sábado, 27 de abril de 2013

A realidade e o futuro do feminismo islâmico


Texto de Rachelle Fawcett. Tradução de Simone Andrea, publicada originalmente no site Blogueiras Feministas.
Originalmente publicado com o título: The reality and future of Islamic feminism, no site Aljazeera.

No que consiste um feminismo islâmico e para onde vai?
Em alguns círculos muçulmanos, a palavra com “f” (feminismo) levanta tanto tensões quanto sobrancelhas, imediatamente evoca representações de mulheres dominadoras, raivosas e que odeiam a família. Mas, como outras imagens que acodem à mente com a menção de qualquer rótulo – inclusive a imagem da mulher oprimida que frequentemente se vislumbra quando alguém escuta a palavra “muçulmana” – essa reação visceral está baseada em estereótipos que podem ser verdadeiros num contexto social e histórico muito específico, mas não fazem sentido quando comparados com uma realidade mais ampla, portanto, não justifica a hostilidade que desencadeia. Enquanto a retórica popular islâmica gaba-se da libertação da mulher com o surgimento do Islã há mais de 1.400 anos atrás, a repetição contínua dessa história nada faz para aliviar o sofrimento das mulheres hoje, exceto voltando ao princípio, a partir do texto fundador do Islã, o Corão.
Mas o que é o “feminismo islâmico”, como se desenvolve e quais são os seus atores?Dra. Margot Badran, formada pelas universidades de al-Azhar e de Oxford, define o “feminismo islâmico” nestes termos:
… uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma umma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.
Esta é uma distinção importante. “Feminismo islâmico” não é simplesmente um feminismo nascido em culturas islâmicas, mas sim um que encaixa a teologia islâmica nos textos e nas tradições canônicas. Nitidamente, um feminismo “islâmico”, na sua essência, inspirado no conceito corânico de igualdade de todos os seres humanos e que insiste na aplicação de sua teologia na vida diária. Derivada dessa definição básica, encontramos uma pletora de diferentes interpretações, movimentos, projetos, personalidades, criando feminismos que têm diversos rostos. Frequentemente, questões femininas são trivializadas em usar ou não o véu, ou apertar as mãos de homens que não são da família, e, enquanto questões mais amplas, como violência doméstica, estão sendo vigorosamente debatidas, a questão central – o que a “igualdade” significa e como se expressa – prossegue largamente ignorada. Por exemplo, a violência doméstica é errada porque causa dor, sofrimento e é injusta, mas a crença central no direito do homem mandar na mulher nem sempre é parte dessa discussão.

Ensinando o que conta
Este ano, o tema da 3ª Conferencia Anual de Estudantes de Graduação em Estudos Islâmicos foi “Reconstituindo a Autoridade Feminina: a Participação da Mulher na Transmissão e na Produção do Conhecimento Islâmico”, foi nesse foro que o futuro do feminismo islâmico esteve bem representado.
Nenhum workshop foi desperdiçado em tecnicalismos sobre o véu ou em discussões desgastadas acerca de o Islã liberar as mulheres com a proibição de infanticídios de meninas ou o direito das mulheres à herança (que não foi totalmente obedecido nem no tempo de Maomé). Ao invés disso, os workshops e os estudantes que os apresentaram demonstraram a complexidade e a diveersidade dos movimentos de mulheres, novos e antigos, no mundo muçulmano. Em “O Milagre de Bibi Fatima: Consagração e Autoridade Feminina”, apresentado por Summar Shoaib, mulheres transmitiam histórias de Fatima, a filha do Profeta Maomé, aparecendo e ajudando outras mulheres com preces especiais. Em tais contextos, mulheres passam adiante o conhecimento religioso numa tradição matrilinear que funciona como um canal para o ativismo religioso. Contar histórias torna-se um meio de força que proporciona uma base e um apoio para as mulheres, através dos laços de parentesco forjados pelo ato de contar histórias além da tradição que são passadas adiante.
Os principais palestrantes: Amina WadudKhaled Abou el FadlKathleen Moore e Asma Sayeed falaram sobre a inclusão como direito e necessidade para a autoridade moral da pessoa e a história das mulheres nas tradições jurídicas islâmicas. O Islã “puro e simples” no qual as questões femininas são amenizadas com desculpas ou simplificadas como terciárias ou subalternas não foi encontrado em lugar algum. Pelo contrário, estudantes e professores recordaram a história que sempre se menciona somente de passagem, ou através de poucas figuras históricas chaves, retórica clichê e argumentos simplistas, não-históricos. Atendo-se aos padrões acadêmicos, este grupo diversificado de estudantes, através de sua busca intelectual do passado e do discurso voltado ao futuro, foi uma parte pequena, mas importante, da linhagem contínua da sabedoria feminina no Islã.
Eles eram exemplos do conjunto misto de “feminismos islâmicos” no Mundo islâmico. Mulheres em todos estes contextos estão encontrando as tradições baseadas em suas respectivas culturas, necessidades, prioridades e recursos, criando um retrato bem acabado do movimento global no qual as mulheres criam seu próprio caminho para o conhecimento e avançam com ele. Em alguns contextos, isto significa discutir direitos fundamentais como libertação da violência, enquanto em outros as mulheres conquistam e encontram seu próprio espaço para desafiar os dogmas tradicionais, redescobrindo a história feminina do Islã e o lugar para o discurso futuro, também em outros contextos, pela criação de um espaço inclusivo para rezar, adorar e estar com Deus. Um exemplo é o de Ani Zonneneveld, musicista e co-fundadora do “Muçulmanos por Valores Progressistas”, que promove paz e justiça social, através da criação de mesquitas inclusivas e da expressão de ideais igualitários através da música islâmica como meio de adoração.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central
do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Impactando não apenas mulheres, mas a sociedade em larga escala
Um feminismo islâmico é, presumidamente, um feminismo intrinsecamente dotado de competência (trans)cultural, uma vez que o Islã, em geral, é uma tradição profundamente diversificada e permite flexibilidade, dependendo do contexto, desde que o núcleo essencial da ética islâmica não seja violada. Como o cerne dessa ética se define pode variar de acordo com o contexto, mas as tentativas de definição irão ajudar a espalhar uma discussão mais ampla, que possa eliminar as desculpas e discutir as causas fundamentais. É em tais debates que as feministas islâmicas, mais do que acreditar na tradição ou num feminismo proliferado – como especificamente o feminismo ocidental – insistem num retorno ao Corão e no emprego de princípios de análise contextual e racional, que questionem crenças tradicionalmente aceitas acerca das mulheres, através da retórica pela qual elas se formarão.
Pode ser dito que a maior tarefa do feminismo islâmico é separar cultura de religião. Esta é, talvez, a razão principal da hostilidade e raiva com que esse movimento se depara. Em alguns contextos muçulmanos, desafios às crenças tradicionalmente baseadas na autoridade não encontram um diálogo inteligente e bem informado, que esteja aberto à busca contínua da verdade e justiça, mas sim com a suspeita e hostilidade daqueles que procuram declarar um Islã único e “verdadeiro”, dependente da estrutura social apoiada na hierarquia de gênero. É sociologia elementar entender que as mulheres são frequentemente as fundações da cultura, porque elas são as primeiras professoras e mantêm laços estreitos com a próxima geração. Daí, a “estabilidade” da sociedade é frequentemente associada com a permanência das mulheres em seus lugares “próprios e naturais”.
Mas, esta “estabilidade” não é a estabilidade da sociedade, mas sim, da hierarquia e, portanto, da autoridade. O feminismo islâmico, como discutido antes, não está em busca da hierarquia com as mulheres no seu topo, ao contrário, está em busca de uma estrutura social igualitária em que caráter, bom trabalho e piedade – não gênero – sejam os fatores decisivos da autoridade social. Ademais, como Khaled Abou el Fadiargumentou em sua exposição na conferncia de Santa Barbara, cada ser humano tem direito a uma autoridade moral que não pode ser realizada se é proibido de ter uma vida plena. O argumento hierárquico é que as mulheres teriam uma “vida plena” somente se aceitassem seu “lugar natural”, mas esse argumento omite a definição, e portanto as necessidades, o talento e as aspirações (que tanto podem ser tornar-se uma astronauta ou uma mãe de 10 crianças) das próprias mulheres. Uma “vida plena” não pode ser definida para elas.
Numa certa época da História islâmica não foi incomum ver mulheres muçulmanas instruídas ou devotadas, e a presença dessas mulheres não significava, necessariamente, que elas concordassem com os papeis das mulheres, assim como não concordamos hoje, mas sua existência criou uma teologia mais equilibrada e acessível, com elevado grau de credibilidade. Através da recuperação dessa história, as mulheres encontram sua base e suporte num discurso feminino islâmico.
Ademais, as lutas com foco nas mulheres não impactam somente nelas, mas na sociedade como um todo, e esta é a arena na qual os maiores abusos da teologia islâmica são mais evidentes. O autoritarismo do Islã puritano, que fez surgirem movimentos como o Talibã, definiu como sua missão especial controlar totalmente as mulheres, como vimos (acontecer) com Malala Yousafzai, que foi baleada por promover a educação de todas as crianças, especialmente meninas. As mesmas estruturas e princípios nucleares utilizados para oprimir as mulheres, são utilizados para promover o terrorismo e o ódio em nome do Islã. Dessa forma, o bem que advém de combater e desafiar esses estruturas vai muito além das mulheres.

