domingo, 11 de março de 2012

Video Academia Ponto de Encontro

Então, gente, é raro, mas de vez em quando eu posto algum vídeo meu aqui :-)

Esse vídeo foi gravado na Festa Noite das Arábias da Academia de Dança de Salão Ponto de Encontro... eu me diverti demais dançando nesse dia, espero que vocês gostem, e comentem, por favor :-)

Beijos!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da Mulher

Ainda nem acessei o Facebook hoje e já sei que está lotado de pessoas festejando o dia da mulher com lindas imagens de flores. Mas eu não queria fazer isso aqui.

Sabe por que? Depois de passar boa parte do dia lendo textos maravilhosos sobre a luta pelos direitos femininos (os links estão no final do post, tomem um tempo com eles, vale a pena), percebi que não tenho tratado esse tema aqui com a frequência que eu gostaria, apesar de dizer lá em cima que o blog também é sobre o feminino...

Daí eu penso que uma boa desculpa é que não tenho formação acadêmica em nada ligado a esse tipo de assunto. Mas será que isso realmente importa? Até que ponto isso realmente me impede de escrever sobre o feminino e o movimento feminista?

Daí eu penso que tenho pouco conhecimento sobre o assunto, comecei a ler mais seriamente sobre isso há pouco tempo. É verdade, mas não me impede de colocar aqui o que li e gostei, não é mesmo?

Enfim, estou pensando muito no assunto e quero ver se daqui para a frente trato disso com mais frequência no blog, porque sinto que a dança do ventre carece desse papo, porque às vezes a gente esquece no meio de um monte de caras, bocas e movimentos delicados que o feminino não é só isso (nem a dança do ventre, mas isso é um outro papo longo). Porque na dança do ventre as mulheres muitas vezes não se respeitam e se preocupam demais com a aparência, tanto física quanto da roupa que vai usar. Porque eu fico irritada quando vejo comentários do tipo "hum, mas ela não tá velha pra isso?", "nossa, ela engordou, né?", "ah, mas ela não é delicada...", "porque a dança é feminina, homem não pode dançar" (nem sabe definir o que é feminino e já vai rotulando?). Porque quem dança muitas vezes ainda é rotulada de puta (porque isso não acontece só no Egito não).

Enfim, cansei de receber flores um dia no ano e ser rotulada e destratada nos outros 364 dias (esse ano 365).

Dispenso Esta Rosa
por Marjorie Rodrigues
Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.

Hoje não é dia de flor, da Leticia

Outros marços virão, do Blogueiras Feministas

O que é um homem? O que é uma mulher?, da Jeanne Callegari do Papo de Homem

Prá não dizer que não falei das flores, do Matizes Feministas

Troque sua rosa por um mundo com mais igualdade, da Srta Bia

8 de março, dia de você repensar o seu machismo, do Igor

8 de março é dia de luta, da Clara Guimarães

Dia Internacional da Mulher: um pouco sobre história, muito sobre lutas, do Jardim de Lilith

Metáfora Perfeita, da Luciana Nepomuceno

Notas a acerca do 8 de março, do Bill

Sim, nós podemos fazer quadrinhos, da Mariamma Fonseca

E o Dia das Mulheres serve para quê, afinal?, da Marcela Ortolan

terça-feira, 6 de março de 2012

Ventre da Dança na Central Dança do Ventre!


Primeiramente gostaria de me desculpar pelo atraso nos posts do blog... infelizmente peguei uma gripe fortíssima que me deixou sem poder trabalhar para o blog, mas já estou melhorando e ainda essa semana teremos novidades da Luna do Cairo!

Agora vamos ao objetivo do post! É com muito prazer que eu gostaria de anunciar que uma das entrevistas que traduzi aqui no blog está na Central Dança do Ventre! A entrevista escolhida foi a americana Nourhan Sharif, que está escrevendo um livro!

