Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Kisses from Kairo - O Grande “M” Amarelo



Sexta-feira, 4 de maio de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha    

Sim, eu estou falando daquele M. McDonalds. O lugar que nenhum americano viajando pelo exterior e com algum respeito por si mesmo seria encontrado, nem morto. Nós, americanos que viajamos pelo exterior, sofremos de uma espécie de “complexo do McDonalds”. Somos dolorosamente conscientes de que o resto do mundo nos vê dentro de um estereótipo de provincianos, sem experiência de viagens, caubóis sem cultura que só sabem falar a sua própria língua e que só comem fast food. Então, para provar para o mundo (e nós mesmos) do contrário, uma das coisas que evitamos é comer no Mcdonalds. Mesmo que seja para o nosso próprio bem.

Eu sou uma dessas americanas que sofre do complexo do Mcdonalds. Não só porque comer no McDonalds é um indício de mentalidade estreita, mas por causa de tudo que a fast food passou a simbolizar ao longo dos anos. Especialmente aqui no Oriente Médio. Sendo uma das maiores corporações do mundo, é um símbolo da hegemonia econômica e cultural americana. E, portanto, não é de admirar que os restaurantes do McDonalds se tornassem um dos alvos favoritos da violência antiamericana no mundo árabe.

Tendo isso em mente, eu tento evitar comer no McDonalds quando estou aqui no Egito, ou em qualquer outro lugar, em se tratando desse assunto. Não só pelo o quê simboliza, mas também porque é uma comida ruim. E eu gosto de experimentar as comidas locais. Isso sem mencionar que eu nunca comia no McDonalds quando eu estava morando nos EUA. Então porque eu iria adquirir esse hábito agora que estou morando no exterior?

PORQUE EU JÁ PERDI A CONTA DE QUANTAS VEZES EU TIVE INTOXICAÇÃO ALIMENTAR DESDE QUE COMECEI A VIAJAR 8 ANOS ATRÁS, TUDO PARA NÃO SER UMA AMERICANA IGNORANTE E FREQUENTADORA DO MCDONALDS!

Até agora, eu consegui ter uma intoxicação alimentar em quase todos os países que visitei. O último foi a Polônia. Eu sempre sonhei em conhecer a Polônia desde que comecei a estudar a Segunda Guerra Mundial no colégio. Então quando surgiu a oportunidade de ensinar no Suraiya and Mansour’s Euro Raks Festival na Polônia, eu aceitei de bom grado. Mas assim que saí do avião, comi algo que não devia, e antes que eu percebesse já estava correndo atrás de um banheiro.

O que aconteceu é que eu tive uma escala de 9 horas em Warsaw antes de seguir para a cidade de Katowice, onde o Euro Raks Festival estava acontecendo. E com todo o meu entusiasmo turístico, eu perambulei pela cidade até chegar a hora da minha conexão. Admito que não falo nem uma palavra de polonês, e que não sabia nada sobre os lugares que estava visitando, mas não importava. Eu estava feliz só de sentir o ar frio, fresco da Polônia, e de ver cores tão vívidas a minha volta, especialmente o verde! (Faz um tempo que não vejo essa cor.) Eu estava especialmente intrigada com a arquitetura... e as igrejas! Eu não sou religiosa nem nada, mas ver as igrejas me deu uma sensação de calma que eu não sentia há tempos. Era uma sensação tão boa que eu quis intensificar ainda mais entrando em uma das igrejas. E como foi intenso. Sem nenhuma razão aparente, de repente comecei a chorar copiosamente. Eu não sei por qual razão estava chorando. Ou porque, de todos os lugares, eu estava chorando na Igreja de São João Batista na Polônia. Especialmente se levar em consideração que eu não chorava há muuuuuuuuuuito tempo. Era a primeira vez que eu pisava numa igreja depois de muitos anos, entretanto. Talvez tenha a ver com isso.

De qualquer forma, eu me recuperei e continuei andando pela linda cidade até que senti fome. As coisas foram ladeira abaixo a partir desse ponto. Tinha um grande “M” amarelo bem na minha frente. Me chamando. Ah, se eu soubesse. Ao invés disso, resolvi comer num restaurante polonês, e corajosamente pedi sopa de ervilha com uma porção de kielbasa, e bolinhos de espinafre com queijo. Eu normalmente não como porco. Não por razões religiosas, mas porque eu não gosto muito. Mas, bem, o que seria de uma viagem à Polônia sem kielbasa? E qual é a graça de sair do Cairo sem aproveitar para fazer todas as coisas não dá pra fazer lá, como comer porco, tomar cerveja, e andar por aí seminua? Então a infiel dentro de mim pediu porco.

E então, Deus me puniu. Ele me mandou direto para as entranhas do inferno – ou melhor dizendo, mandou o inferno direto para as minhas entranhas! No banheiro do avião da minha conexão para Katowice, claro. Se você nunca passou por isso, deixe-me ser a primeira a te contar que não há nada pior do que ter diarreia a 9 mil metros de altura. Se já é ruim o suficiente NO nível do mar, imagine numa altura dessas!

E para a minha sorte, a intoxicação alimentar foi ficando cada vez pior ao longo da noite até o dia seguinte, no qual eu estava escalada para dar aula. Eu estava completamente desidratada, com dores, exausta e com fome, comecei a pensar em trocar de lugar com alguém que daria workshop em algum outro dia. Parecia simples, mas aparentemente teria sido um pesadelo logístico. Então eu tinha apenas uma escolha: ou cancelar a aula e perder a oportunidade, ou dar a aula de qualquer jeito, mesmo que fosse a última coisa que eu fizesse. Escolhi a segunda opção. Sendo os anfitriões magníficos que eles são, Surayia e o seu marido me entupiram de Stoperan, ou “rolha” como eu gosto de chamar (:D), um remédio para diarreia muito comum na Polônia. Eu tomei tanto quanto era humanamente possível, esperando que o meu problema fosse resolvido antes da aula.

Não tive sorte. Na verdade, eu acabei por vomitar uma hora antes da aula. Nessa hora, qualquer pessoa em sã consciência teria provavelmente cancelado o workshop. Mas eu não. Entrei no banho (de novo), taquei maquiagem na cara e arrestei a minha bund@ para a aula.

O que aconteceu logo depois foi uma espécie de milagre. Consegui ensinar minha entrada super energética com sucesso, para uma sala cheia de lindas, talentosas e notáveis jovens mulheres. Elas já tinham ouvido falar que eu estava doente, então elas souberam ser pacientes comigo. Elas até me levaram uma bandeja cheia de cookies, e brincaram sobre a ironia de eu sair do Cairo para ficar doente na Polônia! Entre os cookies, a bondade e as gargalhadas delas, eu consegui ir até o final da aula, não obstante as tonturas. Louvado seja o Senhor que me puniu por ter comido porco! :D

Moral da história. Eu deveria ter comido no McDonalds. Tem vezes que vale a pena ter mentalidade estreita, provinciana e sem-vergonhadamente americana, e seguir com o já conhecido, testado e aprovado. Especialmente quando as alternativas incluem fois gras (gansos forçados a comer), kielbasa, wienerschnitzel, mumbar (intestinos recheados), cérebro de boi frito, testículos de boi fritos... Apesar dos pontos negativos, pelo menos você sabe o que esperar no McDonalds. E você nunca vai passar mal por comer um Big Mac (a não ser que inclua ratos! >D). Sensação de culpa, sim. Intoxicação alimentar, não.

