profession danseuse" (Egito: profissão bailarina),
está o melhor texto do livro. No trabalho de Djamila está traçada toda a
história documentada da dança do ventre, num trabalho primoroso de
pesquisa em jornais e revistas egípcios. Pessoalmente, a melhor parte de
ter lido esse texto é ter tido uma confirmação acadêmica e organizada
de tudo o que eu já havia lido em pedaços por aí e que fui juntando na
minha cabeça, Djamila simplesmente traduziu boa parte do que consegui
apreender em 15 anos de dança e estudo num texto preciso e gostoso de
ler. Pensando bem, acho que eu deveria me sentir mal.
O livro segue com 3 ensaios de danças folclóricas, o primeiro do Egito,
compreendendo em trechos traduzidos da tese de mestrado escrita nos anos
70 por Magda Saleh, prima ballerina do Egito, que hoje vive nos EUA.
Fiquei tão encucada com os trechos desse livro, que são tão ricos e bem
escritos, que agora estou enlouquecida atrás do texto completo de Magda,
e ainda não consegui. Uma tristeza, porque tenho a sensação que a tese de Magda é mais interessante do que a de Farida Fahmi.
O segundo ensaio de danças folclóricas é de Sellami Hosni, sobre a
Tunísia, que achei interessante, mas eu não me interesso particularmente
pelas danças tunisianas, então não li com tanta atenção.
E, por fim, um ensaio sobre danças da Algéria, de Brahim Bahloul.
Olha, é uma leitura obrigatória para quem estuda dança oriental.
P.S.:Sei que irão perguntar, então, pesquisei antecipadamente, e não encontrei nenhuma tradução desse livro para nenhum outro idioma, portanto, acredito que só tenha em francês.
Esse ano resolvi fazer um post diferente para comemorar o dia da mulher! Em vez de falar de dança, vou falar sobre literatura feita por mulheres no mundo árabe! Infelizmente nem tudo que mencionarei está disponível em português, porque a literatura árabe por aqui ainda não é tão procurada nem tão conhecida. Mas um dia a gente chega lá! Essa também não é uma lista muito extensa, pois vou me restringir apenas ao que já li.
Vamos começar com o Egito!
Entre as escritoras árabes que tratam do especificamente do universo feminino e da condição da mulher no mundo árabe existe dois lugares de honra reservados para duas mulheres egípcias incríveis!
Nawal El Saadawi
Essa escritora maravilhosa também é médica, e suas obras são muito influenciadas pelas vivências que ela teve ao visitar o interior do Egito e conhecer de perto a real situação das mulheres fora da capital do país. O que não torna o Cairo isento de ocorrer situações tão assustadoras quanto aquelas descritas nos seus livros. Suas obras ainda podem ser encontradas em sebos em português e existem traduções de Portugal. Aqui os livros que eu já tive a oportunidade de ler dessa grande feminista: God dies by the Nile e uma das obras mais icônicas Woman at point zero.
Huda Shaarawi
Essa é uma figura importantíssima na história do feminismo árabe, pois foi a primeira mulher a retirar o véu em público como um ato político! Influenciada pelo feminismo das sufragistas europeias, com quem tinha muito contato, Huda escreveu uma auto bibliografia/livro de memórias que é simplesmente DIVINO, chamado Harem Years, que infelizmente ainda não foi traduzido para o português. Mas, vale demais a leitura, e você pode ver a minha resenha sobre o mesmo aqui.
Ela é uma das inspirações para esse vídeo maravilhoso sobre a história do visual feminino no Egito de 1910 a 2010. Ela é a inspiração visual para 1920 :-D
Mais informações sobre cada visual desse vídeo estão aqui.
Dina
Ok, Dina é bailarina, e das mais controversas da atualidade, mas ela escreveu uma autobiografia extremamente interessante, e que já foi tema aqui no blog, sendo objeto de um mar de posts! Não está num lugar de honra, mas precisa ser mencionada e você encontra os antigos posts sobre sua autobiografia aqui.
Saindo do Egito e indo para o Líbano temos:
Joumana Haddad
Essa escritora nascida em Beirute também é jornalista, poetiza e ativista feminista! E se não bastasse tem pelo menos uma obra traduzida para o português! UHUUU! O interessante sobre sua obra é que a mesma transcende o mundo árabe, o que torna a leitura muito boa para nós pensarmos também sobre a nossa condição de mulher ocidental. Por enquanto só li um livro dela, mas tenho outros na lista, e você pode ver a minha resenha sobre "Eu matei Sherazade" aqui.
Hanan Al-Shaykh
Outra libanesa maravilhosa! Sua obra mais conhecida é "The story of Zahra", e ela segue a linha de denúncia da Nawal, o que torna a sua leitura bem pesada, mas simplesmente necessária. Você pode ler a minha resenha sobre esse livro aqui.
BÔNUS
Agora como bônus, vou sair um pouquinho do mundo estritamente árabe para mencionar uma autora iraniana, mas cuja obra é tão linda que precisa ser colocada aqui: Marjane Satrapi. Essa cartunista de origem persa escreveu graphic novels absolutamente imperdíveis! Entre elas a premiada "Persépolis" (que também virou um filme animado que chegou a disputar o Oscar!), "Frango com Ameixas" e "Bordados". Hoje Marjane vive na França e suas obras são majoritariamente para crianças, mas a maioria só tem em francês.
Outro bônus: foi lançado há pouco tempo em português uma tradução da autora turca Gül Irepoglu, algo que é para se comemorar, comentar e indicar o livro "A Concubina"!
Que este dia das mulheres amplie nossos horizontes!
Eu sempre sou pega desprevenida por toda bailarina que me
diz que eu estou “vivendo o sonho”. Toda vez que escuto isso tenho vontade de
perguntar, sério? Que sonho? Eu nunca sonhei em ser uma bailarina de dança do
ventre no Cairo. Eu nem sabia que isso era possível! =D
Verdade seja dita, eu não vim para o Egito com o objetivo de
ser uma “estrela”, ou porque alguém inflou o meu ego com mentiras. Eu vim para
o Egito porque estava com o coração partido. Eu não tinha terminado com um
namorado nem nada do gênero. Mas alguns anos antes, em 2006, eu vi algo que eu
realmente queria e achava que não poderia ter. Eu vi a verdadeira dança do
ventre egípcia num festival no Cairo, e eu queria desesperadamente aprende-la.
Como atingir esse nível de excelência na dança requer muitos anos de vida no
Cairo, decidi que era impossível e fiquei deprimida.
Acabou que eu estava errada. Afinal, eu tenho vivido no
Cairo há 4 anos. Mesmo assim, na época, se você tivesse me dito que isso iria
acontecer, eu teria respondido que eu também acredito na fada do dente. Eu
tinha acabado de entrar em Harvard, e passaria os dois anos seguintes da minha
vida ali, e depois arranjaria um emprego e teria filhos. Eu não conseguia
imaginar interromper o curso natural das coisas para encaixar o Egito. Nem
conseguia imaginar a logística necessária para empreender tal esforço. Como eu
chegaria lá? Onde eu ficaria? Quem iria me contratar para que eu trabalhasse
para pagar o aluguel e todas as aulas de dança? Incertezas demais, muitas
dificuldades, sem ter dinheiro.
Até que um dia, as coisas começaram a se encaixar. Enquanto
eu estava em Harvard, eu tive a brilhante idéia de concorrer a uma bolsa
Fulbright para estudar no Egito. Eu iria pesquisar sobre Dança Oriental
ganhando um salário por 9 meses. Eu sabia que fazer com que State Department
americano financiasse uma pesquisa sobre dança do ventre era um tiro no escuro,
mas cheguei à conclusão que eu não perderia nada tentando. Então eu tentei.
Para minha surpresa, eu ganhei uma bolsa. Aparentemente, o comitê da Fulbright
estava interessado na minha hipótese de que a islamização mais a estagnação
econômica estava causando uma decadência cultural, e que isso estava
penalizando as artes performáticas.
Naquele verão, eu me formei em Harvard e me preparei para me
mudar para o Egito. Eu pouco sabia que o meu humilde desejo de aprender a
dançar iria eventualmente gerar uma carreira profissional como bailarina de
dança do ventre no Cairo.
Após uns 6 meses na minha nova vida no Egito, me foi
oferecida a oportunidade de dançar num resort no Mar Vermelho, a duas horas do
Cairo. O pagamento era ruim, a viagem de carro era perigosa e de embrulhar o
estômago. E o que era pior, eu me sentia intimidada de fazer um show de uma
hora para um público egípcio. Eu não sabia que músicas dançar, e não me sentia
confortável em improvisar. As roupas que eu tinha eram duas que eu não gostava
muito. Em outras palavras, eu estava completamente despreparada. Ainda assim
agarrei a oportunidade porque, bem, eu nunca recuso uma. Mesmo que eu não
esteja preparada para ela. Eu aprendi que oportunidades só aparecem uma vez na
vida – sejam elas de amor, trabalho, ou o que quer que seja. Talvez os ricos
possam comprar as deles, mas nós, reles mortais, precisamos agarrá-las quando
elas aparecem. E fico feliz que eu tenha feito isso. Apesar da minha sensação
de incapacidade naquela noite, eu recebi as boas-vindas mais calorosas que uma
bailarina pode desejar. Sem dúvida, foi mais do que umas boas-vindas ao palco.
Foi uma recepção ao que seria a minha futura carreira, e uma que eu nunca vou
esquecer.
Depois de quase dois anos dançando na maioria dos resorts do
Mar Vermelho, um jovem dervixe rodopiante que dançava entre os meus shows me
perguntou se eu queria fazer um teste no Memphis, um cruzeiro no Nilo onde ele
trabalhava. Legalmente falando, eu não poderia ter colocado nem o pé naquele
barco. Eu já havia sido contratada no Semíramis, e a lei egípcia proíbe que
bailarinas estrangeiras trabalhem em mais de um lugar. Mesmo assim eu aceitei a
oferta dele e fiz o teste. Uma combinação do meu sexto sentido mais o fato de
que eu nunca tinha dançado no Semíramis (essa era a razão) me fez aceitar.
Para a minha alegria, eu passei no teste. Na mesma noite, o
gerente me pediu para trabalhar a noite toda, todas as noites. Eu expliquei que
fazer isso seria ilegal – que o máximo que eu me permitiria fazer era dançar
duas noites por semana, e que isso seria muito generoso da minha parte. Mas
quanto mais eu recusava, mais eles insistiam que conseguiriam a minha permissão
legal para dançar se eu saísse do Semíramis. Eu agradeci pela oferta, mas
recusei. Em primeiro lugar, eu não acreditava que eles fossem cumprir o
prometido. Aqui é tudo da boca pra fora, e as promessas são vazias. Eu não iria
cancelar a minha permissão com o Semíramis (mesmo que eu não estivesse
dançando) na esperança de que um gerente de um cruzeiro iria honrar as suas
promessas. Em segundo lugar, tinha o fator nome/prestígio. Não tem como
conseguir nada melhor do que o Semíramis aqui (mesmo sem estar dançando). Me
“rebaixar” a um cruzeiro no Nilo seria impensável, e um grande golpe na minha
carreira no Egito.
