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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Livro do Mês: Isadora Duncan a Graphic Biography

Sei que estou atrasadíssima com os posts e gostaria de me desculpar, mas são fases, né? Estou numa fase meio enrolada mesmo, muitos projetos ao mesmo tempo dá nisso ;-)

Mas vamos lá que, desculpas às parte, temos um livro para comentar/indicar!


Hoje vou sugerir uma leitura bem diferente do que já vimos até agora no blog: uma Graphic Novel, ou, num português esquisito, um romance gráfico (título da Wikipédia, tá? não fui eu quem inventou!). Numa explicação rápida, é uma história em quadrinhos grande, contando uma história fechada (com início, meio e fim, sem essa coisa de continuações intermináveis, tão comuns no meio dos quadrinhos), análoga a um livro.

Isadora Duncan
Nesse caso, a história é a biografia da bailarina revolucionária Isadora Duncan! Para quem não conhece, Isadora é conhecida por muitos como a mãe da dança moderna, e ela foi buscar inspiração para a sua dança singular e totalmente revolucionária na época na natureza (nas ondas do mar, nos ventos batendo nas árvores...), na arte grega (especialmente na estatuária grega clássica, e também na mitologia) e buscando os movimentos mais naturais do corpo humano (um dos pontos da sua dança que mais lembra a dança do ventre, que também diz-se se aproveitar de movimentos naturais do corpo feminino, certo?). Nessa busca Isadora também buscou a liberdade da mulher e do corpo feminino, o que por si só já deixaria a sua dança e sua história interessantes para nós, estudiosas da dança do ventre.

Isadora Duncan dançando na praia
Isadora Duncan numa das poses de "sereia"

Agora, a vantagem dessa Graphic Novel é justamente o fato dela ser gráfica! Porque apesar da biografia apresentada ser um pouco superficial, o livro em si é uma obra de arte! Imagine, é um livro sobre uma bailarina maravilhosa onde tudo é contado através de imagens! Preciso dizer mais alguma coisa para te interessar na sua leitura?

Uma das páginas da Graphic Novel para dar um gostinho... lembra uma foto acima? ;-)
Posso, né? Então, Isadora além de tudo o que eu já disse, foi uma das precursoras do uso de tecidos na dança, e alguns ainda dizem que foi uma das inspirações da famosa Badia Masabni ao incluir o uso do véu entre as suas bailarinas. Quer mais? Isadora Duncan ainda incluiu nos seus estudos a busca pelo lado espiritual da dança, a dança como meio de expressão da alma.

Isadora Duncan com um "véu"
Mas nem tudo foram flores na vida dessa bailarina que atingiu um nível de estrelato fora do comum na sua época, pois ela foi marcada de tragédias, dignas de um verdadeiro romance!

Isadora e seus filhos, Deirdre e Patrick,
uma tragédia de partir o coração...

Isadora e suas alunas


Agora que te deixei morrendo de vontade de saber mais e ler o livro, tenho dois avisos: 1- o livro não é perfeito (mais detalhes na resenha que fiz aqui), 2- o livro só está disponível em inglês (mas você pode encontrá-lo em sebos internacionais como esse, caso o problema seja apenas financeiro, infelizmente para o problema da tradução ainda não há solução).

Agora a boa notícia! Se você não lê inglês (ou lê, mas quer ainda mais informações), teremos um curso sobre Isadora Duncan e suas técnicas de dança no Rio de Janeiro em julho!


Quer ter um gostinho do que será tratado no curso? Leia o artigo da professora Paola Blanton "As Dançarinas do Futuro Somos Nós"


quarta-feira, 10 de abril de 2013

As Dançarinas do Futuro Somos Nós - O que Isadora Duncan doou para o mundo da dança


Texto de Paola Blanton

Isadora Duncan

Isadora Duncan, a mãe da dança contemporânea, foi uma mulher pioneira, americana e de espírito livre, uma artista de alma e um ser à frente de seu tempo. Em sua curta vida, de 1877 a 1927, ela revolucionou a dança durante uma época em que a moralidade e a estética vitoriana deixavam pouco espaço para as artes do movimento além do balé, da dança de salão, ou das montagens ordinárias de “Vaudeville” nas Feiras do Estado ou teatros urbanos.

