segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Kisses from Kairo - "Sem justiça, sem paz"



Segunda-feira, 4  de junho de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   



Nas palavras do agitador nova-iorquino Al Sharpton, “sem justiça, sem paz”. Foi isso que me veio à cabeça quando ouvi o veredicto do julgamento de Mubarak há dois dias. Nunca tinha ouvido nada de útil do Reverendo Al, mas as suas palavras reverberaram na minha cabeça enquanto milhares de egípcios tomavam as ruas, enraivecidos com o fato de julgamento de Mubarak e Cia ter terminado em pizza. Mubarak foi sentenciado à prisão perpétua por não ter impedido que se atirassem nos protestantes. O mesmo aconteceu com o Ministro do Interior, Habib Al-Adly. Seus filhos, Gamal e Ala, saíram ilesos do processo. Assim como 6 oficiais acusados de realmente terem puxado o gatilho na direção dos protestantes no início da revolução.

Se isso não é terminar em pizza, eu não sei o que é. Você pensaria que depois de 30 anos roubando o país, eles conseguiram uma quantidade de acusações suficiente para colocá-lo na cadeira elétrica. Ou então, enrolar uma corda no seu pescoço e fazer justiça em plena Praça Tahrir, no estilo iraquiano. O que é basicamente o que muitos egípcios queriam. Especialmente os parentes daqueles que morreram durante a revolução. Ao invés disso, Mubarak foi declarado culpado de apenas uma acusação e completamente inocente (!) de diversas acusações de corrupção...

...Como se fosse realmente necessário um julgamento para provar que Mubarak era um dos ditadores mais corruptos do mundo. Basta dar uma olhada na casa dele para ver a extensão do estrago. Os sistemas de saúde e educação estão em frangalhos. A economia deixou de existir. As taxas de desemprego e analfabetismo são vergonhosamente altas. O tráfego é um pesadelo. A poluição está fora de controle. Essas são todas as provas de que se precisa. Mas não. Os egípcios decidiram fazer um julgamento, sabendo muito bem de todas as fraudes judiciárias que aconteceriam. Ai de nós, pessoas modernas, e nossa obsessão pelo progresso. :/

O que eu acho mais intrigante é a reação dos egípcios. Claro que eles têm todo o direito de ficarem horrorizados, mas isso implica que ficaram surpresos. Pelo amor de Deus, eu não consigo entender o que tem de surpreendente nisso. Desde o início do julgamento, estava claro que as coisas estavam armadas a favor de Mubarak. Quer dizer, em primeiro lugar, Mubarak nomeou todos os generais, procuradores e juízes! Mesmo sem essas nomeações, ainda assim nós teríamos a sensação de que as coisas foram armadas. É assim que as coisas funcionam aqui. Na verdade, é como as coisas funcionam na maior parte do mundo, mas especialmente no Egito. Ou talvez seja um pouco mais óbvio por aqui, e por consequência mais insultante à inteligência das pessoas.

Sim. É isso mesmo. Insultante. Os egípcios estão se sentindo insultados, não surpresos. Eles se sentem insultados que as autoridades os julguem tão estúpidos a ponto de acreditar que Mubarak fez apenas UMA coisa errada nos seus 30 anos de poder. Eles se sentem insultados que mesmo depois da revolução, os negócios continuam sendo levados da forma conspiratória usual do Egito.

E é por isso que não haverá paz. Porque não há justiça. Até que os culpados e inocentes troquem de lado das barras da prisão, os egípcios não vão parar de protestar na Praça Tahrir. Não me entenda mal. Eu entendo muito bem que nessa parte do mundo, nessa época, é necessário manipular eventos políticos para garantir resultados mais satisfatórios. Pode não ser “certo”, mas é melhor do que deixar a natureza seguir sozinha o seu curso. Deixar que a natureza siga o seu curso, isto é, eleições livres e limpas, resultaria nos islamitas chegando ao controle total do país. O que teria efeitos desastrosos para todas as pessoas – inclusive aquelas que votaram neles. E é por isso que eu apoio completamente a manipulação das eleições presidenciais para garantir que um candidato secular vença. Isso é, provavelmente, muito antiamericano da minha parte. Mas, novamente, eu não sou exatamente uma democrata hoje em dia.