Um mês depois, o momento que o cruzeiro esperava chegou. O
gerente do Semíramis cancelou o meu contrato de trabalho e direito a
residência, me deixando completamente desamparada. Nós brigamos seriamente porque
ele ignorou os meus pedidos para viajar para casa por conta de uma morte na
minha família. Então ele me despediu.
Não posso negar. Aquele cruzeiro no Nilo não parecia tão
ruim depois dessa experiência horrorosa. Eu informei ao gerente do cruzeiro que
o sonho dele tinha se tornado realidade – que eu tinha sido despedida do
Semíramis – e que agora estava disponível. Ouvindo essa notícia, o gerente
geral do cruzeiro não perdeu tempo em me contratar. Ele já tinha percebido um
aumento nos lucros depois de apenas um mês em que eu estava dançando lá, por isso
não queria me perder para a polícia da dança do ventre ou para outro
estabelecimento. Na verdade, ele não só me contratou como entrou com um pedido
de licença para que o cruzeiro pudesse contratar bailarinas estrangeiras, um
passo que tomou muito tempo e dinheiro. Desde então, eu tenho dançado lá toda
noite com a minha banda – não só no cruzeiro, mas também em casamentos e outros
tipos de festa. Também já apareci na TV egípcia como solista e em clipes
musicais. No que diz respeito a isso, a minha vida realmente tem sido um sonho.
Também tem sido um sonho o fato de que eu aprendi a dançar
do jeito que eu sempre quis aprender. Isso não teria acontecido se eu não
tivesse conseguido a permissão legal para dançar. Claro, aulas são importantes.
Mas não há nada como o palco e um punhado de músicos toda noite para te ensinar
a dançar. Tem algo na espontaneidade de tudo isso, na interação com o público
egípcio, que te dá um bom entendimento da música e do sentimento dessa dança.
As performances constantes também me mantêm sob pressão. Eu tenho um público
cativo, assim como agentes com quem trabalho com freqüência, então tenho que
estar sempre apresentando coisas novas. Além disso, eu enjôo rápido. Isso
significa que estou sempre pensando em novas montagens e novas roupas. É
divertido, mas dá muito trabalho. Se não estou ensaiando com a minha banda,
estou procurando novos materiais ou desenhando e comprando novas roupas. É
realmente um trabalho de tempo integral, e eu tenho muita sorte de poder
dedicar todo o meu tempo a isso.
Apesar do aspecto fantasioso do meu trabalho como bailarina
de dança do ventre no Cairo, eu acho que é importante colocar as coisas sob
perspectiva. O fato de eu ter conseguido um emprego fixo aqui foi um golpe de
sorte. Alguns podem dizer que foi destino. Eu não sabia nem que o Memphis existia
nem pedi para fazer o teste. E o fato deles quererem me contratar de verdade
foi algo fora do padrão. A maioria dos lugares não são generosos a ponto de
fazer contratos com bailarinas estrangeiras, muito menos pagando todas as taxas
necessárias para isso. E ainda por cima, essa oportunidade veio depois de dois
anos de só seguir o fluxo – e não procurando
por uma oportunidade para dançar, mas aceitando aquelas que apareciam para mim.
Também veio depois de dois anos de sofrimento e de desilusão. Apesar de eu
nunca ter intencionado trabalhar no Egito, era exatamente isso que estava
acontecendo. E isso estava se tornando uma fonte de brigas na maioria dos meus
relacionamentos pessoais e profissionais. Então, ao mesmo tempo em que percebo
que o desenrolar da minha carreira tem um final de conto de fadas (ou início,
dependendo de como você vê), eu ainda acho que as pessoas se enganam um pouco
quando dizem que estou “vivendo o sonho”.
Verdade seja dita, esse sonho vira pesadelo mais
frequentemente do que eu gostaria de admitir. Apesar de todas as vantagens,
dançar no Cairo requer muito trabalho duro. Na verdade, reparei que o trabalho
duro vem na mesma proporção que a satisfação e o sucesso que você atinge. Para
começar, eu me tornei muito defensiva. Tem sempre um monte de gente no meio
tentando tirar vantagem em cima de você, seja pelo dinheiro ou pelo sexo. Não
acontece sempre, mas é freqüente o suficiente para que o meu modo padrão de
lidar com as pessoas seja na defensiva. Especialmente com aqueles que eu ainda
não tenho uma relação de confiança profissional. Para mim, todos são culpados
até que se provem inocentes.
Além disso, tem as questões legais. A “polícia da dança do
ventre”, ou musanafat e adab para ser exata. São eles que
regulam as licenças, e garantem que você não está “indecente” na sua dança ou
na sua roupa. Quando esses caras pegam no seu pé, a coisa pode ficar feia. As
penalidades incluem multas, prisão e deportação para estrangeiras, e dependem de
diversos fatores. A violação que você cometeu é um deles. Dançar sem cobrir a
barriga é uma violação menos grave do que dançar ilegalmente. Dançar sem cobrir
a barriga e ilegalmente é muito pior.
:) Se a polícia foi chamada ou não por outra bailarina com ciúmes é outro
fator. Se esse for o caso, você pode ser perdoada ou punida severamente por
suas violações reais ou empíricas. Isso vai depender do tipo de relacionamento
entre o policial e a bailarina que o enviou, claro. :)
Num outro nível, se adaptar à cultura requer lidar com
alguns desafios. Alguns conceitos culturais e religiosos pré-definidos sobre a
mulher não combinam comigo. Nem os restritos códigos não-oficiais de conduta e
vestuário. Sem mencionar o constante assédio sexual. Isso pode ser massacrante.
Ter que estar o tempo todo se cobrindo, mesmo quando está um calor insuportável
do lado de fora, ter que esconder a minha profissão de todos para não ser
expulsa do meu apartamento (o que já me aconteceu antes), não poder me
expressar livremente – todas essas coisas podem ser extremamente irritantes.
Sob todas as condições que descrevi, você poderia imaginar
que uma comunidade de dança acolhedora seria o meio ideal para se apoiar. Mas,
infelizmente, esse não é o caso. Apesar de haver aquelas almas verdadeiras que
eu amo como se fossem minha família, a comunidade em geral é a antítese de
acolhedora. Você descobre que conforme vai subindo na carreira, fofocas
difamatórias e falsas acusações começam a proliferar. Muitos ou inventam
fofocas sobre o que você fez para conseguir o seu emprego, ou se mostram muito
inclinados em acreditar nas piores histórias sobre você. Alguns até tentam
destruir a sua carreira. Todo mundo ama um Zé-ninguém. Mas poucos gostam
realmente de alguém. E é por isso que você não sabe quem são seus verdadeiros
amigos até que coisas boas aconteçam para você. Juro que parece que você está
novamente na escola. Só que dessa vez eu já sei como me erguer e me manter
acima dessas coisas de um jeito que eu não sabia aos 15 anos de idade. Não
importa o que você diga ou faça, não importa como você dança, sempre vai ter
alguém te odiando, criticando, ridicularizando e te colocando para baixo. Então
você chega num ponto em que simplesmente para de se importar – um ponto no qual
você se sente livre para ser quem você é sem se preocupar com o que os outros
pensam. Pode parecer desagradável, mas também é libertador.
Contudo, não é sobre isso que quero falar. Isso vem com o
pacote de dançar no Egito, e na verdade tem sido uma fonte para o meu crescimento
pessoal. Pessoalmente, eu acho que o meu maior desafio não é nem a cultura nem
o ambiente pouco amigável da dança. É algo mais interno do que isso. É algo que
eu gosto de chamar de síndrome do “e se”. Eu amo o meu trabalho e sei o quão
sortuda eu sou por tê-lo. Mas o questionamento do e se eu tivesse feito
diferente me atormenta. Quer dizer, vamos encarar a verdade. Uma mulher comum
não faria as decisões que eu fiz na vida. Uma pessoa comum não se desviaria tanto da estrada testada e aprovada
para o sucesso para seguir um sonho vago de aprender a dançar num país do
terceiro mundo. E apesar de muitas pessoas me louvarem por isso, talvez haja
uma razão pela qual a estrada menos percorrida é menos percorrida. Levar uma
vida não-convencional pode ser divertido, mas significa se colocar numa vida
feita de incertezas e improvisos. E não quero dizer que isso acontece no palco.
Eu não tenho mais uma “coreografia” para a vida como costumava ter. Eu
abandonei isso quatro anos atrás. Eu troquei os ensaios pela “vida real”. Estou
apenas vivendo a vida, um dia de cada vez. Boêmia. Certamente não é a vida que
imaginei para mim mesma. E muito assustadora.
Hoje em dia, com todo o sofrimento que acontece no mundo,
começo a me sentir culpada por ter o trabalho dos meus sonhos. Tem gente
lutando para conseguir colocar comida na mesa, e pessoas pelo mundo todo dando
as suas vidas pela liberdade. Uma delas era amiga minha, e fez isso
recentemente na Síria. E aqui estou eu, dançando. Celebrando. O quê, eu não
sei. Mas as pessoas dizem que dança é celebração. Então isso começa a parecer
errado. Um pouco egoísta... Sem sentido... Vazio.
O que quer que seja que eu estou passando, espero
sinceramente que seja temporário, e que eu saia dessa. Me esforcei demais em
lançar a minha carreira só para desistir porque acho que dançar é “haram”, apesar de ser por motivos
próprios. (Engraçado eu ter mais medo de mim mesma do que da Irmandade
Muçulmana proibir a dança!) Se não for mais nada, a forma como estou me
sentindo é a prova de que estou vivendo um sonho. Talvez não “O” sonho, mas um
sonho num sentido de que tudo o que acontece, seja bom ou ruim, é maior do que
a vida. E nos dá essa sensação de irrealidade. Lá no fundo, tem uma parte de
mim que gosta disso. Talvez seja por isso que estou rezando para não acordar
tão cedo.
Eu teria feito esse
post na semana passada, mas tenho estado enlouquecidamente ocupada. E peço
desculpas com antecedência, porque não vou deixar de falar de tabus. Se você
tem algum, não leia.
Sinto como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Só
que esse pesadelo continua enquanto estou acordada. Islamitas venceram as
eleições para a presidência do Egito honestamente. E isso depois de ganharem
70% do (agora dissolvido) parlamento. Sem querer dar uma de chata, mas eu bem
que avisei.
Bem antes dessa dita revolução, eu sabia que os fanáticos
religiosos eventualmente chegariam ao poder. Era apenas uma questão de tempo.
Acho que o fato de ter estudado sobre o Oriente Médio em Harvard é o
responsável pela minha previsão política. Mas, sinceramente, qualquer um com
meio neurônio podia ter chegado à mesma conclusão. Os sinais estavam muito
claros. O Egito estava no ponto certo para a islamização já há algum tempo. Só
tínhamos que reparar no número crescente de mulheres usando véu e homens de
barba, no analfabetismo, na pobreza e no desemprego pandêmicos para chegar a essa
conclusão. Se essa não é a receita perfeita para um governo islâmico, eu não
sei qual seria.
