quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Kisses from Kairo - Sobre ser egípcia



Quarta-feira, 14 de março de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha    

Eu não sou egípcia e não finjo ser, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que eu não adotei alguns hábitos egípcios. Ser egípcia é contagioso. :) Particularmente se você vive por aqui há algum tempo e fala a língua bem fluentemente. Isso é normal, imagino. Mas é interessante se levarmos em consideração que eu cresci num país onde o comum é que os estrangeiros se prendam às suas culturas e resistam à assimilação. Então quando me vejo de fora, e observo a forma como os meus pensamentos, maneirismos e até mesmo o jeito de falar mudaram, eu não consigo deixar de rir do quanto eu assimilei sem querer da cultura egípcia.

Por exemplo. Eu peguei o hábito muito egípcio de ficar encarando mulheres bonitas. :) Agora, eu não me viro toda pra isso, e definitivamente eu não as assedio. Mas, como a maioria dos homens e das mulheres egípcios, não posso deixar de me maravilhar com pessoas bonitas. O que é bem hipócrita, dado que eu odeio quando as pessoas me encaram. Mesmo que seja porque elas me achem bonitinha. Eu acho que encarar é rude, e é uma invasão do espaço pessoal. Além disso, eu aprendi a não fazer isso no jardim de infância. :)

Mas aqui na terra de Oz, a gente aprende não apenas a apreciar a beleza, mas a expressar essa apreciação. Não encarar apenas como verdadeira ou fingir que ela não existe evitando olhar nos olhos das pessoas (mesmo que religiosamente falando, isso é que supostamente deve acontecer). Não me entenda mal. Isso não é uma defesa ao assédio por homens nem por mulheres, e eu repito, eu detesto quando as pessoas me olham de cima a baixo, mas acho que há algo realmente humano em reconhecer a beleza. Em qualquer caso, pode ser um alívio da cultura do “reflexo de elevador” de onde viemos. (N.T.: aqui Luna se refere à mania de entrar no elevador e ficar olhando para os números dos andares para evitar o contato visual com outras pessoas)

Encarar e ser encarada se tornou de tal forma uma parte da minha vida diária que eu me sinto como um peixe fora d’água quando saio do país. Fora do Egito, ninguém olha para mim, e eu não olho para ninguém. Não importa quão “sexy” qualquer um de nós esteja. É uma sensação de alívio (e uma que eu preciso sentir de vez em quando), mas então tem aquela parte de mim que fica se perguntando se estou particularmente desleixada. Quer dizer, porque de que outra forma ninguém estaria me notando? :P

Meu padrão de beleza também ficou mais egípcio. Eu não vou entrar em detalhes sobre o conceito geral de beleza feminina dos egípcios. Basta dizer que é muito mais curvilíneo e bem menos muscular do que o padrão normal de beleza ocidental. E muito mais emperiquitada! :)

Eu notei pela primeira vez o quão egípcio o meu olhar havia se tornado enquanto observava outras bailarinas de dança do ventre. Aquelas que eu gostava mais não eram aquelas com a melhor técnica, mais “sentimento” ou com a roupa mais bonita. Eram as bailarinas que eu achava mais bonitas. Como eu mesma sou bailarina, sei o quão errado e injusto é avaliar uma artista baseado somente no seu visual. E eu nem sempre fui assim. Mas acho que o fato de eu estar constantemente escutando os egípcios aprovarem ou não as bailarinas baseados no visual delas me influenciou. Agora, toda vez que preciso que uma bailarina me substitua, eu penso automaticamente em mandar a bailarina mais bonita que conheço. Certo ou errado, é a forma como o meu cérebro está atualmente programado. Além disso, isso impede que agentes e gerentes reclamem que a substituta que enviei era “mish helwa” – não bonita.

Não são apenas os meus olhos que vêem de forma egípcia. Meu cérebro também pensa em egípcio. Semana passada, num casamento, meus olhos caíram sobre uma mulher que estava vestida de forma bem escandalosa. Enquanto todas as outras mulheres usavam véu, ela estava num vestido de coquetel super curto com tiras finas e um decote profundo, salto 10, e (deus me livre!) sem meia-calça. E ela se convidou para dançar comigo na pista de dança. Lá estava eu, balançando de um lado para o outro, semi-nua, e tudo o que eu conseguia pensar enquanto olhava para ela era “sharmoota”. “Vadia” em árabe.