Dito isso, o julgamento de Mubarak era uma das coisas que os egípcios podiam se dar o luxo de conduzir de forma mais justa. Eles não precisavam manipular o julgamento da forma como fizeram. Condenar Mubarak por diversas acusações de assassinato e corrupção não teria colocado o futuro do país em risco da mesma forma como eleições justas fariam. No mínimo, conduzir um julgamento limpo teria sido uma postura simpática – um símbolo de boa vontade para com as pessoas do Egito. Teria feito milagres pela dignidade deles, e teria dado a sensação de que a revolução não foi uma luta em vão. Pelo menos não completamente.

Sem falar que o momento foi mal calculado. O veredicto saiu bem entre os dois turnos das eleições presidenciais, os quais já são vistos (corretamente) como manipulados. Se os egípcios já ficaram enraivecidos com os resultados da semana passada das eleições, esse veredicto os deixou com ainda mais raiva. Pode ter certeza que dessa vez os egípcios irão às urnas com sede de vingança. E os islamitas vão se beneficiar disso.

E esse é o porquê. Os resultados das eleições da semana passada colocaram os liberais egípcios na situação desconfortável de ter de escolher entre os dois males que eles estavam tentando extinguir – Mubarak e os militares numa mão, e os Islamitas na outra. Agora eles precisam eleger ou Mohamed Morsi da Irmandade Muçulmana, ou o ex primeiro ministro de Mubarak, Ahmed Shafiq.

Ou eles podem começar uma nova revolução...

Estou disposta a dizer que antes de ouvir o veredicto, os liberais teriam votado em massa em Ahmed Shafiq. Não por convicção, mas para evitar que o país caísse nas garras dos Islamitas. E porque é mais fácil do que começar outra revolução... e porque eles já admitiram tacitamente a derrota. A revolução não seguiu o rumo que eles queriam, e é tarde demais para salvá-la. A única coisa que eles podem fazer é impedir que o Egito fique como o Irã. E se isso significa eleger um homem do Mubarak, que assim seja.

Entretanto, depois de ouvir o veredicto, muitos liberais enfurecidos vão passar a votar no Morsi. E novamente sem convicção. Mas porque eles estão enojados com tudo relacionado à Mubarak (e por consequência, Shafiq). Apesar de Morsi usar barba e querer impor a Lei da Sharia, todos sabem que ele é o maior opositor do antigo regime. E neste momento, isso é o mais importante para os liberais desiludidos com o veredicto dessa semana.

Um dos liberais mais influentes que a partir de agora vai endossar Morsi é Ayman Nour. Ayman Nour é um secular leal que fez carreira ao se opor a Mubarak. Ele acabou indo para a cadeia em 2005 por ser a primeira pessoa a concorrer com Mubarak numa eleição presidencial. Depois de ouvir o veredicto do julgamento de Mubarak, ele declarou as suas intenções de apoiar a campanha de Morsi.

Então chegamos a esse ponto. Basicamente, isso significa que se o segundo turno das eleições não for burlado, Morsi vai ganhar. Agora, eu estou disposta a acreditar (e sinceramente espero) que as eleições serão manipuladas a favor de Shafiq            , mas se não forem, podemos dizer adeus a esse país.

Verdade, se as eleições forem manipuladas e Shafiq ganhar, as coisas vão ficar feias rapidamente. Nós podemos esperar muitos protestos e até mesmo violência. Apesar de historicamente os egípcios terem uma grande tolerância com corrupção, um veredicto fraudulento às vésperas de uma eleição manipulada é demais, mesmo para o Egito.

Mas se Morsi ganhar, as coisas vão ficar feias devagar. Mulheres e coptas serão despojados de suas dignidades, um direito de cada vez. A economia vai cair ainda mais, e a vida vai ficar tão miserável quanto nos demais países islamitas. Devagar. Wahda Wahda. Isso é mais perigoso do que qualquer protesto ou, eu ouso dizer, massacre. Protestos podem ser reprimidos, e massacres esquecidos. Mas a islamização gradual se prolonga por décadas, destruindo a vida das pessoas e seus modos de vida.

Sem justiça, sem paz.

Posso ouvir um Amém?



OBS do Ventre da Dança: Desde então Morsi ganhou as eleições presidenciais no Egito, e uma nova constituição com brechas gigantes para a utilização da Sharia como base do sistema judiciário foi aprovada.

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