Ela tinha uma visão ousada de uma nova dança e de uma nova mulher - a dança e a dançarina do Futuro. Ela escreveu que a "Dança do Futuro" teria que recuperar seu lugar como uma forma de arte sacra, do jeito que era para com os gregos antigos. A dançarina não dança para surpreender, mas para aumentar a consciência e agir como um canal de energias universais. Em muitos aspectos, a motivação para a dança voltaria às suas raízes antigas - a comunhão sagrada do corpo, da mente, do espírito e da comunidade. Só que agora, a comunidade virou a humanidade inteira em seu contexto cósmico.

A "Dançarina do Futuro", de acordo com Isadora, seria

 "uma em que corpo e a alma têm crescido tão harmoniosamente, que a linguagem natural da alma se tornará o movimento do corpo. A dançarina não pertence a nenhuma nação, mas a toda humanidade. Ela vai dançar não na forma de ninfa, nem de fada, nem coquete, mas em forma de mulher na sua expressão maior e mais pura. Ela vai perceber a missão do corpo feminino e da santidade de suas partes. Ela vai dançar os ciclos da natureza.... De todas as partes de seu corpo vai brilhar uma inteligência radiante, trazendo para o mundo a mensagem dos pensamentos e aspirações de milhares de mulheres. Ela vai dançar a liberdade da mulher " - De seu Magnus opus, A Arte da Dança.


Nos escritos de Duncan, encontramos referências freqüentes ao "futuro", e como será a dança e dançarina do futuro. Isadora foi uma profetisa, sabendo que a liberdade do corpo, da mente e do espírito que ela personificou ainda não tinham encontrado o seu melhor momento histórico, mas que chegaria um momento no futuro, quando a Mulher Moderna estaria pronta para a sua mensagem, e o espaço para a dança do futuro se abrir. Eu acredito que esse tempo é agora.

Qual é a mensagem de Isadora Duncan para dançarinas modernas dentro desta visão da dançarina do futuro? Quais descobertas fez esta artista revolucionária e feminista para preparar a cena da dança para que ela pudesse evoluir como uma forma de arte sagrada e universal? Para isso ela nos traz uma riqueza de abordagem para a arte da dança - transformacional na motivação, na inspiração e na técnica de expressão.

Sim, a expressão pode ser ensinada e aprendida, - "Ou você tem ou você não tem" -  não é necessariamente inata como muitos afirmam. Duncan revelou uma metodologia de expressão que se tornou essencial para diversas formas de dança moderna e de artes cênicas – não há literalmente nenhuma arte expressiva que não pode ser melhorada através da aplicação desta técnica. Centra-se na articulação seqüencial de motivação - envolvendo primeiro os olhos, ou a percepção inteligente de estímulos. Em segundo lugar vem o plexo solar, ou a intenção emocional, e em terceiro lugar, o gesto real do corpo. Um grande exemplo é o ato de se apaixonar. Nós "vemos" o amado primeiro (quantas vezes nós dizemos "amor à primeira vista"?). Depois de ver a pessoa, nosso coração se mexe e estamos emocionalmente atraídos por eles – lançando a luz do nosso plexo solar e coração em sua direção. E em terceiro lugar vem o nosso gesto, se andamos na direção deles, estendemos nossas mãos, ou abrimos os braços. A seqüência de expressão faz sentido em muitos níveis, porque é natural e segue a ordem natural das coisas, que é o que Isadora reverenciava em suas filosofias de dança e de vida.

