Ano novo que começa, é o momento para alimentar a nossa alma e nos encher de ideias para o ano que está começando!
Esse post deve ser curtinho, mas tem material para estudar por um bom tempo! Venho mostrar a vocês dois vídeos de duas bailarinas maravilhosas dançando a mesma música para que possamos estudar dois estilos diferentes fazendo uma belíssima leitura musical!
A música é Lissa Faker, da maior cantora árabe de todos os tempos, a egípcia Oum Kalthoum, de quem pretendo falar ainda esse ano no blog. Vale a pena reparar nas diferenças de arranjo entre as duas versões.
A primeira bailarina é a "diva-mór" Fifi Abdo, que eu tive o privilégio de ver ao vivo em Porto Alegre. Fifi não é conhecida por ser uma bailarina de muitos passos e variações, pelo contrário, mas a sua genialidade está na forma como ela consegue fazer o mesmo passo parecer sempre novo, espontâneo, na sua incrível presença e carisma. E, claro, no seu quadril bizarramente soltinho. A sua versão de Lissa Faker é um solo de alaúde, instrumento que combina demais com o seu tipo de movimento de quadril mais característico. Vale notar também o público cantando a letra no fundo no final!
Em termos de leitura musical da Fifi, repare que durante a primeira parte (até 2:38) a melodia se repete algumas vezes, e se você prestar atenção você vai ver que ela repete o que ela faz nas repetições. Repare que ela alonga os movimentos no momento em que a melodia dá uma "arrastada", às vezes ignorando o som vibratório do alaúde (fazendo movimentos sinuosos), às vezes acompanhando a vibração com shimmie. Em especial, a última frase dessa primeira parte aparece novamente no final do vídeo, e ela repete os movimentos, linda. Pessoalmente acho lindas as pausas que ela faz em 4:20 e 4:47.
A segunda bailarina é Lucy, outra diva dos anos 90 do Egito, que anda meio sumida ultimamente. Sua versão de Lissa Faker também tem um taksim, mas de qanoun, o que também pede shimmies, mas de outra qualidade, menorzinhos, como ela mostra tão lindamente na sua dança. Mas sua versão da música também tem momentos orquestrados e um curto taksim de flauta, e a sua leitura musical é absolutamente perfeita. É um vídeo para se rever e rever e rever muitas vezes.
Lucy começa lendo o solo do qanoun com um shimmie bem pequininho, perfeito para o instrumento, depois cresce o movimento na entrada do violino, fazendo mudanças de direção. Quando começa a orquestra, ela cresce junto, marcando com os "alongamentos" da melodia, dando ênfase em 0:49, e continua lendo a melodia com o quadril até o início do acordeon em 0:59. Aí ela faz apenas básicos egípcios, numa leitura bem baladi do instrumento, voltando a leitura da melodia quando volta a orquestra em 1:08. Repare que ela volta com leves deslocamentos, marcando a diferença de tamanho entre os solos e a orquestra, e que no final, em 1:27, ela desloca a leitura pelo corpo, terminando na mão, fechando a frase. Perfeito. Até porque a música segue com o qanoun, que ela lê marcando suas pausas, e quando a orquestra responde em 1:35 ela faz giros, terminando no exato momento em que retorna o qanoun, outra resposta da orquestra ocorre em 1:46, e ela lê perfeitamente a melodia até novo retorno do qanoun em 1:53. Em 2:04 ela repete o que houve em 1:35. Depois durante o solo do qanoun, o violino aparece e ela responde também. Deusa. O fechamento em 2:30 é particularmente bonito. Quando a orquestra retorna ela volta a leitura com leve deslocamento, pegando a melodia todinha. Em 3:02 vem o taksim de flauta, e ela capricha, muda posicionamento e coloca tudo em movimentos de braços, mudando de direção quando o violino surge. A orquestra retorna em 3:10, e a diva pega tudo, finalizando em 3:21. Retorna o qanoun e ela parece que lê ainda mais a melodia do solo, fazendo um deslocamento com a resposta da orquestra em 3:35, e voltando ao qanoun em 3:40. A orquestra volta em 3:54, e ela marca com mudanças de direção, e o qanoun marca de novo presença em 4:01. Em 4:13 a orquestra responde de novo, e ela pega toda a melodia. Fico emocionada quando vejo essas coisas. E aí o qanoun volta, com pequenas marcações da orquestra, que ela pega com variações do quadril ou dos braços. Em 5:00 vem um taksim do qanoun, e ela pega tudo, a danada, o público a anima em 5:21 (yalla!) e a música retoma com o qanoun e a orquestra no fundo, indo para o final da apresentação, e ela termina igual a Fifi!
Aliás, esses dois vídeos, com essas duas versões da mesma música, são maravilhosos para ilustrar a diferença entre esses dois instrumentos musicais e suas leituras. Nada como aprender com grandes mestras!
