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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Kisses from Kairo - Sentimentos sobre Sentimento




Sábado, 4 de agosto de 2012


Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   


Vamos encarar. Nós, bailarinas estrangeiras, somos muito pressionadas. Nós não só temos que ser lindas, mas temos que dançar da forma mais egípcia possível. Algumas chegam mais perto do que outras, mas nenhuma de nós chega na casa dos 100%. Pessoalmente, eu acho que é impossível. Ser egípcia é uma dessas coisas com a qual ou você nasce com ou sem. Não importa o quanto você faça imersão na cultura ou quão bem você fale o árabe, nunca seremos tão egípcias quanto as egípcias. E, claro, nunca seremos mais egípcias do que uma. :) Não que ser egípcia seja o objetivo, ou que não ser seja o fim do mundo. Nossa “desvantagem”, no entanto, é sermos sempre comparadas às bailarinas egípcias. E um dos pontos de comparação é o sentimento.

“Sentimento” é uma dessas palavras que não tem um significado real. Mesmo assim, a usamos o tempo todo para se referir a um conceito vago do que é egípcio na dança. Não podemos definir exatamente o que é; é a parte da dança que não pode ser definida, quantificada, calculada ou ensinada. Mas de alguma forma, nós reconhecemos quando vemos. Ainda mais interessante, sentimento é o que muitas bailarinas egípcias (dizem que) têm, e que nós, não-egípcias, nos esforçamos por obter.

Dado que sentimento é um conceito tão vago, achei que seria divertido fazer uma lista das minhas idéias sobre isso – sobre o que é, e o que não é. Mantenham em mente que essas são as minhas idéias subjetivas baseadas na experiência e na observação. Elas são, portanto, discutíveis. Existe mais de uma forma certa de entender as coisas, então você não precisa concordar com tudo o que eu escrevo. E isso não significa que uma de nós está errada.

Quando os egípcios falam de sentimento, eles frequentemente afirmam que é o falta às bailarinas estrangeiras. Eles dizem que nós temos uma técnica ótima, mas que nossa dança é mecânica e chata. Eles acham que muitas de nós não têm essa essência – esse espírito característico da dança oriental. Eles não sabem se é porque nós não entendemos as letras ou a instrumentalidade árabes, ou porque não somos egípcias. Enquanto não concordamos que falta sentimento a todas, eu acredito que para muitas de nós é um pouco das duas coisas.

O sentimento surge quando uma bailarina educada está fisicamente, intelectualmente, e emocionalmente em sintonia com a música, e consegue transmitir isso para o público. Eu frisei o educada porque essa conexão só acontece quando nós adquirimos um conhecimento profundo sobre a dança. Quando dominamos a técnica, entendemos a instrumentalidade árabe, e compreendemos a letra da música. Quando sabemos que tipos de movimentos combinam com cada instrumento. Quando nos tornamos intimamente familiarizadas com as origens culturais da dança. Quando conhecemos todas as regras e sabemos quando podemos quebrá-las. Quando alcançamos esse nível de conhecimento, isso se reflete na nossa dança. Mas o que é isso exatamente?

Para mim, sentimento é, antes de qualquer coisa, a forma como a bailarina executa os movimentos. Uma questão de estilo, se você quiser colocar assim. Dependendo da energia por trás, um movimento pode parecer turco, egípcio, tipo hip-hop, ou parecido com nada. Exatamente o mesmo movimento, com ênfase diferente, logo um sentimento diferente. É como se fosse um sotaque, se pensarmos em línguas estrangeiras. Nos Estados Unidos, por exemplo, nos lugares onde há muitos imigrantes não é incomum escutarmos algumas palavras carregadas em sotaque indiano, latino ou asiático. Apesar de todos falarmos a mesma língua, o inglês de cada grupo étnico tem um som distinto, ou um sentimento. E isso não é uma coisa ruim.

O mesmo se aplica à dança. Quando eu comecei a fazer aulas em Nova Iorque, uma das minhas professoras me disse que a minha dança não parecia (i.e. não tinha o “sentimento”) do Oriente Médio (pensando agora, nem a dela :P). Claro, eu estava fazendo todos os movimentos corretamente, mas a forma como eu fazia os movimentos não era muito oriental, muito menos egípcia. Os meus braços, que eu mantinha extremamente estendidos, estavam mais apropriados para direcionamento do trânsito do que para a dança do ventre. Meus movimentos de quadril eram tão grandes, perfeitos e violentos que eles pareceriam mais de hip-hop do que de dança do ventre. Vale dizer que eu tinha estudado no passado um pouco de hip-hop e de jazz, então era daí que vinha o “sotaque” com o qual eu falava a língua da dança egípcia. Desde então eu aprendi a ser mais suave e fazer os meus movimentos menores. Livrei-me do meu sotaque, por assim dizer. :) E eu aprendi que os movimentos de quadril não precisam ser tão prefeitos ao ponto de parecerem robóticos.

O sentimento é mais do que uma questão de estilo, entretanto. Parte do que queremos dizer quando dizemos que uma bailarina dança com sentimento é que ela interpreta corretamente uma música. Em outras palavras, que ela tem um bom ouvido. Ela sabe combinar os movimentos com os instrumentos. Ela sabe que o acordeom, por exemplo, pede que ela faça movimentos sinuosos, como oitos e ondulações. E que o derbake obviamente pede movimentos mais percussivos. Mais importante, ela sabe o que fazer quando tem diversos instrumentos tocando ao mesmo tempo... como, por exemplo, o ritmo se acelera durante um solo de acordeom. Uma bailarina com uma boa percepção vai saber quando ignorar o derbake, quando ignorar o acordeom, e quando se utilizar de ambos. E isso é algo que vem com a experiência.

Tem outro aspecto nessa história toda de sentimento que eu quero mencionar, principalmente porque parece haver todo um desentendimento sobre o assunto. EMOÇÃO. Como todos já puderam reparar, é muito comum para as bailarinas egípcias de hoje em dia transmitirem a emoção das letras com expressões faciais e gestos com as mãos. Também é muito comum que as estrangeiras as imitem. Às vezes funciona. Mas é muito frequente, já que a maioria das bailarinas não-egípcias não entende as letras em árabe sem uma tradução, que a imitação delas seja exatamente isso – uma imitação. E pode parecer falso e exagerado.

Eu tenho reparado muito nisso recentemente, quanto mais eu tenho dado workshops fora do Egito e visto performances das alunas. Esse é um problema que as bailarinas têm em qualquer lugar, mas especialmente na Europa, onde a cultura da dança do ventre é muito competitiva. Em qualquer final de semana, você pode encontrar competições acontecendo por todo o continente. Isso resulta em bailarinas lutando para se sobrepor às outras de qualquer forma. E uma das formas de fazer isso é fazendo expressões extremamente exageradas de alegria, dor ou qualquer outra emoção que as letras estejam transmitindo. Ou fazendo gestos extremamente exagerados. É como se elas achassem que vão acertar no “sentimento” desse jeito.

Esse é o problema. Existe uma diferença entre sentimento e atuação. Sentimento se trata principalmente de interpretação musical. E apesar de às vezes incluir a expressão da emoção, não se trata de fazer mímicas no palco, ou sobre provar para o público (ou a banca) que você entende árabe. Enquanto é sempre bom conhecer a letra ou até mesmo cantar junto se você conseguir, fazer caretas durante toda a música para provar que você entende árabe é desnecessário. Fazer demais de uma coisa boa é ruim.

Tem uma performance que eu nunca vou esquecer. Foi de uma bailarina européia num festival egípcio há alguns anos atrás. A moça estava dançando uma música sobre amor não correspondido, e ficava fazendo repetidamente movimentos violentos de esfaquear... como se ela estivesse se apunhalando nos quadris e no coração. Ela então se jogou no palco e bateu no chão com a mão ao som da palavra “bahibak”, que significa “eu te amo”. Ela definitivamente me deixou impressionada, mas pelas razões erradas. Eu me senti como se tivesse sido atacada – como se ela tivesse me forçado a sentir o que ela estava sentindo. Uma coisa é expressar a emoção da música. Outra coisa é subir no palco e FORÇAR AS PESSOAS A SENTIR CARAMBA! Que era exatamente o que ela estava fazendo. :)

Eu já vi muitas performances assim. E eu saio delas pensando, se ela tivesse reduzido uns 50%, dançado mais e atuado menos, ela teria sido convincente.

A cultura da competição não é a única culpada pela atuação exagerada. Alguns professores de dança egípcios muito famosos também têm culpa. Nos últimos anos, tem havido uma tendência cada vez maior de vários professores egípcios de influência de fazerem caras e bocas durante toda a música. Isso está acontecendo porque eles têm escolhido músicas pops mais novas que tem composição e instrumentação inferiores aos clássicos mais antigos, e que não deveriam ser dançadas! Porque essas músicas não têm nenhuma complexidade musical, não tem mudança de ritmo, não têm instrumentos de corda, a única coisa que dá para fazer é seguir as letras com mímicas e caras e bocas.