A natureza foi sua primeira musa. Ela estudou as linhas, formas e movimentos dos elementos e do universo, localizando o corpo humano como figura central na grande cena do Universo natural. Ela escreveu (AOTD):

 "Se procurarmos a verdadeira fonte da dança, se formos à natureza, vemos que a dança do futuro é a dança do passado, a dança da eternidade, e tem sido e será sempre a mesma. O movimento das ondas, dos ventos, da terra é sempre a mesma harmonia duradoura. Nós não ficamos na praia perguntando ao oceano qual foi o movimento no passado e qual será o seu movimento no futuro ..."

Como cada um de nós é parte do universo, estamos sujeitos às mesmas leis do movimento e gravitação que o governam, Isadora imaginou nossa dança como uma "tradução humana da gravitação do universo."

Cada movimento propaga o próximo em ciclos intermináveis de movimento, como as ondas, os ventos, átomos e galáxias.

Agora, mais do que nunca, estamos redescobrindo a sacralidade da Mãe Terra e nos re-conectando com seus ritmos em nossa espiritualidade. Filosofias e práticas ecos-feministas estão entrando no centro do palco da cultura do mundo e as mulheres estão se re-conectando com o seu destino como sacerdotisas do mundo natural. Nós trazemos a dança para as praias, montanhas e desertos, em conexão com as correntes da Terra e do Céu através de seus ritmos, formas e movimentos. Quando dançamos em sintonia com a natureza, nos abrimos para suas inúmeras belezas - respiramos ar puro, levantamos o rosto para o sol como flores, balançamos com as ondas e árvores, e caímos para a Terra na poesia em forma e repouso. "Como em cima, assim é embaixo" - o antigo decreto soa mais verdadeiro do que nunca, e nós, as Dançarinas do Futuro, pisamos descalças na terra e levantamos nossos braços e espíritos para as alturas do Universo, as linhas de nossos corpos transmitindo energias universais em ciclos intermináveis.

Como disse Isadora, a mulher deve ser um "elo da cadeia, e seu movimento deve ser um com o grande movimento que atravessa o universo."

Ela destilou a nobreza da linha de corpo grego clássico, tornado famoso na escultura e na pintura, e aplicou sua qualidade universal para o corpo da mulher moderna - descontraído, natural e equilibrado; suas formas e linhas canalizando uma força maior do que a si mesma. Em AOTD, ela descreveu sua fascinação com a estética grega humanista e sua conexão com a natureza:

 "Os gregos em todas suas (artes) evoluíram seus movimentos a partir dos movimentos da natureza, como claramente se expressam em todas as representações dos deuses gregos, que, sendo representantes das forças naturais, são sempre projetados em uma pose que expressa a concentração e evolução dessas forças. É por isso que a arte grega não é nacional ou característica, mas tem sido e será a arte de toda a humanidade de todos os tempos. Portanto, dançando nua sobre a terra, eu naturalmente caio em posições gregas, porque as posições gregas são apenas posições da terra."

Não em desafio da lei natural, como ela viu no balé, que se esforça para superar a atração gravitacional da Terra, e que localizou o centro da dançarina na região lombar. Tinha que haver outro centro, outra fonte da qual emana o movimento verdadeiro. Seus instintos a levaram buscando esta fonte, e ela a encontrou no meio do peito.

Isadora Duncan foi a primeira dançarina a identificar o plexo solar como a fonte de todo movimento expressivo. Ela escreveu em AOTD:

 "... Eu passei longos dias e noites no estúdio buscando a dança que podia ser a expressão divina do espírito humano por meio do movimento do corpo. Ficava por horas com minhas duas mãos cruzadas entre os meus seios, cobrindo o plexo solar... eu estava buscando e, finalmente, descobri o motor central de todo o movimento, a cratera de potência, a unidade a partir da qual todas as diversidades de movimento nascem, o espelho da visão para a criação da dança."