Essa experiência me ensinou mais uma coisa. Localizar o McDonalds mais próximo quando estiver visitando um país estrangeiro é tão importante quanto saber onde fica a embaixada americana. Em momentos de crise, ambos podem ser os salvadores da pátria. Na verdade, eu acho isso tão importante hoje, que acho que pequenos “M” amarelos deveriam ser marcados nos mapas turísticos junto com os museus, igrejas e hospitais. :)

E realmente, eu me lembro especificamente de outra ocasião em que um McDonalds teria caído muito bem. Foi quando eu estava num hospital na Síria 5 anos atrás. Só que não há McDonalds na Síria.

No final da minha estadia de 2 meses para estudar em Damasco, eu visitei a família sírio-americana de um ex-namorado meu em Idlib. Eu não me lembro o que comi, mas deve ter sido algo muito ruim, porque a próxima coisa que me lembro é que eu estava num hospital com febre, completamente desidratada e delirando depois de 24 horas de diarreia contínua (com banheiros turcos, para tornar a situação pior). O médico me informou que minha única opção era tomar uma injeção com uma agulha absurdamente grande e não-descartável no traseiro. Percebendo o pânico no meu rosto, ele me empurrou para que eu ficasse de lado e me segurou para dar a injeção. Só que eu resisti. Nós continuamos a nos empurrar e a nos bater até que as irmãs do meu ex, que estavam vendo o que estava acontecendo, se sentiram mal por minha causa e me arrastaram para o banheiro (que também era estilo turco).

Sem querer correr o risco de pegar AIDS por conta daquela agulha, a única coisa que me restava era induzir o vômito para tirar o estava me envenenando do meu corpo. Fácil de falar. Eu nunca tinha feito isso, e estava com medo de tentar. Então as irmãs dele me ofereceram os dedos delas! Hum, não... apesar de apreciar o gesto. Como eu queria acabar com o problema o mais rápido possível, coloquei 2 dedos na garganta e consegui, na frente de duas mulheres. Nojento e vergonhoso.

Aqui no Egito, é fácil arranjar uma intoxicação alimentar também. Apesar de o culpado ser geralmente a água. Mas como nunca bebo água da bica, e quase sempre cozinho, eu normalmente não fico tão doente como costumava ficar quando visitei o Egito pela primeira vez 7 anos atrás. Além disso, devo ter ficado imune a mais coisas do que posso imaginar. Aqui eu nunca nem menciono a palavra McDonalds, a não ser como ponto de referência, ou um lugar onde marquei de encontrar alguém na frente.

Ok, ok. Isso não é totalmente verdade. Admito que de vez em quando sinto um tipo de “desejo” por um Big Mac. Mas eu acho que isso significa que estou com saudades de casa. Não porque eu comesse isso em casa. Mas porque é um símbolo de tudo o que é americano, é como se eu tivesse comendo um pedaço da própria América. Isso, além de soluçar toda vez que escuto Whitney Houston, Celine Dion, ou Madonna tocando num taxi ou num café, é certamente um sinal de que você está com saudade de casa e algo precisa ser feito com relação a isso. :)

A melhor coisa do McDonalds aqui no Egito, entretanto, é que eles fazem entrega – na sua mesa e na sua casa! Não é exatamente fast food, já que serviço é bem lerdo, mas tudo o que você precisa fazer é pedir no caixa, escolher um lugar e esperar um garçom trazer a sua comida. Ou então, telefonar pra um número especial do seu celular, e esperar o entregador do McDonalds trazer o seu McLanche Feliz numa motocicleta vermelha especial. A McMotor. ;)

E eu não acredito que acabei de escrevei um post inteiro sobre o McDonalds. Eles deviam me pagar por isso!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Resenha de DVD - Suhaila Salimpour - Bellydance Fitness Fusion YOGA



Continuando a série de posts sobre DVDs interessantes para se ter em casa, vamos finalmente terminar a série de DVDs da Suhaila Salimpour sobre fusões de dança do ventre. O quarto DVD dessa série é o de fusão com Yoga.

Caixa com a coleção completa


Capa do DVD
E a contra-capa

Esse quarto DVD é bem diferente dos outros 3. Não chega a ser tão pesado quanto o de glúteos e pilates, mas certamente deixa você suada e com uma leve dor muscular. E, novamente, não é para iniciantes, pois ela não explica como fazer os movimentos mais complexos e inclui exercícios de camadas (quando você faz mais de um movimento ao mesmo tempo). Mas ainda é um dvd de fusão com yoga, então não há nada muito rápido, só que também não há pausas e os movimentos exigem alguma força o tempo todo.

O aquecimento começa mais devagar, com um exercício de respiração (é fusão com yoga, lembra?) bem diferente, e com um alongamento suave. Como numa série de asanas (posturas de yoga), os exercícios começam de pé, primeiro com as pernas unidas, depois separadas, numa série de alongamentos que exigem um pouquinho mais de força, mas que ajudam no alongamento e abertura do quadril. Depois os exercícios passam para o chão, com leves exercícios para as costas.

Aí os exercícios de verdade começam, pegando pesado nas ondulações (a primeira posição definitivamente exige mais dos braços e das costas), numa série sem intervalos que dura muuuuuito tempo, acho que a ideia só pode ser deixar o abdômen e as costas doloridos do esforço contínuo.

Morreu? Ela está só começando, pois depois vem aquela série de contrações dos glúteos que todos ficam nervosos ao assistir. Só que dessa vez é pior, porque tem ondulação junto (as tais camadas) :-O já mencionei que não é para iniciantes?

Depois ela finalmente se levanta para fazer oitos com o pé todo no chão, só para cansar mais, e depois com outras variações também. A ideia é trabalhar ainda mais o abdômen, que já estava destruído das ondulações, numa série longa com todos os 8s possíveis.

O alongamento final é mais pesado do que o inicial, o que é bom depois de todo esse esforço. Mas eu não o considero longo o suficiente, certamente acrescentaria mais (fica como sugestão).

Para finalizar, assim como os demais DVDs, tem uma apresentação, dessa vez da própria Suhaila. Pessoalmente não curto muito o estilo dela, mas a roupa é linda :-) e ela é muito expressiva. E novamente é seguida de um discurso meio auto-ajuda sobre ser mulher, que é até legalzinho, e uma dança em círculo.

Nos extras, assim como nos outros DVDs, tem uma sessão de exercícios de uns 10 minutos, dessa vez juntando oitos com ondulações (mais camadas!), vou repetir: não é um dvd para iniciantes. Novamente é uma aluna da Suhaila que apresenta essa parte, o que eu acho muito bacana. Tem também uma apresentação extra, da filhota da Suhaila! Como ela é fofa!!! Ou era... hoje já é adolescente... quando esse dvd foi feito ela aparentava ter 5 ou 6 anos. E por fim, mais uma dança em círculo (a Suhaila parece amar isso, tem sempre nos finais dos DVD e ainda tem sessão extra! Eu acho divertido de participar, mas ficar só olhando é chato, nunca consigo assistir até o final).