Para acessar a entrevista na central, clique aqui

E para o post original aqui no Ventre da Dança, clique aqui

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ma liberté de danser - Cap. 3 - Aprendizado


Por Lalitha

AVISO IMPORTANTE:

Então, gente, antes de entrarmos no material relativo ao terceiro capítulo do livro da Dina, quero ressaltar que apenas as partes em itálico e entre aspas são trechos traduzidos do livro (as traduções são minhas e às vezes contem alguma adaptação para facilitar o entendimento do trecho fora do texto completo), e deixo claro que não traduzi o livro inteiro, apenas algumas passagens que julguei importantes ou bonitas. Todo o resto do material é uma compilação de informações contidas no livro e de pesquisa própria minha feita na internet ou na minha biblioteca particular.

O material aqui exposto está todo dividido por capítulo (um capítulo por post, sempre) e cada capítulo está dividido em tópicos para tornar a apresentação mais dinâmica. Adotei essa divisão por pura comodidade e para tornar o material mais didático, o livro não está dividido dessa forma.

3. Aprendizado

          Ser diferente


O grande meio de comunicação da sociedade egípcia é a televisão, desde o tempo em que Oum Kalsoum fazia o seu show semanal que parava todo o mundo árabe. E o Egito sempre exportou os seus filmes, pois era lá que ficava a grande Hollywood árabe, o grande centro cultural onde surgiu Samia Gamal, o grande ídolo de Dina.

"As bailarinas sempre fizeram parte do cinema egípcio. Quando criança, eu assistia, maravilhada, os longa metragens com a Samia Gamal. Uma rainha, de uma elegância incomparável."

Durante o Ramadã, toda família no fim do dia se reúne em frente à TV, e as emissoras lutam pela atenção dos espectadores, nesse momento em que todos querem se distrair após um dia de privação.

Novelas, seriados e filmes recheiam a programação nessa época, e as bailarinas de dança do ventre sempre fizeram parte da televisão e do cinema egípcios. Dina não é diferente, na wikipedia há uma lista de 19 filmes e 9 novelas que ela participou.

Mas no final dos anos 70 Dina ainda não era bailarina de dança do ventre, era bailarina folclórica. Ela nem pensava nisso, o máximo que ela poderia ser era solista de uma companhia de dança folclórica. Mas assistindo aos filmes antigos ela já tinha chegado a uma conclusão. 


"Se você dança sozinha, você só ganha sendo diferente. Copie as outras e você perde. E eu, eu sempre soube que era diferente. Sem ter procurado por isso. Sem saber o porquê. Nem como."

 
          Ibrahim Aqef


Por volta de 1981, aos 17 ou 18 anos, Dina começou a fazer aula com o grande professor e coreógrafo egípcio Ibrahim Aqef (morto em 2006, deu aulas até início dos anos 90 - era coreógrafo de grandes bailarinas, para conhecer mais veja aqui em inglês). Ela o considera um segundo pai, e o chama de ya baba.


Ibrahim Akef

"Ibrahim me mostra como devo fazer, o meu lugar. Eu repito.
-Dina, Dina... minha filha, como você faz isso?
Ibrahim olha pra mim, um pouco perplexo e admirado.
-Você é inacreditável. Não faz nada como as outras. Eu sei que você se esforça por fazer do jeito que eu te digo. Mesmo assim... É como se você colocasse a sua marca em cada coisa que você faz. Olha o jeito como você gira, ali, olhe como o seu corpo se posiciona.  É assim que se deve fazer, mas você, você coloca algo a mais. É extraordinário, Dina. Tua diferença é a sua força."

Foi ele que ensinou para a Dina as regras da vida de uma bailarina: dormir muito e comer pouco. Manter o seu corpo com exercícios e muito treino. Ter rigor e disciplina. Foi ele que ensinou a ela a técnica da dança do ventre e a ajudou a se colocar na dança.



          A luta


Se no início dos anos 80 Dina pode ter aula com Ibrahim, é porque ela conquistou a sua liberdade para tal. Foi a sua primeira grande batalha.

Seu pai nessa época morava no Qatar, enquanto Dina estava morando em Alexandria, num apartamento com as demais moças da companhia de dança folclórica por conta de uma turnê. Elas eram vigiadas de perto, só estudavam e treinavam, e mesmo nos dias livres elas não saíam. O salário era pequeno, mas Dina era feliz, por fazer o que amava. O pai da Dina, ao perceber que pouco a pouco estava perdendo o controle sobre sua filha, resolveu tirá-la da dança. Seu pai então manda buscá-la em Alexandria e a proíbe de voltar.