O plexo solar é a sede da intenção emocional - o cruzamento dos eixos do corpo a partir do qual emanam os servos expressivos do coração - os braços. Suas descobertas em relação ao plexo solar enriqueceram cada forma de dança, abrindo a porta do desenvolvimento para dançarinas famosas como Martha Graham. Presença, postura, expressão, equilíbrio, dinâmica, alcance, e linhas emanam todos de um plexo ativado. Sua dinâmica harmoniza perfeitamente com a expansão e contração do diafragma na respiração, alinhando o movimento automático da respiração com a técnica de expressão.

Descobrir e ativar o plexo solar é tocar uma nova fonte de energia emotiva pessoal, com o coração e o plexo solar juntos formando uma esfera energética sentada em cima do diafragma. O plexo solar irradia coragem, efervescência, alegria e desejo. Expandir sua luz para o externo é projetar essas emoções, enquanto contraí-la para dentro é a expressão de solidão, introspecção, perda, dor e tristeza. Através do trabalho com o plexo solar, ganhamos acesso mais completo a vasta gama de emoções humanas, e  começamos a sentir que a sua expressão tem profundas qualidades terapêuticas. Quando movimentamos o corpo, movimentamos a alma, e ambos podem se curar através deste movimento. Aprender a liberar, dirigir e transformar as energias emocionais armazenadas no plexo solar são passos notáveis sobre os caminhos do autoconhecimento que as mulheres modernas procuram hoje. É o "Sol" interno que resplandece o seu brilho radiante, iluminando cada parte do corpo da dançarina do futuro.

Com tantas visões e sonhos no alvorecer da era moderna, a dançarina do futuro se tornou uma realidade. Cada vez mais estamos vendo qualidades espirituais retornando para a dança. Cada vez mais estamos nos tornando conscientes de que existem motivos mais elevados para esta forma de arte, motivos mais universais e humanistas. A dançarina do futuro falou através de Isadora e de suas contemporâneas como Ruth St. Denis, que escreveu que vai chegar um dia em que "vamos dançar para curar e abençoar" em vez de apenas "surpreender".


Com toda a generosidade, a dança de Isadora Duncan traz para a comunidade da dança moderna a técnica expressiva, o alinhamento com a Natureza e suas forças, e o poder do plexo solar, eu acho que o dom mais importante que ela nos deu é uma nova motivação para a dança. Um novo motivo para dançar, que é muito parecido com os motivos antigos dos nossos antepassados - para a comunidade, para a conexão com as forças naturais, para liberar o Eu em favor de um Eu mais nobre, para invocar novas realidades e para alcançar algo maior e superior a nós mesmos. Isadora falou da evolução das motivações para a dança no AOTD:

"Há três tipos de dançarinos: primeiro, aqueles que consideram a dança como uma espécie de ginástica, composta de arabescos impessoais e graciosos, em segundo lugar, aqueles que, ao concentrar suas mentes, levam o corpo ao ritmo de uma emoção desejada, expressando um sentimento ou experiência lembrada. E, finalmente, há aqueles que convertem o corpo em uma fluidez luminosa, entregando-o para a inspiração da alma."

A dançarina do futuro vive dentro dessa fluidez luminosa. Esse é o elixir alquímico que a dança pode e deve procurar - além do ego, figurino, maquiagem e palco. Além de musicalidade, coreografia e performance. Estes são todos ingredientes na mistura, mas o elixir vem do processo e da vivência, dos rituais e cerimônias da Dança do Futuro, da eventual mudança de atitude sobre a dança e da realização de fins mais elevados para ela. Dançar se tornou uma busca de iluminação.

"Ouça a música com a sua alma", ela nos diz. "Você não sente que está se movendo em direção à luz?"

Enxergar a dança dessa forma é ver o Eu mesmo como um trabalho em progresso – uma ânfora sempre em evolução na sua capacidade de atrair, transmitir e repousar nesta fluidez luminosa.