É triste que isso esteja se tornando tão comum. Mas parece ser o resultado da preguiça e da falta de cuidado que surgem quando professores estrelas se voltam exclusivamente para o comércio. Quando isso acontece, eles param de pensar e de se esforçar na arte. Eles simplesmente pegam o último sucesso pop, fazem uma coreografia mais ou menos cheia de caras e bocas, e ensinam em workshops por todo o mundo. E então chamam isso de “sentimento”. Não é à toa que todos nós começamos a fazer caretas! Não só estamos imitando as bailarinas egípcias, mas estamos sendo ensinadas a fazer isso por professores egípcios que passamos a respeitar e admirar!

Então, apenas para deixar claro: só porque uma música é nova ou rápida, não quer dizer que ela deva ser dançada. E não é porque alguém que sabe mais do que você está apresentando um lixo, que devemos aceitar cegamente. Mas é exatamente isso que está acontecendo. Justamente porque muitas de nós, compreensivelmente, acreditam que qualquer coisa que um egípcio faça está certa, é que nós estamos seguindo essa tendência e levando a novos extremos. Que, é o que eu queria dizer, não é a definição de sentimento.

Do lado oposto do espectro, estão aquelas egípcias que sentem sim – talvez um pouco demais. :) Na verdade, às vezes elas sentem a emoção da música de forma tão intensa que elas esquecem de dançar! Elas cantam e gritam e fazem gestos enlouquecidos e jogam um shimmie aqui e outro ali... eu juro que às vezes eu sinto como se estivesse assistindo a alguém bêbedo no karaokê! :)~ Isso pode ser tão engraçado quanto esquisito ao mesmo tempo. Engraçado porque elas esquecem de si mesmas e de que estão num palco. Esquisito porque elas desnudam completamente as suas almas para o público. E, acredite em mim, você não quer estar em nenhum desses papéis. :) Como público, você não quer ser sujeitado a isso. Como bailarina, você não quer estar na posição onde toda a sua disposição psicológica está às vistas do público. É informação demais, e uma invasão ao direito de privacidade do público. E eu não quero dizer à privacidade deles, quero dizer a nossa. Sim, o público tem o direito à privacidade do artista.

Pense sobre o assunto. Não queremos assustar alguém da platéia, ou mostrar a eles nossas partes íntimas – mais por consideração a eles do que por nós mesmas. Então porque iríamos mostrar a eles a parte mais íntima, mais privada, da nossa alma? Isso se chama nudez psicológica, e é provável que o seu público não queira ver isso.

Pessoalmente, quando me confronto com essa situação, eu me pego psicanalisando a bailarina. Eu começo a tentar entendê-la, e a imaginar todo o tipo de coisa sobre a sua personalidade, os seus vícios, sua vida, e diversas outras coisas que não são da minha conta. E é por isso que nós, como artistas, não deveríamos colocar nosso público nessa posição. Nós estamos lá para deleitar o nosso público com uma boa dança, não para começar uma sessão pessoal de meditação/busca da alma com nós mesmas. O palco é sobre eles, não nós. Não só esses sentimentos pessoais podem fazer o seu público ficar desconfortável, como tiram de nós todo o mistério. E eu não quero dizer apenas o mistério físico, tampouco, apesar dele também ser importante. Eu quero dizer o mistério emocional, psicológico. Assim que perdemos o nosso mistério, não há mais razão para o público voltar e nos assistir novamente. Eles já viram tudo. Não há mais nada para eles descobrirem.

Eu acho que o objetivo desse post era dizer que quando estamos no palco, nós estamos atrás do volante. Nós podemos e devemos controlar o quanto de nós mesmas nós mostramos para o público. Lembre-se, como em tudo, muito de qualquer coisa nunca pode ser bom. Isso também se aplica ao sentimento e à atuação. O truque para dançar com sentimento é atingir um equilíbrio. Nós devemos ser capazes de expressar tanto a música quanto a letra de uma forma que seja verdadeira para nós mesmas, mas sem exagerar. Isso não só vai tornar a nossa dança mais genuína, mas também mais convincente.

Como sempre, comentários, questionamentos ou reclamações são bem-vindos. :)


quarta-feira, 13 de março de 2013

Show Estrelas do Oriente



Nessa sexta grande festa das alunas do Asmahan!!! Com a participação especial das professoras Lalitha, Nadhirra e Noor Farag! Você não pode perder essa!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Show OPTCHA!




Nessa sexta gente! Estarei ao lado da linda Clara Sussekind, que já apareceu por aqui no Diário de Viagem da Turquia, e das maravilhosas Mayara Rajal e Annya Kalitch. Vamos nos divertir com um show cheio de folclores e danças quentes!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ano Novo e o Ventre da Dança Começa Animado!

E assim voltamos do recesso de final de ano: COM A CORDA TODA!!!!

Já na próxima sexta-feira vou dançar no primeiro Arabian Nights do ano! E teremos ainda muitas novidades por aqui, aguardem que 2013 promete MUITO!

Além de continuar o relato da Viagem à Turquia e as traduções do Kisses From Kairo, esse ano teremos ainda muitas resenhas de livros, DVDs e algumas surpresas ao longo do caminho! Fiquem de olho!



ARABIAN NIGHTS 
Com Lalitha, Noor Farag e Thaís Leal
DIA 11/01/2013
organizado pelo Asmahan

Rua do Ouvidor, 16, Praça XV, Rio de Janeiro
a partir das 20hs
Couvert artístico R$15,00

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Kisses from Kairo - O público do Cairo



Sábado, 31 de março de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha    

Uma das vantagens de ser uma bailarina contratada no Cairo é que você pode se apresentar bem regularmente. Algumas de nós trabalham várias vezes na semana. Outras, várias vezes por dia, dependendo do local, da popularidade da bailarina, e, hoje em dia, se há movimento o suficiente. E o que poderia ser melhor do que isso? Fazer o que você ama todo santo dia. Parece a situação ideal de trabalho. E é. Exceto que eu não estava tão certa disso quando eu fui contratada. E essa é a razão:

Toda vez que a arte se torna um emprego, você corre o risco de perder a sua paixão. Isso porque o “emprego” inclui obrigações, rotinas, e dinheiro, e há alguma coisa na arte que é contrária a tudo isso. Arte é um presente de Deus (ou do universo ou do que quer que você queira chamar). Não é algo que podemos nos forçar a fazer a qualquer momento. E é por isso que ouvimos tantas vezes a palavra “inspiração” associada à arte. O artista busca e espera pela inspiração. E quando ela vem, o artista se torna apaixonado e produz o seu melhor trabalho. E como a inspiração não pode ser forçada nem apressada, parece ridículo fazer da arte nosso emprego, da mesma forma que faríamos da medicina, do direito ou lavar roupa. Mesmo assim, de alguma forma, depois de um ano me apresentando toda noite, eu não perdi nem um grama da paixão pela dança. Ao contrário, o que eu notei é que a minha paixão pela dança aumentou, e é altamente dependente do entusiasmo do público.

O público é realmente muito importante na dança oriental. E isso porque a dinâmica bailarina-público é muito mais íntima do que em outras danças. Ela é também mais interativa. Diferente do ballet e de outras danças de palco, nós realmente vemos o nosso público e fazemos contato visual com ele. Nós sabemos quem está feliz, quem está interessado, quem se emocionou, quem está de saco cheio, quem está inseguro, quem está sem graça, quem está imaginando coisas inapropriadas, quem está nos julgando, etc. Nós podemos puxá-los dos seus lugares e fazê-los dançar, podemos tirar fotos, e até brincar com eles. E tudo isso afeta o nosso humor, e tem impacto na nossa apresentação. Dançar para um público que já está aplaudindo antes mesmo de você entrar no palco faz a apresentação ficar melhor do que entrar num ambiente cheio de turistas sonolentos e religiosos de cara amarrada.

Provavelmente eu já me apresentei para todo o tipo de público imaginável. Egípcios, árabes, turistas, colegas bailarinas, amigos, inimigos, ricos, pobres, religiosos, não religiosos, políticos, celebridades, Irmandade Muçulmana, somente mulheres (e uma vez, somente homens), educados, apreciativos, rudes, agressivos, engraçados, loucos, sonolentos, pessoas de visão limitada e arrogantes, nojentos. Eu já tive (não)platéia religiosa saindo antes e durante o meu show, e turistas cansados e com fuso-horário trocado literalmente dormindo durante toda a apresentação. Eu também já tive públicos aplaudindo, fazendo zagharouta (N.T.: o famoso lilililililiiiii) e gritando de alegria. E públicos lançando flores em mim, me beijando, e me cobrindo de elogios enquanto eu estava no palco! :) Apesar de eu (obviamente) preferir alguns públicos a outros, cada um me ensinou alguma coisa sobre mim mesma, sobre a natureza humana, e mais do que tudo, sobre a dança.

Sem dúvida, a coisa mais importante que eu aprendi é que a dança do ventre é uma dança social (e eu sou uma pessoa “social”, por mais que eu pensei que não sou). É uma dança que acontece em ocasiões festivas como casamentos, hinnas (despedidas de solteira), festas de aniversário, subuas (uma espécie de batizado), etc. Eu já “sabia” disso desde que era iniciante, lá em Nova Iorque. Mas eu sabia disso num nível intelectual, abstrato. Agora, eu sinto esse conhecimento diariamente. E eu sinto de uma forma diferente também. Como o público e a bailarina são, enquanto durar o show, as suas respectivas “sociedades”, eles se alimentam da energia um do outro. Dito isso, eu pensei que seria interessante mapear os tipos de público que já encontrei, os seus requisitos, e explicar como cada um afeta o meu humor e a minha dança de forma diferente.

