segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Kisses from Kairo - Metamorfose



Segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha   

Acabou de cair a ficha para mim que eu tenho morado no Cairo por mais de 3 anos. Isso é um bom tempo para quem nunca teve a intenção de viver ou trabalhar aqui. Com toda essa incerteza no ar sobre o futuro do Egito, as pessoas se perguntam por quanto tempo mais eu e outros como eu conseguirão se manter por aqui. Mas ao invés de especular sobre o futuro (de novo), eu decidi refletir sobre o meu passado e compartilhar alguns dos ajustes que eu precisei fazer como bailarina. E foram muitos ajustes, porque a dança do ventre fora do Egito é de uma espécie completamente diferente da dança do ventre no Egito. Houve ajustes na técnica, musicalidade, e até mesmo fisicamente. Houve ajustes na seleção musical e no entendimento das músicas, escolha das roupas e do público. Também houve mudanças nas atitudes, ética e comportamento.

Técnica
Talvez um dos meus maiores desafios iniciais, como uma estudante estrangeira de dança egípcia foi aprender a técnica correta. A técnica egípcia é muito mais sutil, cheia de nuances, e intrincada do que a maioria de nós aprende em casa. Os movimentos são menores e mais precisos, mais controlados e significativos (na minha humilde opinião). Ao estudar dança aqui, a primeira coisa que precisei fazer foi desaprender tudo que eu achava que eu sabia e começar do zero. Por exemplo, nos EUA eu aprendi a fazer tudo em plié. Shimmy em plié. Batidas de quadril em plié. Oitos em plié. Eu nunca havia notado o quanto eu dobrava os meus joelhos até eu vir aqui e os egípcios me apontarem isso. Não só os joelhos flexionados ficam feios, mas eles nos impedem de conseguir o máximo de glamour nos nossos movimentos de quadril. Desde então eu me estiquei e me tornei uma espécie de nazista dos joelhos, como qualquer uma que já fez aula comigo pode confirmar. :)

Eu mal havia trocado a minha técnica desleixada por um vocabulário egípcio, e eu já conheci o meu próximo desafio: diminuir o ritmo. Bailarinas não-egípcias têm a tendência de fazer muita coisa rápido demais. Se nós não colocarmos todos os movimentos que a gente conhece numa só música, se não acertarmos todo tik e tek, dum e tak, nós sentimos que não fizemos jus à música. O que não é necessariamente o caso. E como diz o bom e velho clichê, menos é mais. Diminuir o ritmo é provavelmente O melhor conselho que eu ouvi em todos os meus anos por aqui, e ele veio de ninguém menos que Sara Farouk, um dos segredos mais bem guardados do Cairo. :) Sara é a organizadora do Curso Intensivo Randa Kamel, que é realizado duas vezes por ano no Cairo. Mas mais do isso, ela é uma das melhores professoras de dança do ventre do mundo, e uma boa amiga. Ela é ótima em ver todos os seus defeitos na dança e corrigi-los. Então hoje, toda vez que entro no palco, eu penso na Sara e faço questão de diminuir o ritmo e sentir, não importa o que eu esteja fazendo.

O Show
Esses foram alguns dos ajustes técnicos que eu precisei fazer como uma estudante reaprendendo a dançar no Egito. Mas quando eu finalmente subi num palco, eu tinha milhares de outras coisas para pensar como bailarina. Para começar, os shows aqui são mais longos. Uma apresentação típica de dança do ventre em qualquer hotel, barco ou casamento dura algo entre 45 minutos e uma hora. Eles não são os shows de 15 ou 20 minutos que se faz nos EUA com apenas uma roupa. E cada show é divido em 2 ou 5 sessões, dependendo do tipo de show que é oferecido no local. A bailarina muda de roupa para cada sessão, e dança algum subgênero diferente de música egípcia. Por exemplo, na primeira parte, a bailarina normalmente vai dançar um mejance instrumental, que é como os egípcios chamam a introdução, e 1 ou 2 músicas clássicas. Isso dura em torno de 10 a 20 minutos. Então ela muda de roupa e dança a segunda parte do show por mais 10 ou 20 minutos. Normalmente, a segunda parte inclui algum tipo de folclore e música shaabi. Se for Saidi, Iskanderani (N.T.: o mesmo que Meleya Leff), Núbia ou Khaleege, a bailarina se veste apropriadamente. Para a terceira parte, a bailarina usa outra roupa de dança do ventre e continua com algo como sharqi, baladi, e um solo de derbake. Alguns shows realmente escapam desse formato, mas geralmente esse é o formato padrão de um show de dança do ventre no Egito.