"Imagine então uma dançarina que, após longo estudo, oração e inspiração alcançou um grau de entendimento em que seu corpo é simplesmente a manifestação luminosa da sua alma; cujo corpo dança de acordo com uma música ouvida interiormente, em uma expressão de .... um outro mundo, mais profundo. Esta é a bailarina verdadeiramente criativa, natural mas não imitativa, se expressando em si mesma e em algo maior do que todos os seres."

Se conectar a algo maior do que nós mesmos - a Dança do Futuro é a dança do passado e de todos os tempos. Seu ciclo veio redondo e eu posso vê-lo - Eu nos vejo dançando unidos no espírito da beleza universal - natural, cada um de nós "bastante digno" para participar. Eu posso ver a dança da alma como uma forma de curar nós mesmos, nossas tribos, nossas comunidades e nosso planeta. Eu posso sentir a competitividade substituída por uma alegria compartilhada, e eu posso sentir que o ego pode dar lugar ao sentimento oceânico de conexão enquanto abrimos nossos canais para os ritmos do universo. O futuro está aqui, e nós somos as Dançarinas do Futuro.



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Desapegarte II


Mais um show beneficiente no Rio de Janeiro! Não percam a oportunidade de fazer workshops tão em conta e ainda por cima ajudando a causa animal! De quebra ainda haverá a mostra de dança e eu vou estar lá dançando!!!

sábado, 2 de junho de 2012

Workshop Mega Bellyrolls e Arabian Nights


Então gente, estarei dando um workshop só sobre ondulação abdominal lá no Asmahan de Botafogo!

Será imperdível! Vamos ver passo a passo como identificar e isolar os músculos do abdômen, ver como podemos usá-los para fazer aquelas ondulações abdominais e depois como encaixar tudo isso na famosa dança das moedas!

E pouco antes do workshop estarei no restaurante Al Khayam, dançando no Arabian Nights!


Aguardo vocês no workshop e no show!!!

domingo, 14 de agosto de 2011

Nadia Gamal (parte 1)

Por Lalitha


Resolvi escrever sobre a Nadia Gamal, meu grande ídolo e paixão na dança do ventre. O que se revelou uma tarefa bem mais complexa do que eu imaginava.

Tive meu primeiro contato com a Nadia por meio de uma fita de vídeo, ainda daquelas antigas, com uma linda performance dela num casino. É o vídeo mais famoso dela. Depois assisti uma fita que nunca mais encontrei (mas que tem no Youtube!) onde ela faz uma performance num teatro, com uma linda roupa azul estrelada. E desde então procuro tudo o que posso sobre ela.

Hoje é fácil de adquirir dois vídeos dela, um com a performance no Cassino (Nadia Gamal, The Legend) e outro é o vídeo de um workshop que ela deu em New York, nos EUA em 81. Recomendo muitíssimo os dois, mas para aproveitar bem o segundo é melhor saber inglês.



Mas hoje em dia com o Youtube, tudo fica muito mais acessível.

Apesar de ser razoavelmente fácil de achar vídeos dela na rede, informações sobre sua vida são bem mais difíceis de se encontrar. Existe apenas um livro com uma espécie de biografia da grande lenda da dança do ventre, e não é um livro sobre dança, mas sobre música.

Por algum acaso da vida, esse americano, Randall Grass, que é produtor musical, conheceu o trabalho da Nadia e ficou completamente apaixonado, e não a deixou de fora do seu livro Great Spirits.



Para ter uma ideia do que o autor achava da Nadia, vai aqui a tradução (minha) da Introdução do livro:

"Sem dúvida alguns podem achar a minha inclusão da Nadia Gamal, uma bailarina, meio quixotesca. Porém uma grande bailarina é uma musicista cujo instrumento é o seu próprio corpo. Nadia Gamal realmente era um "great spirit", tanto quanto um grande músico, uma artista que inspirava admiração naqueles que a assistiam. Contudo, ela é pouco conhecida fora do Oriente Médio e dos círculos de Dança Oriental, uma injustiça que que eu senti que precisava ser corrigida."