Vou começar pelo público egípcio. O público egípcio é sem sombra de dúvida o melhor para dança do ventre. Ninguém gosta mais e entende melhor a música e a dança egípcias do que os egípcios. Na maioria das vezes, os egípcios ficam ansiosos para ver a bailarina e dançar com ela. Eles aplaudem antes, durante e depois do show. Homens e mulheres se convidam para dançar com ela. Alguns nem pensam duas vezes sobre o assunto. Outros, especialmente mulheres de véu, sabem que “não deveriam”, mas não conseguem resistir. Eu adoro vê-los se soltando na pista de dança. E eu adoro ver a reação de outras pessoas da platéia, especialmente dos turistas que acham que mulheres de véu não dançam. :)

Eu faço minhas melhores apresentações para públicos egípcios. Ou pelo menos acho que faço. Eu sei que eles entendem o que estou fazendo, então me sinto livre para apenas dançar. Eu fico livre para me emocionar, e para ser eu mesma. Não preciso me preocupar se estou fazendo muito pouco, do jeito como me preocupo quando danço para públicos estrangeiros. Se me preocupo com alguma coisa, é se estou fazendo demais. A dança do ventre egípcia é mais sutil e relaxada do que as versões mais acrobáticas que vemos no Ocidente. É sobre sentimento e emoção. Egípcios não precisam ver você se contorcer toda, ficar de ponta cabeça, ou fazer todos os movimentos que você já aprendeu o mais rápido possível, só porque você consegue. Eles precisam saber que você entende a música, que sabe o que está fazendo e, o mais importante, que você está se divertindo. Eles também querem ver uma mulher bonita na frente deles, mas essa é outra história.

Entretanto, a coisa que mais gosto do público egípcio é o fato de que eles estão interessados. Eles usualmente te dão algum tipo de feedback, e, se necessário, críticas construtivas. Eles te dizem se gostaram ou não da sua apresentação, da sua roupa, do seu cabelo. Eles te dizem se você precisa ir mais devagar, se acalmar, ou marcar algum detalhe. Eles te dizem se você precisa ganhar ou perder peso, e que você não deveria usar aquela cor. E se eles realmente gostarem de você, eles vão te comparar a bailarinas egípcias lendárias e te contratar para dançar no casamento dos seus filhos. :) Em resumo, os egípcios querem te ver como a melhor bailarina que você pode ser. E isso é algo que eu aprecio muito, assim como críticas construtivas estão em falta na nossa comunidade de dança. As bailarinas enaltecem as suas amigas e descascam as inimigas sem realmente pensar na qualidade do seu trabalho, então é bom ouvir um retorno objetivo de observadores desinteressados que não tem um machado para afiar.

Por mais que eu ame dançar para os egípcios, eu estaria mentindo se dissesse que eles são todos tão entusiásticos como acabei de descrever. Tem alguns que simplesmente não gostam nem de música nem de dança. E tem alguns que gostam, mas não se sentem a vontade de demonstrar isso em público. Eu vejo muito disso com os que eu chamo de “nouveau riche” egípcios – a nova classe egípcia com dinheiro e profissões de verdade, carros bacanas, roupas ocidentais e jeito pretensioso. São pessoas que se acham importantes que ficam com vergonha de tudo o que é egípcio, especialmente dança do ventre (como se no Ocidente não tivéssemos garotas seminuas que dançam por dinheiro). Esses são os egípcios que fingem que não estão te assistindo dançar, e que fingem que não querem levantar para dançar com você.

E também tem a turma religiosa. Com exceção de um grupo da Irmandade Muçulmana que encontrei há um mês, praticamente todo o público religioso sai do recinto quando eu danço, ou então eles ficam sentados de cara amarrada durante o show inteiro. Na verdade, esse é o pior público para se apresentar. Como se dançar publicamente com uma roupa reduzida não precisasse de coragem o bastante, essas pessoas fazem eu me sentir como uma puta pecadora de baixo nível.

Toda vez que danço para um grupo desse tipo, acabo me pegando sendo toda psicanalítica (E como não seria assim? Eles invadem o meu espaço mental). Eu imagino todas as coisas que eles estão pensando sobre mim. Como eu provavelmente irei para o inferno porque sou bailarina. Eu começo a pensar sobre religião e política – não os assuntos que quer pensar num palco. Então eu começo a travar. Meus movimentos se tornam menores e menos energéticos. Meu sorriso diminui. Eu evito fazer contato visual com todo o mundo, até mesmo as mulheres. Em resumo, eu recuo. Eu simplesmente não me sinto a vontade sendo julgada desse jeito enquanto tento fazer um espetáculo. É desnecessário dizer, esses tipos de pessoa são públicos horríveis. Mas para a minha sorte, a maioria dos egípcios para os quais eu danço não é assim. Eles ficam felizes de me ver dançar, e eles chegam até mesmo a tirar fotos comigo antes que eu suma no camarim.

Apesar de fazer meus shows “sob medida” para o público, minha única constante é não fazer contato visual com os homens egípcios entre os expectadores. Nunca. A não ser que eles não estejam acompanhados de mulheres. As mulheres costumam ficar um pouco irritadas com bailarinas que olham diretamente para os seus homens, especialmente no dia do seu casamento. Então eu não o faço. Em respeito a elas. Faz com que elas se sintam mais confortáveis, e as assegura que eu não sou uma vagabunda-maníaca atrás dos seus homens.

Públicos estrangeiros são um pouco diferentes. Para alguns, assistir uma bailarina de dança do ventre é o ponto alto da sua viagem ao Egito. É fácil ver quem são eles, simplesmente pela forma como os olhos deles brilham quando você entra no palco. Eles começam a sorrir e a bater palmas, e não conseguem tirar os olhos de você. Esse tipo de turista me faz amar o meu trabalho. Eles querem me assistir, e eu quero dar a eles um bom show. Funciona muito bem.

Existem outros, por outro lado, que tornam o meu trabalho mais difícil. De vez em quando, eu acabo por dançar para um grupo de turistas cansados, com jet lag, que estão literalmente dormindo nas cadeiras antes mesmo de eu entrar em cena. Nada nesse mundo consegue acordá-los. Nem a minha banda, nem eu. Eu poderia estar de ponta cabeça e fazer 11 giros seguidos que eles ainda assim não iriam acordar. Dançar para esse tipo de público é mais do que frustrante, mas novamente, não posso realmente culpá-los. Eu sei o que é apertar todo o Egito numa viagem de 1 semana. Entre o jet lag, a exaustão, e a intoxicação alimentar, você fica com vontade de se matar. Mesmo assim, quando estou no palco em frente a um monte de turistas sonolentos, percebo que eu fico com raiva, e não com pena deles. Eu perco interesse no que estou fazendo, e mal consigo esperar a hora de sair do palco e fazer algo mais construtivo.

Depois dos egípcios, o público que eu mais gosto é a de colegas bailarinas de dança do ventre. Desde que comecei a me apresentar no Nile Memphis há um ano, eu dancei para bailarinas do mundo inteiro. Como bailarinas, elas entendem o que estou fazendo e sabem ser um bom público. Elas também são as mais críticas. Mas a energia é sempre forte e positiva. E elas sempre se juntam a mim na pista de dança, o que é muito divertido. :)

A grande diversidade de públicos aqui no Cairo é fantástica. E apesar de eu não gostar igualmente de dançar para todo o mundo, eu aprendi alguma coisa com cada show – como, por exemplo, o que funciona com estrangeiros, o que funciona com os egípcios, etc. A melhor parte disso tudo, entretanto, é que você nunca sabe como é o público antes de entrar no palco. É sempre um elemento surpresa. Meio que me lembra da “caixa de chocolates” de Forrest Gump. Você nunca sabe o que vai encontrar. :)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Show no próximo domingo!


Tenho orgulho em anunciar que vou participar dessa linda festa da Nadja El Balady no próximo domingo! Dançarei junto com as BellyCats, um grupo novo formado por bailarinas envolvidas na causa animal!

O ingresso para o evento custa 25 reais antecipado e 40 reais no dia. Para compra de ingressos é só entrar em contato comigo: lalitha.bellydance@gmail.com

Vejo vocês lá!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Desapegarte II


Mais um show beneficiente no Rio de Janeiro! Não percam a oportunidade de fazer workshops tão em conta e ainda por cima ajudando a causa animal! De quebra ainda haverá a mostra de dança e eu vou estar lá dançando!!!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Voltando a ativa! Romancia Nights!


Então gente, depois de uma temporada de duas semanas na Turquia (com direito a ver a Clara Sussekind na Capadócia, a Didem em Istambul e conhecer a professora de dança da Didem por acaso na night) estamos de volta! Os posts deram uma rareada por conta da viagem, mas semana que vem voltamos a nossa programação normal, e já com direito a show no sábado, dia 11! Agosto será animado :-)

Mais detalhes sobre o show aqui!