Nada disso estaria acontecendo se não fosse pela recém
descoberta “democracia” do Egito. Com isso em mente, me sinto com vontade de
ser politicamente incorreta. Beirando o limite do ofensivo. Tenho vontade de
fazer você reavaliar os seus conceitos mais queridos sobre democracia, direitos
humanos, religião, violência, e mais do que tudo, essa imerecidamente chamada
de sagrada “revolução”.
E aqui vai...
Fanáticos religiosos com aspirações políticas devem ficar
atrás das grades, e não num governo. A razão não é necessariamente que eles
tenham cometido crimes (apesar de ser verdade em muitos casos). É porque a
ideologia islamita é por si só criminosa. Ao lado do nazismo. Mesmo que seja
religiosa, ao invés de racial, o Islamismo ensina uma supremacia que é perigosa
para a humanidade. Ele ensina que a forma Islâmica de governar é a única forma de se obter justiça e
prosperidade, e que ela deve ser alcançada a qualquer custo. E aqueles que são
contra – tanto não-muçulmanos quanto muçulmanos, são infiéis e que devem ser
tratados como tal.
Assim como no nazismo, o principal objetivo do Islamismo é a
dominação mundial. Atingida não apenas matando-se os infiéis (o equivalente às
raças não-arianas no nazismo), mas através da constituição do califado, e é
claro, da conversão. É por isso que uma interpretação tão patológica da
religião traz riscos para as minorias, os muçulmanos liberais, mulheres,
crianças, e os pobres. Realmente, com a exceção da Turquia (que, desculpem, não
é islamita de verdade), em todos os lugares onde eles chegaram ao poder, os islamitas
começaram a cortar publicamente as cabeças e as mãos das pessoas, apedrejar
mulheres que cometem “crimes” sexuais, patrocinar atentados terroristas ao
redor do mundo, perseguir minorias religiosas e sexuais, destruir locais
considerados patrimônios da humanidade que não sejam Islâmicos. Isso é muito
pior do que Mubarak, sem dúvida.
É por isso que precisamos perguntar a nós mesmos: o mundo realmente precisa de um Egito islamita?
Além da Arábia Saudita, Irã, Paquistão, Afeganistão, Iraque, Nigéria, e agora
Tunísia e Líbia?
Eu acho que não... a não ser que você seja um animal
zangado, cabeludo, que odeia mulheres, homofóbico e sádico que gosta de ver os
outros sofrerem. Ou uma mulher que sofreu de uma séria lavagem cerebral. Ou
então, que você seja um liberal promotor da democracia, que não sabe nada de
democracia nem no seu próprio país. :) Dado que você não pertence a nenhuma
dessas categorias, eu acho que você vai concordar que é mais sábio e preferível
aplicar a justiça contra esses meliantes, do que dar a eles uma outra chance de
provar o quão vis eles são.
Espera. Você quer argumentar que a Irmandade Muçulmana é
composta por indivíduos bem educados que estão mais interessados em ganhar
dinheiro do que em qualquer outra coisa. E daí? Educação e fanatismo religioso
não são mutuamente excludentes. Só porque alguém é engenheiro não quer dizer
que ele não queira destruir as suas liberdades ou impor castigos corporais.
Falando de educação, eu acho que vale notar que os islamitas
são exclusivamente educados em ciências exatas, como física, engenharia ou
medicina. Você nunca vai encontrar um fanático religioso com diploma em
ciências humanas, como escrita criativa, ciência política, filosofia etc.,
disciplinas em que a) alguém deveria ter familiaridade antes de governar um
país, b) promovem os direitos humanos e são anti-religiosas, com uma boa razão.
Mais importante, antes que se esqueça, é que a Irmandade
Muçulmana foi exposta ao processo eleitoral. Eles perceberam que eles precisam
parecer mais “moderados” para não assustar os eleitores. Isso se chama mentir. Se você não acredita em mim, é
só ver como as posições da Irmandade foram, ah, “evoluindo” conforme foi chegando perto das eleições. Dê uma olhada
nas tantas vezes em que eles mentiram sobre as suas intenções, mais notadamente
sobre não querer dominar o Parlamento. Ah, e sobre não querer nomear um
candidato à presidência.
Eu tenho mais respeito pelos Salafistas “linha dura”. Ao
menos eles não mentem. Eles são diretos ao ponto e dizem que eles querem
transformar esse lugar numa Arábia do séc.VII (ou uma Arábia moderna, dá no
mesmo). Diferentemente de alguns Irmãos mais espertos politicamente, eles são
estúpidos o suficiente para nos deixar saber contra o quê estamos lutando.
Por causa do histórico assustador dos islamitas ao redor do
mundo, eu apoiei completamente a dissolução que os militares fizeram do
Parlamento mês passado. Cara, eu estava até torcendo que eles manipulassem as
eleições para que o secular Ahmed Shafiq ganhasse. Isso é tão antidemocrático
da minha parte, você deve estar pensando. E você está certo. No Egito, eu não
sou democrática. Contrariamente do que eu aprendi nas minhas aulas sobre
direitos humanos lá em casa, eu NÃO acredito que todas as pessoas tenham
direito a autodeterminação (N.T.: autodeterminação: direito de um grupo de
pessoas em determinar se querem fazer parte do estado ou de um movimento), isto
é, à democracia. Não quando há uma grande chance de que eles, em sua santa
ignorância, coloquem fanáticos no poder.
Porque, veja, eleger um governo é uma grande
responsabilidade. É algo que afeta a vida de milhares de pessoas dentro e fora
das suas fronteiras. É por isso que não deveria ser cedida para patetas e
idiotas. No Egito, onde mais da metade da população é analfabeta e quase todo o
mundo é religioso, a autodeterminação leva os islamitas a chegar ao poder. Por
que deveríamos permitir que uma população, na sua maioria sem educação, coloque
esses criminosos no poder? Por que eles querem? Diabéticos querem açúcar e
alcoólatras querem álcool, mas isso não significa que seja bom pra eles. Por
que deveríamos permitir que uma população, que pode ser facilmente intimidada a
votar em candidatos religiosos, possa determinar como o resto de nós deverá
levar as nossas vidas? Por que, afinal de contas, é uma democracia, e isso é a
coisa mais importante do mundo?
Então talvez seja a hora de acabar com a democracia...
Os liberais egípcios – você sabe, os responsáveis por toda
essa bagunça – conseguiram inverter as suas prioridades. Ao invés de lutar por
segurança e prosperidade, eles lutaram por democracia. GRANDE erro. Democracia
não é o mesmo que essas coisas, nem as garante.
Claro, existe uma alta correlação entre elas, mas não necessariamente uma conexão.
Estabilidade e prosperidade são objetivos.
Democracia é uma forma de atingir
esses objetivos. Um processo.
Os liberais cometeram o erro de fazer da democracia o
objetivo. Eles não conseguiram perceber que porque é um processo, ela pode
trazer uma variedade de resultados. Em sociedades com população alfabetizada,
um nível satisfatório de educação, e de secularismo, a democracia traz paz,
prosperidade e estabilidade. Mas em sociedades com as chagas do analfabetismo e
da religião, a democracia traz fanatismo religioso, conflitos civis,
sectarismo, e um monte de outras mazelas que prefiro não mencionar.
Sabendo disso, porque diabos alguém gostaria de apoiar a
democracia no Egito?!?
Ah, mas veja bem, a palavra chave aqui é sabendo. Para o detrimento da nação, os
liberais egípcios não sabiam disso.
Eles não sabem nada sobre democracia,
e sabem muito menos ainda sobre a sua própria nação. Eles não sabem o quão profundamente religioso e
sem educação é o Egito. Mas, sério, o que mais se poderia esperar? Eles não
vivem no Egito, vivem no Facebook. Eles não falam árabe, falam arabinglês. Eles
bebem e festejam em casas noturnas de estilo ocidental, e fazem compras no City
Stars. Eles freqüentam escolas americanas. Pelo amor de Deus, EU sou mais egípcia do que eles!
Nunca vou me esquecer daquela despedida de solteira onde
dancei no mês passado. As meninas que me contrataram eram ricas e super
liberadas. Crème de la crème. Entre os pênis e bonecos de homens nus infláveis,
tinha muita coisa para se admirar. Mas nada me espantou tanto quanto a garota
egípcia que veio falar comigo depois do show e me perguntou em árabe, com um
forte sotaque americano, se eu tinha visto a bolsa dela. Vendo o quão ruim era
o seu árabe, eu disse a ela que falava inglês. Aliviada, ela começou a falar
comigo num inglês impecável. Eu contei para ela que era americana, e não
egípcia, mas que trabalhava como bailarina de dança do ventre aqui. Ela me
disse que nasceu e foi criada no Egito, e que freqüenta a universidade
americana.
A menina era simpática, mas dá para ver como esse tipo de
pessoa pode ficar sem contato com a realidade? Dá para perceber o porquê que
pessoas que vivem protegidas nos seus ninhos de elite não devem começar
revoluções em nome de um povo com quem eles não têm nada em comum?
E se começar essa maldita revolução não fosse o suficiente,
esses chamados liberais ainda cometeram outro erro grave: soltaram um monte de
islamitas da cadeia. Eles achavam que essa seria uma boa forma de aumentar os
seus aliados para intimidar ainda mais o Conselho Supremo das Forças Armadas
(SCAF em inglês) a abrir mão do poder. Eles também queriam tirar proveito da
popularidade da Irmandade Muçulmana.
E foi assim que a revolução egípcia se transformou na
revolução iraniana. Foi isso que
colocou um ponto final na revolução egípcia e a tornou um pesadelo islamita.
Não o SCAF.
Talvez o maior erro dos liberais depois de pedir por
democracia tenha sido permitir que esses loucos pudessem se candidatar.
Islamitas não são democratas. Eles são teocratas. Eles acreditam na imposição
da Shariah, que vai contra as noções modernas dos direitos humanos (e sua
legislação). Eles podem estar no jogo da democracia agora, mas o seu objetivo
principal não tem nada a ver com democracia. E é por isso que eles deviam ter
sido proibidos de participar das eleições em primeiro lugar.
O SCAF percebeu isso, mesmo que um tanto tarde. Foi por isso que eles dissolveram o
parlamento islamita pouco antes das eleições. E é por isso que eles estavam
cogitando a possibilidade de entregar a presidência para Shafiq, apesar de,
obviamente, isso não ter acontecido. Eles ficaram com medo. Os islamitas
ameaçaram se envolver em atos de violência se Morsi não ganhasse as eleições!
Na verdade mesmo, eles ficaram tão assustados que eles teriam dado a
presidência ao Morsi mesmo que ele não tivesse ganhado, que é o que muita gente
diz que aconteceu.