"Eu fico desesperada. Por todo um mês, não saio de casa. Eu escuto os ruídos da cidade do Cairo, da vida, mas eu, eu sinto que morro devagar. Não sinto mais fome, fico uma semana sem comer. Eu quero dançar. É uma obsessão. Somente assim eu sou feliz. Não compreendo essa injustiça. Eu não fiz nada de errado, eu só quero dançar. Eu não suporto prisões, detesto os muros e odeio correntes."

 Ela foge para Alexandria, mas novamente a buscam. Sua família a considera incontrolável e a coloca na casa da avó. 


"Querem que eu seja como as outras. Submissa. Obediente. Uma mulher que se curve diante de um destino que outros escolheram por ela. Esse destino que tantas mulheres aceitam, ou por tradição ou por senso de dever, abrindo mão pouco a pouco do seu livre arbítrio, esquecendo que elas são também seres pensantes e respeitáveis."
 
          Said


A saída que Dina vê para voltar a dançar se chama Said. Um homem bem mais velho, com mais de 30 anos, bailarino da companhia. Ele a pediu em casamento. Ela, aos 17 anos, acha que vai ser feliz, pois finalmente vai acalmar a sua família, se colocando sob a tutela de um homem, seu marido, que ao mesmo tempo compartilha com ela a paixão pela dança. Porém, o casamento dura apenas 3 meses. Said se casou com ela como segunda esposa, sem lhe contar nada. Quando o pai da Dina descobre, compreende a situação e a ajuda a se divorciar.

Ela vai morar com a irmã, Rita, e seu marido. A vantagem é que, apesar de ser mal vista por ser divorciada, ela ganha mais liberdade, pois seu pai não tem mais autoridade sobre ela.


          Dança oriental


Foi nessa condição que ela pôde começar a estudar dança oriental, raqs sharki. Nessa época ela fazia parte da trupe folclórica de Sami Nawar, e um grande hotel do Cairo ofereceu a eles um contrato.

Porém, toda vez que chega o momento de apresentar a raqs sharki, nenhuma das bailarinas quer dançar. A roupa tradicional as enche de envergonha. Mas não Dina. Com o tempo o seu número começa a sobressair no show da trupe, noite após noite o público a aplaude. Um dia o gerente do hotel a chama para conversar e diz pra ela senhorita, você tem talento. Você deveria se tornar bailarina oriental, montar o seu próprio espetáculo.


          Os mestres


Ela nunca tinha cogitado isso e começa a considerar seriamente a possibilidade de seguir carreira solo. Sabendo que essa é uma grande responsabilidade e que ela precisa evoluir muito mais no raqs sharki para ser uma bailarina profissional de dança do ventre, ela começa a fazer aulas particulares, tanto com Ibrahim Aqef quanto com Raqia Hassan (com quem ela foi aprender especialmente o posicionamento dos braços e das mãos, que são diferentes do que ela havia aprendido no balé).



"A originalidade da dança do ventre está na técnica particular de isolar cada parte do corpo. Se nós mexemos o quadril num movimento sinuoso, os ombros devem ficar fixos. Se nós fazemos um círculo com o busto, o quadril, por sua vez, se imobiliza."



"Os anos seguintes se misturam na minha memória. Eu sinto que começo a ver o que pode ser o meu destino. Eu levo uma vida dupla. Danço à noite e estudo de dia. Me inscrevi na academia de artes e na faculdade de filosofia. Trabalho duro. Quero ter sucesso."

Aguardem o próximo capítulo! 

Capítulos anteriores:








    quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

    Tá chegando o Carnaval!

    E o Ventre da Dança vai fazer um pequeno recesso para aproveitar a Folia! Voltamos no dia 28 de fevereiro!

    Mas até lá a gente fica no clima CARNAVAL!

    Então vamos ver algumas fusões que as meninas têm feito por aí :-)

    Vamos começar com Samra, com seu quadril poderoso!