A partir da semana que vem teremos também por aqui o diário da viagem à Turquia! De 15 em 15 dias teremos um novo post do diário, numa quase fusão com o meu blog de viagens, mas isso só porque a Turquia é um país de interesse para quem estuda dança do ventre. Aguardem!!!!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

DesapegARTE

Ai ai... minhas férias estão acabando... isso é uma pena, mas é bom, porque o blog vai voltar com tudo! Aguardem a próxima semana! Até lá, fico apenas com a divulgação desse evento super fofo!


Venha participar também e ajudar a causa dos animais! Eu vou estar lá dançando na mostra de dança :-)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Kisses from Kairo - O derbakista de $6,78


Quinta-feira, 16 de junho, 2011
O derbakista de $6,78
Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha

Depois de 6 meses trocando de derbakista como eu troco de roupa, eu FINALMENTE encontrei o derbakista perfeito para completar a banda. Ele é talentoso, potente, traduz apropriadamente os meus movimentos, não é preguiçoso nem mesquinho. Ele é tudo o que eu estava procurando num derbakista, e eu não poderia estar mais satisfeita. Mas, como sempre, há um problema. Os outros integrantes da banda não gostam dele. Eles dizem que ele é arrogante e que faz gestos e caras esquisitas para eles. E eles o querem fora da banda.

Senhoras e senhoras, vocês vêem contra o quê estou lutando? Caras esquisitas?! Sinto-me como se estivesse lidando com um bando de crianças!

Lidar com os músicos é uma das partes mais difíceis do meu trabalho. Eu tenho alguém para lidar com eles diretamente (isso porque não é "prestigioso" para a bailarina conversar diretamente com os músicos), mas eu ainda assim sinto os efeitos dos seus egos grandes demais e suas infantilidades. E na noite passada, eu realmente saí do sério. Nós estávamos no palco, quase terminando o show com um solo de derbake, quando, de repente, a banda parou de tocar. Eles me deixaram plantada na frente da platéia sem ter música para dançar! Eu me virei para ver qual era o problema, só para encontrá-los discutindo com o derbakista.

Eu devo ter olhado para eles com a cara mais feia do mundo, porque eles pararam imediatamente de discutir e voltaram a tocar. E foi nessa hora que eu finalmente entendi todos os momentos de fúria-no-palco que eu já testemunhei entre bailarinas egípcias e seus músicos. Para o bem do show, eu me recompus. Mas quando nós saímos do palco, eu lancei a minha fúria em cima da banda - reclamei por uns 5 minutos sem parar nem para respirar. Eu acho que joguei para fora toda a frustração acumulada nesses últimos dois anos no Cairo, e isso foi muito booooooooom. :)

Basicamente, o principal argumento da minha reclamação foi "CRESÇAM!". Eu expliquei para os músicos que existe algo chamado etiqueta de palco - que mesmo que o derbakista seja mesmo um babaca ou crie confusão, isso não é desculpa para a banda toda parar o show para discutir com ele. Nós resolvemos os nossos problemas fora do palco. Nesse ponto os músicos responderam dizendo que o derbakista "está tentando mostrar pra você como ele é uma estrela". Ao que eu tive que responder rispidamente "Que aqui não tem estrelas! Nenhum de nós é uma estrela! Michael Jackson é uma estrela. Amr Diab é uma estrela. VOCÊS não são estrelas! Quando eu me inclino para a banda no final do show, eu não vejo indivíduos, muito menos estrelas! Eu vejo um grande borrão de instrumentos - uma banda - um time. E eu faço parte desse time, então conta outra!"

E eu continuei dando a eles uma aula sobre a realidade. Nós somos artistas, eu disse a eles, e a maioria dos artistas tem egos grandes demais. Especialmente aqueles que sabem que são bons no que fazem. Vocês também têm egos. Senão não estariam incomodados com o derbakista querendo aparecer para mim como se fosse "uma estrela". Na vida e no trabalho você precisa estar preparado para encontrar todos os tipos de personalidade. Você vai encontrar o arrogante, o mesquinho, os mentirosos, os que gostam de contar vantagem, o humilde, o leal, o honesto, o desonesto, o bom, o mau e o feio. Você precisa saber como lidar com cada tipo sem interferir no seu trabalho ou no trabalho dos outros. Isso se chama profissionalismo.

E essa é a razão porque eu acho que um bacharelado em psicologia infantil deveria ser um pré-requisito para dançar dança do ventre no Cairo. :D

Dessa vez os músicos não me responderam. Eles perceberam que eu estava certa, e que eu não iria tolerar esse tipo de comportamento para com o melhor derbakista que eu pude encontrar por $6,78.

É isso mesmo, esse derbakista ganha $6,78, ou 40 libras egípcias, por uma hora de show. Isso é menos do que o salário mínimo na maioria dos estados dos EUA! É, entretanto, um pouquinho mais do que os demais músicos da minha banda ganham, e isso só porque eu estou pagando a ele o pouco a mais que ele pediu por fora, da minha parte do dinheiro (Sim, os salários dos músicos pode ser ridículo ASSIM no Cairo). E a razão pela qual eu aceitei pagar a ele o extra de $2,54 do meu miserável salário de $33,90 é porque ele é bom. Ele é também o único derbakista do nível dele que concordou em trabalhar por essa quantia ridícula.

Eu estou disposta a fazer isso porque achar um bom derbakista não é uma tarefa fácil quando o salário fixo é de apenas $4,25, ou 25 libras egípcias, para o derbakista. Apesar deles custarem um centavo a dúzia, nem todos os derbakistas são iguais. Eu vou esclarecer isso, fazendo uma descriminação dos diferentes tipos de derbakista.

Primeiro, existe o derbakista que só trabalha em orquestras pequenas, normalmente de até 5 músicos (takht). Eles são chamados acertadamente de takhatees, e não trabalham com cantores ou bailarinas.

Depois, estão os derbakistas que trabalham exclusivamente com cantores. Esse tipo de derbakista precisa ter conhecimentos específicos.

A terceira categoria de derbakistas é daqueles que trabalham com bailarinas, ou tabbal ra'assa, como se diz em árabe. Esse é o derbakista sintonizado com os detalhes da dança do ventre. Ele sabe quando tocar um DUM e quando tocar um TAK de acordo com o que a bailarina estiver fazendo no palco. E mais importante, ele sabe como traduzir os movimentos em música.

As quartas e quintas categorias de derbakistas eu mesma inventei. São eles: bons debarkistas e maus debarkistas, e eles existem em todas as 3 categorias mencionadas anteriormente.

Por conta do salário ridículo, eu só consegui trabalhar com derbakistas muito ruins até agora. Derbakistas de $4,25. Isso é mais triste do que frustrante, porque o derbakista, ou tabbal, é, sem dúvida, o integrante mais importante da banda. Ele define o andamento da música e as deixas para os demais músicos. Mais importante: ele faz a bailarina dançar! (Sem dúvida, de diversas formas, o derbakista é a bailarina). Na falta de um derbakista talentoso, a bailarina está simplesmente ferrada. Todos os seus acentos vão sumir, e o seu solo de tabla será risível.

O mais engraçado disso tudo é que todos os derbakistas de $4,25 que trabalharam comigo até agora reclamaram de mim. Eles dizem que nunca viram uma bailarina como eu - que eles não conseguem me acompanhar. DUMs e TAKs demais. Aaaaah, como eu gosto de vê-los suando tanto quanto eu num show. :D

O verdadeiro problema é que esses derbakistas ficaram preguiçosos por nunca ter tido que trabalhar duro com as bailarinas egípcias. Isso porque a maioria das bailarinas egípcias não dança de verdade e não está nem aí, mas isso é assunto para outro post. Tocar derbake para uma bailarina estrangeira é algo completamente diferente - requer um derbakista experiente em trabalhar com estrangeiras. E por isso, meus amigos, que eu quero manter o meu derbakista a qualquer custo. Desejem-me sorte. :)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Kisses from Kairo - Encontrando Emprego no Cairo -- A Verdade Nua e Crua


Segunda-feira, 13 de junho, 2011
Encontrando Emprego no Cairo -- A Verdade Nua e Crua
Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha

Para muitas bailarinas de dança do ventre do mundo inteiro, dançar no Cairo é o sonho das suas vidas. Não importa se é a oportunidade de dançar todas as noites ao vivo com uma orquestra ou a oportunidade de ter reconhecimento na comunidade internacional da dança, a dança do ventre no Cairo atrai todo ano centenas de mulheres ao Egito.

Apesar de todas nós fantasiarmos com isso, a verdade é que a dança do ventre no Cairo não é para qualquer uma. É preciso que você seja um tipo específico de mulher - fisicamente, emocionalmente e intelectualmente - para ter sucesso como bailarina. E não é sempre o tipo de mulher que quer isso. Como Layla Taj, uma bailarina que vive em Nova Iorque e que tem alguma experiência em dançar no Egito, disse no seu site "O Cairo escolhe você. Você não escolhe o Cairo." http://www.laylatajdance.com . Com tudo o que eu vi até agora, isso parece ser verdade. Todo ano, centenas de bailarinas surgem no Cairo, determinadas a tornar realidade o seu sonho de dançar aqui. Algumas chegam até a vender as suas casas, suas posses, e deixam seus entes queridos para trás. A maioria volta para casa desapontada e desiludida. Outras ficam no Cairo por anos, na esperança de que um dia o seu sonho se torne realidade. Com isso em mente, eu montei um guia SUPER REALISTA sobre como achar emprego no Cairo, no qual vamos examinar as qualidades da bailarina estrangeira que tem mais chances de ter sucesso. Por favor, lembrem que esses comentários são baseados na minha experiência pessoal e no que pude observar nos últimos dois anos e meio.

