Segunda-feira, 15 de agosto, 2011
Traduzido por Lalitha
Suhoor do Ramadã no restaurante local Il-Gahsh |
É nessa época do ano que a cidade do Cairo dá um tempo de si
mesma. A cidade fica mais quieta, o trânsito fica mais previsível. Os
motoristas de taxi se esforçam mais para não te roubar, e as pessoas saem dos
seus caminhos para serem gentis. Desde as luzes natalinas multicoloridas
enfeitando mesquitas e prédios, até as onipresentes fawanees (lanternas do Ramadã) dependuradas em todas as casas e
fachadas, há um clima inegável de festa no ar.
É Ramadã, o mês sagrado islâmico, durante o qual os
muçulmanos jejuam e se abstém de todas as coisas vulgares. Bom, teoricamente
pelo menos. No Egito, cabarés, cassinos, bares e boates ficam fechados. Os
muçulmanos fazem um esforço para não blasfemar, brigar, mentir, fumar e se
envolver em atividades não-islâmicas, entre as quais está a dança do ventre.
Legalmente a dança do ventre é proibida durante o Ramadã.
Isso porque ela vai contra os valores islâmicos da modéstia feminina. Na
verdade, entretanto, alguns lugares continuam contratando bailarinas de dança
do ventre. Principalmente os cruzeiros no Nilo, que atendem estrangeiros e não podem ficar sem bailarinas de dança
do ventre. Então, eles se esquivam da regra de “não haver dança do ventre no
Ramadã” fazendo a bailarina se vestir uma galabiyya
de uma peça de Saidi e dançar com alguns rapazes do folclore, fazendo dela uma
bailarina de folclore.
Essa foi a opção que precisei encarar no último Ramadã. Eu
poderia ou me apresentar todo dia durante o Ramadã usando uma galabiyya ou tirar o mês de férias.
Incapaz de agüentar só a possibilidade de fazer um show de 45 minutos usando
uma galabiyya, eu escolhi a segunda
opção. Apesar de estar perfeitamente disposta a ser uma bailarina de folclore
na segunda metade do meu show, eu não vou fazer isso durante o show inteiro. Não durante um mês inteiro, e
não por 32 dólares. Já é ruim o suficiente fazer o meu solo de derbake usando
minha galabiyya! Eu não conseguiria
imaginar fazer minha entrada com ela também.
O gerente do Nile Memphis não ficou feliz com a minha
decisão. Então eu me desculpei dizendo que a minha escolha de não dançar era
baseada no meu desejo de respeitar a sensibilidade religiosa dos muçulmanos
durante o Ramadã. E isso não era uma inverdade. Uma parte de mim sentia que os
egípcios me veriam como uma super-prostituta se eu dançasse durante o Ramadã,
eu simplesmente não queria lidar com isso. Além disso, a maioria das bailarinas
de dança do ventre tira férias durante o mês do Ramadã mesmo. Para as
bailarinas egípcias, ou é por causa da obrigação religiosa, ou porque não há trabalho. Para as
bailarinas estrangeiras contratadas, simplesmente não há “folclore” o
suficiente para trabalhar para garantir que elas fiquem no Cairo. A maioria
aproveita a oportunidade para dar workshops e visitar a família no exterior.
Il-Gahsh! |
Apesar de eu não ter feito shows ou viajado de volta para
casa no último Ramadã, eu encontrei outras formas de me divertir. Uma delas foi
jantar no Il-Gahsh, O Pequeno Burro.
De cara no meio da Sayidda Zeinab, o Il-Gahsh
é famoso pelo seu jantar de Ramadã de fool
& ta’3miyya, ou favas de feijão e falafel. Ele é, de longe, o meu
restaurante favorito no Cairo. E acredite em mim, estou sendo boazinha quando o
chamo de restaurante. “Pé sujo” é uma descrição melhor desse lugar, que não
passaria na inspeção sanitária mais meia-boca. Mas eu simplesmente amo esse
lugar e me arriscaria a dizer que nenhuma visita ao Cairo está completa sem
comer lá. Então me deixe contar um pouco sobre a minha história de amor com O
Pequeno Burro. :)
Tudo começou no último Ramadã, quando meus amigos egípcios
me convidaram para o suhur, o jantar
às 3horas da manhã logo antes do raiar do dia, na véspera do início do jejum. O
suhur típico egípcio consiste em
alguma variação do fool & ta’3miyya.
E essa é a especialidade do Il-Gahsh.
Era, portanto, lógico que nós fôssemos lá. Entretanto, quando chegamos,
arregalei meus olhos e imediatamente me recusei a comer ali. Porque na minha
frente tinha uma cafeteria ao ar livre cercada de lixo, cocô de burro, moscas e
um enxame de pessoas esfomeadas. “Meu Deus, vocês querem que eu coma aqui?!?”
perguntei aos meus amigos egípcios. “Vou pegar uma intoxicação alimentar só de
olhar pra esse lugar!” “Não se preocupe,” eles me disseram. “Você vai amar!” E
eles riram.
Claro que eles estavam certos. Ignorando o meu bom senso,
sentei com meus amigos e comi o maior banquete que 5 dólares podem comprar. Foul, omelete, pão, tipos diferentes de
salada, folhas de rúcula, babaghanug,
e o meu favorito – um prato cheio de grandes pedaços de cebola crua. E,
acredite ou não, não houve “efeitos colaterais” desagradáveis. :)
A melhor parte dessa experiência, entretanto, era a
apresentação dos pratos. Folhas de jornal foram usadas como toalha de mesa, e
tinha rolos de papel higiênico para usar como guardanapos (fiquei imaginando se
isso não era uma indicação do que aconteceria depois da refeição :D). Moscas
zumbiam a nossa volta e até pousavam na nossa comida, da qual uma parte foi
colocada diretamente em cima do jornal. E também tinha o garçom suado cujo
cigarro estava dependurado na sua boca bem em cima dos pratos que ele estava
carregando. Mas moscas, papel higiênico, papel e cinzas de cigarro a parte, a
comida era fora de série. Atraente, gostosa e tipicamente egípcia.
Il-Gahsh é o
melhor. Em que outro lugar você pode comer impunemente grandes pedaços de
cebola crua, deixar seus bons modos de lado, e comer um banquete inteiro sob as
condições mais anti-higiênicas sem ficar doente, e tudo isso por apenas 5
dólares?
Brincadeiras a parte, esse lugar é uma mina de ouro.
Centenas de egípcios comem lá toda noite durante o Ramadã. Eu mesma fui lá pelo
menos 10 vezes no último Ramadã, e eu não sou nem egípcia nem muçulmana. Com a
quantidade de dinheiro que o dono ganha durante o mês do Ramadã, ele
provavelmente não precisa trabalhar pelo resto do ano, apesar dele trabalhar.
Pensando nisso, eu planejo visitar o Il-Gahsh muitas vezes nesse Ramadã. Então,
se você estiver no Cairo nesse Ramadã, me avise para comermos o suhur no Il-Gahsh juntos. Feliz Ramadã!
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