O impulso para o igualitarismo inclusivo
Algumas pessoas, como a organizadora da Conferência da Universidade da Califórnia, Samaneh Oladi, intuem que o ressurgimento das mulheres nos campos da história e da teologia islâmica acontece naturalmente, como um movimento de bases, no qual as próprias mulheres são os agentes da mudança.
Nesses movimentos de base, veem-se mulheres trabalhando nas comunidades e em contextos institucionais e sociais que utilizam a religião, mais do que uma compreensão secular de direitos humanos, como sua diretiva pela mudança. Aos poucos, isto vai mudando social e demograficamente, e cria o que é, na essência, a escada para um envolvimento teológico maior. Mas esta mudança também está acontecendo na política, como Margot Badran me explicou, uma vez que os Estados podem desempenhar um papel na articulação da transmissão, pelas mulheres, da sabedoria islâmica.
Para usar o exemplo dela, no inicio dos anos 60, quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser forçou al-Azhar, a primeira universidade islâmica, a aceitar mulheres, foi um esforço para “dispersar” a instituição (torna-la mais secular, juntamente com outros esforços no mesmo sentido) e “abrir um racha” pela aceitação de mulheres, mas, ao revés, criou uma oportunidade para que mulheres tivessem acesso a formas tradicionais de instrução islâmica que acabaram por levar as mulheres estudantes à universidade. Da mesma forma, com a queda gradual dos regimes autoritários em alguns países de maioria muçulmana, as mulheres estão voltando para a escola e desafiando o discurso que as oprimia. Isto faz surgirem organizações, legislação e esforços internacionais para libertar as mulheres da opressão através da educação, dos serviços de saúde e de ajuda econômica. No Ocidente, em Estados que não podem calar a autoridade religiosa feminina, mulheres envolvidas em vários esforços – desde a criação de abrigos para muçulmanas, como Muslimat al-Nisa em Nova Iorque, até o apoio a imans femininos – encontram oposição social e institucional, mas prosseguem no mesmo padrão de empregar os textos e a tradição teológica islâmica para rebater argumentos baseados na religião de que as mulheres devam ser, em qualquer via possível, subordinadas aos homens.
Evidente que as realidades do que é o “feminismo islâmico” e como ele é vivido são muito complexas, e é como devem ser. A realidade do feminismo islâmico como um movimento global, no qual as mulheres voltam-se ao Corão e as tradições proféticas para defender que as mulheres são seres humanos por inteiro e iguais aos seus parceiros masculinos. Como elas se expressam e até onde isso as levará dependerá das mulheres em seus contextos específicos.
Assim como se dá com as teorias feministas seculares, o que funciona para as muçulmanas do Sul da Califórnia, pode não funcionar no Afeganistão rural, e nem este, nem aquele há de ditar “feminismo” ao outro. O feminismo islâmico é um processo em desenvolvimento, no qual partimos do direito à vida e à autoridade moral e pessoal para irmos além. Podem haver algumas que se auto-intitulam “feministas islâmicas” e insistem na restruturação da hierarquia com as mulheres – em vez de com os homens – no topo, mas estas são minoria. Aliás, a hierarquia é intrinsecamente injusta e reestrutura-se melhor num igualitarismo inclusivo, que inclua não só as mulheres, mas todos os seres humanos invisíveis ou deixados de fora dos lugares islâmicos tradicionais.
Não precisamos de uma nova palavra para substituir “feminismo”, a fim de evitar a dificuldade automática que advém de estereótipos populares, do mesmo modo que seria igualmente incorreto buscar uma nova palavra para “muçulmano”; de preferência, permitamos-nos alcançar uma compreensão mais aberta e ampla do que é o feminismo islâmico, quem o constrói e o estrutura, e dos caminhos diversos e complexos percorridos, não apenas em benefício das próprias mulheres, mas de toda a humanidade.
Seja de forma orgânica ou política, ou por quaisquer outros meios, as mulheres estão reclamando seus espaços no discurso islâmico e mudando sua realidade, talvez através de uma tradição de contar histórias há muito estabelecida, ou mesmo criando mesquitas inclusivas, e algumas pelo retorno ao começo, o próprio Corão. No futuro, talvez o feminismo islâmico se depare com instituições sociais mais fortalecidas, além de recursos que apoiem as mulheres e o fim de desculpas esfarrapadas, mas, sobretudo, talvez vejamos o renascimento da sabedoria acadêmica feminina (que nunca foi totalmente destruída) no Islã, que una o texto à tradição, para continuamente buscar a justiça ao lado, e não acima, de nossos companheiros homens. Se este é o rumo para o qual estamos indo, então o futuro é claro também.
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Rachelle Fawcett está completando seu Mestrado* em Estudos Islâmicos no Seminário Hartford, viveu no Iêmen e no Egito, e escreve, fala e faz apresentações sobre o feminismo islâmico, competência (trans)cultural, pluralismo e teologia crítica.
* No texto original, MA, sigla que significa, literalmente, “Mestre em Artes”. A expressão nada tem a ver com “artes” em sentido estrito. No sistema educacional anglo-americano, um diploma em “artes” significa que o aluno está focado numa ampla area de aprendizado e discussão, ao passo que um diploma em “ciência” implica numa compreensão profunda e técnica da matéria estudada.
Simone Andrea é autora de “Direitos da Filha e Direitos Fundamentais da Mulher” (Ed. Juruá) e escreve no blog Simone Andrea.

domingo, 21 de abril de 2013

Diário de Viagem - TURQUIA – 9° dia – Excursão pelo Bósforo

Depois de passar alguns dias acordando inumanamente cedo e tendo que fazer as malas todo dia de manhã, finalmente acordamos num horário razoável, programados para sair às 8h da manhã numa excursão de um dia pelo Bósforo.

Como em todas as excursões, primeiro o guia faz diversas paradas em diversos hotéis para pegar todos os turistas participantes, e enquanto fazia isso ele aproveitou para falar sobre a vida dos sultões na época do Império Otomano.