1. Talento. Para conseguir um emprego no Cairo, a bailarina estrangeira de dança do ventre precisa ter talento. Ela deve ter boa técnica, expressão e conhecimento sobre como montar um show. Não importa qual seja o seu estilo pessoal de dança, a bailarina precisa ser completa. Por quê? Porque se os empregadores estão saindo da norma, contratando uma bailarina estrangeira ao invés de uma egípcia, é porque ela deve ter algo para oferecer que as egípcias não têm. Porque eles não estão apenas tirando o emprego das suas companheiras egípcias, eles estão pagando pesadas multas todo mês por contratar estrangeiras. Então eles vão querer algo em troca pela inconveniência.

2. A "Aparência Certa". Para conseguir um emprego no Cairo, a bailarina estrangeira de dança do ventre precisa ter a aparência certa. No Ocidente, nós não temos realmente uma "aparência certa" para a dança do ventre. A dança do ventre no Ocidente é sobre a irmandade feminina, e nós acreditamos que a beleza tem diversas formas, vem todos os tamanhos, cores e idades. Entretanto, no Egito, usualmente há uma noção bem limitada do que é a beleza ideal feminina. Normalmente, se um egípcio pensa que Fulaninha é linda, 99% dos egípcios vai concordar. O oposto também é verdade. Isso é muito triste, porque elimina muitas bailarinas talentosas que não atendem aos padrões egípcios de beleza, quaisquer que eles sejam. De muitas formas, isso é injusto. Mas a dança do ventre é, de qualquer jeito, um entretenimento, e na indústria do entretenimento, a beleza conta tanto quanto o talento, se não mais. Então, dado que existem muitas mulheres competindo por alguns empregos, ter a "aparência certa" é, portanto, um fator determinante para quem vai trabalhar como bailarina no Cairo.

3. Paciência. Para conseguir um contrato como bailarina de dança do ventre no Cairo é preciso muita paciência. Apesar de um punhado de bailarinas ter conseguido contratos no primeiro mês em que chegaram ao Cairo (por conta de contatos (muito) pessoais), a maioria leva pelo menos um ano até ser contratada. Isso acontece porque, primeiro, não existem muitos locais com licença para contratar bailarinas estrangeiras, e, também, porque não existe muita rotatividade no mundo da dança do ventre do Cairo. Os empregadores costumam renovar os contratos das suas bailarinas por 3 anos, ao invés de contratar bailarinas novas. Bailarinas aspirantes precisam, portanto, ser pacientes. Elas precisam estar preparadas para ficar sentada em casa a maior parte da semana, sabendo que as bailarinas já contratadas estão dançando todos os dias. Elas também não devem desanimar com todas as promessas falsas e vazias que as pessoas da indústria fazem. Por exemplo, um cantor ou agente talentoso vai se apaixonar por uma jovem aspirante a bailarina, e vai prometer o mundo para ela. Ele jura que vai conseguir um contrato nesse ou naquele hotel, mas na realidade, ele não tem como conseguir isso. Normalmente, ele só quer se "divertir" um pouco. Então ele joga com a vontade dela de dançar no Egito. Quando a bailarina descobre que era tudo um jogo, ela se frustra, muito provavelmente sente vontade de desistir, especialmente depois que isso acontece repetidas vezes. É por isso que depois de um ano no Cairo, eu apelidei o Egito de "a terra das promessas vazias". A bailarina de sucesso é aquela que vê através desses joguetes, não se sente muito frustrada, e espera pacientemente até encontrar oportunidades de verdade.

4. Casca Grossa. Não importa quão bonita e talentosa é uma bailarina, se ela não for casca grossa, ela não vai ter sucesso no Cairo. Ser casca grossa no sentido de não deixar que a inveja, as críticas e os insultos das pessoas te desanimem. Assim como em outros ramos da indústria do entretenimento, a competição é grande e a inveja é um fato. Não haverá muitas outras bailarinas ou professores que ficarão felizes com o seu sucesso. Pelo contrário, muitos tentarão te destruir a cada passo do caminho. Eles vão inventar diversas fofocas sobre você, e te acusar de coisas (ou pessoas) que você nunca fez (N.T. aqui Luna usa um trocadilho que não dá para traduzir, mas ela sugere que vão te acusar de dormir com algumas pessoas). Eles vão tentar acabar com a sua reputação e destruir a sua auto-estima. Então, se você é o tipo de pessoa que se preocupa demais com o que dizem e pensam de você, você nunca vai sobreviver no mundo da dança do ventre do Cairo. Mesmo que você tenha talento, seja bonita, e tenha uma chance de dançar aqui, é quase impossível NÃO esbarrar com esse tipo de comportamento. (O que eu mais gostaria de fazer era ilustrar o que descrevi com exemplos da minha própria experiência e da experiência de outras bailarinas, mas eu vou me conter e não vou transformar esse blog numa coluna de fofocas.)

5. Falar árabe. Sim, falar a língua local e falá-la bem é muito importante para o sucesso de uma bailarina estrangeira no Cairo. A bailarina precisa ser capaz de se comunicar efetivamente com músicos, agentes, gerentes de hotel, que em sua maioria não falam inglês e que vão tentar tirar vantagem da aparentemente inocente mulher estrangeira. Falar árabe minimamente fluentemente (não apenas izayyak? e mashy) (N.T.: izayyak - como você vai? mashy - tudo bem!) é necessário para ser compreendida, e, mais importante, ser respeitada. Os egípcios desse meio precisam entender que a bailarina é inteligente e consegue lidar com eles na sua própria língua e no mesmo nível.

6. Sorte. E por último, mas não menos importante, falta a sorte. Eu mencionei anteriormente Layla Taj pela citação "O Cairo escolhe você. Você não escolhe o Cairo." Às vezes uma mulher tem tudo para ter sucesso como bailarina de dança do ventre no Cairo, mas por alguma razão inexplicável, ela simplesmente não consegue fechar um contrato. Talvez ela não tenha conhecido as pessoas certas, ou talvez ela não estivesse lá quando a oportunidade apareceu. As razões podem ser várias, mas ela nunca vai saber. Ao mesmo tempo, outra bailarina que esteja passando por dificuldades para conseguir um contrato pode inesperadamente estar no lugar certo e na hora certa.

Agora que eu já expliquei o que é necessário ter para trabalhar como bailarina de dança do ventre no Cairo, eu vou dar uma passada nas coisas que não ajudam.

1. Contatos. Enquanto sempre ajuda conhecer pessoas do meio que possam te indicar, conhecer o Presidente do Egito não vai te ajudar se os gerentes não acharem que você tem a ver com o negócio deles. Eu já vi muitos casos de estrangeiras aspirantes a bailarinas que ficam muito amigas com alguns organizadores de festivais, alguns cantores e até mesmo de algumas bailarinas egípcias, achando que essas pessoas vão conseguir um contrato para elas. Isso nunca aconteceu. No final do dia, o aparentemente poderoso organizador de festival não pode convencer o gerente de um cruzeiro no Nilo a contratar uma bailarina que ele não quer. Especialmente se ele não estiver precisando de novas bailarinas.

2. Anos de experiência. Quando estiver procurando por um contrato no Cairo, nenhum possível empregador vai perguntar qual é o histórico profissional dela. Ele não vai perguntar se ela é famosa no seu país, há quantos anos ela dança ou se ela é professora. No Cairo, ninguém se importa com isso. Gerentes de hotel ou de cruzeiros só querem saber se a bailarina pode montar um bom show e ser linda. Isso conta muito mais que experiência.

3. "Conhecer" o gerente - um pouco intimamente DEMAIS. Eu acho que você entendeu o que eu quis dizer. Nós sempre escutamos falar das bailarinas que chegaram aqui e e fizeram "amizade" com os donos e gerentes. Isso COSTUMAVA ser um atalho para conseguir um contrato, mas não funciona mais hoje em dia. Tem tanta competição hoje que "ser amiguinha" do gerente não garante um contrato nesse hotel ou cruzeiro. Especialmente se tiver candidatas mais fortes para a mesma posição por aí. Hoje em dia, os gerentes tiram vantagem da vontade das bailarinas estrangeiras de conseguir trabalho, usando-as, prometendo o mundo para elas, e depois não cumprindo as suas promessas. E no final, é a bailarina que perde. Sua reputação fica arruinada, e as pessoas respeitáveis do meio vão evitá-la. Na verdade, o melhor caminho para conseguir um contrato e manter o seu respeito por si mesma é não virar vítima desses predadores da indústria.