Como os shows são mais longos e completos, eu realmente precisei dar uma retocada em todos os tipos de folclore – eu não podia contar com toda a (con)fusão que aprendi em casa para encher o show, porque coisas como véus wings, leques de seda, espadas e bandejas com velas simplesmente não pegam bem aqui. O público egípcio quer ver você dançar, e não fazer um número de circo. O que foi um alívio para mim, já que eu nunca realmente gostei de trabalhar com elementos supérfluos.

Música
A seleção musical foi outro problema para mim. Já que a comunidade do Oriente Médio em Nova Iorque é muito diversificada, eu podia muito bem dançar música egípcia, libanesa, síria e turca num só show. No Egito, entretanto, o gosto das pessoas para música é, bem, egípcio. :) A não ser que seja George Wassouf (N.T.:cantor sírio conhecido como o Sultão do Tarab) ou Melhem Barakat (N.T.: cantor libanês muito famoso), eu aprendi a não sair muito dos tradicionais clássicos egípcios que todos os egípcios conhecem e amam. Eu também aprendi que eu realmente preciso conhecer as letras das músicas que estou dançando. Não para brincar de mímica enquanto estou no palco, mas para estar emocionalmente envolvida com o que quer que eu esteja dançando.

Aparência Física
Fisicamente eu também passei por algumas mudanças... para melhor, gosto de pensar assim. :) Pelos primeiros dois anos que morei aqui, eu era muito magra-doente. Você podia ver minhas costelas, e eu não tinha bunda. O que é estranho, porque eu sempre fui mais para redondinha. Não é que eu estivesse de dieta ou fazendo exercícios demais. Mas eu estava, entretanto, passando por um grande estresse mental. Entre os ajustes a uma nova cultura e lidando constantemente com tipos egoístas e narcisistas, eu entrei numa onda depressiva que afetou não só o meu peso, mas toda a minha forma de ver a vida. Por sorte, consegui me firmar e fazer as mudanças que eu precisava para resgatar a minha saúde (física e mental), felicidade, sanidade e meus quadris. :) Sem mencionar meu velho e grande bumbum...

... que tem tido dificuldade em entrar nas roupas hoje em dia (graças a Deus eu vivo num raio de 5 quilômetros da Eman Zaki, e posso ter as coisas customizadas!). Acho que qualquer outra mulher estaria enlouquecendo se ela ganhasse os 11 quilos que eu ganhei desde que me mudei para cá. Mas eu não. Tenho orgulho deles. E eles me fazem bem no palco. Eu meio que gosto do jeito como cada movimento brusco que eu faço tem sempre um shimmy não intencional de eco. :P Sem mencionar que os egípcios gostam de um pouco mais de carne. Então tudo funciona. :)