Opa. Desde quando eu me tornei tão crítica? Sobre roupas femininas ainda por cima?

A mesma coisa acontece quando eu vejo um homem e uma mulher de mãos dadas em público. Minhas recém descobertas “sensibilidades morais” ficam chocadas, e eu imediatamente empaco. Como eles ousam, esses infames!?! :)  Eu até começo a me perguntar se eles são casados ou não. Não que isso seja da minha conta, ou que eu nunca tenha andado de mãos dadas em público. Mas até mesmo as exposições públicas de afeto mais inocentes são tabu aqui, comparado com outras partes do mundo.

Por sorte, não mudei tanto assim de forma que eu não consiga reconhecer o atraso formando raízes em mim. E sou capaz de rapidamente acordar – e voltar para a realidade. Minha realidade. De acordo com a qual a mulher usando o vestido curto está da forma como eu quero me vestir, e na qual mais casais deveriam ser livres para expressar publicamente o seu amor (dentro de limites razoáveis, é claro! :D). Eu tenho – bem, eu achava que tinha – uma firme crença na liberdade pessoal. Ainda assim a minha reação para esse tipo de coisa é a mesma da maioria dos egípcios. Interessante como isso funciona.

Reconhecidamente, a linguagem tem um papel importante no processo de assimilação cultural. Diferentemente de outros estrangeiros que passaram anos em bolhas de expatriados, eu fiz um esforço para me tornar fluente em árabe egípcio (N.T.: o árabe existe na sua forma clássica, que é a do Corão, e ele é ensinado assim nas escolas em todo o mundo árabe, porém variações ou dialetos desse árabe são falados em cada país). Se não fosse esse o caso, eu provavelmente estaria muito menos integrada do que estou. Isso porque o árabe é uma daquelas línguas que está intimamente ligada com a sua cultura. É, portanto, quase impossível não se tornar egípcia em algum nível se você fala árabe bem, e, de modo contrário, impossível ser egípcia se você não falar. Não que “ser egípcia” tenha sido em algum momento o meu objetivo – eu só acho estúpido, arrogante, e potencialmente arriscado viver num país estrangeiro sem ser capaz de se comunicar efetivamente com as pessoas, muitas das quais falam pouco ou nada de inglês. Então eu aprendi a língua.

Ser capaz de falar com todo o mundo tem geralmente funcionado para a minha vantagem (apesar de ter momentos em que eu gostaria de não entender nenhuma palavra!). Mas vendo o quanto da mentalidade eu pareço ter absorvido, isso levanta aquela bem conhecida questão de que se é a língua que influencia o pensamento, ou se é o inverso. Pessoalmente eu acho que é um pouco dos dois, apesar de provavelmente haver mais evidências para provar a primeira opção.

Sobre o assunto linguagem, vale notar que o árabe egípcio usa diversas palavras do inglês (e do francês, e do turco e do farsi). Especialmente as palavras ligadas à tecnologia e moda. Como “Ploetoes” (Bluetooth) e “bloovr” (Pull Over). :D . O que é engraçado é que muitos egípcios acham que essas são palavras árabes, e as pronunciam do jeito egípcio. O que é ainda mais engraçado é como eu agora consigo, sem esforço, pronunciar essas palavras do mesmo jeito no meio de uma conversa em árabe. Na verdade, às vezes eu esqueço que “Ploetoes”, “Micdoonaalds”, “combooterr”, “bresteej” (prestígio), “boolees” (polícia), “billydoncer” (belly dancer), “uncle” (tornozelo) e “rimoot” (controle remoto) são de origem inglesa. :) Eu amo isso. É uma das coisas que aumenta o charme egípcio. E, mostra que mistureba de globalização esse mundo virou.