Isso se chama conciliação, e é perigoso. É o que alimentou a
megalomania de Hitler, e é o que atualmente está encorajando os islamitas. O
exército pode achar que está mantendo
a paz dessa forma, mas o que ele não percebe é que está apenas postergando a
violência. O derramamento de sangue é inevitável. Chegará um momento em que os
fanáticos irão realmente enfurecer ou o exército ou o povo, e as coisas vão
ficar feias. Feias de verdade. Nesse
momento, já será tarde demais. Os islamitas terão consolidado o seu poder,
acumulado muito mais armas, e aumentado os seus números. O Egito vai acabar
igual à Síria.
Quanto mais o exército esperar, mais sangrentas as coisas
vão ficar quando a merda começar a feder. É por isso que eles deviam ter
entregado a presidência a Shafiq, mesmo que as coisas ficassem um pouco
violentas. É como um relacionamento não saudável. Você sabe que o melhor pra
você é terminar com ele, mas tudo o que você pode fazer é pensar é em quão
doloroso será isso. Então, você fica no relacionamento, sem pensar em quão mais doloroso será terminar no futuro,
quando vocês dois estiverem ainda mais envolvidos emocionalmente. No caso do
Egito, não é a questão do exército e dos islamitas se aproximarem (apesar de
que isso poderia acontecer à moda do Paquistão), mas sim dos islamitas ficarem
mais apegados ao poder e às armas. É por isso que o exército deveria terminar
esse relacionamento AGORA. Teria sido doloroso, mas também teria dado uma boa
desculpa para se livrar de uma vez dos islamitas, colocando-os de volta na
cadeia, prevenindo futuros desastres.
O que eu acho mais interessante é a reação dos egípcios a
tudo isso. Por um lado, tem aqueles que estão voluntariamente e prematuramente
se “saudificando”. Nem posso contar quantas mulheres estão agora utilizando
roupas ninjas, e quantos homens deixaram suas barbas crescerem nos últimos
meses. E agora que Morsi entrou no gabinete, eles estão começando a pressionar.
Não tem nem duas semanas que Morsi “ganhou” a presidência, e as pessoas já
estão abertamente fazendo pressão para que as mulheres se cubram e ajam de
forma mais islâmica.
Por outro lado, tem os egípcios que votaram no Shafiq. A
reação deles é muito intrigante. Os mesmos muçulmanos e cristãos que estavam morrendo de medo de uma vitória da Irmandade
Muçulmana estão agora me chamando de maluca por pensar que algo ruim vai
acontecer. Mas hein?!? Como assim?
Como você passa de aterrorizado antes das eleições para totalmente à vontade
depois? Por acaso você engoliu o discurso sobre tolerância e inclusão do Morsi?
Ele tranquilizou os seus temores tão lógicos? Ou estão todos vocês
inconscientemente transformando os seus medos em negação otimista porque seus
espíritos cansados não aguentam mais a realidade? Vocês realmente acreditam que podem voltar à Praça Tahrir e se livrar da
Irmandade da mesma forma que se livraram de Mubarak? Será que o seu excesso de
confiança faraônico levou a melhor? Vocês não percebem que os islamitas têm
talento para perdurar? E que a única forma de se livrar deles é fazer outro
país como os EUA fisicamente expulsá-los? ...(depois de eles mesmos os terem
colocado lá, é claro :D)
Eu não gosto de ficar apontando dedo, mas dessa vez eu vou
apontar. E vou começar apontando o meu dedo para os tão chamados “liberais” que
colocaram em risco o bem estar de toda uma nação.
Primeiramente, a grande maioria desses tão chamados
“liberais” não merecem tal título. Não votar nem em Shafiq nem em Morsi não faz
de vocês liberais. Faz de vocês uns idiotas. Apoiar os fanáticos porque eles
são a sua única opção contra o “Mubarakismo” não faz de vocês liberais. Faz de
vocês uns covardes. Salvar a “revolução” entregando o seu país para nazistas
religiosos não faz de vocês liberais. Faz de vocês traidores. E vocês deveriam
ser enforcados por causa disso. Mas o mais provável é que vocês façam as suas
malas e fujam para a Amériiica, porque não querem deixar a barba crescer ou
cobrirem o rosto. E porque vocês não querem se incomodar revidando. Vocês são
bons demais para arrumarem a sua própria bagunça. Vocês são crianças mimadas e
abastadas que estão acostumadas com os outros fazendo de tudo para vocês.
Segundo, não há revolução. Os “liberais” não começaram uma
revolução. Eles apenas copiaram a Tunísia e depuseram o seu presidente. Macaco
vê, macaco copia. Na verdade, nem isso eles fizeram. Foi o exército que deu o
ultimato a Mubarak. Não porque o exército e o povo estivessem unidos, como no
enganoso slogan, mas porque os generais não queriam o filho de Mubarak, Gamal,
como o seu comandante. Eles não queriam um filhinho de papai que não tem
respeito pelas forças armadas dando ordens para eles. Se o interesse do povo e
das forças armadas não tivesse coincidido, esse lugar teria sucumbido a uma
guerra civil. Os “liberais” precisam entender isso e parar de se vangloriarem
pela queda de Mubarak.
Agora que eu tirei esse peso de mim, gostaria de terminar
deixando uma coisa para pensar. Os egípcios parecem sofrer de algum tipo de
complexo de inferioridade cultural. A elite copia o Ocidente com suas calças
jeans, música Techno e “democracia”, enquanto o povão quer ser como os
sauditas, com suas barbas e roupas ninja. Para o meu completo horror, essas
duas partes se uniram e criaram um governo democraticamente eleito que vai
rapidamente virar Saudita. A parte triste disso tudo é que é desnecessário. O
Egito tem uma das culturas mais maravilhosas, lindas e ricas do mundo. Ela não
é apelidada de “Um il-dunya”, Mãe do Mundo, sem motivo. Ela tem mais de
7 mil anos de história. Nem o Ocidente nem a Arábia Saudita chegam perto disso.
Eu gostaria que os egípcios tivessem orgulho disso. Eu gostaria que eles
parassem de procurar inspiração no exterior. No dia em que isso acontecer, aí
sim nós poderemos dizer honestamente que houve uma revolução.
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Esse texto é de autoria exclusiva da Luna do Cairo e o Ventre da Dança não concorda com todas as colocações aqui expostas. O trabalho mostrado aqui é uma tradução direta do texto original.
Na sexta, algumas centenas de mulheres organizaram um
protesto contra assédios para denunciar o assédio sexual que é onipresente no
Egito. Homens que as apoiavam fizeram um círculo protetor ao redor delas,
apenas para serem subjugados por uma multidão de homens jovens e violentos que
assediaram sexualmente algumas das mulheres participantes.
E isso, senhoras e senhores, é o que acontece quando as
mulheres resolvem se defender no Egito.
Espera, talvez nós não devamos ser tão rápidos em condená-los. Vamos
ver pelo lado positivo. Algumas mulheres e
alguns homens estão começando a reconhecer que o assédio sexual é um GRANDE
problema e estão se dispondo a fazer alguma coisa a respeito. É triste que
tenha demorado muitos casos de estupros coletivos durante a revolução para que
acordassem, mas pelo menos eles acordaram. Antes tarde do que nunca. :/
Mas vamos encarar o problema. O ódio às mulheres está
profundamente enraizado na sociedade egípcia. Assim como em diversos lugares,
mas especialmente no mundo árabe. E a terrível combinação de extremismo
religioso, cultura e testosterona é a culpada.
Antes que me acusem de propagar estereótipos negativos, por
favor notem que eu já antecipei tal acusação, e sendo bem sincera, não dou a
mínima. Eu tenho uma formação superior numa universidade de elite e tenho total
noção de que o que estou dizendo não é politicamente correto nem sensível às
diferenças culturais. Isso porque estou mais interessada em dizer a verdade do
que em ser “sensível” com relação a pessoas que são insensíveis às mulheres. Isso,
além do fato de que eu vivo aqui, o que me dá o direito de dizer as coisas como elas
são. Eu não poderia dizer essas coisas quando estava em Harvard a mais 8 mil
quilômetros de distância. Eu não tinha experiência “in loco” para corroborar
minhas afirmações. Mais importante, a máfia dos culturalmente sensíveis teria
me enforcado pela minha completa ausência de jogo de cintura.
Por alguma razão, nós ocidentais “liberalizados” ficamos
extremamente desconfortáveis quando alguém sugere que a misoginia é um dos
principais pilares da cultura do Oriente Médio. Mas isso não significa que isso
não seja verdade. De que outra forma você explicaria o que aconteceu na última
sexta? De que outra forma você explicaria todos os casos de estupro coletivo
que acontecem toda vez que se faz um grande protesto na Praça Tahrir? A que
podemos atribuir a alta taxa de violência doméstica? De circuncisão feminina? E
dos assassinatos por honra que acontecem de tempos em tempos?
Vou te dizer como o egípcio médio explica os acontecimentos
dessa última sexta-feira. De acordo com eles, alguns remanescentes do regime
Mubarak pagaram “criminosos” para estuprar as mulheres numa tentativa de
manchar a imagem da revolução. Não só nessa sexta, mas em todas as sextas em
que isso aconteceu. Beleza. Vamos supor apenas para argumentar que essa teoria
é verdadeira. Ainda assim não é desculpa. Esses supostos “criminosos” não são
estrangeiros. Eles são egípcios como quaisquer outros. E não me importa o
quanto eles precisam de dinheiro. Existem milhares de pobres que não fariam
esse tipo de coisa mesmo que se oferecesse o mundo a eles. Além disso, quem
quer que seja capaz de cometer tais atrocidades por dinheiro é bem capaz de
cometê-las sem ser por dinheiro. O problema não é a pobreza. É a misoginia.
A outra explicação mais popular para o que aconteceu é a
falta de segurança no Egito. Oi? Desde quando falta de segurança virou desculpa
para assediar mulheres? Seres humanos decentes não precisam de uma força
policial no cangote para não estuprar mulheres.
Tudo isso estranhamente me lembra do que aconteceu após o
furacão Katrina e do tsunami que atingiu o Japão alguns anos atrás. Como o
furacão Katrina mostrou, desastres naturais criam por um tempo um ambiente com
condições perfeitas para a ilegalidade. E como o tsunami japonês demonstrou, a
ilegalidade não precisa acontecer.
Realmente o mundo caiu em louvores aos japoneses por manterem o mais alto nível
moral durante um período em que eles tinham todas as desculpas para não
fazê-lo. Isso prova que a ilegalidade não é um resultado inevitável de um
policiamento reduzido, mas uma escolha
que as pessoas fazem.
Similarmente, os violentos crimes misóginos que as mulheres
têm sofrido após a revolução não são um resultado inevitável das forças de
segurança do regime terem sido reduzidas. Eles são resultado de más escolhas
que indivíduos masculinos fazem. E de tal forma, eles deveriam ser processados
dentro da lei.