Para quem quiser, segue também a versão "completa e original" da música! Mas prepare-se, são 46 minutos de divação! Repare que a parte que Lucy e Fifi dançam é apenas o início da música, que aqui não é um taksim, tem uma entrada com a orquestra e só depois Oum Kalthoum começa a cantar.
E que 2016 seja assim, com muito shimmie, muita dança, muito lililili e muita inspiração!
Nota de revisão: Primeiramente eu descrevi a versão que a Fifi dança como um taksim, mas como foi bem apontado pela Rebeca Bayeh, taksim não é só um solo, envolve também improviso. Dentro da versão da Fifi tem taksim, assim como na versão da Lucy, mas a peça em si não é um taksim :-) Aproveitei a revisão para fazer descrições mais detalhadas dos vídeos.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
terça-feira, 17 de julho de 2012
Shimmies!!!!!!!
Conforme prometi no post sobre o DVD de glúteos da Suhaila, vamos falar sobre shimmies!
A ideia aqui não é esgotar o assunto, pois o que mais tem por aí são shimmies diferentes (já ouviram falar do DVD 21 shimmies e 1001 variações da Leyla Jouvana?). O que eu gostaria de discutir aqui é a técnica básica, do shimmie de quadril mais básico.
Quando comecei a aprender dança do ventre, com a minha primeira professora lá nos anos 2000 (antes da novela O Clone, ok? rsrsrsrs) ela me ensinou que o shimmie é feito com os joelhos. Todas vocês devem ter aprendido assim também: você alterna os joelhos bem rápido e daí obtem o shimmie). Mais tarde vim a saber que essa é a técnica usada pela renomadíssima bailarina e professora egípcia Raqia Hassan. Logo, essa é a técnica usada pelas bailarinas egípcias hoje.
Mas confesso que sempre tive dificuldades com essa técnica. Eu sempre achei o meu shimmie pequeno, e tinha muita dificuldade em fazer shimmie me deslocando. (mais alguém se identifica com isso? rsrsrsrsrs)
Daí fui fazer um workshop só de shimmie com a bailarina paulista Dunia La Luna, isso foi por volta de 2003 ou 2004, e ela falou sobre uma outra técnica de shimmies, sem o uso do joelho ou das pernas! Sim, é isso mesmo! O motor principal do movimento passa a ser o quadril e um grande conjunto de músculos associados a ele, desde os músculos transversais até os psoas (para uma descrição básica da técnica veja o site da Dunia, aqui).
E mais tarde conheci a técnica das bailarinas americas, que é o uso dos glúteos, como mostrado no DVD da Suhaila (confesso que eu acho essa técnica a mais difícil de todas). Detalhes no post sobre o DVD, aqui.
Todas essas técnicas dão origem a shimmies, mas cada uma tem uma qualidade um pouco diferente. O uso dos joelhos, apesar de gerar pernas mais estendidas, dá origem a um shimmie de movimentos bem curtinhos (o famoso tremidinho), e é muito difícil fazer movimentos longos com essa técnica, especialmente se você tiver um quadril pequeno. E, dependendo da roupa, os movimentos dos joelhos sobressaem demais (e eu, pessoalmente, acho isso feio).
A técnica dos glúteos dá origem a movimentos bem maiores, mas são movimentos sempre bem sequinhos e duros, por causa da força usada na contração dos glúteos, e conforme você aumenta a velocidade, ele vai ficando mais curtinho (claro, em todas as técnicas é assim).
Já a técnica do uso direto do quadril dá origem a um shimmie maior que das outras técnicas, e o movimento fica menos duro e seco (mas você pode torná-lo mais duro e seco se quiser graduando a força que você coloca no movimento). E, assim como na técnica dos glúteos, o movimento dos joelhos fica menos aparente, mas em compensação as pernas precisam estar mais flexionadas (a não ser que você esteja de salto).
Mas quem usa que tipo de técnica? Bom, vamos aos exemplos para ver a diferença!
Uso da técnica dos joelhos:
Dina: (note como os shimmies são sempre pequenininhos)
Luna do Cairo: (repare como o movimento dos joelhos chamam atenção)
Soraia Zaied: (esse vídeo é legal porque dá pra ver muito bem o uso dos joelhos, como eles se mexem tanto ou mais que o quadril)
Técnica dos glúteos:
Suhaila: (perceba como o movimento dos joelhos é mínimo)
Ariellah: (note como os movimentos de quadril são sempre bem secos - apesar da Ariellah trabalhar com tribal, a base da dança dela é dança do ventre, então vale a pena dar uma olhada)
Técnica do quadril:
Dunia La Luna: (repare o uso de mais de uma técnica de shimmie, o de joelhos e de quadril nessa dança, e a diferença na qualidade do quadril em cada técnica)
Fifi Abdou: (repare como o shimmie da Fifi é muito maior do que se usa hoje em dia no Egito)
Nadia Gamal: (repare como ela controla o tamanho do shimmie - pequeno e grande, e como ela faz um shimmie lindo ajoelhada - esse shimmie de joelhos só é possível usando ou as coxas, ou glúteos ou movimentos partindo do quadril)
Naima Akef: (repare como ela nem usa o tremidinho tão usado hoje em dia, só um shimmie maiorzinho)
Enfim! Espero que tenha dado para perceber a diferença :-) e que tenha ajudado a quem queria saber mais sobre shimmies! Qualquer dúvida coloque aí nos comentários que a gente vai batendo um papo sobre esse assunto tão fascinante!
