segunda-feira, 28 de maio de 2012

Kisses from Kairo - A Revelação @ Semiramis


Quarta-feira, 22 de junho, 2011
A Revelação @ Semiramis
Por Luna do Cairo
Traduzido por Lalitha

Sabe aquele clichê super comum "que tudo acontece por uma razão", que as pessoas adoram repetir quando algo de ruim acontece? Bom, ele é verdadeiro. Naquele momento eu provavelmente teria brigado com qualquer um que me dissesse que haveria uma razão por eu ter sido expulsa do Hotel Semiramis. Mas hoje, olhando para trás, eu entendo porque, de um ponto de vista mais amplo, isso foi uma benção disfarçada.

As circunstâncias envolvendo a minha contratação e "des-contratação" no Semiramis foram bem esquisitas. Numa noite comum no Cairo, eu me encontrava sentada na boate do Semiramis com uma amiga bailarina e mais dois gerentes da casa noturna onde a mais famosa bailarina do Egito dança toda semana. É vergonhoso, mas eu demorei uma hora para perceber que o homem sentado do outro lado da mesa e que estava conversando comigo era O gerentão todo-poderoso que contrata novos talentos no Hotel Semiramis. Em minha defesa, ninguém havia me dito quem ele era. Eu apenas tinha sido chamada pela minha amiga bailarina para acompanhá-la numa festa com alguns artistas na boate do Semiramis, e "falando nisso, eu vou fazer um teste lá amanhã".

Ahã, ok. Nós vamos numa festa com artistas e ela estava com um teste marcado no Semiramis no dia seguinte. Tudo bem. Entretanto, conforme a noite avançava e papo ia rolando, eu percebi que o homem sentado na minha frente era, na verdade, O gerente da boate do Semiramis. Quem diria? Era por isso que ele sabia tanta coisa sobre a tal bailarina famosa.

Música pop árabe nas alturas, e lá estávamos comendo, bebendo, dançando e se divertindo. E de repente, o Sr.Gerente começou a me cobrir de elogios, me dizendo que eu tinha tudo para dançar no Cairo - aparência, talento, era jovem, e mais um monte de blábláblá. Ele me disse que poderia me arranjar um teste para a boate e que até pagaria pela banda para isso!

Nesse ponto da conversa, qualquer outra bailarina estaria vibrando de felicidade. Eu, entretanto, já havia sido vítima de muitas falsas promessas, e o meu instinto me dizia que o Sr.Gerente não estava realmente interessado na minha dança. Além disso, a minha amiga (que é uma bailarina fenomenal e uma pessoa de bom coração) estava com o teste dela marcado para o dia seguinte. Não fazia nenhum sentido ele querer contratar uma terceira bailarina para o Semiramis quando eles não tinham demanda para isso. Então, quando ele pediu o número do meu telefone para poder me ligar e marcar o teste, eu respondi educadamente que eu estava ali para acompanhar a minha amiga, e não para apunhalá-la pelas costas.

Apesar do meu desinteresse na sua proposta, eu recebi um telefonema no dia seguinte de manhã, do próprio Sr.Gerente! Ele tinha conseguido o meu número com o Sr.Dorminhoco (mais sobre ele aqui), que deveria estar andando com o meu processo de contratação num cruzeiro no Nilo em Maadi!

O Sr.Gerente me disse que tinha marcado um teste para mim na semana seguinte. Eu perguntei a ele por que ele estava fazendo aquilo tudo, e ele me assegurou que o Semiramis precisava de uma terceira bailarina. Tudo bem então.

Eu apareci na semana seguinte no Semiramis com uma banda de 15 músicos que o Sr.Dorminhoco arranjou para mim no último minuto (10 minutos antes de entrar no palco eu AINDA não tinha um derbakista!!!), eu tinha pagado caro por aquela banda, e o Sr.Dorminhoco tinha me prometido que eu ensaiaria com eles 3 vezes antes do teste. Mas essa era apenas mais uma das suas falsas promessas, eu não tive chance de ensaiar com eles nenhuma vez antes do teste.

E depois dessa confusão toda, eu passei no teste. Mas é claro. A verdade é que eu já tinha passado antes do teste. Muuuuuuuuito antes do teste. Talvez alguns dias, tipo, uma semana antes na boate. Todo esse jogo era apenas "encenação". Basicamente, o Sr.Gerente achou que eu era bonitinha e inocente. Ele queria outras coisas de mim além do trabalho (use a sua imaginação). Mas como ele não podia me dizer isso diretamente, ele passou por todas as etapas de me contratar como bailarina de dança do ventre do Semiramis. Teste, contrato, papelada e tudo o mais.