Eu escrevi essas observações não para desencorajar, mas para ser realista sobre o que é necessário para dançar no Cairo. Todos merecem uma chance de correr atrás dos seus sonhos. Mas eu acho importante que as bailarinas saibam no que estão se metendo. Elas devem saber qual é a sua probabilidade de sucesso, porque elas fazem grandes sacrifícios correndo atrás desse sonho. Para muitas é uma aventura que pode acabar com a sua vitalidade, felicidade, amor pela dança, e até mesmo entusiasmo pela vida. Realmente, muitas aspirantes a bailarina no Cairo admitiram que se alguém tivesse dito a elas o que as aguardava, elas teriam pensado duas vezes antes de desistir de tudo para dançar no Cairo. Para outras, é uma jornada que molda o seu caráter e dá força. E para as poucas afortunadas que conseguem, bom, seus desafios são muitos, e o menor deles é se manter verdadeira consigo mesma.

domingo, 11 de março de 2012

Video Academia Ponto de Encontro

Então, gente, é raro, mas de vez em quando eu posto algum vídeo meu aqui :-)

Esse vídeo foi gravado na Festa Noite das Arábias da Academia de Dança de Salão Ponto de Encontro... eu me diverti demais dançando nesse dia, espero que vocês gostem, e comentem, por favor :-)

Beijos!

domingo, 4 de setembro de 2011

Hossan Ramzy - entrevista na RaqsART

Por Yuki RaqsART

tradução de Lalitha

Artigo original aqui.




1. O que você diria sobre aprender os ritmos como bailarina? E como um músico/derbakista?


Isso é exatamente o que eu ensino na nossa Drumzy School of Music & Dance no Reino Unido e ao redor do mundo. Esse assunto é muito importante para mim, e eu sinto que é esse o motivo da nossa adorada dança estar estagnada e dos artistas do nosso meio estejam precisando se utilizar de toda forma de desvios que resultam no desrespeito pela bailarina e pela própria dança. Os exemplos são muitos e eu não preciso explicá-los aqui.

De qualquer forma, a resposta é: como bailarina, você começa por escutar e identificar os ritmos da música. A bailarina deveria ser ensinada a bater os ritmos num formato simples no derbake, sem tecnicalidades, o que vai ajudá-la a identificar esses ritmos.

Quando você começa a aprender Flamenco ou o Kathak indiano, se espera que você aprenda direitinho os ritmos e entenda todas as sílabas rítmicas antes mesmo de você começar a aprender os movimentos. Mas isso é porque os professores e instrutores sabem o que eles estão ensinando e têm experiência nas suas artes.

De qualquer forma, eu sei que esse não é o caso da dança do ventre, e isso é o que eu e a Serena  estamos querendo ensinar às bailarinas indo ao seu país (Japão).


2. Você recomendaria aprender uma série de diferentes ritmos (e em qual ordem)?

Eu desenvolvi uma série de ritmos relacionados que vêem de uma só raiz e partem para os galhos de cada ritmo, eu os chamo de "As Árvores dos Ritmos".

3. Qual é o melhor caminho para aprender os ritmos específicos da dança do ventre?

Aprendendo os ritmos da Dança do Ventre. Eu criei um cd duplo para tratar justamente desse assunto chamado "Rhythms of The Nile" EUCD 1427, disponível no meu site www.hossanramzy.com .

Nesse álbum, eu falo e explico sobre os instrumentos e ritmos, e a segunda parte do álbum é dedicada a ensinar como tocar os instrumentos também. Tem uma transcrição de tudo o que eu digo no álbum em 4 línguas.

4. Qual é o erro mais comum que as bailarinas cometem quando dançam solos de derbake?

O erro mais comum é "não repetir os seus movimentos 4 vezes" toda vez que você introduz um passo novo.

5. Com o que uma bailarina precisa tomar cuidado ao tentar encaixar o seu ritmo com o da dança do ventre?

Elas precisam prestar muita atenção ao tempo do ritmo, e assegurar que elas não traduzam o ritmo de forma forte demais, nem fraca demais.

6. O que você espera de uma bailarina quando você toca derbake?

Isso está explicado detalhadamente no meu artigo "Drumming 4 dancers". (Percussão para bailarinas)







7. Que sinais são utilizados entre os músicos e as bailarinas quando se quer uma mudança no tempo ou no ritmo?

NUNCA deve haver uma mudança no tempo. A não ser que seja desenhada, entendida, ensaiada e treinada entre a bailarina e a orquestra e entre a bailarina e o derbakista.

Parece correr por aí essa falsa informação, perpetuada por instrutores desinformados que estão prejudicando essa arte, dizendo que existem sinais para mostrar ao seu derbakista ou músico para mudar de tempo ou de ritmo.

Isso é falso, não é verdade e não deve ser usado em performances de dança.

Se você assistir um Ballet você nunca vai ver isso entre a bailarina e a orquestra.
Se você assistir um Flamenco Tablao... você nunca vai ver isso entre a bailarina e a banda.
O mesmo vai acontecer se você assistir uma performance do Kathak Indiano.

O que faz as pessoas acharem que isso existe na Dança Egípcia?

Você já assistiu Nagua Fouad, Mona El Said, Souheir Zaki, Namima Akef, Zeinat Oloui ou qualquer outra das Grandes Estrelas da Dança Egípcia ao vivo com suas bandas? Você nunca vai ver nada assim acontecer.

Então, imagino que a resposta para a sua pergunta é... NÃO, não existe nenhum sinal.

8. É possível que um grupo dance um solo de percussão improvisado e acerte os acentos?

Para dançar um solo de percussão improvisado é preciso seguir as regras que eu dou no meu artigo "Drumming 4 dancers".

Mas para fazer isso em grupo, você vai abrir espaço para muitos mal entendidos. Tais solos de percussão podem ser organizados para um grupo, mas uma coreografia deve ser aprendida e ensaiada entre todos, senão vai parecer uma bagunça.

9. Quando você está trabalhando em conjunto com uma bailarina de dança do ventre numa performance, o que você espera da bailarina e da apresentação musical?

Eu asseguro que tanto a bailarina quanto os músicos entenderam o meu artigo "Drumming 4 dancers".

E que a bailarina saiba traduzir a música de acordo com o artigo. Então discutimos o conteúdo emotivo da música, como ela será apresentada e porquê... depois começamos a ensaiar, fazendo tentativas, cometendo erros, corrigindo, concordando, discordando e trabalhando na visão do que queremos mostrar.

Quando tudo acima está acordado, então ensaiamos e praticamos o que foi combinado e aperfeiçoamos a cada vez que fazemos a apresentação.

Para nós, uma apresentação de Dança do Ventre é tão sagrada quanto a apresentação de uma Orquestra Sinfônica.

Nós pegamos pesado com todo o mundo.







quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Maki (Bellydance Evolution Cast Special) - entrevista na RaqsART

Por Yuki RaqsART

tradução de Lalitha

Artigo original aqui.


1. Você poderia nos contar sobre a competição para participar do elenco do Bellydance Evolution?
 
Para entrar na competição foi muito simples. Depois de se inscrever e de pagar a taxa de inscrição, precisamos aprender uma coreografia da Jillina a partir de um vídeo que mandam pra você. Então você precisa enviar um vídeo de si mesma dançando a coreografia e outro vídeo dançando o seu próprio estilo. Depois de enviar os vídeos e dar ulpoad neles no site do Bellydance Evolution, sua inscrição na competição está completa. As pessoas que visitam o site e vêem os vídeos podem votar nas bailarinas que mais gostarem e darem notas. A bailarina com o maior número de votos ganha o prêmio de Escolhida pelo Público (People’s Choice award). Então, a parte mais difícil... esperar a resposta da Jillina, se ela te selecionou ou não para participar do Bellydance Evolution.

Minha estratégia foi mostrar à Jillina que eu podia dançar no estilo dela e também poderia trazer algo de interessante para ela. Eu tentei dançar a coreografia dela com o estilo e a técnica dela, o mais fiel possível, e então mostrar o meu próprio estilo na minha parte. Eu acho que ser versátil e mostrar que você tem potencial para fazer qualquer coisa que ela pedir é o ponto chave.

2. Qual é o seu ponto forte como membro do Bellydance Evolution?

Eu acho que meus pontos fortes são minha ética e que trabalho em equipe. A forma como encarei minha experiência foi: tentar me divertir o máximo possível e absorver cada momento. Fazer parte do show foi uma experiência maravilhosa, e eu amei dançar com esse time de profissionais maravilhosas! Todos entendíamos que estavamos juntos para criar um grande show e para representar a dança do ventre da melhor forma possível. E porque tínhamos esse objetivo em comum e entendíamos que éramos capazes de fazer um show maravilhoso é que podíamos funcionar como grupo em apenas 10 dias. No início eu não sabia como as demais meninas seriam, mas a Jillina e o seu grupo Sahlala Dancers realmente deram o tom de trabalho em equipe e inclusão do início até o fim. Como o show em que participei era o que seria filmado para o DVD, houve um pouco mais de pressão para fazermos apresentações limpas. Essa pode ser uma das razões pelas quais a Jillina escalou tantas bailarinas do seu grupo e outras bailarinas que já tinham participado do show antes. Ziva (outra vencedora da competição) e eu éramos as únicas novatas no grupo, então senti que a Jillina tinha fé em mim e eu tinha que saber me colocar para não disapontá-la.