A ideia aqui não é esgotar o assunto, pois o que mais tem por aí são shimmies diferentes (já ouviram falar do DVD 21 shimmies e 1001 variações da Leyla Jouvana?). O que eu gostaria de discutir aqui é a técnica básica, do shimmie de quadril mais básico.
Quando comecei a aprender dança do ventre, com a minha primeira professora lá nos anos 2000 (antes da novela O Clone, ok? rsrsrsrs) ela me ensinou que o shimmie é feito com os joelhos. Todas vocês devem ter aprendido assim também: você alterna os joelhos bem rápido e daí obtem o shimmie). Mais tarde vim a saber que essa é a técnica usada pela renomadíssima bailarina e professora egípcia Raqia Hassan. Logo, essa é a técnica usada pelas bailarinas egípcias hoje.
Mas confesso que sempre tive dificuldades com essa técnica. Eu sempre achei o meu shimmie pequeno, e tinha muita dificuldade em fazer shimmie me deslocando. (mais alguém se identifica com isso? rsrsrsrsrs)
Daí fui fazer um workshop só de shimmie com a bailarina paulista Dunia La Luna, isso foi por volta de 2003 ou 2004, e ela falou sobre uma outra técnica de shimmies, sem o uso do joelho ou das pernas! Sim, é isso mesmo! O motor principal do movimento passa a ser o quadril e um grande conjunto de músculos associados a ele, desde os músculos transversais até os psoas (para uma descrição básica da técnica veja o site da Dunia, aqui).
E mais tarde conheci a técnica das bailarinas americas, que é o uso dos glúteos, como mostrado no DVD da Suhaila (confesso que eu acho essa técnica a mais difícil de todas). Detalhes no post sobre o DVD, aqui.
Todas essas técnicas dão origem a shimmies, mas cada uma tem uma qualidade um pouco diferente. O uso dos joelhos, apesar de gerar pernas mais estendidas, dá origem a um shimmie de movimentos bem curtinhos (o famoso tremidinho), e é muito difícil fazer movimentos longos com essa técnica, especialmente se você tiver um quadril pequeno. E, dependendo da roupa, os movimentos dos joelhos sobressaem demais (e eu, pessoalmente, acho isso feio).
A técnica dos glúteos dá origem a movimentos bem maiores, mas são movimentos sempre bem sequinhos e duros, por causa da força usada na contração dos glúteos, e conforme você aumenta a velocidade, ele vai ficando mais curtinho (claro, em todas as técnicas é assim).
Já a técnica do uso direto do quadril dá origem a um shimmie maior que das outras técnicas, e o movimento fica menos duro e seco (mas você pode torná-lo mais duro e seco se quiser graduando a força que você coloca no movimento). E, assim como na técnica dos glúteos, o movimento dos joelhos fica menos aparente, mas em compensação as pernas precisam estar mais flexionadas (a não ser que você esteja de salto).
Mas quem usa que tipo de técnica? Bom, vamos aos exemplos para ver a diferença!
Uso da técnica dos joelhos:
Dina: (note como os shimmies são sempre pequenininhos)
Luna do Cairo: (repare como o movimento dos joelhos chamam atenção)
Soraia Zaied: (esse vídeo é legal porque dá pra ver muito bem o uso dos joelhos, como eles se mexem tanto ou mais que o quadril)
Técnica dos glúteos:
Suhaila: (perceba como o movimento dos joelhos é mínimo)
Ariellah: (note como os movimentos de quadril são sempre bem secos - apesar da Ariellah trabalhar com tribal, a base da dança dela é dança do ventre, então vale a pena dar uma olhada)
Técnica do quadril:
Dunia La Luna: (repare o uso de mais de uma técnica de shimmie, o de joelhos e de quadril nessa dança, e a diferença na qualidade do quadril em cada técnica)
Fifi Abdou: (repare como o shimmie da Fifi é muito maior do que se usa hoje em dia no Egito)
Nadia Gamal: (repare como ela controla o tamanho do shimmie - pequeno e grande, e como ela faz um shimmie lindo ajoelhada - esse shimmie de joelhos só é possível usando ou as coxas, ou glúteos ou movimentos partindo do quadril)
Naima Akef: (repare como ela nem usa o tremidinho tão usado hoje em dia, só um shimmie maiorzinho)
Enfim! Espero que tenha dado para perceber a diferença :-) e que tenha ajudado a quem queria saber mais sobre shimmies! Qualquer dúvida coloque aí nos comentários que a gente vai batendo um papo sobre esse assunto tão fascinante!
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