O que me leva para o meu próximo ponto. As bailarinas aqui são encorajadas a escolher as roupas que valorizem e mostrem mais as suas curvas. Isso significa saias apertadinhas de lycra, que mostram cada buraquinho e depósito de celulite nas suas coxas e bumbum. Sexy. :) As roupas mais tradicionais de chiffon, cinturão e bustiê foram pelo mesmo caminho que os dinossauros. Ninguém os usa por aqui. Nunca. Ninguém usa franjas também. Tudo isso veio como um choque para mim quando eu cheguei, porque a maioria de nós usa os tradicionais bedlahs nos EUA. Com exceção da parte das franjas, eu comecei a gostar das roupas mais modernas, mesmo que elas definam os buraquinhos das minhas coxas de vez em quando. Porque, com lycra, as possibilidades são infinitas. Desde lycra com estampa de jornal até spandex cheios de lantejoulas, os tecidos strech expandiram a nossa imaginação ao extremo. E é por isso que fazer compras de tecidos se tornou uma coisa regular na minha rotina semanal. E é por isso que hoje eu tenho mais de 30 pedaços de tecido, todos aguardando para serem transformados em lindas roupas.

Atitude
Além de todas as modificações que eu fiz na técnica, seleção musical, e roupas, o maior ajuste que eu fiz (e ainda estou fazendo!) é um de consciência. Eu não pratico mais dança do ventre. Eu sou uma bailarina de dança do ventre. Quer dizer, dança do ventre não só um hobby que eu faço nos finais de semana e ganho uma grana extra. Agora é o meu trabalho em período integral, e é ele que paga as contas.

Eu também não sou mais uma produção de apenas uma mulher, como costumava ser em Nova Iorque. Em casa, eu iria para os meus shows, de CD na mão, pronta para me sacudir por 15 minutos e sair correndo para fazer a mesma coisa no próximo restaurante. Eu, eu mesma, e eu. Aqui, eu faço parte de uma equipe maior de músicos, gerentes, agentes e bailarinos... você sabe aqueles 2 a 4 caras que fazem aqueles movimentos sem graça tipo YMCA no início de qualquer show de dança do ventre? :P Eles também dividem o palco comigo quando eu danço qualquer tipo de folclore. E como nós interagimos quando dançamos Saidi ou Alexandrian, na verdade eu tenho que marcar ensaios com eles de tempos em tempos. O que é sempre divertido e engraçado. :D

Apesar de, tecnicamente, eu pertencer a uma equipe (i.e. uma banda), aqui o conceito de trabalho em equipe não se aplica exatamente da mesma forma como fora do Egito. Por exemplo, as bailarinas egípcias vêem (e freqüentemente tratam) os músicos como inferiores, não como iguais. São ferramentas. Bailarinas estrangeiras são ensinadas a agir da mesma forma. Interações desnecessárias com a banda são altamente desencorajadas, o que significa que não há camaradagem entre colegas de trabalho – mesmo que a gente se veja todo dia. Tenho certeza que a situação de cada bailarina varia um pouco, e exemplos de bailarinas que quebram “as regras”, mas normalmente essa é a dinâmica entre a banda e a bailarina. Pessoalmente, eu tento manter as coisas menos formais e mais humanas, mas nem sempre isso funciona.

As relações entre as bailarinas aqui é igualmente não amigável. Novamente, há exceções, mas na maior parte das vezes não há “irmandade” entre bailarinas de dança do ventre como temos nos EUA. Isso porque há menos trabalho do que há bailarinas, então elas tendem a ver umas as outras como competidoras, não amigas. Apesar das bailarinas do mundo inteiro estarem competindo por um número limitado de trabalhos, a situação não parece ser tão olho por olho dente por dente como é no Egito. Em Nova Iorque, por exemplo, praticamente todas as bailarinas eram (e ainda são) amigas. Nós sairíamos juntas, trabalharíamos juntas, sairíamos para beber juntas, faríamos aulas juntas, etc. Aqui, as bailarinas geralmente se evitam. Se elas interagem, normalmente é de uma forma negativa, destrutiva, como dedurar uma a outra para a polícia da dança do ventre, ou roubar as roupas umas das outras, por acaso ambas as situações já aconteceram comigo. É muito triste, dado que nós temos tanto em comum, mas eu fui avisada disso quando cheguei ao Egito. Mesmo que eu não tivesse a intenção de me apresentar, meus professores egípcios sempre me diziam para evitar fazer amizade com bailarinas. Eu vejo a sabedoria nisso, mesmo assim há algumas bailarinas que eu respeito e admiro muito, e por isso me mantenho em termos amigáveis. No final, eu não posso pautar toda a minha vida pelas regras.