Enfim, é um DVD para melhorar a sua técnica de dança do ventre e treinar movimentos sinuosos. Não é tão bom quanto os outros de malhação, mas vale a pena gastar um tempinho com ele.

Para vocês terem uma ideia, segue um vídeo promocional do DVD:


E bom treino!!!

Outros DVDs da Suhaila:

JAZZ Fusion
BUNS Fusion
PILATES Fusion

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Kisses from Kairo - Sobre ser egípcia



Quarta-feira, 14 de março de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha    

Eu não sou egípcia e não finjo ser, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que eu não adotei alguns hábitos egípcios. Ser egípcia é contagioso. :) Particularmente se você vive por aqui há algum tempo e fala a língua bem fluentemente. Isso é normal, imagino. Mas é interessante se levarmos em consideração que eu cresci num país onde o comum é que os estrangeiros se prendam às suas culturas e resistam à assimilação. Então quando me vejo de fora, e observo a forma como os meus pensamentos, maneirismos e até mesmo o jeito de falar mudaram, eu não consigo deixar de rir do quanto eu assimilei sem querer da cultura egípcia.

Por exemplo. Eu peguei o hábito muito egípcio de ficar encarando mulheres bonitas. :) Agora, eu não me viro toda pra isso, e definitivamente eu não as assedio. Mas, como a maioria dos homens e das mulheres egípcios, não posso deixar de me maravilhar com pessoas bonitas. O que é bem hipócrita, dado que eu odeio quando as pessoas me encaram. Mesmo que seja porque elas me achem bonitinha. Eu acho que encarar é rude, e é uma invasão do espaço pessoal. Além disso, eu aprendi a não fazer isso no jardim de infância. :)

Mas aqui na terra de Oz, a gente aprende não apenas a apreciar a beleza, mas a expressar essa apreciação. Não encarar apenas como verdadeira ou fingir que ela não existe evitando olhar nos olhos das pessoas (mesmo que religiosamente falando, isso é que supostamente deve acontecer). Não me entenda mal. Isso não é uma defesa ao assédio por homens nem por mulheres, e eu repito, eu detesto quando as pessoas me olham de cima a baixo, mas acho que há algo realmente humano em reconhecer a beleza. Em qualquer caso, pode ser um alívio da cultura do “reflexo de elevador” de onde viemos. (N.T.: aqui Luna se refere à mania de entrar no elevador e ficar olhando para os números dos andares para evitar o contato visual com outras pessoas)

Encarar e ser encarada se tornou de tal forma uma parte da minha vida diária que eu me sinto como um peixe fora d’água quando saio do país. Fora do Egito, ninguém olha para mim, e eu não olho para ninguém. Não importa quão “sexy” qualquer um de nós esteja. É uma sensação de alívio (e uma que eu preciso sentir de vez em quando), mas então tem aquela parte de mim que fica se perguntando se estou particularmente desleixada. Quer dizer, porque de que outra forma ninguém estaria me notando? :P

Meu padrão de beleza também ficou mais egípcio. Eu não vou entrar em detalhes sobre o conceito geral de beleza feminina dos egípcios. Basta dizer que é muito mais curvilíneo e bem menos muscular do que o padrão normal de beleza ocidental. E muito mais emperiquitada! :)

Eu notei pela primeira vez o quão egípcio o meu olhar havia se tornado enquanto observava outras bailarinas de dança do ventre. Aquelas que eu gostava mais não eram aquelas com a melhor técnica, mais “sentimento” ou com a roupa mais bonita. Eram as bailarinas que eu achava mais bonitas. Como eu mesma sou bailarina, sei o quão errado e injusto é avaliar uma artista baseado somente no seu visual. E eu nem sempre fui assim. Mas acho que o fato de eu estar constantemente escutando os egípcios aprovarem ou não as bailarinas baseados no visual delas me influenciou. Agora, toda vez que preciso que uma bailarina me substitua, eu penso automaticamente em mandar a bailarina mais bonita que conheço. Certo ou errado, é a forma como o meu cérebro está atualmente programado. Além disso, isso impede que agentes e gerentes reclamem que a substituta que enviei era “mish helwa” – não bonita.

Não são apenas os meus olhos que vêem de forma egípcia. Meu cérebro também pensa em egípcio. Semana passada, num casamento, meus olhos caíram sobre uma mulher que estava vestida de forma bem escandalosa. Enquanto todas as outras mulheres usavam véu, ela estava num vestido de coquetel super curto com tiras finas e um decote profundo, salto 10, e (deus me livre!) sem meia-calça. E ela se convidou para dançar comigo na pista de dança. Lá estava eu, balançando de um lado para o outro, semi-nua, e tudo o que eu conseguia pensar enquanto olhava para ela era “sharmoota”. “Vadia” em árabe.

Opa. Desde quando eu me tornei tão crítica? Sobre roupas femininas ainda por cima?

A mesma coisa acontece quando eu vejo um homem e uma mulher de mãos dadas em público. Minhas recém descobertas “sensibilidades morais” ficam chocadas, e eu imediatamente empaco. Como eles ousam, esses infames!?! :)  Eu até começo a me perguntar se eles são casados ou não. Não que isso seja da minha conta, ou que eu nunca tenha andado de mãos dadas em público. Mas até mesmo as exposições públicas de afeto mais inocentes são tabu aqui, comparado com outras partes do mundo.

Por sorte, não mudei tanto assim de forma que eu não consiga reconhecer o atraso formando raízes em mim. E sou capaz de rapidamente acordar – e voltar para a realidade. Minha realidade. De acordo com a qual a mulher usando o vestido curto está da forma como eu quero me vestir, e na qual mais casais deveriam ser livres para expressar publicamente o seu amor (dentro de limites razoáveis, é claro! :D). Eu tenho – bem, eu achava que tinha – uma firme crença na liberdade pessoal. Ainda assim a minha reação para esse tipo de coisa é a mesma da maioria dos egípcios. Interessante como isso funciona.

Reconhecidamente, a linguagem tem um papel importante no processo de assimilação cultural. Diferentemente de outros estrangeiros que passaram anos em bolhas de expatriados, eu fiz um esforço para me tornar fluente em árabe egípcio (N.T.: o árabe existe na sua forma clássica, que é a do Corão, e ele é ensinado assim nas escolas em todo o mundo árabe, porém variações ou dialetos desse árabe são falados em cada país). Se não fosse esse o caso, eu provavelmente estaria muito menos integrada do que estou. Isso porque o árabe é uma daquelas línguas que está intimamente ligada com a sua cultura. É, portanto, quase impossível não se tornar egípcia em algum nível se você fala árabe bem, e, de modo contrário, impossível ser egípcia se você não falar. Não que “ser egípcia” tenha sido em algum momento o meu objetivo – eu só acho estúpido, arrogante, e potencialmente arriscado viver num país estrangeiro sem ser capaz de se comunicar efetivamente com as pessoas, muitas das quais falam pouco ou nada de inglês. Então eu aprendi a língua.

Ser capaz de falar com todo o mundo tem geralmente funcionado para a minha vantagem (apesar de ter momentos em que eu gostaria de não entender nenhuma palavra!). Mas vendo o quanto da mentalidade eu pareço ter absorvido, isso levanta aquela bem conhecida questão de que se é a língua que influencia o pensamento, ou se é o inverso. Pessoalmente eu acho que é um pouco dos dois, apesar de provavelmente haver mais evidências para provar a primeira opção.