A nossa primeira parada seria, na verdade, o Bazar das Especiarias, conhecido também como Bazar Egípcio, que é menor do que o Grande Bazar, e, adivinha, é especializado em especiarias e artigos relacionados (perfumes, essências, temperos, comidas em geral e, claro, quinquilharias). O Bazar foi construído do lado da Mesquita Nova, e data do século XVII, e ganhou o nome Egípcio porque foi construído com receitas vindas do Egito. Ali vale à pena visitar a parte de dentro do Bazar, que é linda, extremamente colorida e com um cheiro estonteante (de bom!!!), porém, se a sua idéia é fazer compras por um bom preço, faça-as do lado de fora, onde tudo é mais barato, e mais confuso também, com alguma probabilidade dos vendedores só falarem turco.

bancada "básica" de chás
As lojas são dividas meio que por temas, tem lojas só de doces, outras só de ervas e chás, outras só de temperos. Acabamos por visitar algumas, comprando uma quantidade absurda de chá (tenho chá para alguns anos em casa agora), algumas castanhas, doces e essências (adoro um cheirinho). A loja de essências que visitamos também vendia chás, o que facilitou muito o regateio final com o vendedor. Aliás, aquela loja foi uma visita à parte, pois ficamos muito tempo batendo papo com o vendedor, que era muito simpático, e dava para ver como ele suava frio quando percebeu que eu é que estava negociando. Ah, sim, na Turquia na maioria das vezes a mulher escolhe o que ela quer levar e depois o marido se encarrega de negociar o preço (isso acontece tanto com os turcos quanto com os estrangeiros), mas nesse caso o vendedor já conta com a venda, pois a mulher já decidiu o que ela quer. Só que não era esse o caso, e o vendedor ficou para morrer, e passou toda a negociação dizendo para o meu marido que ele tinha muita sorte comigo. Fica a dica, mulheres, negociem vocês mesmas! Só não se esqueçam de duas regras: se você aceitar levar alguma coisa, depois não pode desistir, eles ficam extremamente ofendidos. Se você disser que não quer levar, também é complicado mudar de idéia, eles não abaixam o preço se perceberem que você está só fazendo charme. O lance é manter o “poker face”.

prateleira de essências da tal loja onde ficamos muito tempo batendo papo
Depois de passar uma hora e meia nesse império dos sentidos, pegamos novamente o ônibus para atravessar a rua. É sério. Aparentemente o guia não podia atravessar a rua com o grupo inteiro. Do outro lado da rua ficava a marina, onde pegamos um barco para passear pelo Bósforo, uma excursão de mais uma hora e meia fazendo um ziguezague e vendo todos os pontos importantes desde o Chifre de Ouro. Acho que nesse ponto demos um certo azar com o nosso guia, que apesar de conhecer bem todos os pontos que chamavam atenção nas margens do Bósforo, às vezes mais parecia um corretor de imóveis. Era “casa de 1,5 milhão” pra cá, “casa de 3 milhões” pra lá... entremeadas de informações realmente interessantes, como a escola onde estudou o Ataturk, ruínas de uma fortaleza, casa onde atualmente fica a boate mais badalada da cidade e palácios importantes do governo e do Império Otomano. A mini-viagem em si é muito linda, as casas e a vista são desbundantes e valem muito a pena o passeio. Além de ser muito agradável, naquele calor forte de verão, um belo passeio de barco, com um bom vento refrescante. Falando em refrescante, outro ponto negativo é que no barco são oferecidas diversas bebidas, mas esquecem de te avisar que elas não são de graça.

A vista do passeio é deslembrante!
Depois do passeio, saltamos do lado europeu da cidade para almoçar num restaurante especializado em peixes, e peixes tivemos no almoço! Primeiro serviram diversas entradas: uma espécie de sardinha servida em forma de filés, arroz com mexilhão servido em conchas (como a nossa casquinha de siri), uma salada de frutos de mar, outra salada (essa mais “normal”, de pepino e tomate), mais uma salada de batatas com iogurte e especiarias e pão. Depois vieram outros tipos de comida quente, especialmente frituras: um tipo de pastel, uma coisa esquisita feita de batata, abobrinha frita e um feixe que parecia dourado, servido inteiro e grelhado. De sobremesa foi servido melancia. Claro que aproveitei para beber mais ayran, a bebida nacional turca, feita de iogurte salgado.

Depois do almoço, voltamos a pegar o ônibus e atravessamos para a parte asiática da cidade, para visitarmos o palácio de veraneio do sultão, chamado de Palácio Beylerbeyi. Claro que esse palácio é considerado pequeno, afinal ele é de veraneio, mas ainda é um palácio do sultão, e, portanto, ele tem “apenas” 24 quartos e salões, e apenas 6 banheiros, o que é uma grande vantagem com relação a qualquer palácio europeu, que nem banheiro tem, né? Os orientais sempre foram mais preocupados com a higiene. Um detalhe interessante sobre esse palácio é que ele não possui cozinha, porque o palácio original pegou fogo justamente na cozinha, e a sultana decidiu que não queria mais correr o risco.

única foto que consegui tirar dentro do palácio antes de ser repreendida
Infelizmente não é permitido tirar fotos dentro do palácio, mas ele segue um estilo bem mais moderno do que o Topkapi, com muito ouro, muitos detalhes e pinturas em estilo ocidental nas paredes. De uma forma geral, esse palácio é bem modernoso e ocidentalizado, já que ele foi construído em torno de 1860. E a visita vale a pena não só do ponto de vista arquitetônico, mas porque o palácio é praticamente um museu, recheado de objetos e mobiliário do mundo inteiro. Um detalhe importante sobre a visita: para entrar no Beylerbeyi é preciso estar acompanhado de um guia, e os horários de visita são extremamente restritos, praticamente com hora marcada, entrando apenas um número limitado de pessoas por vez, e um grupo só pode entrar depois que o grupo anterior tiver saído. Portanto, quem quiser visitar o palácio sozinho, tome cuidado e se prepare para ficar algum tempo passeando pelo jardim, esperando a sua vez para entrar. Mas não se desespere, o jardim é um passeio à parte, e é muito bonito também.

O jardim é muito agradável, e tem uma vista linda também
Depois do Palácio, a excursão nos levou a um lugar conhecido como Colina dos Namorados, que nada mais é do que um bistrô com uma vista muito bonita de Istambul. Em outras palavras, foi uma enxeção de lingüiça com vista, pois ficamos muito mais tempo do que o razoável por lá. Eu e o Caike aproveitamos para tomar um chá, eu pedi um quente e ele um frio.

vista da Colina dos Namorados
Voltando do tour, saltamos do ônibus na praça Taksim, pois queríamos aproveitar para trocar nossos euros por liras turcas, o que é muito fácil de fazer nessa região, que é cheia de casas de câmbio.

rotatória da Praça Taksim
Depois demos uma passada no nosso hotel para um pit-stop, e acabamos por encontrar o casal paulista simpático que nos acompanhou durante boa parte da viagem, e novamente trocamos impressões sobre o tour do Bósforo, onde concordamos que valia a pena, mas que podia ser melhor, especialmente se tivéssemos outro guia mais simpático e menos estilo corretor de imóveis.

Como já estava tarde para fazer um passeio distante, resolvemos passear pela rua mais famosa do bairro Taksim, que é uma espécie de “calçadão”, onde se encontram todos os tipos de loja que você pode imaginar, numa espécie de Saara de Istambul, só que muito mais chique e limpo, com direito a muitos barzinhos e restaurantes no meio do caminho. Além de muitas lojas de marca! Claro que eu aproveitei para fazer compras, porque não sou de ferro.

as lojas antigas são belíssimas por dentro!
Mas o passeio é interessante de uma forma não-consumista também, pois nessa rua passa um bonde daqueles antigos, de trilho e todo aberto, que nesse dia (provavelmente por conta do Ramadã) estava com convidados especiais: uma banda pop tocando ao vivo! As lojas são todas muito bonitas, e algumas ficam em prédios bem antigos, que vale a pena entrar só para dar uma olhada. E claro, tem o tradicional sorvete turco! Essa é uma atração à parte! Mesmo que você não goste de sorvete, compre um, porque é uma aventura! O vendedor de sorvete é um malabarista, e a graça dos seus truques é justamente sacanear o comprador, que tenta em vão ficar com o seu sorvete nas mãos. Como era Ramadã, quando chegamos ao vendedor de sorvete, a loja estava absolutamente vazia, pois ainda era dia, e, portanto, os turistas estavam evitando comer em público, já que a maior parte dos turcos é muçulmana, e por isso estavam jejuando até o pôr do sol. Só que estávamos com fome, e faltava muito pouco tempo para a noite cair, e decidimos pedir o tal sorvete (que por sinal também é muito gostoso), e o vendedor fez um show tão bonito que logo depois a fila para comprar sorvete ficou lotada.

o simpático bonde de Istambul
Também passeamos por um shopping imenso em busca de uma loja de eletrônicos indicada pelo casal paulista, que não nos agradou muito, porém quando estávamos saindo do shopping nos deparamos com um show de dervixes na porta! O Ramadã realmente é uma época interessante! Acabamos por jantar numa espécie de fast food de massas, que além de não ser fast, não era muito gostoso. Mas ficava ao lado de uma loja de chocolates que foi uma perdição!