Exceto que não existe uma lei criminalizando o assédio
sexual no Egito. Liberais tem tentado criar uma já faz algum tempo, mas sem
sucesso. Eles são minoria perto daqueles que acreditam que uma mulher recebe o
que ela merece. Se ela é assediada é porque ela se veste e/ou se comporta de
forma inapropriada. Se ela é estuprada, ela deveria ter feito algo para evitar
isso também. O assédio é considerado algo que é culpa da mulher. Os homens
estão completamente isentos de culpa.
As únicas leis considerando as mulheres sendo discutidas no
momento são as que vão diminuir a idade mínima para mulheres casarem, de 18
para 14 anos, e as que darão direito aos maridos de fazerem sexo com os
cadáveres das suas esposas, até 6 horas após a morte delas. Seguindo esse
caminho, eu não acho que o Egito vá criar nenhuma lei contra assédios tão cedo.
Pensando sobre a situação das mulheres egípcias, me peguei
pensando sobre as mulheres no meu país. Como elas chegaram onde estão hoje?
Como foi o seu movimento pelos direitos das mulheres? Que tipos de direitos
elas lutaram para ter? Elas enfrentaram o mesmo tipo de respostas violentas que
as atuais egípcias?
Eu não sou especialista em direitos femininos de nenhuma
parte do mundo, mas a impressão que tive das minhas aulas de história na escola
foi que as americanas lutaram pelo direito de votar, de trabalhar fora de casa,
e (ainda) pelo direito ao aborto. Basicamente as mulheres queriam o direito de
existir intelectualmente tais como seus colegas do sexo masculino. Compare com
as questões atuais das mulheres do Oriente Médio. Claro, as mulheres do Oriente
Médio podem votar, e algumas trabalham fora de casa. Diabos, elas tinham até
mesmo o direito de se divorciar (em circunstâncias limitadas) e à herança antes
mesmo das mulheres ocidentais poderem. Mas para que serve tudo isso se elas não
têm o direito básico à segurança em suas próprias ruas e suas próprias casas?
De que serve tudo isso se os homens podem abusar delas verbalmente,
emocionalmente, fisicamente e sexualmente sem o menor medo de serem condenados,
muito menos de serem presos?
Por favor não me entendam mal. Não estou condenando toda uma
cultura ou região. Eu sei que existem homens muito esclarecidos no Oriente
Médio que estão trabalhando junto com as mulheres para criar um futuro melhor.
E que existem mulheres liberalizadas no Egito. Mas eles ainda são uma pequena
minoria. Eu também sei que crimes contra a mulher acontecem no mundo inteiro,
inclusive no Ocidente.
... Ainda assim parece ser um verdadeiro problema no mundo
árabe. Talvez porque ainda não tenha nenhum estigma associado a isso. Nos EUA,
por exemplo, se um homem assedia uma mulher existe uma grande chance de ele ser
preso. Mais importante, ele será desprezado por quase todos que o conhecem,
incluindo, possivelmente, os seus pais e filhos do sexo masculino. O fato de
que homens que assediam mulheres sofrerem consequências legais e sociais
severas no ocidente resultou na redução da violência contra a mulher ao longo
dos anos – violência doméstica, pelo menos.
Por outro lado, homens no Oriente Médio não sofrem as mesmas
consequências por seus crimes misóginos. Eles não ficam mal vistos pela
sociedade, e eles certamente não vão para a cadeia. E quanto às vítimas
mulheres, não existem serviços de apoio disponíveis. Não existem abrigos para
mulheres espancadas. Não existe ninguém oferecendo a elas ajuda psicológica. Na
melhor das ocasiões, elas são tratadas como se nada tivesse acontecido. Na
pior, elas são culpadas por provocar o ódio ou o desejo sexual nos homens,
dependendo do tipo de ataque que elas sofreram.
O que me leva ao meu próximo tópico. O maior problema não é
necessariamente os homens que se envolvem em violência contra a mulher. São os
homens que ficam em volta, que arrumam desculpas ou deixam de condenar o
comportamento dos outros é que são o real problema. Precisa haver homens o suficiente, não apenas
mulheres, dispostos a adotar uma postura contra a violência misógina...
dispostos a ensinar aos seus filhos a não se envolverem nisso, e às suas filhas
a não tolerar isso. Não haverá progresso até isso acontecer.
Entretanto, mais homens não serão esclarecidos até mais
mulheres fazerem um esforço coletivo em denunciar publicamente a misoginia. Por
mais triste que eu esteja por todas as mulheres vítimas das sextas na Tahrir,
temo que seja necessário suportar muito mais para que elas comecem a ter algum
impacto na consciência masculina. Não vai ser fácil, e provavelmente teremos
ainda mais violência. Mas esse é o preço do progresso.
Esse progresso, entretanto, vai demandar maior participação
e freqüência. Para que esses protestos tenham algum impacto, eles precisam
incluir uma parcela maior da população feminina. Algumas centenas de mulheres
das classes de elite fazendo uma demonstração de vez em quando não terá o
efeito desejado. Os egípcios não levam à sério minorias, especialmente se é
considerada “radical”. Mas se as mulheres de todas as classes começassem a
demandar por segurança nas ruas e nas suas casas, o Egito seria forçado a
ouvi-las.
Eu não sou de forma nenhuma otimista demais. Sei que existem
muitos obstáculos para a mobilização das mulheres. O primeiro e maior deles é a
violência. Uma mulher que sai da cozinha para protestar pelos seus direitos
provavelmente sofrerá de alguma violência quando voltar para a cozinha. Existe uma
boa probabilidade de que os seus “homens”, sejam o marido, pai, ou irmãos, irão
puni-la pelo seu “comportamento impróprio”.
O segundo obstáculo para a mobilização feminina é a
conscientização. Eu posso estar errada, mas eu tenho a forte suspeita de
que a maioria das mulheres não têm noção de que as coisas poderiam ser
melhores. Eu nem tenho certeza de que elas reconhecem os abusos como sendo
abusos. Os abusos são tão rotineiros na vida de tantas mulheres que elas não
necessariamente os vêem como algo errado. O que torna as coisas ainda piores é
que para muitas mulheres não existe nenhuma base de comparação. A maioria das
suas vizinhas e parentas leva uma vida similar. Elas não têm acesso ao estilo
de vida das classes mais altas, a não ser que elas trabalhem como faxineiras
para os egípcios ricos e liberalizados.
O que nos leva à questão... Podem as mulheres serem
reprimidas se elas não percebem?
Se uma árvore cai numa floresta e não tem ninguém em volta,
ela ainda faz algum som?
O terceiro obstáculo, a maioria das mulheres não possui
educação suficiente para que possa pedir por algo melhor. De acordo com o
Conselho a Favor da Mulher no Egito, 50% das mulheres egípcias são analfabetas.
Eu não preciso explicar que isso é um empecilho para a mobilização das
mulheres.
Essas são as razões pelas quais as mulheres não têm sido
suficientemente ativas na criminalização das diversas manifestações da
misoginia, e porque a sociedade ainda acha que isso é normal...
... o que é mesmo. Eu não sei quais são as razões biológicas
ou psicológicas para isso, mas estou definitivamente convencida de que a
misoginia é natural para os homens. Assim como o preconceito, ganância, ambição,
e pênis não circuncidados (:D). Mas isso não significa que essas coisas são boas. “Natural” e “bom” não são a necessariamente
a mesma coisa. Nós herdamos esse mundo do seu criador em seu estado bruto, mas
o criador também nos deu um cérebro para torná-lo melhor. Nós fazemos melhorias
físicas, com coisas como a tecnologia... e cesáreas. Nós podemos fazer isso
mentalmente pelo condicionamento social.
Os homens precisam ser condicionados a abandonar o seu
estado natural de misoginia. E as mulheres é que devem fazer isso. Claro que
elas vão precisar do apoio dos homens nesse caminho, mas o maior impulso
precisa vir das mulheres. O objetivo é que as mulheres cheguem num ponto em que
elas percebam que elas têm escolha. Porque são escolhas que fazem das pessoas seres humanos. Elas nos forçam a nos
utilizar da razão, que é o que nos diferencia dos animais.
Até isso acontecer, não podemos utilizar honestamente a
palavra “revolução” para descrever o que aconteceu no Egito. Não houve revolução.
Revolução significa mudança, mas tudo continua exatamente igual ao que era
antes da queda de Mubarak. As pessoas ainda tem a cabeça muito limitada. As mulheres
ainda são oprimidas. Os pobres continuam pobres e os ricos continuam ricos. E nada
disso vai mudar até que o Egito reconheça a dignidade de suas mulheres. Legalmente,
socialmente e politicamente.
Você pode dar uma olhada no último post da Luna sobre esse
assunto aqui: A Feminista Frustrada.
~~~~~~~~~~~~~
Esse texto é de autoria exclusiva da Luna do Cairo e o Ventre da Dança não concorda com todas as colocações aqui expostas, especialmente no que tange que a misoginia é "natural" do homem. Acreditamos que a misoginia é uma construção social, e que, portanto, os homens são ensinados que é assim que as coisas são, e eles agem de acordo com esse aprendizado.
Para mais matérias sobre o assunto você pode ver aqui:
Sei que estou super atrasada com o blog... é uma dívida! Mas sabe o "ditado" de que no Brasil nada funciona antes do Carnaval? Pois é, é mais verdade do que eu imaginava!
Mas pretendo compensar o atraso com uma super indicação de leitura: "O ladrão e os cães" do aclamado autor egípcio, e ganhador do Nobel de Literatura, Naguib Mahfouz.
Antes de falar sobre o livro gostaria de colocar algumas palavras sobre o autor. Naguib Mahfouz (também transliterado para o português como Nagib Mahfuz) começou a escrever ainda jovem, e seus primeiros romances retratavam de uma forma bem romântica o Egito Faraônico, dos quais 3 já foram traduzidos para o português. Mais tarde, influenciado pelo movimento realista europeu, ele começou a escrever romances sobre o Egito atual (para ele, então estamos falando do século XX, o que não mudou muito, diga-se de passagem). Foi nessa fase que ele escreveu a sua obra prima, A Trilogia do Cairo, e também é dessa fase que foi produzido "O ladrão e os Cães".
Esse livro é quase um conto de tão curtinho (na medida para ler entre um bloco e outro de carnaval), mas extremamente denso! A história é bem pesada, pois se trata de uma espécie de Hobin Hood egípcio que vai parar na cadeia e depois procura vingança. A narrativa é em primeira pessoa, contada pelo próprio ladrão, com todas as suas angústias e injustiças sofridas, não só por ele, mas pelo resto do povo egípcio também, o que deixa o tom de raiva muito acentuado, retratando de forma muito interessante como os egípcios se sentem (e ajuda a entender o que tem acontecido por aquelas terras depois da revolução de 2011).
capa da edição brasileira de bolso, a única disponível em português
E o final do livro é simplesmente magistral! Quem curte ação e literatura descritiva (daquelas que fazem você ver a história na sua frente, como se fosse um filme) vai adorar! Eu pessoalmente achei melhor do que muitas descrições de batalhas do Bernard Cornwell (um mestre nesse quesito na minha humilde opinião). E é Naguib Mahfouz, né, gente? Só pode ser bom!