    Vale reparar nas escolhas que ela faz entre movimentos sinuosos e batidas de quadril para acentuar a última música! Muito esperta :-)

    Agora, falar da música Brasileirinho, não pode faltar Joelma Brasil, porque essa música é sua marca registrada! E aqui ela no Egito: (a partir de 4:50)



    Agora, fusão mesmo, com mistura de passos bacana, achei a brasileira Suheil, arrasando em Nova Iorque!


    E para ninguém dizer que só tem brasileira nesse post, vamos ver a russa Warda fazendo a sua mistura!


    Ah, vale a pena reparar nas passistas a partir de 3:00, e até que ela não faz feio, né? O que vocês acham?

    Curtam muito esse Carnaval!!!

    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

    Kisses from Kairo - Finalmente!


    Sábado, 4 de junho, 2011
    Finalmente!
    Por Luna do Cairo
    Traduzido por Lalitha

    Então, hoje de manhã recebi ótimas notícias! Minha permissão para trabalhar foi aprovada pelo governo egípcio! (Bom, pelo que quer que tenha restado dele :D). Agora estou legalmente autorizada a trabalhar como bailarina de dança do ventre no Cairo. Finalmente! Só demorou, ah, dois anos e meio e uma revolução! Bom, não exatamente. Eu fui contratada para dançar no Semiramis ano passado, mas isso acabou quase antes de começar (por motivos que irei descrever no próximo post). Uma semana depois desse drama, eu passei num teste num Cruzeiro no Nilo, chamado Le Memphis, que então entrou com um pedido para contratar bailarinas estrangeiras. O próximo passo era me contratar e andar com a papelada, o que demorou muito mais do que deveria.

    Primeiro, o homem que eu contratei para tratar dos papéis tinha síndrome do sono crônica, que é como eu gosto de sacanear. Aquele era o homem MAIS PREGUIÇOSO do planeta - a própria personificação do sono. E apesar dele poder ganhar muito dinheiro resolvendo a minha papelada, ele simplesmente não conseguia se mexer para resolver nada! E se ele me enrolou uma vez, ele me enrolaria mil vezes. Se passaram meses com ele sem atender meus telefonemas e me dando desculpas ridículas, sem ele nem começar o processo de permissão, que só começou depois que eu quase fui deportada por ter me apresentado sem a permissão! Quando eu finalmente perdi a paciência com esse cara e procurei outra pessoa para fazer o processo, já tinham se passado 8 meses e uma revolução!

    Segundo, devido aos acontecimentos políticos que varreram o Egito no início do ano, não havia como a minha permissão de trabalho ser processada. Para piorar as coisas, o Ministério de Relações Exteriores egípcio anunciou que proibiria todos os extrangeiros de trabalhar no Egito. O Ministro eventualmente corrigiu o anúncio, dizendo que apenas aqueles estrangeiros que eram necessários para a prosperidade do Egito teriam permissão de trabalho. Mas isso significava que agora eu tinha que provar que eu, uma bailarina de dança do ventre americana, era necessária para a prosperidade do Egito, e que eu não estaria roubando trabalho das egípcias. Desnecessário dizer que nenhuma das duas afirmações poderia ser mais da verdade. Por mais que eu goste de pensar que sim, a minha dança não é necessária para a prosperidade do Egito. E ela tira trabalho de outras bailarinas egípcias (eu aprendi isso da pior forma possível, quando bailarinas egípcias descontentes tentaram fazer com que eu fosse deportada por "roubar o trabalho delas" no navio).

    Dada a nova política com relação aos trabalhadores estrangeiros, você pode imaginar como eu comecei a perder minhas esperanças. E você pode imaginar o quanto fiquei extasiada quando descobri que o próprio Ministro tinha assinado a minha permissão. Eu imagino que isso significa que a minha dança é necessária para a prosperidade do Egito. Que ideia maravilhosa. ;) E eu também fui a primeira bailarina estrangeira a ser oficialmente contratada depois do início da revolução. Que honra. :)