O "calçadão" de Taksim a noite, completamente iluminado!
Já cansados e carregados de compras, finalmente voltamos ao hotel para dormir, pois o dia seguinte prometia ser muito mais animado e cansativo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Livro do Mês: Contos marroquinos modernos



Até agora falamos de livros de autores consagrados ou clássicos, então resolvi dar uma variada nas sugestões e propor uma leitura realmente diferente, alternativa e extremamente oriental!



Contos Marroquinos Modernos é uma coletânea publicada pela Editora Amádena especializada em literatura e cultura árabe (na teoria, na prática eles têm pouquíssimos livros publicados), e contem diversos contos bem curtos e de fácil leitura. As histórias ilustram o dia a dia do povo marroquino, e tendem a denunciar os problemas sociais do país, especialmente a miséria reinante e o sentimento de invasão estrangeira, que é onipresente. Cada autor selecionado para o livro tem apenas um conto publicado, e cada um deles tem um estilo bastante particular, o que torna a leitura dinâmica e mostra bem a diversidade literária desse país que conhecemos tão pouco.

Sem negar a sua origem oriental, os contos variam desde histórias bem realistas até contos extremamente surreais, mas tudo com aquele toque especial que só a literatura oriental possui. Confesso que não gostei de tudo o que li, e o livro tem os seus altos e baixos, mas sem dúvida nenhuma vale a leitura, e a oportunidade de conhecer um pouquinho mais sobre esse país tão fascinante.

Vocês podem ler outra resenha que fiz desse livro aqui.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

As Dançarinas do Futuro Somos Nós - O que Isadora Duncan doou para o mundo da dança


Texto de Paola Blanton

Isadora Duncan

Isadora Duncan, a mãe da dança contemporânea, foi uma mulher pioneira, americana e de espírito livre, uma artista de alma e um ser à frente de seu tempo. Em sua curta vida, de 1877 a 1927, ela revolucionou a dança durante uma época em que a moralidade e a estética vitoriana deixavam pouco espaço para as artes do movimento além do balé, da dança de salão, ou das montagens ordinárias de “Vaudeville” nas Feiras do Estado ou teatros urbanos.

Ela tinha uma visão ousada de uma nova dança e de uma nova mulher - a dança e a dançarina do Futuro. Ela escreveu que a "Dança do Futuro" teria que recuperar seu lugar como uma forma de arte sacra, do jeito que era para com os gregos antigos. A dançarina não dança para surpreender, mas para aumentar a consciência e agir como um canal de energias universais. Em muitos aspectos, a motivação para a dança voltaria às suas raízes antigas - a comunhão sagrada do corpo, da mente, do espírito e da comunidade. Só que agora, a comunidade virou a humanidade inteira em seu contexto cósmico.

A "Dançarina do Futuro", de acordo com Isadora, seria

 "uma em que corpo e a alma têm crescido tão harmoniosamente, que a linguagem natural da alma se tornará o movimento do corpo. A dançarina não pertence a nenhuma nação, mas a toda humanidade. Ela vai dançar não na forma de ninfa, nem de fada, nem coquete, mas em forma de mulher na sua expressão maior e mais pura. Ela vai perceber a missão do corpo feminino e da santidade de suas partes. Ela vai dançar os ciclos da natureza.... De todas as partes de seu corpo vai brilhar uma inteligência radiante, trazendo para o mundo a mensagem dos pensamentos e aspirações de milhares de mulheres. Ela vai dançar a liberdade da mulher " - De seu Magnus opus, A Arte da Dança.


Nos escritos de Duncan, encontramos referências freqüentes ao "futuro", e como será a dança e dançarina do futuro. Isadora foi uma profetisa, sabendo que a liberdade do corpo, da mente e do espírito que ela personificou ainda não tinham encontrado o seu melhor momento histórico, mas que chegaria um momento no futuro, quando a Mulher Moderna estaria pronta para a sua mensagem, e o espaço para a dança do futuro se abrir. Eu acredito que esse tempo é agora.

Qual é a mensagem de Isadora Duncan para dançarinas modernas dentro desta visão da dançarina do futuro? Quais descobertas fez esta artista revolucionária e feminista para preparar a cena da dança para que ela pudesse evoluir como uma forma de arte sagrada e universal? Para isso ela nos traz uma riqueza de abordagem para a arte da dança - transformacional na motivação, na inspiração e na técnica de expressão.

Sim, a expressão pode ser ensinada e aprendida, - "Ou você tem ou você não tem" -  não é necessariamente inata como muitos afirmam. Duncan revelou uma metodologia de expressão que se tornou essencial para diversas formas de dança moderna e de artes cênicas – não há literalmente nenhuma arte expressiva que não pode ser melhorada através da aplicação desta técnica. Centra-se na articulação seqüencial de motivação - envolvendo primeiro os olhos, ou a percepção inteligente de estímulos. Em segundo lugar vem o plexo solar, ou a intenção emocional, e em terceiro lugar, o gesto real do corpo. Um grande exemplo é o ato de se apaixonar. Nós "vemos" o amado primeiro (quantas vezes nós dizemos "amor à primeira vista"?). Depois de ver a pessoa, nosso coração se mexe e estamos emocionalmente atraídos por eles – lançando a luz do nosso plexo solar e coração em sua direção. E em terceiro lugar vem o nosso gesto, se andamos na direção deles, estendemos nossas mãos, ou abrimos os braços. A seqüência de expressão faz sentido em muitos níveis, porque é natural e segue a ordem natural das coisas, que é o que Isadora reverenciava em suas filosofias de dança e de vida.

A natureza foi sua primeira musa. Ela estudou as linhas, formas e movimentos dos elementos e do universo, localizando o corpo humano como figura central na grande cena do Universo natural. Ela escreveu (AOTD):

 "Se procurarmos a verdadeira fonte da dança, se formos à natureza, vemos que a dança do futuro é a dança do passado, a dança da eternidade, e tem sido e será sempre a mesma. O movimento das ondas, dos ventos, da terra é sempre a mesma harmonia duradoura. Nós não ficamos na praia perguntando ao oceano qual foi o movimento no passado e qual será o seu movimento no futuro ..."

Como cada um de nós é parte do universo, estamos sujeitos às mesmas leis do movimento e gravitação que o governam, Isadora imaginou nossa dança como uma "tradução humana da gravitação do universo."

Cada movimento propaga o próximo em ciclos intermináveis de movimento, como as ondas, os ventos, átomos e galáxias.

Agora, mais do que nunca, estamos redescobrindo a sacralidade da Mãe Terra e nos re-conectando com seus ritmos em nossa espiritualidade. Filosofias e práticas ecos-feministas estão entrando no centro do palco da cultura do mundo e as mulheres estão se re-conectando com o seu destino como sacerdotisas do mundo natural. Nós trazemos a dança para as praias, montanhas e desertos, em conexão com as correntes da Terra e do Céu através de seus ritmos, formas e movimentos. Quando dançamos em sintonia com a natureza, nos abrimos para suas inúmeras belezas - respiramos ar puro, levantamos o rosto para o sol como flores, balançamos com as ondas e árvores, e caímos para a Terra na poesia em forma e repouso. "Como em cima, assim é embaixo" - o antigo decreto soa mais verdadeiro do que nunca, e nós, as Dançarinas do Futuro, pisamos descalças na terra e levantamos nossos braços e espíritos para as alturas do Universo, as linhas de nossos corpos transmitindo energias universais em ciclos intermináveis.

Como disse Isadora, a mulher deve ser um "elo da cadeia, e seu movimento deve ser um com o grande movimento que atravessa o universo."