Sobre o assunto linguagem, vale notar que o árabe egípcio usa diversas palavras do inglês (e do francês, e do turco e do farsi). Especialmente as palavras ligadas à tecnologia e moda. Como “Ploetoes” (Bluetooth) e “bloovr” (Pull Over). :D . O que é engraçado é que muitos egípcios acham que essas são palavras árabes, e as pronunciam do jeito egípcio. O que é ainda mais engraçado é como eu agora consigo, sem esforço, pronunciar essas palavras do mesmo jeito no meio de uma conversa em árabe. Na verdade, às vezes eu esqueço que “Ploetoes”, “Micdoonaalds”, “combooterr”, “bresteej” (prestígio), “boolees” (polícia), “billydoncer” (belly dancer), “uncle” (tornozelo) e “rimoot” (controle remoto) são de origem inglesa. :) Eu amo isso. É uma das coisas que aumenta o charme egípcio. E, mostra que mistureba de globalização esse mundo virou.

Entretanto, minha palavra absolutamente favorita na língua árabe não é nenhum desses empréstimos da língua inglesa. É “insha’allah”. Se deus quiser. Ela é, na minha opinião, a mais perfeita palavra dentre todas as línguas. Insha’allah significa que as coisas podem e vão acontecer só se Deus (ou o universo ou o destino ou seja lá como você queira chamar) quiser que aconteça. Eu gosto disso. Serve como uma lembrança da inerente fragilidade da condição humana – coisa que nós, humanos, temos tendência a esquecer de vez em quando. Apesar disso significar que nem sempre nós vamos alcançar nossos objetivos, isso também significa que nós não somos inteiramente responsáveis pelos nosso fracassos. Se nós não nos tornamos milionários ou super estrelas, não é porque somos fracassados. É porque Deus não quis isso para nós. E se nós não aparecermos para o compromisso que marcamos, não é porque somos preguiçosos ou dormimos até tarde. É porque, bem, Deus também não quis isso. :)

Agora você entende porque eu amo essa palavra? Ela tem uma grande capacidade de te fazer fugir de um problema. :P

No Egito, onde o ritmo da vida é suave, a ética no trabalho é relaxada, e circunstâncias imprevistas acontecem num ritmo diário, as pessoas pontuam cada declaração de intenção com insha’allah. “Vou te encontrar amanhã às 9h, insha’allah”. “Eu vou ter o trabalho pronto para você amanhã, insha’allah”. Quando as coisas não acontecem, tecnicamente não é culpa de ninguém. Deus simplesmente não quis. Insha’allah é, portanto, uma forma maravilhosa de se desfazer da responsabilidade pelo não cumprimento de alguma coisa, e uma palavra que você sempre vai ouvir saindo da boca dos preguiçosos. :)

Como a minha noção de tempo se tornou bem egípcia, insha’allah funciona muito bem para mim. Aqui, 3h significa 3:30h, 5h, amanhã, ou nunca. Eu sempre tive problemas com pontualidade e manter meus compromissos, mas isso ficou muito pior desde que me mudei para o Egito. Muito disso tem a ver com o fato de que eu durmo muito tarde, assim como os egípcios que não trabalham das 9 às 5. E como eu raramente acordo de manhã, acabo conduzindo todo o meu negócio à noite quando termino de dançar, seja lá que horas for isso. Ou então bukra. No dia seguinte. Minha segunda palavra favorita na língua árabe. E quando o bukra não chega nunca, eu sempre posso jogar a carta do isha’allah. :)

Outra frase interessante em árabe, que me impactou um pouco é “wakhid 3ayn” (wakhda 3ayn para mulheres). Tipo, assim como alguém pode pegar uma gripe, alguém pode pegar “olho”. E eu não estou falando de conjuntivite. Estou falando do Olho Gordo. Você sabe, aquele que faz você adoecer, se machucar, ou ser assaltado, etc? Se você está se perguntando sobre a relação entre os olhos e as doenças, a idéia é que os olhos são a origem do ciúme e da inveja. Os olhos vêem os outros que podem ser mais ricos, mais inteligentes, mais bonitos, mais bem sucedidos, e, portanto, pode levar a pessoa que vê a mandar energias destrutivas. Os egípcios usam a frase “wakhid 3ayn” toda vez que alguma coisa ruim acontece com eles. Por exemplo, aquela tosse tipo peste bubônica que aquele cantor arranjou? Não tem nada a ver com o fato dele beber do copo dos outros e pode ter pegado algum germe. É porque outro cantor ficou com inveja e mandou para ele energias negativas. O jogador de futebol que quebrou a perna? Isso também foi resultado de um colega invejoso. Não importa aquela jogada violenta em que ele se envolveu.

Eu lembro claramente da primeira vez que eu “peguei o olho”, ou pelo menos pensei que sim. Foi durante um período de 2 semanas no último inverno, antes de eu ser contratada para dançar no Cairo. Eu estava fazendo uma série de apresentações em alguns resorts ao longo do Mar Vermelho, quando eu me envolvi em 2 acidentes de carro assustadores. Graças a deus, nem o motorista nem eu nos machucamos, mas nas duas vezes, o carro virou 3 vezes e nós ficamos com o coração na boca. Mesmo motorista, mesma estrada, mesmo dia da semana, mesmo horário, mesmo destino, mesma estupidez. Apesar de ambas as vezes a causa do acidente ser óbvia (e podia ser evitada), a única razão que eu e o motorista podíamos pensar na hora era que um de nós dois tinha “pego o olho”. Desde então, toda vez que eu pego um resfriado, ou então as coisas não acontecem como eu gostaria, eu tento descobrir quem está me odiando antes mesmo de tentar achar uma explicação lógica. :)

E desde que, supostamente, esse é um blog de dança do ventre, acho que eu devia mencionar como tudo isso se relaciona com a minha dança. Sem dúvida, a minha dança se tornou mais egípcia desde que me mudei para cá, como qualquer um esperaria. Isso é o que acontece quando se vive no Cairo, e no meu caso, praticamente se aprende a dançar aqui. O que realmente me impressiona, entretanto, é quão egípcio se tornou a minha forma de ver a dança. Enquanto eu costumava ser uma viciada em coreografia, eu hoje improviso o tempo todo. Que é o que a maioria das egípcias faz. Para elas, dança do ventre é algo que simplesmente acontece. Elas não “a” fazem, se é que você me entende. Logo, coreografia é um conceito meio alienígena para elas. No meu caso, estar no palco com a minha banda toda noite é a razão pela qual eu parei de coreografar e imitar as seqüencias das outras. Não tenho mais tempo, necessidade, ou vontade de mapear cada pequeno dum e tak como eu costumava fazer. É muito trabalho. Era OK quando eu dançava uma vez por semana com um CD. Eu tinha muito mais tempo livre e bem menos experiência naquela época. E eu era muito mais tranqüila! Hoje, eu improviso até em filmagens na TV, apesar de admitir que coreografia serviria muito melhor a esse propósito!