O livro não é tão detalhado assim com relação a vida pessoal da Nadia, porém é cheio de impressões sobre sua dança, o que o torna muito rico e gostoso de ler, apesar da parte que cabe a essa diva se reduzir a apenas 23 páginas. Vocês podem ver uma entrevista com o autor aqui.

A melhor fonte para conhecer a Nadia Gamal que encontrei é um site mantido por uma brasileira, Livia Jacob, no Multiply. Lá você encontra uma vasta coleção de fotos, vídeos e artigos (inclusive da revista brasileira O Cruzeiro!), tudo em inglês. Ah, sim, e não é muito amigável de ficar passeando, requer alguma paciência.

Porém, é de lá e do livro do Randall que tiro a seguinte mini biografia de Nadia Gamal.


Nadia Gamal nasceu em Alexandria, no Egito, em 1937 (ou 39, essa informação não é muito certa), filha de mãe italiana e pai grego, seu nome de batismo era Maria Carydias. Ela cresceu no meio artístico, pois sua mãe era bailarina e atriz, e apresentava um número no Casino Opera no Cairo, que pertencia à lendária Badia Massabni. Quando pequena Nadia já se apresentava com a mãe, como atriz, no Casino Chatby em Alexandria, quando era conhecida como Carry Days. E mais tarde como dançarina, fazendo números de danças européias no Casino Opera. Além disso, como na época era proibido o trabalho de menores de 13 anos no Egito, suas participações em festas e casamentos eram consideradas informais.

Foi no Casino Opera que sua carreira como bailarina oriental realmente começou, lá a libanesa Badia Massabni mantinha uma escola de dança oriental que foi a grande responsável pela primeira fusão do ballet com a dança do ventre, dando origem ao estilo hoje conhecido no Ocidente, além de tornar clássico o uso da roupa bustiê/cinturão que também é chamado de figurino hollywoodiano. Foi lá também que surgiram os primeiros grandes nomes da dança, como Samia Gamal e Tahia Carioca.

Foi nesse meio privilegiado que Nadia começou a dançar. Seu estilo era único, pois era treinada em balé, dança moderna, piano, jazz, sapateado etc.

Diz uma lenda que sua primeira apresentação na dança oriental (seu pai a proibia de dançar em público por conta da sua idade) foi aos 14 anos, quando uma das bailarinas do casino da Badia ficou doente e não pode se apresentar, sendo substituída por Nadia.


Mas Nadia também era muito estudiosa, falava 7 línguas diferentes e gostava de pesquisar a origem da dança do ventre. Sua grande missão era lutar contra a vulgarização dessa arte, chamada erroneamente de Dança do Ventre, uma tradução errônea do nome Raqs Sharqi (dança oriental), e ela costumava enfatizar "A Dança Oriental é uma arte, essa dança é a mais antiga da nossa civilização. Eu viajo pelo mundo para mostrar que é uma dança refinada, artística, tradicional e cheia de beleza."

Como bailarina ela se orgulhava de ser a única a ser convidada a se apresentar no famoso festival libanês Baalback, em 1964 (ou 1968, as fontes divergem), onde, apesar do preconceito contra a dança do ventre, ela foi aclamada por 4 mil espectadores e sua apresentação é considerada memorável até hoje. Seu reconhecimento como bailarina excepcional também veio quando ela se tornou a bailarina do palácio do Shah do Irã e também do Rei da Jordânia.

Ela participou de inúmeros filmes e shows, tanto como bailarina como como atriz, mas não existe um catálogo oficial deles, apesar de ser possível achar muitos no Youtube hoje em dia, ou no site da LiviaMultiply. Uma das coisas interessantes desses vídeos é que eles englobam quase toda a carreira da Nadia, então é possível observarmos a sua evolução como bailarina, desde novinha até quase a sua morte em 1990, por conta de um câncer de mama.