Ela destilou a nobreza da linha de corpo grego clássico, tornado famoso na escultura e na pintura, e aplicou sua qualidade universal para o corpo da mulher moderna - descontraído, natural e equilibrado; suas formas e linhas canalizando uma força maior do que a si mesma. Em AOTD, ela descreveu sua fascinação com a estética grega humanista e sua conexão com a natureza:

 "Os gregos em todas suas (artes) evoluíram seus movimentos a partir dos movimentos da natureza, como claramente se expressam em todas as representações dos deuses gregos, que, sendo representantes das forças naturais, são sempre projetados em uma pose que expressa a concentração e evolução dessas forças. É por isso que a arte grega não é nacional ou característica, mas tem sido e será a arte de toda a humanidade de todos os tempos. Portanto, dançando nua sobre a terra, eu naturalmente caio em posições gregas, porque as posições gregas são apenas posições da terra."

Não em desafio da lei natural, como ela viu no balé, que se esforça para superar a atração gravitacional da Terra, e que localizou o centro da dançarina na região lombar. Tinha que haver outro centro, outra fonte da qual emana o movimento verdadeiro. Seus instintos a levaram buscando esta fonte, e ela a encontrou no meio do peito.

Isadora Duncan foi a primeira dançarina a identificar o plexo solar como a fonte de todo movimento expressivo. Ela escreveu em AOTD:

 "... Eu passei longos dias e noites no estúdio buscando a dança que podia ser a expressão divina do espírito humano por meio do movimento do corpo. Ficava por horas com minhas duas mãos cruzadas entre os meus seios, cobrindo o plexo solar... eu estava buscando e, finalmente, descobri o motor central de todo o movimento, a cratera de potência, a unidade a partir da qual todas as diversidades de movimento nascem, o espelho da visão para a criação da dança."



O plexo solar é a sede da intenção emocional - o cruzamento dos eixos do corpo a partir do qual emanam os servos expressivos do coração - os braços. Suas descobertas em relação ao plexo solar enriqueceram cada forma de dança, abrindo a porta do desenvolvimento para dançarinas famosas como Martha Graham. Presença, postura, expressão, equilíbrio, dinâmica, alcance, e linhas emanam todos de um plexo ativado. Sua dinâmica harmoniza perfeitamente com a expansão e contração do diafragma na respiração, alinhando o movimento automático da respiração com a técnica de expressão.

Descobrir e ativar o plexo solar é tocar uma nova fonte de energia emotiva pessoal, com o coração e o plexo solar juntos formando uma esfera energética sentada em cima do diafragma. O plexo solar irradia coragem, efervescência, alegria e desejo. Expandir sua luz para o externo é projetar essas emoções, enquanto contraí-la para dentro é a expressão de solidão, introspecção, perda, dor e tristeza. Através do trabalho com o plexo solar, ganhamos acesso mais completo a vasta gama de emoções humanas, e  começamos a sentir que a sua expressão tem profundas qualidades terapêuticas. Quando movimentamos o corpo, movimentamos a alma, e ambos podem se curar através deste movimento. Aprender a liberar, dirigir e transformar as energias emocionais armazenadas no plexo solar são passos notáveis sobre os caminhos do autoconhecimento que as mulheres modernas procuram hoje. É o "Sol" interno que resplandece o seu brilho radiante, iluminando cada parte do corpo da dançarina do futuro.

Com tantas visões e sonhos no alvorecer da era moderna, a dançarina do futuro se tornou uma realidade. Cada vez mais estamos vendo qualidades espirituais retornando para a dança. Cada vez mais estamos nos tornando conscientes de que existem motivos mais elevados para esta forma de arte, motivos mais universais e humanistas. A dançarina do futuro falou através de Isadora e de suas contemporâneas como Ruth St. Denis, que escreveu que vai chegar um dia em que "vamos dançar para curar e abençoar" em vez de apenas "surpreender".


Com toda a generosidade, a dança de Isadora Duncan traz para a comunidade da dança moderna a técnica expressiva, o alinhamento com a Natureza e suas forças, e o poder do plexo solar, eu acho que o dom mais importante que ela nos deu é uma nova motivação para a dança. Um novo motivo para dançar, que é muito parecido com os motivos antigos dos nossos antepassados - para a comunidade, para a conexão com as forças naturais, para liberar o Eu em favor de um Eu mais nobre, para invocar novas realidades e para alcançar algo maior e superior a nós mesmos. Isadora falou da evolução das motivações para a dança no AOTD:

"Há três tipos de dançarinos: primeiro, aqueles que consideram a dança como uma espécie de ginástica, composta de arabescos impessoais e graciosos, em segundo lugar, aqueles que, ao concentrar suas mentes, levam o corpo ao ritmo de uma emoção desejada, expressando um sentimento ou experiência lembrada. E, finalmente, há aqueles que convertem o corpo em uma fluidez luminosa, entregando-o para a inspiração da alma."

A dançarina do futuro vive dentro dessa fluidez luminosa. Esse é o elixir alquímico que a dança pode e deve procurar - além do ego, figurino, maquiagem e palco. Além de musicalidade, coreografia e performance. Estes são todos ingredientes na mistura, mas o elixir vem do processo e da vivência, dos rituais e cerimônias da Dança do Futuro, da eventual mudança de atitude sobre a dança e da realização de fins mais elevados para ela. Dançar se tornou uma busca de iluminação.

"Ouça a música com a sua alma", ela nos diz. "Você não sente que está se movendo em direção à luz?"

Enxergar a dança dessa forma é ver o Eu mesmo como um trabalho em progresso – uma ânfora sempre em evolução na sua capacidade de atrair, transmitir e repousar nesta fluidez luminosa.

"Imagine então uma dançarina que, após longo estudo, oração e inspiração alcançou um grau de entendimento em que seu corpo é simplesmente a manifestação luminosa da sua alma; cujo corpo dança de acordo com uma música ouvida interiormente, em uma expressão de .... um outro mundo, mais profundo. Esta é a bailarina verdadeiramente criativa, natural mas não imitativa, se expressando em si mesma e em algo maior do que todos os seres."

Se conectar a algo maior do que nós mesmos - a Dança do Futuro é a dança do passado e de todos os tempos. Seu ciclo veio redondo e eu posso vê-lo - Eu nos vejo dançando unidos no espírito da beleza universal - natural, cada um de nós "bastante digno" para participar. Eu posso ver a dança da alma como uma forma de curar nós mesmos, nossas tribos, nossas comunidades e nosso planeta. Eu posso sentir a competitividade substituída por uma alegria compartilhada, e eu posso sentir que o ego pode dar lugar ao sentimento oceânico de conexão enquanto abrimos nossos canais para os ritmos do universo. O futuro está aqui, e nós somos as Dançarinas do Futuro.



terça-feira, 9 de abril de 2013

Ventre da Dança de cara nova!

Depois de muito tempo querendo dar uma arrumada na casa, finalmente consegui! Agora o Ventre da Dança não só está de cara nova, mas também tem a sua própria logo-marca! Por favor comente deixando a  sua impressão sobre o nosso novo look!

E o mais importante, vamos continuar trabalhando para oferecer textos de alto nível! Aguardem as novidades do Kisses from Kairo, outras traduções sobre o Iraque, textos sobre a Turquia, Sufismo,  Bailarinas antigas, Isadora Duncan e sugestões de leitura!

Um grande abraço,

Lalitha

sexta-feira, 22 de março de 2013

Kisses from Kairo - Ai do Egito

Segunda-feira, 2  de julho de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   


Eu teria feito esse post na semana passada, mas tenho estado enlouquecidamente ocupada. E peço desculpas com antecedência, porque não vou deixar de falar de tabus. Se você tem algum, não leia.

Sinto como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Só que esse pesadelo continua enquanto estou acordada. Islamitas venceram as eleições para a presidência do Egito honestamente. E isso depois de ganharem 70% do (agora dissolvido) parlamento. Sem querer dar uma de chata, mas eu bem que avisei.