Para maiores detalhes, você pode ver outra resenha que fiz desse livro aqui.
Alguém já leu esse livro? Compartilhe a sua opinião com a gente nos comentários!
Nas palavras do agitador nova-iorquino Al Sharpton, “sem
justiça, sem paz”. Foi isso que me veio à cabeça quando ouvi o veredicto do
julgamento de Mubarak há dois dias. Nunca tinha ouvido nada de útil do
Reverendo Al, mas as suas palavras reverberaram na minha cabeça enquanto
milhares de egípcios tomavam as ruas, enraivecidos com o fato de julgamento de
Mubarak e Cia ter terminado em pizza. Mubarak foi sentenciado à prisão perpétua
por não ter impedido que se atirassem nos protestantes. O mesmo aconteceu com o
Ministro do Interior, Habib Al-Adly. Seus filhos, Gamal e Ala, saíram ilesos do
processo. Assim como 6 oficiais acusados de realmente terem puxado o gatilho na
direção dos protestantes no início da revolução.
Se isso não é terminar em pizza, eu não sei o que é. Você
pensaria que depois de 30 anos roubando o país, eles conseguiram uma quantidade
de acusações suficiente para colocá-lo na cadeira elétrica. Ou então, enrolar
uma corda no seu pescoço e fazer justiça em plena Praça Tahrir,
no estilo iraquiano. O que é basicamente o que muitos egípcios queriam.
Especialmente os parentes daqueles que morreram durante a revolução. Ao invés
disso, Mubarak foi declarado culpado de apenas uma acusação e completamente
inocente (!) de diversas acusações de corrupção...
...Como se fosse realmente necessário um julgamento para
provar que Mubarak era um dos ditadores mais corruptos do mundo. Basta dar uma
olhada na casa dele para ver a extensão do estrago. Os sistemas de saúde e
educação estão em
frangalhos. A economia deixou de existir. As taxas de
desemprego e analfabetismo são vergonhosamente altas. O tráfego é um pesadelo.
A poluição está fora de controle. Essas são todas as provas de que se precisa.
Mas não. Os egípcios decidiram fazer um julgamento,
sabendo muito bem de todas as fraudes judiciárias que aconteceriam. Ai de nós,
pessoas modernas, e nossa obsessão pelo progresso. :/
O que eu acho mais intrigante é a reação dos egípcios. Claro
que eles têm todo o direito de ficarem horrorizados, mas isso implica que
ficaram surpresos. Pelo amor de Deus, eu não consigo entender o que tem de
surpreendente nisso. Desde o início do julgamento, estava claro que as coisas
estavam armadas a favor de Mubarak. Quer dizer, em primeiro lugar, Mubarak
nomeou todos os generais, procuradores e juízes! Mesmo sem essas nomeações,
ainda assim nós teríamos a sensação de que as coisas foram armadas. É assim que
as coisas funcionam aqui. Na verdade, é como as coisas funcionam na maior parte
do mundo, mas especialmente no Egito. Ou talvez seja um pouco mais óbvio por
aqui, e por consequência mais insultante à inteligência das pessoas.
Sim. É isso mesmo. Insultante. Os egípcios estão se sentindo
insultados, não surpresos. Eles se sentem insultados que as autoridades os
julguem tão estúpidos a ponto de acreditar que Mubarak fez apenas UMA coisa
errada nos seus 30 anos de poder. Eles se sentem insultados que mesmo depois da
revolução, os negócios continuam sendo levados da forma conspiratória usual do
Egito.
E é por isso que não haverá paz. Porque não há justiça. Até
que os culpados e inocentes troquem de lado das barras da prisão, os egípcios
não vão parar de protestar na Praça Tahrir. Não me entenda mal. Eu entendo
muito bem que nessa parte do mundo, nessa época, é necessário manipular eventos
políticos para garantir resultados mais satisfatórios. Pode não ser “certo”,
mas é melhor do que deixar a natureza seguir sozinha o seu curso. Deixar que a
natureza siga o seu curso, isto é, eleições livres e limpas, resultaria nos islamitas
chegando ao controle total do país. O que teria efeitos desastrosos para todas
as pessoas – inclusive aquelas que votaram neles. E é por isso que eu apoio
completamente a manipulação das eleições presidenciais para garantir que um
candidato secular vença. Isso é, provavelmente, muito antiamericano da minha
parte. Mas, novamente, eu não sou exatamente uma democrata hoje em dia.
Dito isso, o julgamento de Mubarak era uma das coisas que os
egípcios podiam se dar o luxo de conduzir de forma mais justa. Eles não
precisavam manipular o julgamento da forma como fizeram. Condenar Mubarak por
diversas acusações de assassinato e corrupção não teria colocado o futuro do
país em risco da mesma forma como eleições justas fariam. No mínimo, conduzir
um julgamento limpo teria sido uma postura simpática – um símbolo de boa
vontade para com as pessoas do Egito. Teria feito milagres pela dignidade
deles, e teria dado a sensação de que a revolução não foi uma luta em vão. Pelo menos não
completamente.
Sem falar que o momento foi mal calculado. O veredicto saiu
bem entre os dois turnos das eleições presidenciais, os quais já são vistos
(corretamente) como manipulados. Se os egípcios já ficaram enraivecidos com os
resultados da semana passada das eleições, esse veredicto os deixou com ainda
mais raiva. Pode ter certeza que dessa vez os egípcios irão às urnas com sede
de vingança. E os islamitas vão se beneficiar disso.
E esse é o porquê. Os resultados das eleições da semana
passada colocaram os liberais egípcios na situação desconfortável de ter de
escolher entre os dois males que eles estavam tentando extinguir – Mubarak e os
militares numa mão, e os Islamitas na outra. Agora eles precisam eleger ou
Mohamed Morsi da Irmandade Muçulmana, ou o ex primeiro ministro de Mubarak,
Ahmed Shafiq.
Ou eles podem começar uma nova revolução...
Estou disposta a dizer que antes de ouvir o veredicto, os
liberais teriam votado em massa em Ahmed
Shafiq. Não por convicção, mas para evitar
que o país caísse nas garras dos Islamitas. E porque é mais fácil do que
começar outra revolução... e porque eles já admitiram tacitamente a derrota. A
revolução não seguiu o rumo que eles queriam, e é tarde demais para salvá-la. A
única coisa que eles podem fazer é impedir que o Egito fique como o Irã. E se
isso significa eleger um homem do Mubarak, que assim seja.
Entretanto, depois de ouvir o veredicto, muitos liberais
enfurecidos vão passar a votar no Morsi. E novamente sem convicção. Mas porque
eles estão enojados com tudo relacionado à Mubarak (e por consequência,
Shafiq). Apesar de Morsi usar barba e querer impor a Lei da Sharia, todos sabem
que ele é o maior opositor do antigo regime. E neste momento, isso é o mais
importante para os liberais desiludidos com o veredicto dessa semana.
Um
dos liberais mais influentes que a partir de agora vai endossar Morsi é Ayman
Nour. Ayman Nour é um secular leal que fez carreira ao se opor a Mubarak.
Ele acabou indo para a cadeia em 2005 por ser a primeira pessoa a concorrer com
Mubarak numa eleição presidencial. Depois de ouvir o veredicto do julgamento de
Mubarak, ele declarou as suas intenções de apoiar a campanha de Morsi.
Então chegamos a esse ponto. Basicamente, isso significa que
se o segundo turno das eleições não for burlado, Morsi vai ganhar. Agora, eu
estou disposta a acreditar (e sinceramente espero) que as eleições serão
manipuladas a favor de Shafiq ,
mas se não forem, podemos dizer adeus a esse país.
Verdade, se as eleições forem manipuladas e Shafiq ganhar,
as coisas vão ficar feias rapidamente. Nós podemos esperar muitos protestos e
até mesmo violência. Apesar de historicamente os egípcios terem uma grande
tolerância com corrupção, um veredicto fraudulento às vésperas de uma eleição
manipulada é demais, mesmo para o Egito.
Mas se Morsi ganhar, as coisas vão ficar feias devagar. Mulheres e coptas serão
despojados de suas dignidades, um direito de cada vez. A economia vai cair
ainda mais, e a vida vai ficar tão miserável quanto nos demais países
islamitas. Devagar. Wahda Wahda. Isso
é mais perigoso do que qualquer protesto ou, eu ouso dizer, massacre. Protestos
podem ser reprimidos, e massacres esquecidos. Mas a islamização gradual se
prolonga por décadas, destruindo a vida das pessoas e seus modos de vida.
Sem justiça, sem paz.
Posso ouvir um Amém?
OBS do Ventre da Dança: Desde então Morsi ganhou as eleições presidenciais no Egito, e uma nova constituição com brechas gigantes para a utilização da Sharia como base do sistema judiciário foi aprovada.
Desculpem, mas será um
texto longo. Eu tenho muito a dizer.
Se existe alguma coisa positiva vindo do Egito
pós-revolucionário, é o novo canal de TV de dança do ventre “El-Tet”. El-Tet,
que é sediado no Bahrain e tem um escritório no Cairo, tem uma programação de
apresentações de dança do ventre de bailarinas egípcias e estrangeiras 24 horas
por dia. É isso mesmo. Shimmies e ondulações o dia inteiro na TV nacional egípcia.
O canal, que tem um pouco mais de um ano, tira o seu nome da palavra árabe que
denomina a parte com acordeão/tabla de uma música baladi. Na verdade se pronuncia “tit”, que obviamente traz à mente
uma imagem equivocada para os falantes da língua inglesa (N.T.: em inglês a
palavra “tit” pode significar seios). É por isso que você verá quase sempre
transliterado como “El-Tet”. Com “e”, não “i”. :)
A primeira vez que ouvi falar sobre o novo canal foi em
dezembro, quando alguns dos meus músicos insistiram que tinham me visto na TV.
Eu nunca tinha ouvido falar do canal, e não tinha a menor idéia do porquê que eles
estavam dizendo isso, apesar de achar muito engraçada a idéia de haver um canal
chamado “The Tit” (N.T.: em inglês, “O Seio”). Então presumi que eles
provavelmente haviam visto outra bailarina que se parecia comigo. E eu estava
certa. Meu derbakista me mostrou o
clipe no seu telefone celular da bailarina em questão, e com certeza não era
eu. Não sei como me confundiram com ela, mas, novamente, os egípcios tendem a
achar que nós, estrangeiras, somos todas iguais. :)
Dançando ao som de “Ya Helwa Sabah” no El-Tet
Naquela noite, cheguei em casa e sintonizei no El-Tet. Achei
estranho ver tantas bailarinas não-egípcias, muitas das quais eu conheço, dançando
na TV egípcia. Dos EUA eu reconheci a Sadie, Sabah e Virginia. Eu vi a Saida da
Argentina. Do leste europeu, eu vi Maria Shashkova, Dariya, e um monte de
outras bailarinas russas e ucranianas das quais eu nunca tinha ouvido falar.