    Claro que nada disso teria sido possível se não fosse o trabalho duro e a dedicação da pessoa que eu contratei para processar os meus papéis depois de não chegar a lugar nenhum com o Sr. Dorminhoco. Eu sou eternamente grata a ele por ser honesto, pró-ativo, e totalmente inabalável sob a pressão que algumas pessoas fizeram para tentar me derrubar (sim, a gente adquire alguns inimigos quando tenta ser uma bailarina de dança do ventre no Cairo. É triste, mas inevitável). Eu também sou grata ao Sr. Safaa Farid pelo incentivo, apoio e equilíbrio durante esse período difícil. É bom saber que existem pessoas boas na comunidade da dança do ventre do Cairo.

    quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

    Ma liberté de danser - Cap. 2 - Mamãe


    Por Lalitha

    AVISO IMPORTANTE:

    Então, gente, antes de entrarmos no material relativo ao primeiro capítulo do livro da Dina, quero ressaltar que apenas as partes em itálico e entre aspas são trechos traduzidos do livro (as traduções são minhas e às vezes contem alguma adaptação para facilitar o entendimento do trecho fora do texto completo), e deixo claro que não traduzi o livro inteiro, apenas algumas passagens que julguei importantes ou bonitas. Todo o resto do material é uma compilação de informações contidas no livro e de pesquisa própria minha feita na internet ou na minha biblioteca particular.

    O material aqui exposto está todo dividido por capítulo (um capítulo por post, sempre) e cada capítulo está dividido em tópicos para tornar a apresentação mais dinâmica. Adotei essa divisão por pura comodidade e para tornar o material mais didático, o livro não está dividido dessa forma.

    2. Mamãe
    • Dina Talaat


    Dina Talaat nasceu em 12 de abril de 1964 (para quem curte signos, ela é ariana), em Roma, na Itália, seus pais eram egípcios. Seu pai trabalhava como correspondente do Middle East News Agency. Sua mãe trabalhava numa agência de imprensa italiana (mas segundo a Wikipedia ela trabalhou como secretária do embaixador indiano em Roma). Ela tem uma irmã dois anos mais velha chamada Rita, que segundo a Wikipedia, foi cantora.

    Dina viveu em Roma até os 5 anos (1969), quando seus pais voltaram para o Cairo, e seu pai se instalou em Agouza (bairro do Cairo), próximo do Nilo.

    Dina lembra muito pouco dessa época, sabe apenas que era muito feliz.


    • As origens da sua família


    Seu avô por parte de pai é um homem sério, exceto aos domingos, quando apostava em corridas de cavalo. Ele é de Dishna, um povoado grande perto de Qena, na região chamada Saïd, no Alto Egito (fica no sul do país). Essa é uma região rural, cheia de tradições fortes e muito conservadora. Até hoje o thar, código de honra, é seguido e se lê nos jornais locais histórias de vendetas.

    Sua mãe, Zeinab, também vem do Saïd, mas de Minya, uma cidade maior, que é chamada de Noiva do Alto Egito. Seus habitantes são famosos por sua beleza e boa educação, e são considerados realeza, porque dizem que foi lá que nasceu Quéops, o faraó que construiu a maior das 3 pirâmides.

    Mapa do Egito com a cidade de El Minya e Qena
    •  A volta ao Cairo

    A família volta ao Cairo quando Dina tem 5 anos, e vão morar no bairro de Agouza, perto do Nilo. Nessa época, 1969, as mulheres andavam de cabeça descoberta nas ruas, usando vestidos que deixavam pernas e braços à mostra, e usavam lindos penteados. Somente as mais velhas usavam véu. E as camponesas usavam seus trajes tradicionais. A sociedade era misturada, tolerante e mesmo assim, religiosa.
     

    • A morte de sua mãe e o segundo casamento do seu pai

    Pouco tempo depois de voltar ao Egito, Dina fica sabendo que sua mãe morreu. Logo depois seu pai se casa novamente e tem mais 2 filhas. Dina sente muito a falta da sua mãe e sofre.

    Sua irmã, Rita, é tudo pra ela, se fazendo de irmã, mãe, melhor amiga e confidente.