Apesar de ficar fascinada com todas as formas que a minha vida se tornou mais egípcia, ainda tem algumas coisas que mantenho da minha cultura nativa. Como querer saber o quanto custa alguma coisa antes de comprar. Como dizer o que penso e querer dizer o que eu digo. Como não jogar fora o lixo pela janela do carro. Ou no Nilo. Sem dúvida, eu adoro como os egípcios riem de mim toda vez que estamos juntos no carro e me recuso a jogar fora a minha caixa vazia de pizza pela janela. :) Ou como eu agarro a caixa vazia de cigarros deles antes que eles tenham a chance de jogar fora no chão. Eu não posso contar quantas vezes tive que explicar sobre a importância de manter o meio ambiente limpo, mas no final das contas, eles continuam me vendo como uma catadora de lixo estrangeira. >D

sábado, 22 de setembro de 2012

Kisses from Kairo - Sobre ser americana



Sábado, 11 de fevereiro de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha    

Ano passado eu comprei um tecido brilhante vermelho, branco e azul e fiz uma roupa com a bandeira americana. Eu nunca tive a intenção de fazer isso, mas quando vi as lycras de estrelas e listras enquanto estava fazendo compras, simplesmente não pude resistir. Era como se o tecido dissesse para mim “me use”. Deixando a política de lado, é uma bandeira bonita. E, sim, eu sou maluca assim. :)

A roupa ficou absolutamente linda, e eu dancei muito com ela. Primeiro, eu fiquei relutante de usá-la, dada a visão não favorável dos egípcios com relação aos Estados Unidos. Mas um dia eu resolvi testar a sorte e usá-la com um público egípcio. O pior que poderia acontecer, pensei, era eu ser vaiada para fora do palco. Eu estava disposta a correr esse risco. Para minha surpresa, nada disso aconteceu. Na verdade, meu público começou a bater palmas e a gritar no momento em que eu entrei em cena. Muitos deles chegaram até a implorar para tirar fotos comigo.

Desde então eu usei essa roupa milhares de vezes. E eu sempre obtive a mesma reação. Ela então se tornou uma das minhas roupas mais populares. Eu cheguei até mesmo a receber pedidos para usá-la em alguns eventos particulares. A última vez que alguém me pediu para vesti-la foi há mais ou menos 3 semanas, quando dancei para o ex-Ministro do Interior egípcio, Ahmed Rushdie, e quando eu dancei no novo canal de TV 24h egípcio de dança do ventre, “El-Tit” (Não pergunte! :P – N.T.: em inglês “El-Tit” pode ter uma conotação bizarra, pois “tit” é seios em inglês). O show de TV foi particularmente engraçado, porque das 10 roupas que eu levei comigo o pessoal da produção insistiu que eu vestisse a bandeira. Nas duas ocasiões, eu recusei educadamente.

Apesar da minha roupa de bandeira americana ser adorada pelo público, eu jamais me deixaria ser vista usando-a hoje em dia. Especialmente na TV egípcia! Os tempos mudaram. Eu nunca imaginei que fosse dizer isso, mas ser americana no Cairo está começando a ser desconfortável. Sim, o meu árabe é bem convincente, e não, eu não ando por aí forçando ninguém a engolir a democracia, mas com todo o apontar de dedos que tem acontecido ultimamente na política, eu me sinto meio apreensiva em divulgar a minha nacionalidade (e ainda usá-la no meu corpo! :D). O que não é normal para mim, nem para o Egito. Os egípcios são conhecidos por ser um dos povos mais hospitaleiros do mundo. Eles são ótimos para distinguir entre governos e cidadãos comuns, e sempre foram tranqüilos para discutir sobre política. Tanto que eu sempre revirei os olhos quando um colega americano me perguntava incrédulo, “mas você não tem medo de dizer para as pessoas que é americana?”. Infelizmente, eu não posso mais revirar os olhos quando alguém me faz essa pergunta. Por mais que me irrite ter de dar o braço a torcer para alguns americanos de cabeça limitada, ser americana no Egito não é mais a mesma coisa. Eu passei os últimos 8 anos viajando para, estudando e vivendo em bastiões do anti-americanismo, tais como Iêmen, Síria, Cuba e Egito. E eu nunca pensei duas vezes em dizer que sou americana. Aqui e agora, entretanto, estou começando a pensar duas vezes. Ou três.

Não me entenda mal. Eu não me sinto exatamente ameaçada. (Ainda) E quem sabe? Talvez a minha sensação seja totalmente injustificada. É só porque a opinião pública popular egípcia está ficando um pouco xenofóbica. Especialmente com relação aos americanos. Ultimamente, a fofoca na “Rua Árabe” (e na mídia, e nas universidades e todo lugar) é que toda explosão de violência no Egito é resultado do trabalho de “forças externas”. Os mais acusados disso são EUA e Israel (óbvio), Irã, Alemanha e (estranhamente) Qatar. :) Tudo, desde o massacre no jogo de futebol semana passada até a própria revolução em si, é culpa de estrangeiros que querem ver o Egito em ruínas. Porquê, eu não sei, mas é isso que muitos egípcios estão dizendo. Claro que as autoridades têm tudo a ver com isso. Eles se tornaram mestres na arte política do Oriente Médio da distração, que é basicamente culpar os EUA e Israel por todos os seus crimes e fracassos. Para a sorte do exército, essa tática está se provando eficiente, porque os egípcios costumam ser muito ingênuos. Especialmente em se tratando de política. Comece uma fofoca sobre os EUA e o seu “aliado” e irão acreditar nela. O cepticismo não vai muito longe por aqui.

Além disso, os egípcios preferem acreditar que outras pessoas são responsáveis pelos episódios de violência que surgem de tempos em tempos. Em parte, por conta da longa história de interferências no Oriente Médio, e em parte, porque os egípcios chocaram a sua própria consciência nacional. Os egípcios estão sendo testemunhas de crimes que eles nunca imaginaram que poderiam acontecer nas suas terras. Desde o massacre no jogo de futebol semana passada, à violência entre Cristãos e Muçulmanos até a maldita revolução em si, é psicologicamente mais conveniente culpar forças externas invisíveis do que a si mesmos. Cada vez mais, menos egípcios estão dispostos a se responsabilizar pela revolução e por tudo o que houve depois.

A última catástrofe de uma longa lista envolvendo estrangeiros aconteceu na semana passada, a derrocada dos “19 do Cairo”. São 19 americanos funcionários de ONGs, detidos contra a sua vontade, sob falsas acusações de espionagem. Eles também estão sendo acusados de utilizar “fundos adquiridos ilegalmente” para fomentar a violência contra o regime... isto é, pagar “criminosos” egípcios para criar o massacre no jogo de futebol, para iniciar os estupros em grupo contra as mulheres na celebração do dia 25 de janeiro, etc. Bom, eu não sou partidária desses missionários da democracia que trabalham em ONGs (por diversas razões), mas de alguma forma, eu acho difícil de acreditar que os EUA tenham algum interesse em promover agitações civis. Manter relações amigáveis com o Egito tem sido por um longo tempo um dos pilares da política internacional dos EUA. Isso previne o Egito de atacar Israel e mantém o acesso dos EUA ao Canal de Suez. Nada mudou aí. Ao contrário, o que parece que está acontecendo é que o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF em inglês) está tentando desviar a atenção de si mesmo pela terrível falha de segurança no jogo de futebol da semana passada. Esse desastre, que resultou na morte de mais de 70 pessoas, foi um grande golpe para o SCAF, que estava sendo acusado de tudo, desde negligência à conspiração. Culpar essas mortes nas “forças externas invisíveis” (ou seja, EUA e Israel), foi a brilhante idéia do exército de sair do centro das atenções. É tão óbvio. Ainda assim, o que me mata é quão prontamente os egípcios acreditam nessas coisas – o quão prontamente eles acreditam nas mesmas pessoas que os enchem de tiros quando eles protestam. Quer dizer, vamos lá gente. Isso não é complicado.