Bem antes dessa dita revolução, eu sabia que os fanáticos religiosos eventualmente chegariam ao poder. Era apenas uma questão de tempo. Acho que o fato de ter estudado sobre o Oriente Médio em Harvard é o responsável pela minha previsão política. Mas, sinceramente, qualquer um com meio neurônio podia ter chegado à mesma conclusão. Os sinais estavam muito claros. O Egito estava no ponto certo para a islamização já há algum tempo. Só tínhamos que reparar no número crescente de mulheres usando véu e homens de barba, no analfabetismo, na pobreza e no desemprego pandêmicos para chegar a essa conclusão. Se essa não é a receita perfeita para um governo islâmico, eu não sei qual seria.

Nada disso estaria acontecendo se não fosse pela recém descoberta “democracia” do Egito. Com isso em mente, me sinto com vontade de ser politicamente incorreta. Beirando o limite do ofensivo. Tenho vontade de fazer você reavaliar os seus conceitos mais queridos sobre democracia, direitos humanos, religião, violência, e mais do que tudo, essa imerecidamente chamada de sagrada “revolução”.

E aqui vai...

Fanáticos religiosos com aspirações políticas devem ficar atrás das grades, e não num governo. A razão não é necessariamente que eles tenham cometido crimes (apesar de ser verdade em muitos casos). É porque a ideologia islamita é por si só criminosa. Ao lado do nazismo. Mesmo que seja religiosa, ao invés de racial, o Islamismo ensina uma supremacia que é perigosa para a humanidade. Ele ensina que a forma Islâmica de governar é a única forma de se obter justiça e prosperidade, e que ela deve ser alcançada a qualquer custo. E aqueles que são contra – tanto não-muçulmanos quanto muçulmanos, são infiéis e que devem ser tratados como tal.

Assim como no nazismo, o principal objetivo do Islamismo é a dominação mundial. Atingida não apenas matando-se os infiéis (o equivalente às raças não-arianas no nazismo), mas através da constituição do califado, e é claro, da conversão. É por isso que uma interpretação tão patológica da religião traz riscos para as minorias, os muçulmanos liberais, mulheres, crianças, e os pobres. Realmente, com a exceção da Turquia (que, desculpem, não é islamita de verdade), em todos os lugares onde eles chegaram ao poder, os islamitas começaram a cortar publicamente as cabeças e as mãos das pessoas, apedrejar mulheres que cometem “crimes” sexuais, patrocinar atentados terroristas ao redor do mundo, perseguir minorias religiosas e sexuais, destruir locais considerados patrimônios da humanidade que não sejam Islâmicos. Isso é muito pior do que Mubarak, sem dúvida.

É por isso que precisamos perguntar a nós mesmos: o mundo realmente precisa de um Egito islamita? Além da Arábia Saudita, Irã, Paquistão, Afeganistão, Iraque, Nigéria, e agora Tunísia e Líbia?

Eu acho que não... a não ser que você seja um animal zangado, cabeludo, que odeia mulheres, homofóbico e sádico que gosta de ver os outros sofrerem. Ou uma mulher que sofreu de uma séria lavagem cerebral. Ou então, que você seja um liberal promotor da democracia, que não sabe nada de democracia nem no seu próprio país. :) Dado que você não pertence a nenhuma dessas categorias, eu acho que você vai concordar que é mais sábio e preferível aplicar a justiça contra esses meliantes, do que dar a eles uma outra chance de provar o quão vis eles são.

Espera. Você quer argumentar que a Irmandade Muçulmana é composta por indivíduos bem educados que estão mais interessados em ganhar dinheiro do que em qualquer outra coisa. E daí? Educação e fanatismo religioso não são mutuamente excludentes. Só porque alguém é engenheiro não quer dizer que ele não queira destruir as suas liberdades ou impor castigos corporais.

Falando de educação, eu acho que vale notar que os islamitas são exclusivamente educados em ciências exatas, como física, engenharia ou medicina. Você nunca vai encontrar um fanático religioso com diploma em ciências humanas, como escrita criativa, ciência política, filosofia etc., disciplinas em que a) alguém deveria ter familiaridade antes de governar um país, b) promovem os direitos humanos e são anti-religiosas, com uma boa razão.

Mais importante, antes que se esqueça, é que a Irmandade Muçulmana foi exposta ao processo eleitoral. Eles perceberam que eles precisam parecer mais “moderados” para não assustar os eleitores. Isso se chama mentir. Se você não acredita em mim, é só ver como as posições da Irmandade foram, ah, “evoluindo” conforme foi chegando perto das eleições. Dê uma olhada nas tantas vezes em que eles mentiram sobre as suas intenções, mais notadamente sobre não querer dominar o Parlamento. Ah, e sobre não querer nomear um candidato à presidência.

Eu tenho mais respeito pelos Salafistas “linha dura”. Ao menos eles não mentem. Eles são diretos ao ponto e dizem que eles querem transformar esse lugar numa Arábia do séc.VII (ou uma Arábia moderna, dá no mesmo). Diferentemente de alguns Irmãos mais espertos politicamente, eles são estúpidos o suficiente para nos deixar saber contra o quê estamos lutando.

Por causa do histórico assustador dos islamitas ao redor do mundo, eu apoiei completamente a dissolução que os militares fizeram do Parlamento mês passado. Cara, eu estava até torcendo que eles manipulassem as eleições para que o secular Ahmed Shafiq ganhasse. Isso é tão antidemocrático da minha parte, você deve estar pensando. E você está certo. No Egito, eu não sou democrática. Contrariamente do que eu aprendi nas minhas aulas sobre direitos humanos lá em casa, eu NÃO acredito que todas as pessoas tenham direito a autodeterminação (N.T.: autodeterminação: direito de um grupo de pessoas em determinar se querem fazer parte do estado ou de um movimento), isto é, à democracia. Não quando há uma grande chance de que eles, em sua santa ignorância, coloquem fanáticos no poder.

Porque, veja, eleger um governo é uma grande responsabilidade. É algo que afeta a vida de milhares de pessoas dentro e fora das suas fronteiras. É por isso que não deveria ser cedida para patetas e idiotas. No Egito, onde mais da metade da população é analfabeta e quase todo o mundo é religioso, a autodeterminação leva os islamitas a chegar ao poder. Por que deveríamos permitir que uma população, na sua maioria sem educação, coloque esses criminosos no poder? Por que eles querem? Diabéticos querem açúcar e alcoólatras querem álcool, mas isso não significa que seja bom pra eles. Por que deveríamos permitir que uma população, que pode ser facilmente intimidada a votar em candidatos religiosos, possa determinar como o resto de nós deverá levar as nossas vidas? Por que, afinal de contas, é uma democracia, e isso é a coisa mais importante do mundo?

Então talvez seja a hora de acabar com a democracia...

Os liberais egípcios – você sabe, os responsáveis por toda essa bagunça – conseguiram inverter as suas prioridades. Ao invés de lutar por segurança e prosperidade, eles lutaram por democracia. GRANDE erro. Democracia não é o mesmo que essas coisas, nem as garante. Claro, existe uma alta correlação entre elas, mas não necessariamente uma conexão. Estabilidade e prosperidade são objetivos. Democracia é uma forma de atingir esses objetivos. Um processo.

Os liberais cometeram o erro de fazer da democracia o objetivo. Eles não conseguiram perceber que porque é um processo, ela pode trazer uma variedade de resultados. Em sociedades com população alfabetizada, um nível satisfatório de educação, e de secularismo, a democracia traz paz, prosperidade e estabilidade. Mas em sociedades com as chagas do analfabetismo e da religião, a democracia traz fanatismo religioso, conflitos civis, sectarismo, e um monte de outras mazelas que prefiro não mencionar.

Sabendo disso, porque diabos alguém gostaria de apoiar a democracia no Egito?!?

Ah, mas veja bem, a palavra chave aqui é sabendo. Para o detrimento da nação, os liberais egípcios não sabiam disso. Eles não sabem nada sobre democracia, e sabem muito menos ainda sobre a sua própria nação. Eles não sabem o quão profundamente religioso e sem educação é o Egito. Mas, sério, o que mais se poderia esperar? Eles não vivem no Egito, vivem no Facebook. Eles não falam árabe, falam arabinglês. Eles bebem e festejam em casas noturnas de estilo ocidental, e fazem compras no City Stars. Eles freqüentam escolas americanas. Pelo amor de Deus, EU sou mais egípcia do que eles!