Hum. Como isso funciona, me perguntei. Seriam vídeos do YouTube? As bailarinas
de fora do Egito sabiam do canal e mandavam os seus vídeos? Por que não
apareciam as bailarinas estrangeiras que trabalham no Egito? E mais importante,
onde estavam as bailarinas egípcias?
E então, como que para responder a minha última pergunta, o
canal passou um monte de performances de bailarinas egípcias. Nenhum nome
importante, nem nada. Apenas bailarinas medianas do mercado. De 5 egípcias, eu
conhecia 1 e gostava de 2. Suas danças nada tinham de extraordinário, mas
fiquei feliz de vê-las no canal. Diferentemente das estrangeiras, elas foram
filmadas em cenários, pela equipe de produção do canal. Pela primeira vez, eles
alugaram um espaço e contrataram uma banda. Só que a banda não tocava. Eles
apenas ficavam nos seus lugares atrás das bailarinas, fazendo parte do cenário,
enquanto as bailarinas dançavam ao som de CD. Cada uma tinha 3 ou 4 clipes – 1
ou 2 junto com um cantor, e 2 ou 3 sozinhas. A maioria das músicas que elas
dançavam eram canções shaabi mais
novas, daquelas que você escuta nos cabarés ou nos took-tooks – você sabe, aqueles carros pretos pequenininhos que
andam pelas ruas do Cairo? E a dança era mais do tipo Cabaré Haram do que raqs sharqi, mas tudo bem. (N.T.: Haram
em árabe quer dizer “pecado”, “proibido”, e raqs sharqi é o nome da dança do
ventre em árabe). Esse é o estado da arte.
Controvérsia Comercial
Depois de passar dois dias assistindo exclusivamente ao
canal, eu comecei a reparar nos comerciais, que foram o pretexto para a prisão
do dono do El-Tet na semana passada (por sinal, ele já foi libertado). Eles
eram comerciais caseiros descarados, nojentos, que anunciavam quase que
exclusivamente todos os tipos de produto para melhorar o desempenho sexual,
para aumento dos seios e do pênis, e poções mágicas para esse ou aquele
problema. O comercial para disfunção erétil é o meu favorito. Ele mostra as
fotos de antes e depois de um homem com um grande bigode caído e cheio de gel. Na
foto do depois aparece o bigode mudando de direção e em progressão constante
para cima. Sutil, né? Também têm anúncios de detectores de mentiras e câmeras
com raio-x, coisas que estou morrendo de vontade de comprar. :)
Brincadeiras à parte, os anúncios são de mau gosto.
Quer dizer, se eles fossem um pouco mais sutis e profissionais, daria para
passar. Mas combinados com os anúncios pessoais (N.T.: tipos de anúncio de pessoas procurando alguém para um encontro) que vão passando
na parte de baixo da tela durante os vídeos das danças das bailarinas, eles
passam a ser revoltantes. Sem mencionar que eles dão uma má reputação imerecida
ao canal e à dança.
Dando uma olhada no resultado da filmagem com o produtor
Ótimo. Então eu já disse o que tinha a dizer. Já dei vazão
ao sentimento de muitas bailarinas de dança do ventre ao redor do globo que acham
que o canal é humilhante, e que ficaram satisfeitas com a prisão do dono por
conta dos anúncios que foram ao ar. Agora escutem o que tenho a dizer sobre porque eu
apoio o canal, ou melhor, porque estou disposta a fazer vista grossa com a
existência desses comerciais.
Colocando de forma direta, de um lado, o El-Tet tem como
opção aceitar esses anúncios de produtos sexuais, ou do outro, fechar as
portas. E na minha nem tão humilde opinião, manter o canal funcionando com
comerciais desleixados é dos males o menor. Esse canal não só devolve a dança
às pessoas, mas é um avanço para as mulheres, para a arte, a cultura, e para a
razão. Além disso, é um tapa na cara dos fanáticos religiosos, da misoginia, do
irracional, da ignorância e do ódio. Assim, eu os saúdo a resistir à maré de
fanatismo religioso que tem tomado o país de assalto.
Como qualquer um da área de comunicação sabe, comerciais são
uma fonte indispensável de recursos. Sem comerciais, não há dinheiro. Sem
dinheiro, não há meio de comunicação. No momento, esses anúncios são a única
fonte de renda disponível para esse jovem canal de dança do ventre. E como
dança do ventre no Egito é equivalente à prostituição, nenhuma companhia
respeitável está disposta a anunciar num canal que mostra dança do ventre. Nenhuma
companhia de celular ou de móveis, em seu perfeito juízo, iria pagar para ter
os seus produtos associados à prostituição. Para piorar as coisas, o El-Tet não
recebe dinheiro de nenhum artista. E mesmo que recebesse, não seria suficiente
para sustentar o canal. Então, ele é forçado a aceitar esses anúncios para
sobreviver. Eu estou disposta a perdoar isso. Como o canal faz mais bem do que
mal, nós podemos considerar em aceitar que, nesse momento da história, o canal
precisa funcionar em circunstâncias não ideais.
Guerra à cultura?
Mais importante, entretanto, é que eu vejo esse incidente com o
El-Tet como o último numa guerra de larga escala contra cultura que tem
acontecido no Egito. Desde a queda de Mubarak, forças religiosas têm atacado a
cultura de forma nunca vista no Egito. Eles estão se opondo a tudo, desde dança
do ventre ao cinema e à cultura faraônica. Nem mesmo a esfinge ficou imune! De fato, antes da prisão do dono do El-Tet, o famoso ator egípcio, Adel Imam,
corria o risco de ser sentenciado à prisão por “blasfêmia”. A máfia barbuda agrediu
fisicamente estudantes de cinema na Universidade Ain Shems por fazer uma
reconstituição da época de Sadat. Muitos cabarés ou foram queimados ou
comprados por grupos religiosos, ou fechados por falta de clientes. E hotéis
como o Grand Hyatt e o Mena House cancelaram todos os seus shows de dança do
ventre. Você pode ler mais sobre esse tipo de coisa aqui.
De forma similar, a prisão feita semana passada foi um
ataque à dança e às mulheres. Apesar do dono ter sido preso sob acusação de
“facilitação à prostituição” por mostrar anúncios durante os clipes de dança, o
problema “real” é que tem mulheres semi-nuas rodopiando pela rede nacional de
TV. E todos nós sabemos o que as pessoas religiosas acham disso. Os
espectadores reclamaram dos comerciais, sim, mas isso apenas deu às autoridades
uma desculpa para atacar o canal. Isso fica claro à luz do fato de que o Egito
já tem um canal de TV que mostra anúncios pessoais 24h por dia, e que a
polícia da moral não fez nenhum barulho com relação a isso – por mais visuais
que esses anúncios possam ser, são apenas palavras. Lembrem-se que nem todos
conseguem ler. Mas quase todo o mundo pode ver. E eu aposto que a maioria dos
espectadores está muito ocupado prestando atenção nas bailarinas para notar os
comerciais na parte de baixo do vídeo.
Eu não estou defendendo o canal porque fiz alguns vídeos com
eles, diga-se de passagem. Não há nenhum interesse pessoal aqui. Mesmo antes de
eles me pedirem para me filmar, eu já havia percebido o grande avanço que esse
canal representa para a dança, e mais importante, para o Egito. Se posso dizer
alguma coisa, minha colaboração com o canal me deu a rara oportunidade de
conhecê-los pessoalmente e ver suas verdadeiras intenções. E eu posso dizer que
são as melhores.
Minha experiência com
o El-Tet
Ao contrário do que eu esperava inicialmente, todas as
pessoas que trabalham no canal são decentes e respeitáveis. Não há nenhum
cafajeste, como se espera encontrar no mundo da dança do Egito. Desde o próprio
dono do canal, até os produtores e maquiadores, cada um tem como compromisso
promover a dança do ventre como arte. E mais, eles gastam milhares de dólares
para garantir que os clipes que eles filmam serão agradáveis e respeitáveis. Se
você der uma olhada nos vídeos, você verá que eles são gravados em lindas casas
de campo com lareiras, móveis bacanas, relógios de parede e confete (!) etc. É
óbvio que eles estão dando o máximo de si para criar uma imagem positiva.
Trabalhar com eles tem sido um grande prazer. Nas duas vezes
em que fui filmada, eu iria aparecer na locação com os meus figurinos. A equipe
de produção iria dar uma olhada neles e escolher aqueles de que gostava mais.
Eles ficaram especialmente intrigados com a minha roupa da bandeira americana,
e me pediriam para usá-la, mas em ambas as vezes eu recusei. O clima político
atual me deixa um pouco desconfortável. Então, ao invés dele concordamos na
minha roupa de recortes de jornal. :)
Sendo montada pelo maquiador do “El-Tet” antes da filmagem
A primeira filmagem que eu fiz foi muito interessante. Eu
não sabia bem o que esperar. Cheguei à casa de campo às 10h da manhã, cansada e
com fome, e bebi copos de café além da conta enquanto esperava para ser arrumada.
Havia mais 4 bailarinas egípcias passeando pelo complexo da casa. Algumas
estavam sendo filmadas. Outras estavam fazendo ou o cabelo ou a maquiagem.
Depois de algum tempo de espera, chegou a minha vez de ser embonecada. Os
maquiadores e cabeleireiros estavam sob ordens restritas de me manter com um
jeito “estrangeiro”. Isso significa uma base branca, sem delineador preto, sem
sombras escuras, batom de tom nude e o cabelo preso e liso. A única coisa
“egípcia” em mim eram as sobrancelhas. Você sabe, aquelas sobrancelhas zangadas
em forma de V que são a marca registrada da maquiagem egípcia? :)
Quando eu sugeri que usassem um pouco de delineador preto em
mim eles responderam brincando que delineador preto é coisa de prostituta! :) E
quando eu sugeri que eles me fizessem parecer mais exótica eles responderam que
eu já era exótica. Bom, para eles eu era. Para mim, eu apenas não conseguia me
reconhecer. E nem me sentia como uma bailarina de dança do ventre. Mas deixei pra lá. Talvez eles vissem algo que eu não conseguia ver.
Pouco depois, um jovem se aproximou com uma bandeja cheia de
glitter numa mão, e um batom vermelho na outra. Ele encheu todo o meu corpo de
glitter – braços, pernas, barriga, colo e tudo o mais – com as próprias mãos. Então
ele esfregou o batom nos meus joelhos, decote e axilas! Essa foi a primeira vez
que eu deixei um egípcio desconhecido colocar as mãos em mim. Eu não pensaria duas
vezes se fosse nos EUA, mas aqui as coisas são diferentes. Entretanto,
estranhamente ele foi rápido e profissional, e não havia nada de estranho
naquilo.
Depois era hora da filmagem. A equipe de produção queria que
eu dançasse num corredor estreito, insistindo que ficaria lindo no vídeo. E
ficou, exceto que eu não tinha espaço para me mexer e esticar os braços. Eu me
senti como a Jeanie dançando dentro da garrafa. E eu usei um véu para a minha entrada de “Set el hosen”. Fora que os meus braços pareciam amassados e que
tinha alguns cortes feios na edição, fiquei satisfeita com o produto final.