Ela se apresentou em inúmeros países, incluindo diversos lugares da Europa, porém, só se apresentou nos EUA uma única vez, tendo recusado diversos convites, dizendo que os americanos não entenderiam a sua arte. Sua única apresentação teve lugar no famoso Town Hall em 1981 e está lindamente descrita no livro de Randall Grass, e também no artigo da Suhaila Salimpour, "I remember Nadia". Infelizmente ela não foi filmada.

Nadia foi casada 3 vezes, mas nunca teve filhos. Seu legado são seus vídeos, as memórias daqueles que presenciaram sua dança inesquecível e a marca que ela deixa em todos aqueles que assistem, mesmo que em vídeo, a sua arte.

Com vocês, Nadia Gamal:



Como vocês puderam notar, esse é só o primeiro post! Ainda vamos analisar muitos vídeos e detalhes da Nadia! Aguardem!

domingo, 7 de agosto de 2011

Amani - entrevista na RaqsART

Por Yuki RaqsART

tradução de Lalitha

Artigo original aqui.


1. Por que você começou a dançar Dança Oriental?

Eu me formei em Sociologia e em Estética. Entrar no mundo artístico foi um sonho que se tornou realidade.

Quando eu lia os livros antigos sobre o oriente e sua história, eu me imaginava dançando nessas histórias e eventos históricos. Eu sonhava com a dança, em ser capaz de incorporar essas visões numa apresentação de dança na minha mente.

Minha paixão pela Dança foi um portal luminoso para uma cultura histórica.

2. O que é mais importante quando dançamos em público?

A coisa mais importante que você precisa manter em mente quando dança em público é ter respeito e dignidade pela sua dança e por si mesma. Melhor evitar qualquer movimento degradante para você e para sua dança. Por exemplo:

  • Evidenciar vulgarmente o seu bumbum quando você fizer um círculo grande com o quadril.
  • Balançar seus seios de forma indecente ao invés de fazer um shimmie de ombro elegante.
Esses movimentos foram adicionados ao vocabulário da dança oriental mais tarde, por bailarinas que preferiam depender da expressão da sua sexualidade de forma explícita do que na qualidade artística do que poderiam mostrar. Para manter a dignidade dessa arte, nós todas devemos ter cuidado para não passar a impressão errada para o público.

Quando você vir qualquer movimento que você acha que vai degradar a sua imagem, não os adicione ao seu vocabulário. Tenha uma visão crítica do que você faz. A sua dança deve ser um reflexo da sua personalidade, não da de outra pessoa.

Se você tiver alguma dúvida, por menor que seja, pare e reflita.

"Devo aceitar pessoas que acham que são representações da minha personalidade? Devo aceitar tais movimentos, como mostrar meu bumbum para o público num círculo com o quadril ou balançar meus seios vulgarmente?

"O que será que eu pensaria se visse uma mulher fazendo esses movimentos sem música?

"É permitido mostrar movimentos que normalmente não são respeitosos em público só porque tem música e batidas?"

O que nós fazemos é que decide o caminho por onde a dança se desenvolve. Vamos trabalhar juntas:

  • para abolir os movimentos estranhos adicionados recentemente ao vocabulário da dança oriental, e
  • fazer a dança oriental evoluir sem perder a sua autenticidade e estética.
Trabalhando de mãos dadas nós podemos mudar o cenário atual da dança no mundo todo.


3. Você poderia nos falar sobre o seu estilo de Dança Oriental?

Um estilo pessoal de dança pode ser dividido em duas partes: Estética e Técnica.

Estilo Pessoal de Estética Inteligente

Novamente, cada estilo reflete a personalidade do artista. Questões intangíveis são difíceis de explicar. Tudo o que posso dizer é que quando eu vejo uma coreografia executada pelo(a) próprio(a) coreógrafo(a) eu entendo a sua lógica, criatividade e percepção, o quão transparente ele(a) é.

É por isso que eu digo que a minha dança revela a minha personalidade.