Foi aí que começou a parte divertida da brincadeira. O Sr.Gerente me ligava diversas vezes durante a semana, me convidando para jantar, tomar um café, o que você imaginar. Quando eu fiquei sem desculpas para não aceitar os seus convites, eu simplesmente parei de atender as suas ligações. Então vieram as mensagens de texto. Quando eu parei de respondê-las também, o Sr.Dorminhoco veio me ver para me informar que o Sr.Gerente estava muito zangado comigo.

"Zangado comigo por quê?" eu perguntei. "Ele está zangado porque você não quer sair com ele", respondeu o Sr.Dorminhoco. "Mas, Sr.Dorminhoco! Você não me fez prometer que eu não aceitaria os convites do Sr.Gerente em nenhuma circunstância? E você não me disse que, tecnicamente, não haveria nenhum motivo para eu conversar com ele porque o senhor era o contato oficial entre a gente?". "Sim," ele respondeu, "mas eu não sabia que o Sr.Gerente iria ficar tão chateado por causa disso".

Fazer o quê? Imagino que qualquer chance que eu tinha de me apresentar de verdade no Semiramis agora tinha se evaporado. Porque veja bem, a reputação do Sr.Gerente o precedia, e eu já tinha escutado falar de casos assim que tinham acontecido com outras bailarinas. Basicamente, o gerente coloca a oportunidade de dançar no Semiramis na frente da bailarina, como uma isca num anzol. Se ela cair na armadilha, ela deve, então, atender a todos os seus desejos. Se ela não cair, ela é basicamente um peixe morto no seu anzol.

E isso era exatamente o que eu tinha me tornado - um peixe morto dependurado no anzol do Sr.Gerente, apodrecendo na miséria de saber que a minha decência tinha me custado a minha chance de dançar!

As coisas só ficaram piores dois meses depois. Era Ramadã, período durante o qual há muito pouco trabalho para a dança do ventre no Cairo por conta do mês sagrado. Eu recebi um telefonema do meu irmão mais novo, de Nova Iorque, que me disse que o seu pai estava no seu leito de morte e que poderia morrer a qualquer momento. Apesar desse homem não ser o meu pai, ele era o meu padrasto, e gastou uns bons 10 anos me criando. Eu fiquei devastada com a notícia, e queria viajar de volta para Nova Iorque imediatamente para ajudar o meu irmão nesse momento difícil e me despedir do meu padrasto.

No momento em que eu estava comprando a minha passagem, lembrei que eu não estava com o meu passaporte. O Sr.Dorminhoco o tinha levado para o prédio do Serviço de Imigração egípcio, onde ele ficaria retido enquanto durasse o meu contrato com o Semiramis! Sem meu passaporte eu não podia comprar a passagem, e, portanto, significava que eu não poderia ir para Nova Iorque antes da morte do meu padrasto. Eu liguei imediatamente para o Sr.Dorminhoco, expliquei a minha situação, e perguntei se havia alguma maneira de reaver o meu passaporte em 24 horas. Ele disse que era possível, mas que precisaria de uma carta do Sr.Gerente autorizando que eu retirasse temporariamente o meu passaporte.

Soava bastante simples, mas significava que 1) eu estava à mercê do Sr.Gerente, que já me odiava por não obedecer aos seus caprichos, e 2) estava à mercê do Sr.Dorminhoco, que, dá pra perceber pelo apelido que lhe dei, era muito preguiçoso e nunca fazia o que era necessário no tempo previsto (isso quando fazia).

Como era de se esperar, o Sr.Dorminhoco não fez nenhum esforço para entrar em contato com o Sr.Gerente, e o Sr.Gerente não respondeu nenhuma das minhas milhares de ligações para o seu celular. Ele não queria ouvir falar de mim por razão alguma. Nesse ponto, sem ninguém para me ajudar ou para ficar do meu lado, eu decidi que minha única alternativa era ligar para a embaixada americana e perguntar se eu podia obter um passaporte temporário ou algum tipo de permissão para viajar numa emergência. O funcionário da embaixada com que falei me pediu para descrever a situação em detalhes. E foi o que eu fiz. Eu disse que tinha sido contratada como bailarina de dança do ventre no Semiramis, o que significava que o meu passaporte estava retido no prédio do Serviço de Imigração egípcio, o que significava que eu precisava de uma carta do Gerente, que não podia ser encontrado em lugar nenhum. O empregado disse que me ligava de volta e desligou o telefone.