Aliás, nada disso me surpreende. Até mesmo Mubarak usava os EUA como bode expiatório toda vez que ele queria desviar a atenção negativa de si mesmo. Mas o que torna esse jogo de culpar os outros mais assustador dessa vez, é que as pessoas estão fazendo política com as próprias mãos. Diferente do período Mubarak, quando a política era terreno exclusivo do governo, as pessoas estão agora fazendo protestos e às vezes se envolvendo em episódios de violência baseados no seu novo ardor político. Isso é bom e ruim. Bom que os egípcios tenham encontrado a força de vontade e os meios de moldar o seu próprio futuro. Ruim quando eles tomam a justiça com as próprias mãos e ferem pessoas inocentes baseados em teorias conspiratórias.

É verdade que não ajuda que essas “forças externas invisíveis” não são, de todo, invisíveis. Pessoas como as dos “19 do Cairo” não são agentes invisíveis americanos da destruição. Eles são americanos comuns, expatriados, vivendo e trabalhando no Egito. Eles têm nomes e rostos e amigos egípcios. E aqueles 3 patetas que jogaram coquetéis molotov nas forças de segurança egípcias alguns meses atrás... eles eram estudantes americanos que vieram para cá estudar árabe. Eles também têm nomes, rostos e amigos egípcios. Alguém precisa dizer para esses idiotas que essa não é a luta deles. E que eles estão estragando tudo para o resto de nós. Enquanto nós apreciamos o “cometimento deles com a democracia”, eles estão apagando a tradicional distinção entre o governo americano e os cidadãos americanos. E isso está fazendo mais mal do que bem.

Apesar de eu duvidar seriamente de os “19 do Cairo” serem culpados de espionagem e sabotagem, eu acho que talvez esteja na hora deles pensarem em fechar o seu negócio. Para começar, o clima político atual do Egito não está exatamente promovendo a democracia. A maioria dos egípcios não quer a democracia. Eles a igualam à decadência moral ocidental. O exército certamente também não quer a democracia. Isso diminuiria o seu poder. Então, talvez, nós americanos devemos para de forçá-la goela abaixo. Além disso, isso não faz a gente ficar bem na foto. Especialmente quando não somos consistentes sobre esse assunto. Nós não estamos, por exemplo, forçando a democracia na Síria. Como os egípcios têm perguntado desde o início, “intu malku?” Quer dizer, “o que é isso para vocês (americanos)? (se nós temos democracia ou não)”. Eu acho que é uma pergunta válida.

Além da opinião egípcia sobre a democracia, os americanos deviam estar pensando sobre outra coisa. Democracia + Oriente Médio = extremismo religioso. E isso não nem do interesse das pessoas, nem dos EUA. É tão simples. O que não dá para entender? Ou a gente simplesmente precisa ganhar todas as batalhas, físicas e ideológicas?

Se ser americana significa acreditar que a democracia pode ser imposta em todo e qualquer lugar, então eu não POSSO ser americana. Nós não podemos impor a democracia em partes do mundo que não tem histórico de secularismo, direitos humanos e limite de prazo. E a gente não pode continuar se metendo nos problemas internos dos outros países. O que nós podemos fazer é tentar dar o melhor exemplo de democracia no nosso país, na esperança de que outros ao redor do mundo um dia verão a luz. Até lá, é melhor deixar a natureza seguir o seu curso.


*Só para constar, eu quero fazer uma roupa com a bandeira egípcia há séculos. Mas muitos egípcios me aconselharam a não fazer isso, porque dançar com a bandeira deles seria tomado como um grande sinal de desrespeito. Mesmo que eu veja como um sinal de adoração.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Resenha de DVD - Suhaila Salimpour - Bellydance Fitness Fusion PILATES



Continuando a série de posts sobre DVDs interessantes para se ter em casa, vamos continuar com a série de DVDs da Suhaila Salimpour sobre fusões de dança do ventre. O terceiro DVD dessa série é o de fusão com Pilates.

Caixa com a coleção completa



Esse terceiro DVD segue mais a linha de malhação do primeiro, de glúteos (resenha  aqui), só que o foco é fortalecimento das pernas e abdômen. Apesar dos exercícios não serem aeróbicos, se prepare para suar! Apesar do que diz na capa, o DVD da Suhaila novamente não é para iniciantes, pois é preciso preparo físico para ir até o final. Os exercícios até são básicos, mas ela chega em velocidades não muito iniciantes, e tem a parte de força e preparo físico que dificultam a vida de quem acabou de começar.

O aquecimento já começa forte, com um bom alongamento e fortalecimento das pernas. Depois vem uma sessão longa de fortalecimento das pernas, com braços e muito abdômen e costas (é para deixar as pernas bambas!), mais alongamento das pernas e então uma revisão dos glúteos para shimmies (aqueles exercícios sentados de morrer de rir), e mais alongamento! Depois vem uma sessão de abdominais que mais parece aula de localizada de academia. Esse DVD é malhação pura!

Assim que termina a sessão de abdominais, começa uma série de exercícios para isolamento dos músculos do abdômen e depois uma pequena compensação (pequena!). Porque ela vai continuar com os exercícios abdominais! Só que dessa vez usando ondulações, de forma bem isolada, o que eu gostei.

Depois ela começa uma sessão só de movimentos de peito (laterais, cima/baixo, redondos), e quando você já está morrendo, ela muda para movimentos de encaixe e desencaixe de quadril (para ter certeza que você vai malhar TODO o abdômen :-) ). Essa é a sessão quadril do DVD, que continua com os shimmies de glúteos (ótimo para treinar a técnica dela) e outros exercícios de quadril. Os tipos de exercício são para iniciante, mas ela vai rápido e você já está morta das sessões anteriores.

E depois quando você já não aguenta mais, vem o alongamento final... que eu pessoalmente acho muito curto e suave para a malhação que foi feita. Toda a malhação dura uns 40 minutos e o alongamento final dura uns 2 minutos. Não é suficiente. Alongue mais um pouquinho.

Para finalizar, assim como os demais DVDs, tem uma apresentação em grupo, dessa vez com snujs (eu acho que essa é a melhor apresentação de todos os DVDs da Suhaila, de longe!), um discurso meio auto-ajuda sobre ser mulher, mas que é legalzinho, e uma dança em círculo.

Nos extras, assim como nos outros DVDs, tem uma sessão de exercícios de uns 10 minutos, dessa vez de descolamentos com os movimentos de quadril que ela usou no final da sessão "normal" do DVD. Novamente é uma aluna da Suhaila que apresenta essa parte, o que eu acho muito bacana. Tem também uma apresentação extra, de um trio de alunas dançando "Alf leyla wa leyla", que eu não gostei muito, mas eu sou chata com Oum Kalsoum. E por fim, mais uma dança em círculo (a Suhaila parece amar isso, tem sempre nos finais dos DVD e ainda tem sessão extra!).

