sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Kisses from Kairo - Essa história de Harvard...


Quinta-feira, 14 de abril, 2011
Essa história de Harvard...
Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha

... Aviso. Isso é um monte de besteira. :)


Então, eu vou dizer logo de uma vez. Eu frequentei Harvard. Quatro anos atrás. Eu fiz Mestrado em Estudos do Oriente Médio e me formei com média 3.9. (N.T.: a nota máxima é 4.0). Eu sou fascinada pelo Oriente Médio desde que vivenciei o 11 de setembro em Nova Iorque, e decidi que iria me cobrir de dívidas para estudá-lo.

Então por que, pelo amor de Deus, estou dançando dança do ventre no Cairo!?!? Eu não deveria estar me utilizando dos meus estudos? Eu não deveria estar recebendo um salário de 6 dígitos trabalhando para o governo norte-americano? Não estou desperdiçando a minha vida "balançando a bunda" num país de terceiro mundo?

As pessoas tem se oposto a mim em todas essas questões desde que me mudei para o Cairo há mais de dois anos atrás, e, sinceramente, estou ficando de saco cheio! Quem fez de se formar em Harvard e trabalhar como bailarina de dança do ventre um crime? Não existem centenas de mulheres com alto nível de educação dando aulas e se apresentando como bailarinas de dança do ventre pelo mundo inteiro? Ou dançar é só para os idiotas?

Talvez seja apenas eu, mas eu nunca imaginei que encontraria tanto desânimo por parte da minha família, amigos e colegas da dança que nunca perdem uma oportunidade de me lembrar que Harvard e dança do ventre simplesmente não combinam. OK, vou dar um desconto para a minha família. Eles me amam e se preocupam com o meu bem-estar e são muito orgulhosos do meu diploma. Eles nunca vão entender essa história com a dança do ventre. Eles acham que é estúpido. Eles também acham que estou arriscando a minha vida. Eles nunca vão entender que o Egito não é o Iraque. OK, eu posso aceitar isso. Eles só querem o melhor para mim.

Mas e todas as outras pessoas? Quando criticar as escolhas na vida das pessoas virou moda? Pessoalmente, eu não ligo para o que os outros fazem com as suas vidas, desde que sejam felizes e não machuquem ninguém. E neste momento, eu estou FELIZ, e não estou machucando ninguém, então, por que as pessoas não param de criticar minhas escolhas? Às vezes elas me fazem querer esquecer que um dia eu fui à Harvard!

Eu não tenho tendência a duvidar de mim mesma, mas isso chegou num ponto em que eu não consigo encontrar uma só pessoa que me apóie! Nem UMA! Até mesmo os agentes egípcios que ganham um bom dinheiro comigo acham que o que eu estou fazendo é errado, dado que me formei em Harvard. EI!!! Vocês não querem o meu dinheiro?! Não me digam essas coisas que uma hora eu posso acreditar e ir para casa!

Às vezes eu acho que sou de outro planeta, porque tudo o que já fiz foi encorajar as pessoas a irem atrás dos seus sonhos. Quer dizer, não vivemos na época das Oprahs e Dr. Phils nos estimulando a fazer o que nos faz feliz, e não apenas o que se "espera" que nós façamos? Ou isso se aplica a todo ser do universo menos eu?

Mudando de tom, eu gostaria de salientar que a dança do ventre requer MUITA inteligência. Viver no Cairo também. Tudo bem, existem diversos tipos de inteligência, mas estou falando daquela de escola mesmo. Eu realmente acho que a inteligência acadêmica pode ser uma vantagem nessa dança. Acadêmicos aprendem a pensar abstratamente. Eles estão constantemente tendo novas ideias e inventando coisas. Acadêmicos são muito informados sobre os contextos sobre os quais eles trabalham. Aplicadas à dança do ventre no Cairo, essas habilidades podem fazer milagres.

Não me entenda mal. Não é que eu queira ser bailarina de dança do ventre no Cairo para o resto da minha vida. Eu sei que é uma carreira curta, cheia de estresse, e que eu terei de ter um plano B mais tarde. Eu sei que preciso me preocupar com planos de previdência e pensões e tudo mais que precisarei quando estiver mais velha... e, ah, claro, filhos. Mas isso não significa que eu não posso correr atrás do emprego dos meus sonhos enquanto sou jovem e capaz. Eu tenho tempo suficiente para me sentar e ficar mofando num escritório das 9 às 5, eu simplesmente não quero fazer isso agora. Não enquanto a juventude, entusiasmo, energia e destreza estiverem do meu lado.

Inferno, talvez eu esteja errada. Mesmo assim, todos nós precisamos de uma mentira de vez em quando! Mas até eu ser provada louca sem nenhuma sombra de dúvida, eu acho que vou continuar sendo a bailarina de dança do ventre formada em Harvard. ;)

5 comentários:

  1. Bom... eu compreendo. E acho certíssimo. Acho que eu não seria capaz de viver no Cairo. Acho que eu não seria feliz lá. Acho que prefiro tentar encontrar dignidade na minha profissão aqui mesmo, já que em seu próprio berço ela é ao mesmo tempo tão desacreditada e valiosa.
    Ser feliz é o que importa no final. E danem - se os títulos.

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    1. Eu pessoalmente acho que o Egito está numa fase complicada. Se aqui mesmo às vezes nós temos problemas, imagina lá.
      E eu não poderia concordar mais: o importante é ser feliz :-) e as nossas escolhas devem refletir isso, quaisquer que elas sejam.
      Título é só uma palavra bonitinha, a gente é sempre muito mais do que isso :-)
      Beijos!

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  2. Faço minhas as palavras da Laura

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  3. Entendo sua posição.Faço doutorado em Bioquímica na UFRJ e sei da reação das pessoas quando elas descobrem ou eu falo sobre o assunto. A ponto de não falar para quase ninguém, apenas para as pessoas que sei que respeitam e gostam.

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  4. Essa é uma questào complicada... qndo comecei a estudar a dança, ha 11 anos, minha familia era contra... colocaram vários impecilios mas, não desisti!
    Preconceito existe em todas as áreas, mas quando o uso do corpo está em jogo (e não em um esporte!) aumenta mais ainda! Todo cuidado é pouco pra que nào sejamos interpretadas erroneamente... pra que nosso trabalho não seja visto como vulgar uma vez que nos expomos muito quando dançamos!

    bjs

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