A próxima coisa que aconteceu, foi que recebi um telefonema irado do Sr.Dorminhoco, que disse que o Sr.Gerente estava espumando de raiva porque a embaixada americana tinha feito queixa oficial contra ele por manter o meu passaporte "refém"!

Ok, OBVIAMENTE que algo havia se perdido no meio da tradução, ou então o Sr.Gerente estava mentindo sobre a queixa oficial (que aliás, eu nunca cheguei a ver) e estava tirando as coisas da sua proporção para que pegasse mal para mim. Eu nunca acusei o Sr.Gerente de manter o meu passaporte "refém", nem mesmo mencionei o seu nome para o empregado da embaixada!

E depois disso tudo, eu não consegui o meu passaporte de volta, o gerente admitiu ter visto minhas milhares de ligações e se recusado a responder, meu padrasto faleceu no dia seguinte, E o gerente forçou o Sr.Dorminhoco a cancelar o meu contrato com o Semiramis.

Gente, como me dei mal, muito mal! E acabei entrando no jogo dos outros. Entre os custos de processar minha licença de trabalho para o Semiramis, o custo da banda para o teste, e o custo das tarifas aeroviárias (estrangeiros obtendo permissão para trabalhar no Egito são obrigados a sair do país e depois voltar), eu devo ter perdido uns 3 mil dólares. Sem mencionar todo o estresse emocional pelo qual passei por não ter podido estar com a minha família num momento tão delicado. E tudo isso por nada - porque o Sr.Gerente estava esperando por qualquer desculpinha para me expulsar do Semiramis, porque ele não podia aceitar que eu não tinha entrado no jogo dele.

Eu (re)caí numa maré de depressão. Era isso que significava dançar no Cairo? Será que eu tinha mesmo que sacrificar todo o meu auto-respeito para poder ter sucesso por aqui?

Eu liguei para algumas amigas minhas, também bailarinas de dança do ventre, para perguntar sobre a experiência delas com o Semiramis e em outros locais de luxo, só para ouvir histórias de horror parecidas. E comecei a perder as esperanças, e até chorei... o tempo todo fiquei me lembrando que havia bailarinas que conseguiram fazer as suas carreiras de forma decente. Mas será que seria assim comigo? Ou eu simplesmente desistiria?

E então, apenas um mês depois, meu destino mudou completamente. Eu fiz um teste para o Nile Memphis e o gerente imediatamente decidiu entrar com os papéis para contratar bailarinas estrangeiras e me dar um contrato. Sem joguinhos, sem isca, sem virar peixe morto. É verdade que esse barco não tem o mesmo renome ou prestígio que o Hotel Semiramis, mas pelo menos eu poderia me apresentar até cansar sem ter que me submeter aos caprichos de um gerente nojento qualquer!

Entretanto, a coisa mais importante que veio junto com essa minha experiência horrível com o Semiramis, é que ela foi a causa pela qual eu pude ter o meu pedido de licença de trabalho aprovado pelo governo egípcio há um mês. A nova política do Ministério de Relações Exteriores do Egito com relação a trabalhadores estrangeiros é que aqueles que já estavam aqui antes da revolução poderiam ficar, enquanto os novos trabalhadores requisitando permissão após a revolução teriam que cumprir alguns critérios para poderem trabalhar no Egito. Como uma bailarina estrangeira de dança do ventre, eu não conseguiria cumprir nenhum dos critérios, que envolvem principalmente provar que as suas habilidades são necessárias para a prosperidade do Egito. De qualquer forma, o fato de eu ter recebido licença para trabalhar ano passado foi o fator mais importante para convencer o ministro a aprovar o meu pedido.

Na verdade, não poderia ter sido melhor se eu tivesse ficado no Semiramis e estivesse em bons termos com o gerente. Pois, por mais que eu ainda estivesse contratada pelo Hotel agora, quase não tem trabalho lá (antes ou depois da revolução). Eu estaria sentada em casa agora, ao invés de dançando toda noite. Ter sido expulsa do Semiramis foi o que me permitiu ser contratada pelo Nile Memphis, que tem me permitido trabalhar toda noite (antes e depois da revolução)! E agora eu sei qual era a tal razão esotérica para ter sido expulsa do Semiramis. E dito isso, vou terminar esse post com mais uma frase, verdadeira, mas super clichê:  "Quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela." Amem.

Um comentário:

  1. Nossa que história hein? Obrigada por trazer para nós! Bjs.

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