Nunca vou me esquecer daquela despedida de solteira onde dancei no mês passado. As meninas que me contrataram eram ricas e super liberadas. Crème de la crème. Entre os pênis e bonecos de homens nus infláveis, tinha muita coisa para se admirar. Mas nada me espantou tanto quanto a garota egípcia que veio falar comigo depois do show e me perguntou em árabe, com um forte sotaque americano, se eu tinha visto a bolsa dela. Vendo o quão ruim era o seu árabe, eu disse a ela que falava inglês. Aliviada, ela começou a falar comigo num inglês impecável. Eu contei para ela que era americana, e não egípcia, mas que trabalhava como bailarina de dança do ventre aqui. Ela me disse que nasceu e foi criada no Egito, e que freqüenta a universidade americana.

A menina era simpática, mas dá para ver como esse tipo de pessoa pode ficar sem contato com a realidade? Dá para perceber o porquê que pessoas que vivem protegidas nos seus ninhos de elite não devem começar revoluções em nome de um povo com quem eles não têm nada em comum?

E se começar essa maldita revolução não fosse o suficiente, esses chamados liberais ainda cometeram outro erro grave: soltaram um monte de islamitas da cadeia. Eles achavam que essa seria uma boa forma de aumentar os seus aliados para intimidar ainda mais o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF em inglês) a abrir mão do poder. Eles também queriam tirar proveito da popularidade da Irmandade Muçulmana.

E foi assim que a revolução egípcia se transformou na revolução iraniana. Foi isso que colocou um ponto final na revolução egípcia e a tornou um pesadelo islamita. Não o SCAF.

Talvez o maior erro dos liberais depois de pedir por democracia tenha sido permitir que esses loucos pudessem se candidatar. Islamitas não são democratas. Eles são teocratas. Eles acreditam na imposição da Shariah, que vai contra as noções modernas dos direitos humanos (e sua legislação). Eles podem estar no jogo da democracia agora, mas o seu objetivo principal não tem nada a ver com democracia. E é por isso que eles deviam ter sido proibidos de participar das eleições em primeiro lugar.

O SCAF percebeu isso, mesmo que um tanto tarde.  Foi por isso que eles dissolveram o parlamento islamita pouco antes das eleições. E é por isso que eles estavam cogitando a possibilidade de entregar a presidência para Shafiq, apesar de, obviamente, isso não ter acontecido. Eles ficaram com medo. Os islamitas ameaçaram se envolver em atos de violência se Morsi não ganhasse as eleições! Na verdade mesmo, eles ficaram tão assustados que eles teriam dado a presidência ao Morsi mesmo que ele não tivesse ganhado, que é o que muita gente diz que aconteceu.

Isso se chama conciliação, e é perigoso. É o que alimentou a megalomania de Hitler, e é o que atualmente está encorajando os islamitas. O exército pode achar que está mantendo a paz dessa forma, mas o que ele não percebe é que está apenas postergando a violência. O derramamento de sangue é inevitável. Chegará um momento em que os fanáticos irão realmente enfurecer ou o exército ou o povo, e as coisas vão ficar feias. Feias de verdade. Nesse momento, já será tarde demais. Os islamitas terão consolidado o seu poder, acumulado muito mais armas, e aumentado os seus números. O Egito vai acabar igual à Síria.

Quanto mais o exército esperar, mais sangrentas as coisas vão ficar quando a merda começar a feder. É por isso que eles deviam ter entregado a presidência a Shafiq, mesmo que as coisas ficassem um pouco violentas. É como um relacionamento não saudável. Você sabe que o melhor pra você é terminar com ele, mas tudo o que você pode fazer é pensar é em quão doloroso será isso. Então, você fica no relacionamento, sem pensar em quão mais doloroso será terminar no futuro, quando vocês dois estiverem ainda mais envolvidos emocionalmente. No caso do Egito, não é a questão do exército e dos islamitas se aproximarem (apesar de que isso poderia acontecer à moda do Paquistão), mas sim dos islamitas ficarem mais apegados ao poder e às armas. É por isso que o exército deveria terminar esse relacionamento AGORA. Teria sido doloroso, mas também teria dado uma boa desculpa para se livrar de uma vez dos islamitas, colocando-os de volta na cadeia, prevenindo futuros desastres.

O que eu acho mais interessante é a reação dos egípcios a tudo isso. Por um lado, tem aqueles que estão voluntariamente e prematuramente se “saudificando”. Nem posso contar quantas mulheres estão agora utilizando roupas ninjas, e quantos homens deixaram suas barbas crescerem nos últimos meses. E agora que Morsi entrou no gabinete, eles estão começando a pressionar. Não tem nem duas semanas que Morsi “ganhou” a presidência, e as pessoas já estão abertamente fazendo pressão para que as mulheres se cubram e ajam de forma mais islâmica.

Por outro lado, tem os egípcios que votaram no Shafiq. A reação deles é muito intrigante. Os mesmos muçulmanos e cristãos que estavam morrendo de medo de uma vitória da Irmandade Muçulmana estão agora me chamando de maluca por pensar que algo ruim vai acontecer. Mas hein?!? Como assim? Como você passa de aterrorizado antes das eleições para totalmente à vontade depois? Por acaso você engoliu o discurso sobre tolerância e inclusão do Morsi? Ele tranquilizou os seus temores tão lógicos? Ou estão todos vocês inconscientemente transformando os seus medos em negação otimista porque seus espíritos cansados não aguentam mais a realidade? Vocês realmente acreditam que podem voltar à Praça Tahrir e se livrar da Irmandade da mesma forma que se livraram de Mubarak? Será que o seu excesso de confiança faraônico levou a melhor? Vocês não percebem que os islamitas têm talento para perdurar? E que a única forma de se livrar deles é fazer outro país como os EUA fisicamente expulsá-los? ...(depois de eles mesmos os terem colocado lá, é claro :D)

Eu não gosto de ficar apontando dedo, mas dessa vez eu vou apontar. E vou começar apontando o meu dedo para os tão chamados “liberais” que colocaram em risco o bem estar de toda uma nação.

Primeiramente, a grande maioria desses tão chamados “liberais” não merecem tal título. Não votar nem em Shafiq nem em Morsi não faz de vocês liberais. Faz de vocês uns idiotas. Apoiar os fanáticos porque eles são a sua única opção contra o “Mubarakismo” não faz de vocês liberais. Faz de vocês uns covardes. Salvar a “revolução” entregando o seu país para nazistas religiosos não faz de vocês liberais. Faz de vocês traidores. E vocês deveriam ser enforcados por causa disso. Mas o mais provável é que vocês façam as suas malas e fujam para a Amériiica, porque não querem deixar a barba crescer ou cobrirem o rosto. E porque vocês não querem se incomodar revidando. Vocês são bons demais para arrumarem a sua própria bagunça. Vocês são crianças mimadas e abastadas que estão acostumadas com os outros fazendo de tudo para vocês.

Segundo, não há revolução. Os “liberais” não começaram uma revolução. Eles apenas copiaram a Tunísia e depuseram o seu presidente. Macaco vê, macaco copia. Na verdade, nem isso eles fizeram. Foi o exército que deu o ultimato a Mubarak. Não porque o exército e o povo estivessem unidos, como no enganoso slogan, mas porque os generais não queriam o filho de Mubarak, Gamal, como o seu comandante. Eles não queriam um filhinho de papai que não tem respeito pelas forças armadas dando ordens para eles. Se o interesse do povo e das forças armadas não tivesse coincidido, esse lugar teria sucumbido a uma guerra civil. Os “liberais” precisam entender isso e parar de se vangloriarem pela queda de Mubarak.