3. Você tem algum conselho para aquelas bailarinas que vão se inscrever na competição do Bellydance Evolution?


Participar de uma competição sempre te deixa nervosa, porque você está se expondo. Eu sempre lido com competições e audições da mesma maneira, eu faço o meu melhor e dou duro, mas se eu não sou escolhida/não ganho, não é o fim do mundo. Eu acho que você precisa ser realista e aceitar qualquer que seja a decisão tomada. Não é o meu show, nem a minha produção, a Jillina tem todo direito de escolher quem ela acha que se encaixa. Precisa ser uma boa bailarina, claro, mas também alguém que aprenda rápido coreografias, que se adapte às mudanças, que se corrija rapidamente com os feedbacks e que possa dançar o estilo dela. Não ser escolhida não é necessariamente um reflexo da sua qualidade como bailarina, apenas significa que você não é a melhor escolha para esse show. Assim como nas audições para muitos grupos de dança, você precisa mostrar que pode dançar numa unidade e que entende que faz parte de um quadro maior. Se você entrar, aproveite cada momento, e se prepare para trabalhar duro!






domingo, 21 de agosto de 2011

Kasia (Bellydance Evolution Cast Special) - entrevista na RaqsART

Por Yuki RaqsART

tradução de Lalitha

Artigo original aqui.



1. Você poderia nos contar sobre a competição para participar do elenco do Bellydance Evolution?


Eu fiquei sabendo da competição por acaso pela Irina Akulenko, que já havia participado do show. Ela tinha coisas maravilhosas para contar sobre a experiência, então fiquei pensando nisso. Eu acho que foi em outubro que eu aprendi a coreografia pela Internet, de uma das OUTRAS competidoras, mesmo antes de me inscrever, só pelo prazer de aprender. Eu queria ver se eu consegueria aprendê-la com exatidão e rapidez através de uma imagem espelhada do vídeo e sem intervalos. E eu consegui!! Então, eu acho que foi em dezembro que me inscrevi na competição, e como já tinha aprendido a coreografia, mandei logo o vídeo. Eu estava com esperanças, mas decidi não pensar muito no assunto, e quando fui escolhida, meio que entrei em pânico. O tipo do pânico de organização, oh-meu-deus-o-que-vou-fazer-agora? Eu tinha um monte de coisas programadas para aquela época, fruto do estado de "não pensar muito no assunto", que eu tive que reorganizar. Mas deu tudo certo.



2. Qual é o seu ponto forte como membro do Bellydance Evolution?

 
Eu espero que o meu ponto forte seja o meu estilo bizarro de fusão de dança do ventre, que eu não sei como chamar. Fusão de Dança do Ventre Contemporânea (Contemporary Fusion Bellydance) é uma boa descrição, suponho eu. Eu espero que esse aspecto da minha dança possa trazer algo interessante para o show como um todo.

3. Você tem algum conselho para aquelas bailarinas que vão se inscrever na competição do Bellydance Evolution?

Aprenda direitinho a coreografia da competição. Braços e giros bem limpos. Se você souber fazer algo legal e único, mostre no seu vídeo de dança pessoal da competição. Esteja disposta a trabalhar com todo o mundo, trabalhe duro, não reclame ou arrume desculpas, se ajuste e se adapte a todas as mudanças que apareçam. Seja positiva. Você pode aprender algo de bom de TODAS as suas experiências, mudanças e situações. Dê tudo de si. E NÃO DEIXE DE DORMIR TUDO O QUE PRECISA. Isso ajuda muito!





domingo, 14 de agosto de 2011

Nadia Gamal (parte 1)

Por Lalitha


Resolvi escrever sobre a Nadia Gamal, meu grande ídolo e paixão na dança do ventre. O que se revelou uma tarefa bem mais complexa do que eu imaginava.

Tive meu primeiro contato com a Nadia por meio de uma fita de vídeo, ainda daquelas antigas, com uma linda performance dela num casino. É o vídeo mais famoso dela. Depois assisti uma fita que nunca mais encontrei (mas que tem no Youtube!) onde ela faz uma performance num teatro, com uma linda roupa azul estrelada. E desde então procuro tudo o que posso sobre ela.

Hoje é fácil de adquirir dois vídeos dela, um com a performance no Cassino (Nadia Gamal, The Legend) e outro é o vídeo de um workshop que ela deu em New York, nos EUA em 81. Recomendo muitíssimo os dois, mas para aproveitar bem o segundo é melhor saber inglês.



Mas hoje em dia com o Youtube, tudo fica muito mais acessível.

Apesar de ser razoavelmente fácil de achar vídeos dela na rede, informações sobre sua vida são bem mais difíceis de se encontrar. Existe apenas um livro com uma espécie de biografia da grande lenda da dança do ventre, e não é um livro sobre dança, mas sobre música.

Por algum acaso da vida, esse americano, Randall Grass, que é produtor musical, conheceu o trabalho da Nadia e ficou completamente apaixonado, e não a deixou de fora do seu livro Great Spirits.



Para ter uma ideia do que o autor achava da Nadia, vai aqui a tradução (minha) da Introdução do livro:

"Sem dúvida alguns podem achar a minha inclusão da Nadia Gamal, uma bailarina, meio quixotesca. Porém uma grande bailarina é uma musicista cujo instrumento é o seu próprio corpo. Nadia Gamal realmente era um "great spirit", tanto quanto um grande músico, uma artista que inspirava admiração naqueles que a assistiam. Contudo, ela é pouco conhecida fora do Oriente Médio e dos círculos de Dança Oriental, uma injustiça que que eu senti que precisava ser corrigida."

O livro não é tão detalhado assim com relação a vida pessoal da Nadia, porém é cheio de impressões sobre sua dança, o que o torna muito rico e gostoso de ler, apesar da parte que cabe a essa diva se reduzir a apenas 23 páginas. Vocês podem ver uma entrevista com o autor aqui.

A melhor fonte para conhecer a Nadia Gamal que encontrei é um site mantido por uma brasileira, Livia Jacob, no Multiply. Lá você encontra uma vasta coleção de fotos, vídeos e artigos (inclusive da revista brasileira O Cruzeiro!), tudo em inglês. Ah, sim, e não é muito amigável de ficar passeando, requer alguma paciência.

Porém, é de lá e do livro do Randall que tiro a seguinte mini biografia de Nadia Gamal.


Nadia Gamal nasceu em Alexandria, no Egito, em 1937 (ou 39, essa informação não é muito certa), filha de mãe italiana e pai grego, seu nome de batismo era Maria Carydias. Ela cresceu no meio artístico, pois sua mãe era bailarina e atriz, e apresentava um número no Casino Opera no Cairo, que pertencia à lendária Badia Massabni. Quando pequena Nadia já se apresentava com a mãe, como atriz, no Casino Chatby em Alexandria, quando era conhecida como Carry Days. E mais tarde como dançarina, fazendo números de danças européias no Casino Opera. Além disso, como na época era proibido o trabalho de menores de 13 anos no Egito, suas participações em festas e casamentos eram consideradas informais.

Foi no Casino Opera que sua carreira como bailarina oriental realmente começou, lá a libanesa Badia Massabni mantinha uma escola de dança oriental que foi a grande responsável pela primeira fusão do ballet com a dança do ventre, dando origem ao estilo hoje conhecido no Ocidente, além de tornar clássico o uso da roupa bustiê/cinturão que também é chamado de figurino hollywoodiano. Foi lá também que surgiram os primeiros grandes nomes da dança, como Samia Gamal e Tahia Carioca.

Foi nesse meio privilegiado que Nadia começou a dançar. Seu estilo era único, pois era treinada em balé, dança moderna, piano, jazz, sapateado etc.

Diz uma lenda que sua primeira apresentação na dança oriental (seu pai a proibia de dançar em público por conta da sua idade) foi aos 14 anos, quando uma das bailarinas do casino da Badia ficou doente e não pode se apresentar, sendo substituída por Nadia.


Mas Nadia também era muito estudiosa, falava 7 línguas diferentes e gostava de pesquisar a origem da dança do ventre. Sua grande missão era lutar contra a vulgarização dessa arte, chamada erroneamente de Dança do Ventre, uma tradução errônea do nome Raqs Sharqi (dança oriental), e ela costumava enfatizar "A Dança Oriental é uma arte, essa dança é a mais antiga da nossa civilização. Eu viajo pelo mundo para mostrar que é uma dança refinada, artística, tradicional e cheia de beleza."

Como bailarina ela se orgulhava de ser a única a ser convidada a se apresentar no famoso festival libanês Baalback, em 1964 (ou 1968, as fontes divergem), onde, apesar do preconceito contra a dança do ventre, ela foi aclamada por 4 mil espectadores e sua apresentação é considerada memorável até hoje. Seu reconhecimento como bailarina excepcional também veio quando ela se tornou a bailarina do palácio do Shah do Irã e também do Rei da Jordânia.

Ela participou de inúmeros filmes e shows, tanto como bailarina como como atriz, mas não existe um catálogo oficial deles, apesar de ser possível achar muitos no Youtube hoje em dia, ou no site da LiviaMultiply. Uma das coisas interessantes desses vídeos é que eles englobam quase toda a carreira da Nadia, então é possível observarmos a sua evolução como bailarina, desde novinha até quase a sua morte em 1990, por conta de um câncer de mama.