Entretanto, minha palavra absolutamente favorita na língua árabe não é nenhum desses empréstimos da língua inglesa. É “insha’allah”. Se deus quiser. Ela é, na minha opinião, a mais perfeita palavra dentre todas as línguas. Insha’allah significa que as coisas podem e vão acontecer só se Deus (ou o universo ou o destino ou seja lá como você queira chamar) quiser que aconteça. Eu gosto disso. Serve como uma lembrança da inerente fragilidade da condição humana – coisa que nós, humanos, temos tendência a esquecer de vez em quando. Apesar disso significar que nem sempre nós vamos alcançar nossos objetivos, isso também significa que nós não somos inteiramente responsáveis pelos nosso fracassos. Se nós não nos tornamos milionários ou super estrelas, não é porque somos fracassados. É porque Deus não quis isso para nós. E se nós não aparecermos para o compromisso que marcamos, não é porque somos preguiçosos ou dormimos até tarde. É porque, bem, Deus também não quis isso. :)

Agora você entende porque eu amo essa palavra? Ela tem uma grande capacidade de te fazer fugir de um problema. :P

No Egito, onde o ritmo da vida é suave, a ética no trabalho é relaxada, e circunstâncias imprevistas acontecem num ritmo diário, as pessoas pontuam cada declaração de intenção com insha’allah. “Vou te encontrar amanhã às 9h, insha’allah”. “Eu vou ter o trabalho pronto para você amanhã, insha’allah”. Quando as coisas não acontecem, tecnicamente não é culpa de ninguém. Deus simplesmente não quis. Insha’allah é, portanto, uma forma maravilhosa de se desfazer da responsabilidade pelo não cumprimento de alguma coisa, e uma palavra que você sempre vai ouvir saindo da boca dos preguiçosos. :)

Como a minha noção de tempo se tornou bem egípcia, insha’allah funciona muito bem para mim. Aqui, 3h significa 3:30h, 5h, amanhã, ou nunca. Eu sempre tive problemas com pontualidade e manter meus compromissos, mas isso ficou muito pior desde que me mudei para o Egito. Muito disso tem a ver com o fato de que eu durmo muito tarde, assim como os egípcios que não trabalham das 9 às 5. E como eu raramente acordo de manhã, acabo conduzindo todo o meu negócio à noite quando termino de dançar, seja lá que horas for isso. Ou então bukra. No dia seguinte. Minha segunda palavra favorita na língua árabe. E quando o bukra não chega nunca, eu sempre posso jogar a carta do isha’allah. :)

Outra frase interessante em árabe, que me impactou um pouco é “wakhid 3ayn” (wakhda 3ayn para mulheres). Tipo, assim como alguém pode pegar uma gripe, alguém pode pegar “olho”. E eu não estou falando de conjuntivite. Estou falando do Olho Gordo. Você sabe, aquele que faz você adoecer, se machucar, ou ser assaltado, etc? Se você está se perguntando sobre a relação entre os olhos e as doenças, a idéia é que os olhos são a origem do ciúme e da inveja. Os olhos vêem os outros que podem ser mais ricos, mais inteligentes, mais bonitos, mais bem sucedidos, e, portanto, pode levar a pessoa que vê a mandar energias destrutivas. Os egípcios usam a frase “wakhid 3ayn” toda vez que alguma coisa ruim acontece com eles. Por exemplo, aquela tosse tipo peste bubônica que aquele cantor arranjou? Não tem nada a ver com o fato dele beber do copo dos outros e pode ter pegado algum germe. É porque outro cantor ficou com inveja e mandou para ele energias negativas. O jogador de futebol que quebrou a perna? Isso também foi resultado de um colega invejoso. Não importa aquela jogada violenta em que ele se envolveu.