Enfim, é um DVD para fazer preparação física e trabalho de base da técnica de dança do ventre. Melhor que do ir a academia!

Para vocês terem uma ideia, segue um vídeo promocional do DVD:




E essa é uma versão ao vivo da coreografia de snujs que tem no final do DVD:


E bom treino!!!

Outros DVDs da Suhaila:

JAZZ Fusion
BUNS Fusion

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Kisses from Kairo - Voando alto...




Sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha 

... bom, mais para bêbada. Mas puxa, faz algum tempo que eu não bebo. Álcool simplesmente não é uma prioridade quando se mora no Egito – um país relativamente seco (piada infame intencionada). Ao menos para mim não é. E existe forma melhor de comemorar a minha volta para o Brooklyn do que bebendo suco de amora com vodka no vôo de volta para casa? ;) (N.T.: drink muito conhecido como Cape Cod quando misturado também com limão)

Eu admito, sou fraca para bebida. Mas isso é porque eu bebo muito raramente. Bastou apenas um copo da bebida para deixar a minha visão turva e me fazer rir alto enquanto eu assista “Aasal Eswed”. “Aasal Eswed” é uma comédia egípcia que se traduz como “Doce azedo” (N.T.: a tradução literal é “mel azedo”, mas “doce azedo” traduz melhor o duplo sentido do título). Ela satiriza a forma, na maioria das vezes repugnante, que os egípcios se tratam ao comparar com a forma como tratam os estrangeiros como se fossem da realeza. O protagonista é o ator egípcio Ahmed Hilmy, que volta ao Cairo para trabalhar como fotógrafo depois de viver nos EUA por 20 anos. Com a intenção de “se passar por nativo”, Ahmed deixa o seu passaporte de propósito nos EUA e se identifica orgulhosamente como egípcio. O filme se desenrola mostrando todos os problemas desnecessários pelos quais ele passa por causa disso. Desde autoridades, até taxistas e cavalos (!), ninguém trata Ahmed do jeito que ele espera ser tratado por ser egípcio.

Duas coisas fazem esse filme ser hilário. A primeira é que ele é totalmente realista! Eu pessoalmente já experimentei ou presenciei a maioria das situações vividas por Ahmed (incluindo os cavalos que ficam nas bases das pirâmides e que não se movem por ninguém a não ser os seus donos beduínos!). A segunda foi ver como essa pessoa que pensa que é egípcia precisa se defender pelas ruas do Cairo, quando é óbvio que ele é apenas um ingênuo forasteiro.

Mas o objetivo desse post não é falar sobre como os egípcios se tratam. O objetivo é tratar sobre o que acontece quando você volta para casa depois de passar um tempo significante fora – sobre como a gente meio que não “se enquadra” mais. Mesmo num lugar tão cosmopolita e aconchegante como Nova Iorque.

Assim que saí do avião, me senti exatamente como o protagonista de “Aasal Eswed”. Assim como Ahmed, eu tinha uma visão romântica sobre a minha casa (apesar de eu voltar a cada 6 meses mais ou menos, eu sinto muita saudade muito fácil). Eu estava imaginando toda a comida, pessoas e lugares que eu sentia falta. Coney Island, pizza, Times Square, comida chinesa nojenta... A ar limpo, fresco e frio. A liberdade. As memórias. Eu estava gostando até do engarrafamento das 5 da tarde do Belt Parkway.

E então, fui ver o meu pai, a pessoa mais chateada com a minha carreira de bailarina no Egito. A partir de então as coisas foram ladeira abaixo. Não porque ele não estivesse feliz em me ver. Pelo contrário. Ele estava tão feliz em me ver de volta em casa inteira que ele começou a me mostrar pela vizinhança, tanto para os que eu conhecia quanto para pessoas novas. Os vizinhos, o cabeleireiro, a manicure, os garçons, o manobrista. O açougueiro, o padeiro, o fabricante de castiçais. ;) E veja bem, eu estava com fome, cansada, desidratada, precisando urgentemente de um banheiro, e ainda estava usando a minha maquiagem de palco da apresentação da noite anterior no Nile Memphis! A última coisa que eu queria fazer era lidar com um pai me apresentando meio brincando como “minha filha, a estrela de dança do ventre egípcia formada em Harvard”. Eu também não estava no clima de olhar para baixo para todas aquelas caras de perplexidade me olhando (eu fico bem alta quando uso minhas plataformas Aldo), ou receber os seus comentários ridículos.

“Bem vinda a América”

“Então você está vivendo no Egito?”

“Qual é o problema? Você não gosta mais desse país?”

“Nós vimos todos os seus vídeos na internet. Nossa, você é uma bailarina tão talentosa”

“Então você fala egípcio agora, né?”

“O que você é? Amante de árabes ou algo do gênero?”

“Eles não tratam as mulheres como se fosse lixo lá?”

“O que tem te segurado por tanto tempo lá fora? Você pode dançar dança do ventre aqui, não pode? Você sabe que o seu pai disse que ele iria comprar para você um estúdio de dança, daí você poderia dar aulas de dança até cansar e ganhar rios de dinheiro”

Obrigada, Brooklyn. Sério. Mas a língua se chama “árabe”, não “egípcio”. E não, obrigada, eu não quero me acomodar como professora de dança do ventre nos EUA. Eu sou uma “estrela” da dança do ventre no Egito, como o pai diz. :) Sim, eles tratam as mulheres como se fosse lixo lá, mas agora isso é assim em todo lugar, não é mesmo? Amante de árabes? Hein? Eu sou republicana que nem você, mas sou uma republicana instruída.  E sobre o que eu sinto sobre o meu país, eu o amo até a morte. Talvez mais do que você. Eu amo tudo o que ele representa e prega (mesmo que não pratique :D). Porque, diferentemente de você, eu não aceito as coisas sem questionar. Eu sei o que é viver em lugares do mundo onde os valores americanos não existem. Eu sei o que é mentir sobre a minha carreira e esconder as minhas visões políticas. Eu sei o que é vestir mangas compridas e calças quando está fazendo 50° do lado de fora. E eu me tornei uma pessoa melhor por conta disso. Eu entendo melhor o mundo e aprecio mais os EUA. E falando sério, “Bem vinda a América”?!?! Isso é tããããão egípcio.

Nota mental. Mudar de cabeleireiro. Procurar anonimato. Nova Iorque é boa para isso. >D

Eu estou sempre reclamando sobre como eu preciso esconder a minha dança no
Egito porque as pessoas lá normalmente têm visão limitada. Bom, aqui não é tão diferente assim. Os americanos me fazem me sentir esquisita quando eu digo a eles que sou bailarina de dança do ventre no Egito. “É tipo um strip-tease árabe, né?” E porque diabos eu escolheria o Egito no lugar dos EUA? Será que sou algum tipo de louca esquerdista que odeia os EUA? Então eu decidi não falar mais sobre isso com ninguém que já não saiba da história. Afinal, o mundo é muito pequeno.