Ela se apresentou em inúmeros países, incluindo diversos lugares da Europa, porém, só se apresentou nos EUA uma única vez, tendo recusado diversos convites, dizendo que os americanos não entenderiam a sua arte. Sua única apresentação teve lugar no famoso Town Hall em 1981 e está lindamente descrita no livro de Randall Grass, e também no artigo da Suhaila Salimpour, "I remember Nadia". Infelizmente ela não foi filmada.

Nadia foi casada 3 vezes, mas nunca teve filhos. Seu legado são seus vídeos, as memórias daqueles que presenciaram sua dança inesquecível e a marca que ela deixa em todos aqueles que assistem, mesmo que em vídeo, a sua arte.

Com vocês, Nadia Gamal:



Como vocês puderam notar, esse é só o primeiro post! Ainda vamos analisar muitos vídeos e detalhes da Nadia! Aguardem!

sábado, 16 de julho de 2011

Eshe (Bellydance Evolution Cast Special) - entrevista na RaqsART

Por Yuki RaqsART

tradução de Lalitha

Artigo original aqui.


Eshe é uma bailarina profissional de dança do ventre que nasceu em Haminton, no Canadá, e que hoje reside em Seoul, na Coréia do Sul.

1. Você poderia nos contar sobre a competição para participar do elenco do Bellydance Evolution?

Quando eu entrei para a competição do BDE nós tínhamos 7 dias para filmar nossos vídeos. Quando entrei, eu também estava me preparando para ir numa lua de mel de três meses na Turquia, Austrália e Canadá. Eu estava muito ocupada empacotando toda a minha vida. Eu não tinha muito tempo para aprender a coreografia ou ensaiar. Eu entrei no avião para a Turquia me sentindo muito chateada. Depois de viajar por 10 horas, eu fiz uma parada na Malásia, então resolvi tentar filmar no hotel do aeroporto ali mesmo. O quarto era muito pequeno e os corredores muito cheios de gente. Coloquei minha maquiagem e minha roupa e achei um lugarzinho na academia de ginástica do hotel. Os funcionários ficavam passando e colando a cara no vidro para ver o que eu estava aprontando. Eu estava pronta para enviar o meu vídeo, mas quando voltei para o meu quarto eu vi um aviso "Desculpe mas nosso serviço de internet está indisponível". Eu fui para o aeroporto para tentar conseguir sinal de Internet. O aeroporto só disponibilizava 2 horas de acesso à Internet, mas por conta do tamanho do arquivo e da velocidade da conexão eu precisava de quase 3 horas para fazer o upload. Decidi esperar até chegar na Turquia. Depois de quase 27 horas de viagem, cheguei no meu hotel, que tinha anunciado serviço de Internet. Sentei na minha cama e liguei meu laptop - não tinha sinal. Eu tentei em todo canto do quarto. Finalmente achei um ponto a 60cm da porta do banheiro que tinha sinal. Quando tentei acessar o youtube descobri que ele estava bloqueado na Turquia. Comprei um aplicativo para driblar a censura e finalmente consegui enviar meu vídeo.

Houveram alguns problemas com a competição Ásia 2010 e o prazo foi prorrogado 3 vezes. Fiquei muito feliz quando mandei atualizar a página e vi meu nome. Uns 4 dias depois, a Jillina nos mandou o vídeo com as coreografias. Nós tínhamos uns 10 dias para aprender todas elas antes de encontrá-la na Coréia.

Eu estava muito, muito nervosa no primeiro dia. Eu acho que eu era a única bailarina que a Jillina ainda não tinha conhecido pessoalmente. A maioria delas a tinham conhecido em algum show ou workshop. A Jillina é muito amável e uma líder maravilhosa. Não tinha nenhuma tarefa que fosse grande demais ou pequena demais para ela. Claro que ela estava nos ensinando as coreografias e corrigindo nossas falhas técnicas, mas ela também nos ajudava a costurar nossos figurinos e limpava o estúdio com a gente. Nós dançávamos umas 8 horas por dia. Jillina colava nosso cronograma todo dia no espelho do estúdio e nós tínhamos que estar prontas para o que viesse. No primeiro dia ela nos deu nossos figurinos e durante os intervalos nós fazíamos os ajustes. Nos primeiros 3 dias ela ou alguma outra bailarina principal ensaiaria conosco cada coreografia com todos os detalhes e com todas as mudanças de formação. Levou mais ou menos 1 hora de ensaio para cada 2 minutos de coreografia. A partir do quarto dia nós ensaiávamos o show inteiro. No quinto dia passamos a ensaiar com os figurinos. No sexto dia ensaiamos o show com figurino completo. No sétimo dia ensaiamos no teatro e a partir daí o show estreou.

Aprender todas as coreografias foi muito intenso. Eu normalmente não uso sapatos para ensaiar ou dançar e fiquei cheia de bolhas por causa dos ensaios. Não é um show só de dança do ventre. Também tem danças da Índia e do Usbequistão; danças da Geórgia também têm destaque no show. Além disso, ela usa muitos acessórios, como bengala, leque de seda, véus, velas e leques com plumas.

Eu fiquei mais relaxada quando chegamos a Bali porque todas, com exceção de uma nova bailarina, sabíamos todas as coreografias. O único motivo de ansiedade foi que o palco não ficou pronto até o último dia. Durante o show caiu uma tempestade e nós tivemos que encerrar a apresentação 30 minutos mais cedo, o que foi muito decepcionante para muitas nós.




2. Qual é o seu ponto forte como membro do Bellydance Evolution?

Eu não sei ao certo. Jillina me disse que danço lindamente, o que foi um grande elogio para mim. Eu tive que me esforçar muito para aprender tanta coisa em tão pouco tempo. Foi um grande desafio mas foi maravilhoso.

3. Você tem algum conselho para aquelas bailarinas que vão se inscrever na competição do Bellydance Evolution?

Se você começar a estudar agora os vídeos da Jillina, eu acho que fica mais fácil de aprender as coreografias dela.

Se inscreva. Foi muito divertido e eu fiz muitos novos amigos quando eu participei. Dançamos juntas até hoje. A experiência deixou lembranças maravilhosas. Eu também aprendi muito estando ao lado da Jillina e das outras estrelas do show. Não só na parte técnica, mas também como organizar e produzir um grande espetáculo. Foi muito esclarecedor.

Como um conselho mais prático, caso você seja escolhida, leve material extra de costura para os seus figurinos, como ganchos, botões, linhas e agulhas.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cristina Gadea (Bellydance Evolution Cast Special) - entrevista na RaqsART

Por Yuki RaqsART

tradução de Lalitha

Artigo original aqui.


1. Você poderia nos contar sobre a competição para participar do elenco do Bellydance Evolution?

Eu participei da competição online; primeiro eu me inscrevi para a competição da Itália/Praga e então eu recebi uma coreografia que eu deveria aprender, filmar e mandar de volta, junto com um vídeo meu dançando. Eu também precisei preencher um formulário (dizendo quanto tempo de dança eu tinha, se sou bailarina profissional, quantas horas de dança eu pratico por semana...) e mandar 2 fotos.

Todos os vídeos são enviados pelo site da companhia e, depois do prazo final, as vencedoras podem ver um baner escrito WINNER (vencedora) antes do seu nome nos vídeos.

As respostas nos formulários ajudam a Jillina a ter uma ideia da capacidade de participar dos ensaios de cada bailarina, e assim ela tem certeza que escolhe as bailarinas que podem acompanhar o ritmo. Os ensaios duram até 8 horas na semana anterior ao show e, depois disso, você ainda passa muito mais horas no palco também, então você precisa se adaptar muito rápido fisicamente.

Eu tive dar informações sobre as minhas medidas. Primeiramente eu achei que a Jillina queria um elenco com bailarinas parecidas mas, quando eu vi as meninas que ela escolheu, percebi que éramos todas muito diferentes. Essa é a ideia que ela quer passar, que bailarinas muito distintas podem criar equilíbrio sem descombinar: loiras, morenas, altas, baixas, bailarinas orientais, bailarinas do tribal... É integração e internacionalização num só show.

2. Qual é o seu ponto forte como membro do Bellydance Evolution?

Eu trabalho bem em equipe e sou rápida para aprender coreografias e corrigir erros. Estou acostumada a participar de companhias de dança na Espanha e já me apresentei em grandes espetáculos, então eu trabalho bem em teatros, com trocas rápidas de figurino e de cenário, etc.

Além disso, tem o que a Jillina chama de meu visual exótico (morena de cabelos longos e olhos escuros), que tem a ver com o que eu estava dizendo sobre formar um elenco de bailarinas muito diferentes entre si, onde todas trabalhem com um alto nível de técnica na dança.

Bellydance Evolution foi uma ótima experiência, eu aprendi tanto e visitei lugares tão bonitos. Conheci pessoas maravilhosas e bailarinas espetaculares da Polônia, República Tcheca, Alemanha, Itália, Bulgária, Argentina e dos EUA.

Trabalhar com a Jillina e com o elenco principal do show foi muito enriquecedor e me fez crescer e evoluir como bailarina.