Eu lembro claramente da primeira vez que eu “peguei o olho”, ou pelo menos pensei que sim. Foi durante um período de 2 semanas no último inverno, antes de eu ser contratada para dançar no Cairo. Eu estava fazendo uma série de apresentações em alguns resorts ao longo do Mar Vermelho, quando eu me envolvi em 2 acidentes de carro assustadores. Graças a deus, nem o motorista nem eu nos machucamos, mas nas duas vezes, o carro virou 3 vezes e nós ficamos com o coração na boca. Mesmo motorista, mesma estrada, mesmo dia da semana, mesmo horário, mesmo destino, mesma estupidez. Apesar de ambas as vezes a causa do acidente ser óbvia (e podia ser evitada), a única razão que eu e o motorista podíamos pensar na hora era que um de nós dois tinha “pego o olho”. Desde então, toda vez que eu pego um resfriado, ou então as coisas não acontecem como eu gostaria, eu tento descobrir quem está me odiando antes mesmo de tentar achar uma explicação lógica. :)

E desde que, supostamente, esse é um blog de dança do ventre, acho que eu devia mencionar como tudo isso se relaciona com a minha dança. Sem dúvida, a minha dança se tornou mais egípcia desde que me mudei para cá, como qualquer um esperaria. Isso é o que acontece quando se vive no Cairo, e no meu caso, praticamente se aprende a dançar aqui. O que realmente me impressiona, entretanto, é quão egípcio se tornou a minha forma de ver a dança. Enquanto eu costumava ser uma viciada em coreografia, eu hoje improviso o tempo todo. Que é o que a maioria das egípcias faz. Para elas, dança do ventre é algo que simplesmente acontece. Elas não “a” fazem, se é que você me entende. Logo, coreografia é um conceito meio alienígena para elas. No meu caso, estar no palco com a minha banda toda noite é a razão pela qual eu parei de coreografar e imitar as seqüencias das outras. Não tenho mais tempo, necessidade, ou vontade de mapear cada pequeno dum e tak como eu costumava fazer. É muito trabalho. Era OK quando eu dançava uma vez por semana com um CD. Eu tinha muito mais tempo livre e bem menos experiência naquela época. E eu era muito mais tranqüila! Hoje, eu improviso até em filmagens na TV, apesar de admitir que coreografia serviria muito melhor a esse propósito!

Apesar de ficar fascinada com todas as formas que a minha vida se tornou mais egípcia, ainda tem algumas coisas que mantenho da minha cultura nativa. Como querer saber o quanto custa alguma coisa antes de comprar. Como dizer o que penso e querer dizer o que eu digo. Como não jogar fora o lixo pela janela do carro. Ou no Nilo. Sem dúvida, eu adoro como os egípcios riem de mim toda vez que estamos juntos no carro e me recuso a jogar fora a minha caixa vazia de pizza pela janela. :) Ou como eu agarro a caixa vazia de cigarros deles antes que eles tenham a chance de jogar fora no chão. Eu não posso contar quantas vezes tive que explicar sobre a importância de manter o meio ambiente limpo, mas no final das contas, eles continuam me vendo como uma catadora de lixo estrangeira. >D

2 comentários:

  1. Gostaria de te perguntar algo... Aqui se fala que tem de ter universidade da dança, estudo a 10 anos e vejo vídeos egípcios o tempo todo e fica uma dúvida... os grandes mestres egípcios aprenderam dançar em faculdade ou aprenderam com seu povo e cultura? Obrigada pelas informações no seu blog adorei, e me fez gostar de dançar novamente, porque tenho me sentido um robozinho ultimamente.Um forte abraço!!!

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    1. Oi Malika!
      Não sei onde você mora, mas aqui no Rio de Janeiro não é necessário fazer a faculdade de dança para ter um registro profissional. Essa questão da necessidade de uma educação formal é muito complexa (já ouviu os podcasts do site www.saladedanca.com.br ?), até porque aqui no Brasil não temos uma faculdade de dança que inclua a dança do ventre no seu currículo.
      Agora, quanto aos egípcios juro que não sei dizer com certeza. Sei que não há faculdade de dança no Egito, mas muitos grandes mestres estudaram balé fora do Egito, daí não sei dizer se isso incluiu uma faculdade. A Dina, por exemplo, sempre estudou em escolas de dança no Egito (escolas de dança folclórica ou professores particulares, porque não existe escola de dança do ventre no Egito, é meio que proibido), e é formada em filosofia, não em dança.
      Vou ver o que mais descubro sobre o assunto e depois posto aqui, ok?
      Beijos!

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