Eu fui avisada de que isso iria acontecer – por ninguém menos do que o cara sentado na minha frente no avião. Assim como eu, ele era um nativo de Nova Iorque que vive no exterior já há algum tempo. 10 anos na Inglaterra, vindo direto do Bronx. Nós não tínhamos reparado um no outro até o final do vôo, quando, ainda sob os efeitos da vodka, eu ri do conselho que ele deu para um casal britânico para dizer “cigarro” ao invés de “viado” (N.T.: em inglês britânico existe a gíria “fag” para cigarro, que nos EUA é uma gíria para “homossexual”). O que então abriu espaço para uma conversa.

Eu disse para ele que vivia no Egito já fazia 3 anos agora, e que eu sou bailarina de dança do ventre lá. Graças a deus ele não respondeu com os usuais “uaus” e “por quês”. Ao invés disso, ele disse que devia ser muito difícil para mim voltar para casa, já que ninguém teria nada em comum comigo ou com o que eu faço. Você está absolutamente certo, respondi a ele. Toda vez que volto para casa eu me sinto como uma aberração – uma alienígena. Eu não tenho mais nada em comum com ninguém. Todos os meus amigos são casados e/ ou têm filhos. Nós nos distanciamos muito. Mas o que você saberia sobre essas coisas? Não é que viver na Inglaterra seja algo tão exótico que os americanos não possam te entender. Confie em mim, ele disse. Não é tão sobre onde você vive, é mais sobre o fato de que você não está morando em casa. A maioria das pessoas simplesmente não entende isso. Mesmo os tão auto proclamados liberais nova-iorquinos. Ele está certo, pensei. E eu já sabia disso. Só que eu tinha escolhido esquecer essas coisas naquele momento porque eu estava tão animada para chegar em casa e relaxar do estresse que é o Egito.

Depois da minha sarcástica boas vindas à casa, eu me sentei para ter um jantar legal com o meu pai e meu avô num restaurante. Italiano do estilo Brooklyn. Ninguém faz comida italiana como o pessoal do Brooklyn. Nem mesmo a Itália. Frango a parmigiana, penne e brócolis. Meu vegetal favorito. No Egito não tem isso. Um copo de vinho e um de sangria branca caseira. Voltar para casa tem as suas vantagens. ;)

Com toda a comoção política rolando agora no Egito, eu tenho fantasiado sobre a idéia de que eu talvez tenha que voltar para casa de forma mais permanente, e talvez mais cedo do que imagino. Isto é, se a Irmandade Muçulmana tomar o poder. Se isso acontecer, dançar será uma das primeiras coisas a serem proibidas. Eu até poderia continuar no Egito e escrever sobre os horrores de um governo islâmico, mas eu me recuso a dar suporte a um governo desses com a minha presença e os meus dólares. Portanto, eu embarcaria no primeiro vôo para casa. O que me deixou pensando... o que eu vou fazer se um dia eu deixar o Egito?

O problema é que eu não posso simplesmente sair do Egito. Isso porque eu não danço dança do ventre. Eu me tornei uma bailarina. É mais do que um hobby portátil ou uma ocupação agora. É uma forma de vida. E ela vicia. Eu passo cada momento acordada fazendo alguma coisa relacionada à dança de alguma forma. Se não estou me apresentando, estou ensaiando. Se não é ensinando, é coreografando, escolhendo música ou ensaiando com a minha banda. Se não é desenhando figurinos, comprando tecidos ou escrevendo o meu blog, é brigando com alguém sobre algum aspecto da minha carreira. E eu não posso levar esse estilo de vida em mais nenhum outro lugar do mundo. Em mais nenhum outro lugar eu poderei ser uma bailarina e produtora por 24 horas por dia. Bom, talvez se eu entrasse no ramo de “fusão” eu poderia ter um estilo de vida similar em Nova Iorque, mas não é nisso que está a minha cabeça.

Por outro lado, eu não posso ficar no Egito para sempre. Por mais que eu tenha passado a amá-lo, tem muita coisa acontecendo por lá culturalmente e politicamente que eu simplesmente não concordo. E como uma imigrante, eu nunca vou me encaixar totalmente. Mesmo que eu fale árabe fluentemente e tenha me tornado egípcia de mais de uma forma. Eu também gostaria de ter filhos um dia. Eu nunca me perdoaria por privar meus filhos de um ambiente limpo e de uma boa educação como os que eu recebi nos EUA.

Então onde isso me deixa? Eu não realmente pertenço ao Egito, isso é certo. Assim como eu nunca seria completamente feliz nos EUA. A dança do ventre consumiu de tal forma a minha vida que eu fico até deprimida quando eu me apresento em qualquer lugar de Nova Iorque. Eu acho estúpido e sem sentido fazer um número de 15 minutos com CD ou uma banda de um músico na frente de um público mais interessado no frango do que na minha dança.

Se eu saísse do Egito antes de estar pronta para me aposentar dos palcos, eu provavelmente desistiria completamente da dança (eu nunca fui boa com compromissos). Fazer alguma coisa que me lembrasse mesmo que remotamente da dança do ventre me lembraria do que deixei para trás no Egito e me causaria muita dor. Eu teria que pedir as contas e reinventar completamente a minha vida. Tentar “ser americana” de novo. Talvez fazer aulas de salsa, ou começar a criar cachorros, ou melhor ainda, arranjar um emprego fixo. O que pode não ser a pior coisa do mundo, mas só pensar nisso me assombra. Uma grande parte de mim morreria.

A única coisa que tudo isso tem me ensinado é que não podemos ter tudo o que queremos na vida. Não importa o que fazemos ou para onde vamos, estamos constantemente fazendo sacrifícios. Abrindo mão de uma coisa (ou muitas coisas) para desfrutar de outra. Isso acontece com todos nós. Só é um pouco mais óbvio em casos como o meu, no qual eu abri mão da liberdade, família e conforto para correr atrás do meu sonho de ser bailarina de dança do ventre no Cairo. Se as coisas fossem diferentes, eu ainda assim estaria fazendo sacrifícios. Eu estaria vivendo nos EUA, mas negando meu lado artístico.

Eu também aprendi como imigrar pode desarraigar a gente. Apesar de que o sangue que corre em minhas veias será sempre vermelho, branco e azul, eu nunca mais serei a americana que eu costumava ser. Assim como Ahmed em “Aasel Eswed”, eu nunca estarei completamente em casa. Eu acho que esse é um sentimento legítimo de se ter quando se imigra para outro país, mas é bem diferente quando sentimos isso voltamos para o nosso próprio país. É bem deprimente, e às vezes eu desejo que eu nunca tivesse me mudado para o Egito em primeiro lugar. Assim eu não estaria tendo esse conflito interno de querer viver nos EUA, mas querer dançar dança do ventre do jeito certo. Do jeito egípcio.

Colocando tudo isso de lado, é ótimo estar em casa, mesmo que por um curto período de tempo. E é muito bom dar um tempo na minha rotina agitada de apresentações – especialmente quando estou com um início de tendinite no quadril. Mais do que tudo, estou super animada de estar ensinando em workshops na Big Apple e revendo minhas amigas da dança. Ainda assim, sei que em exatamente 2 semanas eu vou voltar a sentir falta do Egito, minha segunda casa. Então eu vou tentar entender o que tem de “errado” comigo. ;O)