O próximo clipe que filmei foi com o cantor Ahmed Salah.
Ahmed é um cantor popular de shaabi
do circuito noturno, e meio que se parece com o Baha Sultan (N.T.: cantor
egípcio famoso). :) Ele cantou uma música fofinha chamada “Salamtak ya Dimaghi” que podemos
traduzir livremente como “tchau tchau meu cérebro”. A ideia é que ele perde a
cabeça toda a vez que vê uma garota que ele gosta. Eu usei a minha roupa de
recortes de jornal para esse clipe, e me diverti muito na filmagem. Principalmente
porque houve muitos erros. O melhor deles foi quando uma parede de isopor caiu
na cabeça do Ahmed enquanto ele estava cantando. Nós dois começamos a rir e não
conseguimos mais parar até o final da filmagem. :D
Com Ahmed Salah, “Salamtak
ya Dimaghi”
O último clipe que fiz foi com a famosa música da Warda, “Esmaooni”, com arranjo e voz da
orquestra Safa Farid. Eu usei uma roupa com uma impressão de pele de leopardo
azul com lantejoulas para essa filmagem. Nesse momento eu já estava cansada,
morrendo de fome, irritada, e não queria fazer mais nada além de ir para casa.
E eu teria ido. Exceto que eu não queria ser grossa e ir embora depois de ter
prometido filmar 3 clipes. Então continuei em frente e fiz uma execução corrida
de Esmaooni, plenamente consciente de
que não estava dando o meu melhor, e não dando a mínima pra isso. De alguma
forma, entretanto, os planetas se alinharam ao meu favor. Esmaooni se tornou o clipe mais famoso de todo o canal, recebendo
mais telefonemas e votos on-line do que qualquer outro clipe desde que o canal
começou. Desde então, tive platéias egípcias cantando “Esmaooni” até eu ceder e dançar para eles. :)
O segundo round da minha experiência com o El-Tet foi muito
melhor. Pelo menos eu sabia o que esperar, e eu sabia que devia trazer comida e
minha própria maquiagem! Dessa vez, eu filmei 4 clipes. O primeiro foi uma
versão da Safa Farid de “Ye Helwa Sabah”.
O segundo foi um improviso para uma música de entrada moderna, e o terceiro foi
um improviso de solo de derbake. Eu filmei
o quarto clipe com outro cantor popular de shaabi,
Ragab El-Prince. Eu ainda não sei o nome da música, e ainda não consegui uma
cópia do vídeo, mas era sobre uma garota fazendo de tudo para ficar com o seu
amor. Trabalhar com Ragab foi tão divertido quanto trabalhar com Ahmed. Apesar
dos dois terem estilos completamente diferentes. E é claro, que não pudemos
terminar a filmagem sem um erro ou outro, o mais notável foi o meu bustiê
abrindo na frente das câmeras! Graças a Deus que eles não passaram nenhum dos
erros no ar!
No set com o cantor shaabi Ragab :)
Críticas
El-Tet recebeu muitas críticas. A maioria de egípcios
conservadores, e daqueles que odeiam as mulheres e a dança. Entretanto, algumas
das críticas vieram de bailarinas de dança do ventre, surpreendentemente.
Porém, eu acho que isso era esperado. Tudo que é novo e “revolucionário” está
destinado a encontrar resistência. Qualquer coisa. Direitos civis, direito das
mulheres, direitos dos gays, dança do ventre na TV egípcia etc. É apenas a trajetória
natural do progresso.
Forças conservadores no Egito amaldiçoaram o canal por
supostamente “corromper a sociedade”. Você sabe, toda aquela coisa das mulheres
seminuas se balançando? Isso era esperado. O que eu não esperava foi o
criticismo alastrado por toda a comunidade internacional da dança.
Como eu mencionei anteriormente, muitas bailarinas ficaram
chateadas pelo canal transmitir anúncios de mau gosto e anúncios pessoais. Mas as
críticas não se restringiram a isso. Muitas, incluindo algumas estrelas
aposentadas, criticaram o canal por apresentar a dança pela dança. Elas alegaram que a forma “correta” de apresentar a dança era num contexto de um filme, com uma história, um pano de fundo, e eventos dramáticos. Apesar disso
ser legal, eu não vejo nada de errado em assistir a velha e boa dança do
ventre. Sem mencionar que muitos desses filmes antigos são muito orientalistas
em se tratando das cenas de dança do ventre. E as bailarinas sempre fazem algum
papel indesejável, como uma prostituta, uma criminosa ou espiã. Isso sem dúvida
reforçou a imagem negativa das bailarinas de dança do ventre ao longo dos anos.
E aqui é ao contrário, ninguém faz esses papéis no El-Tet. As bailarinas só
dançam.
Outra bailarina famosa criticou o canal por surgir no “momento
errado”. Ela disse que um canal como esse não tem lugar num momento de
revolução... que a mídia deveria estar educando as pessoas, e ensinando como
elas devem respeitar umas às outras. Enquanto eu definitivamente concordo que a
mídia poderia fazer mais para educar as pessoas (ao invés de doutrinar), a
idéia de que estamos numa revolução e de que não precisamos da dança para nos
distrair é perigosa para a dança. Alguns lugares estão num estado constante de
revolução. Devemos esperar sairmos desse estado antes de darmos à dança a
atenção que ela merece? Ela não terá morrido até lá? Dos milhares de canais de
TV disponíveis para os egípcios nem UM pode ser dedicado à dança? Todos eles
têm de mostrar programas “educacionais” que ensinam religião aos egípcios, ou
tolerância, ou respeito etc.? Certamente que tem lugar para 1 ou 2 canais de
dança do ventre! Além disso, quem disse que eles não são educacionais à sua
própria maneira?!?
A última crítica que ouvi, e provavelmente a mais válida,
foi sobre a prática do canal de passar vídeos do YouTube de bailarinas sem a
permissão delas. Eu sei que isso enfureceu muita gente. E eu entendo isso.
Entretanto, eu gostaria de apontar que todo o conceito de direito autoral é
novo no Egito. Isso não os exime de usar filmagens de outras pessoas, mas
explica porque está acontecendo. Pelas minhas conversas com o pessoal do canal
sobre o assunto, parece que eles estão começando a pensar sobre isso.
No set com Ahmed Salah
Benefícios
Apesar de todos os pontos negativos que as pessoas já
apontaram, na verdade eu acho que o El-Tet faz mais bem do mal. E esses são os
motivos:
Primeiro e mais importante, ele está levando de volta a
dança para as pessoas. Graças ao El-Tet, qualquer um pode ligar a sua televisão
e se deleitar com uma apresentação de dança do ventre. Esse não era o caso
antes do canal aparecer. Isso porque os preços para ir num show de dança do
ventre são tão caros que a maioria dos egípcios não pode pagar. A dança do
ventre, então, se tornou um entretenimento exclusivo dos ricos e de outras
bailarinas estrangeiras. O El-Tet mudou isso da noite para o dia. Ele devolveu
uma grande parte da cultura para o povo egípcio. Por sua vez, os egípcios estão
levando isso muito a sério. Eles estão tendo todo tipo de conversa inteligente
sobre a dança. Eles discutem quais são as suas bailarinas favoritas e porque, o
quê eles acham das roupas, das músicas, etc. Em resumo, eles estão ficando
animados com a dança, o que é uma coisa boa de qualquer ângulo que você olhe.
Segundo, e eu nem precisava dizer isso, o El-Tet é um passo
na direção certa para as mulheres, o secularismo e as artes. E eu acho que não
preciso dizer mais nada sobre isso.
Terceiro, a dança do ventre televisionada está gerando uma
competição saudável entre as bailarinas. Vou explicar o que quero dizer.
Geralmente existem duas formas de lidar com a competição. Uma forma é
prejudicando a sua competição ao acabar com a sua reputação, vandalizar seus
pertences pessoais, ou se envolvendo em outras ações destrutivas. É isso que
normalmente acontece por aqui. A segunda forma é superando a sua competição.
Observar o trabalho delas e tentar fazer melhor. É isso que o El-Tet está
encorajando, mesmo sem saber. O que está acontecendo é que agora as bailarinas
estão sendo vistas umas pelas outras através da televisão. Elas estão
observando os movimentos das outras, suas roupas, visual, seleção musical, e
estão se empenhando em superar umas às outras nos vídeos seguintes. Isso é algo
positivo. Confiem em mim. Está motivando as bailarinas a melhorarem a sua dança ao
observar as outras e a criar coisas novas. No final das contas isso vai trazer
uma melhora geral no nível da dança por aqui.
Além disso, o El-Tet está disponibilizando exposição para
toda uma nova geração de bailarinas. Antes desse canal os egípcios só conheciam
a Dina. Agora eles estão contratando outras bailarinas, incluindo eu mesma,
para as suas festas. O que é ótimo. Tem muitas bailarinas por aí que precisam
do trabalho e dessa exposição, e algumas delas são realmente muito talentosas.
Desde que os barbudos não destruam a dança, esse canal está preparando uma nova
geração de estrelas que serão conhecidas pelo público egípcio da mesma forma
que Samia, Fifi, Souheir e Nagwa já foram.
Pessoalmente falando, eu já me beneficiei de ter aparecido
no canal. Publicidade é sempre uma coisa boa. Eu também gosto de ouvir e ler os
comentários dos egípcios sobre a minha dança. Mas não me entendam mal. Só de
pensar de aparecer em rede nacional da televisão egípcia é de deixar os nervos
à flor da pele. Isso quer dizer que todos estão me vendo. Todos. Homens, mulheres, jovens, idosos, fanáticos religiosos,
outras bailarinas, agentes, produtores, e a lista não termina. É muita pressão.
Eu não fico muito feliz que donos de apartamentos e meus vizinhos assistam o
canal, já que eu poderia e já fui expulsa de um apartamento por ser bailarina
de dança do ventre. E eu não tenho muita certeza de como me sinto quando
pessoas desconhecidas cantam as músicas que eu dancei quando elas me vêem na
rua. Quer dizer, estou acostumada a andar “disfarçada”, e essas pessoas estão
acabando com o meu disfarce! Mas é legal ver que as pessoas me reconhecem. :)
Dançando “Set El-Hosen” no corredor estreito :)
Eu também já fui pessoalmente criticada por ter aparecido no
canal. Alguns disseram que pelo nível da dança que aparece é muito baixo (e de
classe baixa), eu me arruinaria se aparecesse lá. Outros disseram que as
pessoas se cansariam de ver a minha cara. Outros ainda sugeriram que eu seria
exposta a muito assédio e criticismo desnecessário. Eu considerei isso tudo
antes de concordar em ser filmada, e no final eu decidi que, diabos, só se vive
uma vez. Eu sou viciada em novas experiências, mesmo que elas não sejam sempre
positivas. Essa experiência, entretanto, acabou se revelando mais do que boa, e
eu estou muito feliz de ter aceitado a oferta deles de ser filmada. No mínimo,
me inspirou a escrever o maior post da história!