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terça-feira, 8 de março de 2016

Dia da Mulher - Literatura Árabe feita por Mulheres



Esse ano resolvi fazer um post diferente para comemorar o dia da mulher! Em vez de falar de dança,  vou falar sobre literatura feita por mulheres no mundo árabe! Infelizmente nem tudo que mencionarei está disponível em português, porque a literatura árabe por aqui ainda não é tão procurada nem tão conhecida. Mas um dia a gente chega lá! Essa também não é uma lista muito extensa, pois vou me restringir apenas ao que já li.

Vamos começar com o Egito!

Entre as escritoras árabes que tratam do especificamente do universo feminino e da condição da mulher no mundo árabe existe dois lugares de honra reservados para duas mulheres egípcias incríveis!

Nawal El Saadawi
Essa escritora maravilhosa também é médica, e suas obras são muito influenciadas pelas vivências que ela teve ao visitar o interior do Egito e conhecer de perto a real situação das mulheres fora da capital do país. O que não torna o Cairo isento de ocorrer situações tão assustadoras quanto aquelas descritas nos seus livros. Suas obras ainda podem ser encontradas em sebos em português e existem traduções de Portugal. Aqui os livros que eu já tive a oportunidade de ler dessa grande feminista: God dies by the Nile e uma das obras mais icônicas Woman at point zero.

Huda Shaarawi
Essa é uma figura importantíssima na história do feminismo árabe, pois foi a primeira mulher a retirar o véu em público como um ato político! Influenciada pelo feminismo das sufragistas europeias, com quem tinha muito contato, Huda escreveu uma auto bibliografia/livro de memórias que é simplesmente DIVINO, chamado Harem Years, que infelizmente ainda não foi traduzido para o português. Mas, vale demais a leitura, e você pode ver a minha resenha sobre o mesmo aqui.
Ela é uma das inspirações para esse vídeo maravilhoso sobre a história do visual feminino no Egito de 1910 a 2010. Ela é a inspiração visual para 1920 :-D

Mais informações sobre cada visual desse vídeo estão aqui.

Dina

Ok, Dina é bailarina, e das mais controversas da atualidade, mas ela escreveu uma autobiografia extremamente interessante, e que já foi tema aqui no blog, sendo objeto de um mar de posts! Não está num lugar de honra, mas precisa ser mencionada e você encontra os antigos posts sobre sua autobiografia aqui.

Saindo do Egito e indo para o Líbano temos:

Joumana Haddad
Essa escritora nascida em Beirute também é jornalista, poetiza e ativista feminista! E se não bastasse tem pelo menos uma obra traduzida para o português! UHUUU! O interessante sobre sua obra é que a mesma transcende o mundo árabe, o que torna a leitura muito boa para nós pensarmos também sobre a nossa condição de mulher ocidental. Por enquanto só li um livro dela, mas tenho outros na lista, e você pode ver a minha resenha sobre "Eu matei Sherazade" aqui.

Hanan Al-Shaykh

Outra libanesa maravilhosa! Sua obra mais conhecida é "The story of Zahra", e ela segue a linha de denúncia da Nawal, o que torna a sua leitura bem pesada, mas simplesmente necessária. Você pode ler a minha resenha sobre esse livro aqui.







BÔNUS
Agora como bônus, vou sair um pouquinho do mundo estritamente árabe para mencionar uma autora iraniana, mas cuja obra é tão linda que precisa ser colocada aqui: Marjane Satrapi. Essa cartunista de origem persa escreveu graphic novels absolutamente imperdíveis! Entre elas a premiada "Persépolis" (que também virou um filme animado que chegou a disputar o Oscar!), "Frango com Ameixas" e "Bordados". Hoje Marjane vive na França e suas obras são majoritariamente para crianças, mas a maioria só tem em francês.

Outro bônus: foi lançado há pouco tempo em português uma tradução da autora turca Gül Irepoglu, algo que é para se comemorar, comentar e indicar o livro "A Concubina"!

Que este dia das mulheres amplie nossos horizontes!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Dançando com conteúdo

Por Lalitha

Depois de quase um ano sem postar aqui resolvi que era hora de voltar a escrever. Nesse ano sabático andei pensando e pesando diversas coisas, algumas muito controversas, e finalmente me sinto pronta e com energia para sair da toca e botar a boca no mundo novamente.

Uma das coisas que tem me incomodado nos últimos festivais e nas últimas apresentações que assisti é a falta de conteúdo na dança do ventre. O que quero dizer com conteúdo? É aquilo que a bailarina quer passar de mensagem para o seu público.  Não precisa ser nada muito complexo, veja bem, não estou dizendo que eu gostaria de ver na dança do ventre o mesmo estilo de performance super elaborada como se encontra em outros estilos de dança (apesar de ser bem vindo para arejar a nossa amada dança), mas pelo menos alguma EMOÇÃO em quem dança.

Não, sorriso automático não conta como emoção. Cara de sofrimento exagerada também não.

É engraçado como as vezes eu vejo bailarinas iniciantes preenchendo muito mais o palco com suas emoções do que bailarinas com anos de estrada. Fiquei me perguntando o que levaria a esse fenômeno, em que momento a técnica e a busca da perfeição tiram o brilho dos olhos da bailarina, e nessa busca fui estudar Isadora Duncan. Nesse estudo uma das lições que aprendi foi: o simples é muito difícil de atingir, mas costuma ser o mais eficaz e elegante. Outra lição importante foi que você precisa estar inteiramente presente em cada gesto, em cada movimento do seu corpo, e para isso, os seus gestos e movimentos precisam ter SIGNIFICADO.