O fato de eu ser contratada significa que o meu trabalho me impõe algumas responsabilidades. Assim como qualquer outro trabalho “normal”. Por exemplo, não importa o quão doente eu esteja, eu não posso simplesmente não ir trabalhar. Ou mandar uma substituta e esperar que eles gostem dela. E eu tenho que freqüentemente renovar o meu guarda-roupa. Em suma, eu preciso estar no meu auge. Porque no Egito, a bailarina é a razão da noitada. Os egípcios e os turistas vão aos locais de show de dança do ventre especificamente para ver a bailarina. Não é como nos EUA, onde os clientes freqüentam os restaurantes para comer, e oh por acaso tem dança do ventre. Quando você é uma bailarina por-acaso-tem-dança-do-ventre, você pode se dar bem sem dar o seu melhor, porque o seu público está normalmente mais interessado no frango no prato dele. Aqui, todos os olhos estão na bailarina por toda a duração do show dela. Então há muito mais pressão para que ela dê o seu melhor (isso assumindo que ela liga pra isso). No final, entretanto, isso é muito gratificante. Tanto os egípcios como os turistas apreciam demais um bom show. De fato, é muito comum que algumas pessoas do público tratem as boas bailarinas como celebridades, correndo atrás delas antes que elas desapareçam no camarim, implorando para tirar fotos com elas, beijando-as ou contratando-as para o casamento de não sei quem.

Eu nunca vou me esquecer do meu primeiro show aqui no Egito há 2 anos atrás. Foi num resort remoto do Mar Vermelho, a duas horas do Cairo. Antes que eu pudesse terminar de agradecer o público, quase todos estavam no palco comigo – crianças, pais, mães – beijando minhas bochechas suadas e me puxando para tirar foto com eles. Eu nunca tinha visto um público reagir a uma bailarina de dança do ventre desse jeito. Eu fiquei estupefata com tanto amor. Primeiramente, eu achei que era aquele público específico que era tão caloroso, mas quanto mais eu me apresentava, mais eu encontrava reações similares. E já ouvi outras bailarinas populares no Cairo contarem de experiências parecidas. O que significa que os egípcios realmente apreciam um bom show. :)

Quando as pessoas me perguntam o que tem me segurado no Cairo por todo esse tempo, eu respondo: ISSO. Saber que eu fiz as pessoas felizes com a minha arte. Saber que a minha arte é verdadeiramente apreciada pelo público. Porque além de públicos maravilhosos, praticamente tudo que vem junto com ser uma bailarina no Cairo é pura maldade. Sem dúvida, um dos mistérios do universo é como uma artista que pode fazer tanta gente feliz pode ser considerada o equivalente a uma prostituta que vai para o inferno se ela não se arrepender dos seus pecados antes de morrer. É algo de f@der os neurônios, vou te contar... se sentir como uma pecadora e uma celebridade ao mesmo tempo.

Mas uma coisa é certa: eu não sou nem pecadora nem celebridade. Mas eu aprendi a aceitar que outras pessoas me vejam dessa forma. Mas mais importante, eu sou uma bailarina diferente do que eu era em Nova Iorque. E uma bailarina diferente do que eu serei em 2 anos. Porque cada noite no palco é um aprendizado, tanto como uma dádiva.

4 comentários:

  1. Já tinha lido o original, mas tê-lo tb traduzido e disponível para além é muito legal, dá até para pensar mais a fundo a dança também, aqui e lá...

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  2. Adoro este artigo, muito interessante sobre a questão de pensar a dança aqui e lá, como é executada, a percepção que um artista deve ter de sua arte/profissão.

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  3. Adorei esse artigo dela, muito bonito!

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