    "Felizmente a Rita está comigo. Ela se faz de irmã, mãe, melhor amiga e confidente. Ela é mais sábia do que eu, menos rebelde, sabe acalmar minha raiva e suavizar minha vida."
    • Sua escola – sua primeira aula de dança


    Em 1973, aos 9 anos, Dina muda de escola com a irmã mais velha. Elas deixam de frequentar um colégio franciscano onde aprendiam italiano e francês, e passam a estudar numa escola de moças anglo-árabe. Nessa nova escola, além do ensino clássico, elas podem fazer outras atividades, como teatro, canto, costura, cozinha e dança.


     "Era um curso de danças folclóricas das províncias egípcias. Meu pai me inscreveu sem nem imaginar que isso vai virar a minha vida de cabeça para baixo. Ou, mais exatamente, que eu vou finalmente achar sentido na minha vida. Porque, desde o primeiro minuto de aula, eu percebo que nada mais seria como antes. Eu escuto a música e a sinto vibrar até a ponta dos meus dedos, eu a vivo!
    Toda manhã eu saio de casa feliz. Apenas alguns metros nos separam da escola, mas eu faço esse caminho todos os dias dançando.
    Tenho dificuldade em me concentrar nas outras aulas, eu só penso numa coisa: a próxima aula de dança."
    Nesse curso de escola Dina aprende diversas danças folclóricas e o seu primeiro espetáculo é de uma dança fellahi, onde as mulheres vão pegar água. A coreografia prevê que uma das alunas será solista, e claro, depois de muito se dedicar, Dina consegue o papel que tanto almejava.

    "É o dia mais lindo da minha vida! Como estou feliz! Eu sei o que sou! Sei o que vou ser toda a minha vida! Bailarina, bailarina, eu fui feita para dançar!"


    Nessa época sua família aceita a sua escolha e o seu pai a matricula na companhia de dança de Ahmad Fouad Abdallah, uma famosa escola de arte para crianças entre 10 e 16 anos, onde diversos atores conhecidos se formaram. Ela ensaia até 3 vezes por semana, no clube da juventude. Ela aprende canto, balé e dança folclórica. É nessa escola que Dina adquire o gosto pela disciplina e pelo treino árduo.

    No mesmo local uma companhia profissional de folclore também faz os seus ensaios e ela é aceita entre os bailarinos profissionais em 1976, aos 12 anos.



    "Nessa época ninguém ligava que nós dançássemos. Ao contrário! Os egípcios, por natureza, são alegres e amam as artes, a dança, o canto, os risos. Nós somos como os brasileiros. Como eles que nascem com o samba no pé, nós temos essa alegria e esse ritmo entranhados no mais profundo do nosso ser. É nossa natureza. Nós somos feitos disso. Nessa época ninguém brigaria com uma criança por ela estar dançando."


    • Brigas com o seu pai


    As brigas com o seu pai são freqüentes durante a sua adolescência, Dina é considerada rebelde. E um dia, numa briga, ela consegue os contatos da sua avó materna. Desde que o seu pai tinha se casado novamente, Dina e a irmã, Rita, não viam a família da mãe. Mas nesse dia ela telefona para a avó, querendo contar tudo o que acontece com ela e chorar suas mágoas. Para sua surpresa a avó diz que a mãe ainda está viva.

    Ela explica que quando a família voltou de Roma, Zeinab pediu o divórcio, o que era chocante e impensável nos anos 70 para uma mulher. Como as duas famílias eram muito patriarcais, ao pedir o divórcio ela foi obrigada a aceitar nunca mais ver as filhas, além de abrir mão de todos os seus bens (do dote que recebeu ao casar). Para acalmar as crianças, foi dito a elas que a mãe tinha falecido, e toda vez que ela tentava falar com as filhas lhe era dito que as mesmas não queriam falar com ela.

    Como uma mulher sozinha não pode viver no Egito, logo depois ela se casou novamente. Seu novo marido arranjou um emprego no Qatar e ela não teve opção, teve de partir com ele.



    • O reencontro

    Apesar de não lembrar mais do rosto da mãe, Dina marca de reencontrá-la e as duas choram de alegria num emocionante reencontro.

    "Hoje você vive comigo. Você não me deixa mais. Você está ao meu lado quando a sorte me dá as costas, você é meu porto seguro quando me atacam, você é, como Ali, meu sol, minha vida."

    Aguardem o próximo capítulo! 

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