Para a bailarina colocar significado na sua dança cheguei à conclusão que ela precisa não só sentir a música, mas compreendê-la. Quando a música é instrumental, e se a bailarina tiver um bom ouvido e um bom contato com as suas próprias emoções, apenas sentir a música é suficiente, mais do que suficiente. A dança se torna uma expressão do que a bailarina sente quando escuta aquela música, e o resultado pode ser sensacional. Porém, se a música tem letra, o buraco é mais embaixo.

Músicas com letras em árabe podem ser complicadas de se dançar, todos já estão carecas de ouvir histórias de bailarinas que dançaram músicas religiosas e ofenderam muçulmanos no processo, ou dançaram músicas que falavam de revoluções sangrentas como se fosse uma festa animada. Mas vou deixar esse tópico em específico para tratar depois, pois o problema é mais complexo, e árabe não é uma língua fácil.

Até porque mesmo tendo uma boa tradução na mão, ou se você fala árabe e a compreensão da música nesse sentido foi superada, ainda tem o problema que mencionei anteriormente: a bailarina precisa SENTIR, ela precisa ter noção de que sentimentos aquela música ou letra despertam nela mesma para então projetar aquilo para o público. E  é aí que tenho visto mais dificuldades e problemas.

Como criar o seu conteúdo? Como sentir/descobrir o que aquela música significa para você?

Para mim, tudo começa por uma pergunta: por que você dança? Qual é o seu real motivo para dançar? O que você busca alcançar com a sua dança?

A partir dessas respostas outras perguntas surgem, e quanto mais você descobrir sobre o que a motiva, mais emocionada você ficará ao ouvir um violino. Quanto mais explorar a si mesma, você ficará cada vez mais sensível aos seus próprios sentimentos, e aí, na hora de dançar é preciso sempre manter um esforço para deixar aquilo tudo fluir pelo seu corpo. E isso, na verdade, é necessário em todas as formas de arte. A diferença é que na dança e na música isso não só é visível no artista, como é irrepetível. Você nunca vai dançar igual duas vezes, mesmo com coreografia, simplesmente porque você não tem exatamente a mesma reação emotiva duas vezes.

E também nesse ponto que entra uma outra coisa que podemos fazer e que ajuda: "alimentar a alma". Quanto mais alimentamos nossa alma com coisas que nos toquem, que nos faça entrar em contato com os nossos sentimentos, mais sensíveis ficaremos para dançar. E aí vale tudo quanto é arte: pintura, literatura, cinema, músicas de todos os estilos, danças de todos os estilos.

Porque nessa busca do porquê dançar está incluída a pergunta: o que te toca? Quais quadros te fazem chorar, que filmes te fazem rir, que estilo de música te faz levantar e sair dançando?

Pessoalmente eu gosto muito de ler e de pintura e fotografia, então eu leio uma quantidade enorme de livros de ficção, tenho até um blog sobre isso, e criei a pouco tempo uma conta no pinterest, onde comecei a colecionar imagens que me tocam e me inspiram.

E adoro ver vídeos de danças de diversos estilos, sou daquelas que busca inspiração em todos os tipos de dança. Só para dar um gostinho, aqui um exemplo de um bailarino iraniano (mas que mora na França) que tem um trabalho que eu acho belíssimo e inspirador com leitura moderna da dança persa:

Primeiro uma filmagem de estúdio:

Agora dois vídeos de um espetáculo que ele criou com base em mitos persas:






Com o quê vocês alimentam a alma?

terça-feira, 5 de março de 2013

Livro (e filme) do mês: Persépolis


Esse mês vamos falar de quadrinhos! Para quem tem preconceito segue uma dica: reveja a sua opinião, porque temos muitas Graphic Novels interessantíssimas com a temática árabe ou oriental para descobrir!

E vamos conhecer hoje o trabalho de uma iraniana atualmente radicada na França: Marjane Satrapi! De origem persa e muçulmana, Marjane nos conta nessa auto-biografia como foi viver ainda pequena a revolução do Irã (que também pode ser vista no Oscar desse ano, com o filme "Argo") e todas as mudanças sociais que se seguiram. Mais tarde Marjane vai viver sozinha na Europa, e quando volta ao Irã ela sente todos os contrastes entre o Oriente e o Ocidente, falando de um tema muito caro a todos aqueles que vivem no exterior: a sensação de não pertencer mais a lugar nenhum. De quebra, o livro ainda mostra o lado iraniano da guerra Irã-Iraque.

Ilustrado pela própria autora, Persépolis é de uma delicadeza e de profundidade incríveis, apesar dos desenhos serem simples, o traço da autora é muito expressivo, e a história que ela tem para contar é simplesmente cativante! E nos ajuda a entender muito melhor esse país que é retratado de forma tão deturpada na mídia.

Para melhorar ainda mais, Persépolis virou filme! No caso uma animação que estreou em 2007, levou o Prêmio do Juri no Festival de Cannes e de quebra concorreu ao Oscar naquele ano de animação. E realmente o filme merecia!

Por sorte o YouTube existe, e portanto segue aqui o vídeo disponível com legendas em português:

Vale a pena tanto assistir quanto ler o livro! Não se limite a apenas uma forma :-)

E boa leitura!!!

Quem quiser ver minha outra resenha sobre essa Graphic Novel pode ler aqui.