Tecnicamente Inteligente

Amani acredita que a Dança Oriental é uma arte por si só. Ela pode expressar, como qualquer outra forma de arte, tudo o que você quiser.

O estilo de Amani simplesmente enfatiza um ângulo diferente de trabalho corporal e de expressão, não apenas o trabalho de quadril e pequenos movimentos dos braços.

Ela trabalhou no aprimoramento da arte nessa dança:

  • Deu uma nova dimensão teatral. Ela trocou do estilo cabaré pelo teatro.
  • Ela aumentou o vocabulário da dança, introduzindo e adicionando novos passos influenciados pela  arquitetura árabe e outras influências árabes.
  • Ela trabalhou filtrando os diferentes estilos de dança oriental, tais como: Andaluz, Histórico, Moderno etc... e Folclórico, para que o público pudesse difenciar melhor entre eles.
  • Ela apresentou danças no formato de histórias contadas, utilizando o vocabulário da dança oriental.
  • Amani, no seu panorama de dança, dança, atua e canta no palco quando a obra assim impõe, como se pode ver nos seus shows "Batta", “Tabiloulha”, “Ammouna fi Al Saiid”, “Jamilat el Mamalik” etc
  4. Você poderia nos contar sobre a relação entre a Dança Oriental e as suas origens?

Referindo e relacionando com a pergunta anterior sobre o meu estilo, e com a minha resposta que reflete sobre a relação entre a personalidade e o estilo, não posso separar ou distinguir entre a minha dança e as minhas origens, pois ambos são uma só. Se eu não tivesse vivido na minha cultura oriental, minha dança e meu estilo teriam tomado um caminho totalmente diferente.


6. Quem é a sua bailarina ideal? Porque você gosta dessa bailarina?


Existem muitas bailarinas cujo trabalho eu aprecio muito, como:
  • Samia por sua graça
  • Naima Akef por sua criatividade
  • Katty por sua energia
  • Nadia pela execução
  • Najwa por sua perseverança
  • Maima Mokhtar pelas sensações que passa com a música
  • Nabawiya Mostapha pela sua maravilhosa técnica de quadril
e muitas muitas mais.


7. Quais são os seus planos futuros com a Dança Oriental?


O Amani Oriental Festival é o plano principal. Como uma bailarina de destaque interessada e que depende do desenvolvimento e da preservação da Dança Oriental, da sua natureza e suas características, do refinamento do panorama atual da dança no mundo, eu acredito que é minha missão tomar medidas sérias que visem esses objetivos, começando com workshops que juntem o maior número possível de bailarinas orientais num só trabalho organizado, onde nós possamos harmonizar e destilar a essência e o conteúdo dessa arte. Portanto, eu abro as portas para professores de todo o mundo (nossos professores convidados) que queiram participar do Festival.




8. O que é mais importante na hora de criar uma coreografia?

Quando você ama a música, você certamente terá uma visão. Quando você faz alguma coisa com amor e com o estado de espírito certo você se inspira... essa inspiração te leva aos primeiros passos de uma boa coreografia e a ser criativa.


9. Como e/ou com quem você pratica?

Eu pratico sozinha. Quando estou me preparando ou ensaiando para um show eu trabalho com a minha companhia de dança.


10. Como bailarina, que métodos ou rotinas diárias (produtos de beleza, massagens etc) você utiliza para manter a sua beleza?

Eu bebo muita água, como chocolate e sorvete, sou quase vegetariana. Durmo bem. Não bebo nem fumo. E finalmente, acredito no Nosso Criador, a fonte do amor e da paz. 

11. (Dizem que a Dança Oriental é mais relaxante e desestressante que outros tipos de dança) qual parte da Dança Oriental você acha que é mais relaxante?

Legal ouvir isso! Para mim qualquer coisa que se faça com amor traz relaxamento e felicidade, no fim você se sentirá preenchida pelo seu trabalho. A parte mais relaxante na minha dança são os aplausos da platéia e a sua alegria.