Agora que eu tirei esse peso de mim, gostaria de terminar deixando uma coisa para pensar. Os egípcios parecem sofrer de algum tipo de complexo de inferioridade cultural. A elite copia o Ocidente com suas calças jeans, música Techno e “democracia”, enquanto o povão quer ser como os sauditas, com suas barbas e roupas ninja. Para o meu completo horror, essas duas partes se uniram e criaram um governo democraticamente eleito que vai rapidamente virar Saudita. A parte triste disso tudo é que é desnecessário. O Egito tem uma das culturas mais maravilhosas, lindas e ricas do mundo. Ela não é apelidada de “Um il-dunya”, Mãe do Mundo, sem motivo. Ela tem mais de 7 mil anos de história. Nem o Ocidente nem a Arábia Saudita chegam perto disso. Eu gostaria que os egípcios tivessem orgulho disso. Eu gostaria que eles parassem de procurar inspiração no exterior. No dia em que isso acontecer, aí sim nós poderemos dizer honestamente que houve uma revolução.


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Esse texto é de autoria exclusiva da Luna do Cairo e o Ventre da Dança não concorda com todas as colocações aqui expostas. O trabalho mostrado aqui é uma tradução direta do texto original.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Show Estrelas do Oriente



Nessa sexta grande festa das alunas do Asmahan!!! Com a participação especial das professoras Lalitha, Nadhirra e Noor Farag! Você não pode perder essa!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia da Mulher

E chegamos a mais um dia da mulher...

Fui reler o meu post do ano passado nesse dia, e fiquei muito triste ao descobrir que ele ainda é muito válido hoje, um ano depois. Se ele fosse verdadeiro apenas com relação à sociedade e à comunidade da dança do ventre (porque sei que essas coisas não mudam em um ano), eu já estaria satisfeita. Mas, acho que não consegui introduzir aqui no Ventre da Dança tudo o que eu queria naquele último dia 8 de março.

Espero ter mudado pelo menos um pouco o tom dos meus textos, e fico satisfeita que o assunto não tenha morrido, especialmente por conta das traduções que fiz desde então do Kisses from Kairo que tratavam do assunto mulher e violência, que é uma das razões de existir do dia de hoje (a outra consiste na concessão de direitos iguais aos do homem). Mas eu teria ficado mais feliz se eu tivesse conseguido escrever mais sobre o tema, o que eu sei que consegui fazer no meu outro blog (sobre livros).

Então, eu queria aproveitar esse dia para trazer para vocês um filme/livro que eu adoro trabalhar com as minhas alunas: Os Monólogos da Vagina.

Quem estuda comigo há muitos anos já deve ter visto o filme pelo menos duas vezes em aula, e eu não me canso de utilizá-lo e reutilizá-lo, porque as histórias são tão ricas e variadas, que a cada vez que se assiste temos uma nova percepção sobre algum assunto. Esqueçam a peça que foi apresentada há alguns (muitos) anos no Brasil, porque aquilo era apenas uma sombra do texto original, e focava na parte cômica e deixava completamente de lado a discussão séria (não por isso menos engraçada). Talvez a versão que está atualmente em cartaz seja melhor, mas eu ainda não vi. Levando em consideração que o texto ainda é a mesma adaptação do Miguel Falabella (que nada entende do que é ser mulher, por mais que ele tente) eu não levo muita fé.

Para quem curte livros, existe a versão em português da peça escrita pela americana Eve Ensler (o nome dela é perfeito!), que é interessante, mas também deixa a desejar com relação ao filme, e que no momento só se encontra em sebos, ou em pdf aqui.

Mas o filme feito em 2002 com a Eve é tudo de bom, gente! O único defeito dele é que é difícil de encontrar (ainda tem na Americanas.com e no Shoptime)! Mas isso também se entende, afinal Vagina é um assunto que tanto se tenta esconder que até o iTunes andou censurando quando essa palavra foi escolhida como título de um livro da Naomi Wolf (que também trata desse problema crônico de não se falar sobre os genitais femininos). Mas o YouTube existe e lá temos o filme com legendas em português!!!! (coloquei lá no final do post, veja depois de ler tudo, por favor)

Aí eu pergunto a grande questão: por que temos medo da vagina? Por que detestamos tanto assim o seu nome que precisamos arranjar apelidos, e pior, por que esses apelidos são sempre infantis? Por que achamos que ela é tão feia e suja que precisamos depila-la 100%, colocar perfume, e deixa-la mais "bonita" com cirurgias plásticas? O que tudo isso diz de nós? Tanto mulheres quanto homens também.

O que tem de gente (em sua maioria mulheres) pensando sobre essas questões não está no gibi! E confesso que tudo o que já li, vi e ouvi sobre o assunto me assusta. E me deixa muito triste! Fico à beira da depressão quando vejo que vivemos numa sociedade em que apesar de todos nós só existirmos por causa de uma vagina, as pessoas prefiram ignorar a sua existência, ou tratá-la como algo que precisa ser dominado.

E o que isso tem a ver com dança do ventre? TUDO! Porque a dança do ventre nos desperta para o nosso corpo feminino, para as nossas zonas erógenas e para a nossa sexualidade, quer a gente queira admitir ou não. E ela vive cercada de discussões que tratam justamente sobre isso: a dança é considerada vulgar demais? A roupa da Dina é um absurdo? A bailarina está gorda demais para dançar em público? Ou velha demais? O que fazer quando estamos tratando de uma dança cheia de movimentos pélvicos e de quadril numa sociedade em que a mulher só pode se encaixar em duas categorias: santa ou puta? E, claro, tem toda a problemática da mulher no Oriente Médio, que já tratamos diversas vezes no blog (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Enfim, eu queria dedicar esse dia 8 de março à reflexão: até quando vamos precisar de um dia para nos marcar como uma minoria que precisa lutar para garantir seus direitos e ser ouvida? Até quando os corpos femininos estarão sujeitos à ditadura? (da moda, da beleza, do comportamento dito aceitável a uma mulher "direita", e tantas outras restrições) E até quando vamos aceitar ser tratadas como inferiores?


Esse post é dedicado a todas as mulheres que nos fazem pensar! 


Gostou do assunto? Links sugeridos:
Blogueiras Feministas
Biscate Social Club
Mulher Alternativa
Avec Beauvoir
Cem homens

Sugestões de leitura sobre o dia de hoje:
Dia da Mulher não é nada disso
Dia de Princesa
Sugestões de Livros Feministas da Lola
Dia Internacional da Mulher
No dia da mulher desejo uma sociedade menos idiota



terça-feira, 5 de março de 2013

Livro (e filme) do mês: Persépolis


Esse mês vamos falar de quadrinhos! Para quem tem preconceito segue uma dica: reveja a sua opinião, porque temos muitas Graphic Novels interessantíssimas com a temática árabe ou oriental para descobrir!

E vamos conhecer hoje o trabalho de uma iraniana atualmente radicada na França: Marjane Satrapi! De origem persa e muçulmana, Marjane nos conta nessa auto-biografia como foi viver ainda pequena a revolução do Irã (que também pode ser vista no Oscar desse ano, com o filme "Argo") e todas as mudanças sociais que se seguiram. Mais tarde Marjane vai viver sozinha na Europa, e quando volta ao Irã ela sente todos os contrastes entre o Oriente e o Ocidente, falando de um tema muito caro a todos aqueles que vivem no exterior: a sensação de não pertencer mais a lugar nenhum. De quebra, o livro ainda mostra o lado iraniano da guerra Irã-Iraque.

Ilustrado pela própria autora, Persépolis é de uma delicadeza e de profundidade incríveis, apesar dos desenhos serem simples, o traço da autora é muito expressivo, e a história que ela tem para contar é simplesmente cativante! E nos ajuda a entender muito melhor esse país que é retratado de forma tão deturpada na mídia.

Para melhorar ainda mais, Persépolis virou filme! No caso uma animação que estreou em 2007, levou o Prêmio do Juri no Festival de Cannes e de quebra concorreu ao Oscar naquele ano de animação. E realmente o filme merecia!

Por sorte o YouTube existe, e portanto segue aqui o vídeo disponível com legendas em português:

Vale a pena tanto assistir quanto ler o livro! Não se limite a apenas uma forma :-)

E boa leitura!!!

Quem quiser ver minha outra resenha sobre essa Graphic Novel pode ler aqui.